P.s. I Love You
1 Capítulo 1 - Quero minha vida de volta!
Era sexta-feira, estava um tempo nublado, uma manhã sem graça, os passarinhos não voavam, sem conseguia ver as belas flores da árvore Ipê. Minha mãe ainda insistia na idéia de me levar ao colégio, mesmo os alunos da minha sala terem combinado de faltar. Mãe teimosa. Depois de muita insistência eu me levantei da minha cama, fui até o banheiro, lavei meu rosto, na esperança de acabar com meu sono. Tirei meu pijama e coloquei meu jeans rasgado, meu casaco de moletom xadrez e meu All Star vermelho. Coloquei minha mochila nas costas e desci a escada, com vontade de voltar correndo para o meu quarto. Minha mãe me olhava, decepcionada.
- Minha filha, faz apenas 3 meses que nos mudamos, pensei que você ficaria empolgada com a escola nova. Não agüento mais ver você com essa cara de desanimada. Seus amigos são tão legais, poxa.
-Mãe, minha escola é péssima, não consigo me adaptar. E eu não sei que ‘amigos’ você esta se referindo. Desde que nos mudamos não fiz nenhuma amizade. Eu quero voltar para San Diego.
-Meu bem, nossa família é brasileira. Temos que nos adaptar aqui, esse é o nosso lugar.
-Você me tirou do Brasil quando eu tinha apenas 3 anos de idade e não pensou na conseqüências, e agora me trouxe para cá e mais uma vez não pensou nas conseqüências.
-Você tem que se adaptar, pois é aqui que vamos morar.
-Eu não quero ficar aqui mãe. Por que você não me entende?
-Eu te entendo. Agora vai tomar seu leite que você esta atrasada para o colégio.
Fui até a cozinha. Estava pior que antes. Não tenho nada contra os brasileiros, mas a minha vida não é aqui, minha vida é em San Diego, meus amigos estão lá, minhas conquistas estão lá, não tem um porquê para que minha mãe insista nessa ideia maluca de morar em São Paulo.
Terminei de tomar meu leite e fui até o banheiro escovar os meus dentes. Passei meu rímel e meu gloss e fui até o carro, minha mãe já me esperava. Eu coloquei meu fone de ouvido, tudo para evitar qualquer conversa fiada.
Quando chegamos ao colégio. Desci do carro, sem olhar para traz, minha mãe me gritou:
-Garota! Não vai me dar tchau?
-Tchau mãe – Forcei um sorriso.
-Olha em relação aquilo... — Eu a interrompi.
-Mãe, não quero falar sobre isso. Tchau!
-Tudo bem. – Em seguida ela acelerou e quando virei só via aquela nuvem branca.
Entrei no colégio. Estava vazio. Havia apenas algumas pessoas no pátio, conversando. Fui em direção a um banco perto do jardim, sentei-me e abri minha mochila para ler meu livro “Diário de uma Paixão”. Percebi que estava sendo observada. Virei-me e percebi que havia um garoto olhando pra mim.
-Posso ajudar? – Disse.
-E ai gatinha? Sabia que você é muito linda?
-Olha eu estava lendo, prefiro continuar pois a minha leitura está ótima. Pode me dar licença?
-Não estou com seus olhos, pode ler.
-Mas você me incomoda. Quer saber? Dê-me licença. – Já estressada, sai.
Por sorte o sinal bateu e eu pude ir sossegada para minha sala. O professor de matemática veio me acompanhando até minha sala, onde ele teria aula.
-Porque não seguiu o mau exemplo dos seus amigos e não faltou?
-Eu não costumo seguir maus exemplos.
-Boa! É muito bom ser uma pessoa diferenciada em uma sociedade ignorante.
-Concordo plenamente, por isso não me misturo.
-As vezes é bom se misturar. Sabia?
-As vezes não.
-Na maioria das vezes, sim.
-Na maioria das vezes as pessoas não têm nada a me oferecer.
-Entendi. – Ele seguiu até sua mesa e eu fui até minha carteira.
Na sala havia apenas 10 alunos. Estava dando graças a Deus, não sentia nem uma falta daquelas garotas se jogando em cima dos garotos.
Estava tudo perfeito até que alguns garotos vieram até mim.
-Tudo bem Flora? – Disse um deles.
-Tudo ótimo. – Disse seca e irônica. É lógico que eu não estava nem um pouco ótima.
-Está sentindo muito a falta de São Diego?
-Sim, sinto a falta de SAN DIEGO.
-Olha, já sei que você não arrumou ninguém por aqui, e pra te livrar da seca tenho um amigo que ta afim de você, o Flavinho. A gente combina os horári... – Eu o interrompi.
-Não estou interessada em nada, obrigado. Agora podem me dar licença, gostaria de continuar minha leitura. – Disse, já voltando minha atenção ao livro.
"Não sou nada especial... Disso eu tenho certeza. Sou um homem comum, com pensamentos comuns, e levei uma vida comum. Não há monumentos dedicados a mim e meu nome já será esquecido, mas já amei alguém com toda minha alma e coração. E pra mim... isso sempre foi o bastante!"
Estava perdidamente apaixonada por aquele livro. Sabe, tenho um lado romântico dentro de mim, parece que não, eu não aparento ser a inocente romântica que anda em busca de uma nova paixão, mas no fundo no fundo sou como todo mundo. Sou gananciosa. Sou preguiçosa. Sou teimosa. Somos todos assim, mas nunca temos coragem de assumir.
Às cinco horas naquele colégio voaram como vento e graças a Deus é sexta-feira e melhor ainda: ESTOU DE FÉRIAS.
Ficar livre daquelas pessoas por um bom tempo era tudo que eu precisava. O melhor de tudo é que vou passar um mês em San Diego. Vou rever meus amigos, os verdadeiros.
Sai da escola e por sorte minha mãe já estava no carro me esperando.
-Ainda bem que chegou cedo. Não ia agüentar esperar hoje. –Disse entrando no carro.
-Consegui sair mais cedo do escritório.
-O que temos para hoje? – Disse curiosa.
-Vamos almoçar na casa da vovó e depois vamos nos reunir na casa da tia Lili, para organizar os preparativos para festa da Bia, amanhã.
-Nossa. Que legal. – Disse irônica. Odiava festa de criança.
-Eu sei que você não gosta muito de se reunir em família, mas filha, temos que aprender, nossa família é muito unida, vamos viver aqui e essas reuniões sempre vão acontecer.
-Fazer o que né... –Disse saindo do carro, estávamos em frente à casa da vovó.
Eu adorava o jardim da vovó, era o lugar mais calmo da casa, as pessoas da minha família nunca gostaram do contato com a natureza, e eu sou apaixonada por flores, plantas. Bom, meu nome já diz tudo.
-Meu amor. Flora, como está? –Disse vovó vinda em minha direção com uma panela na mão.
-Tudo ótimo. – Disse cumprimentando-a e indo em direção a sala de estar onde estavam todos os meus primos reunidos.
-Oi Flora. – Disseram.
-Ah... Oi gente. –Disse desanimada.
-Flora, venha ver minha nova coleção. — Disse Isadora, minha prima, me puxando pelo braço.
-Ah claro... Eu adoro coleções. – Pra falar a verdade? Eu odeio. Nunca consigo colecionar nada. – UAL! Coleção de alfinetes coloridos? Interessante... –Disse me sentando na cama.
-Sim, meu pai veio da Índia faz uma semana e trouxe vários. –Disse Isadora, super animada.
-Bem legal. – Disse revirando os alfinetes na caixa com os dedos.
A Isadora não era a garota mais legal do mundo, mas como prima ela era muito legal, ela era a única que eu conversava. Ela me entende. Meus tios tentaram interná-la em uma clínica depois que ela tentou dar banho no gato de estimação da família.
-Venham almoçar. –Dizia vovó. Em seguida só ouvi o barulho de pratos e talheres batendo na mesa.
-Vamos? –Perguntou Isadora.
-Sim. –Disse me retirando.
-Flora, pode se servir meu bem. – Disse tia Júlia.
-Ok. – Fui me servindo. Peguei meu prato e me sentei no cantinho da mesa. Eu estava impressionada na quantidade de pessoas sentada naquela mesa. Chuto umas 30.
-Esta conseguindo se adaptar Flora? –Perguntou Carla, a afilhada da vovó. Ela olhava pra mim de uma maneira... Ai como eu odeio essa garota.
-Não muito. –Disse me levantando e colocando meu prato em cima da pia. E fui até o jardim.
“As paixões humanas não passam dos meios que a natureza utiliza para atingir os seus fins.”
Era tudo tão oco dentro de mim. Eu perdi a noção das coisas que iam acontecendo dentro de mim, uma hora a vida era generosa comigo, outra era minha maior inimiga, eu definitivamente fiquei perdida.
-Flora, seu celular! –Disse mamãe trazendo meu celular. –Acho que é seu pai... –Sem seguida ela voltou para dentro da casa.
-Alô? –Disse.
-Flora? –Perguntou.
-Sim.
-É seu pai.
-Oi papai.
-Tudo bem filha?
-Sim.
-Eu sei que não está.
-Esta difícil ficar feliz nessa situação.
-Flora, você tem de tudo, o que falta?
-Eu quero voltar para os meus amigos, para minha vida. Não agüento mais isso aqui pai.
-Minha filha, um pouco de paciência, estou ainda em Londres, mas quando eu me mudar para Los Angeles prometo trazer você para morar comigo.
-Pai, não prometa o que não pode cumprir.
-Eu lhe prometo isso. Eu estou trabalhando muito por aqui, mas a empresa vai expandir-se para os Estados Unidos e ainda estamos negociando, quero muito morar em Los Angeles.
-Ok papai.
-Filha, só liguei para avisar que estou depositando sua pensão e pra dizer que eu te amo muito e quero que seja forte, a vida é assim mesmo.
-Obrigado papai. Eu amo você.
-Tchau. Beijos!
-Beijo.
-Era ele? – Disse mamãe vinda até mim.
-Sim. – Disse.
-O que ele queria? –Perguntou curiosa.
-Ele avisou que estava depositando a pensão.
-Entendi. Ele vai vir para o Brasil?
-Não. Ele esta em Londres. A empresa esta com planos de expandir para Los Angeles.
-Que ótimo. Londres é um lixo.
-Eu não acho... Mãe vamos embora?
-Precisamos ir à casa da tia Lili, eu já te falei.
-Você precisa. Eu não, né mãe?
-Tudo bem. Eu vou te deixar em casa. Venha se despedir então.
Entramos e nos despedimos de todos. Vovó ficou aborrecida. No caminho de casa enfrentamos o maior transito, mas enfim, chegamos. Mamãe me deixou e foi direto para casa da tia Lili.
-Ufa! Enfim, SOZINHA! –Disse.
Subi até meu quarto e abri meu notebook para checar alguns emails.
-EMAIL DE MARGARET! – Gritei de felicidade. Margaret era minha melhor amiga.
“Amiga, estou morrendo de saudades. Quero que venha logo. Esse será o mês mais louco da nossa vida. Tenho várias surpresas. Nada é a mesma coisa sem você. Te amo”
MAGGIE
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