Pródigo
1 Quinze anos.
Por mais que eu tente olhar para a frente, não consigo. O meu peito dói. Eu tenho medo de qualquer que sejam as coisas que podem dar errado na minha vida. Que ridículo. Isso não é uma característica minha. Todos sabem disso. Mas mesmo assim continuo por me mostrar fraca, o meu lado forte não existe mais em situações como essa.
Eu quero olhar para o futuro, mas por que não consigo? Sinto como se mãos me puxassem para trás, dizendo para que eu termine o que comecei. Tento agradar a todos, mas por que não consigo? Isso não é impossível. Aliás... as pessoas não esperam muito de mim. Acho que é por isso que não consigo fazer nada. É por isso que não consigo continuar o que comecei.
Ei, você lembra dos dias felizes? Os dias em que você ia à minha sala e soltava um sorriso segurando-se nas portas do fundo da classe. A minha distração não permitia que eu olhasse para o seu rosto. Mesmo que me observasse de tão perto, eu não queria perceber. Mas depois que percebi, não pareci mais ser a mesma. Não consegui mais ser aquela pessoa distraída pela qual você olhava de longe.
Lembra-se dos dias que saímos para ver fogos de artifício? Tenho certeza de que, se eu tivesse ido sozinha, não teria sido tão lindo. Eu tenho certeza absoluta disso. Para você, era a mesma coisa? Mesmo que não fosse, você estava se sentindo bem, não é? Quando dividimos algodão-doce e rimos quando a rede de "Pesca ao Peixe" rasgou.
Todos os dias eram muito divertidos. Eu quero que você se lembre disso. Quero que se lembre de quando íamos para o colégio e nos encontrávamos no portão, olhando um para o outro um pouquinho assustados, mas, no fundo, com uma felicidade imensa de nos vermos tão cedo. Naquele mesmo dia, deitávamos na grama dividindo fones de ouvido e olhávamos o céu, perguntando-nos por que nos tornamos os felizados com a permissão de estar perto de algo tão maravilhoso como o universo. E quando voltávamos para casa, e você soltava um alegre "Suba!" apontando para a sua bicicleta. E eu me sentava, por mais apertado que fosse o assento só para poder lhe abraçar enquanto sentia o vento bater em meu rosto.
No fim do ano, tivemos um encontro. Eu estava feliz só de poder andar ao seu lado, mas é incrível como consegue me impressionar. Naquele frio, você me pegou de supetão, segurou minha mão gelada e colocou aquele lindo anel brilhante no meu dedo anular. Você me soltou um sorriso tão belo, que tive de devolvê-lo, por mais que achasse que não o merecia. E você encostou a tua testa na minha, dando uma risada que também me contagiou.
P o r f a v o r, d i g a q u e s e l e m b r a d e t u d o i s s o.
Nós não estávamos felizes? Então por que você se afastou? Por que deixou que eu pegasse os cacos do vidro que quebrou? Eu me senti sozinha. Senti como se a linha vermelha que unia nossos destinos estivesse se soltando. Eu entendi. Entendi porque era você quem me olhava de longe antes de nos conhecermos. Eu só precisava sofrer um pouquinho, não é? Se eu sofresse um pouco, você iria olhar para mim? Ia fazer como fazia antigamente?
Voltamos a nos ver. Mas por que sinto como se não estivesse nada bem? Por mais que eu te ame, você ainda chora na minha frente. Por que isso? Eu não sou clara o bastante com relação aos meus sentimentos? Eu me sentia bem de estar ao seu lado! Você não pode simplesmente estar satisfeito também?
Pare de chorar. Eu já entendi, então por favor, não chore mais.
Eu vou continuar colhendo os seus cacos. Vou limpar toda a bagunça. Então por favor, solte o balão de linha vermelha que nos unia. Não seja pródigo. Não finja que nada está acontecendo, por que eu vou te compreender se puder apenas desviar o olhar de meu rosto enquanto chora.
Você tem outra, não é?
"M e d e s c u l p e."
Você não precisa mais explicar nada. Eu já entendi. Não preciso mais pegar os seus cacos de vidro, não é? Eu não vou mais exigir nada de você. Por te amar, vou te entender perfeitamente. Vou te apoiar. E te soltarei um sorriso quando nos encontrarmos na porta da sala. No gramado em que nos deitamos. Na frente das luzes que enfeitam a cidade no Natal. Nos festivais de verão. No portão da escola. Ao seu lado.
Você se lembrou? Se lembrou de que um dia estive ao seu lado? Isso já basta. Obrigada.
M a s a g o r a v a m o s a p e n a s s e r a m i g o s.
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