Provação

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Primeira OsoChoro. Não sou muito fan do casal, mas me senti inspirada a escrever algo com eles, explorar mais o Choromatsu.
Espero que gostem, boa leitura!

A tarde caía e o sol desaparecia por entre os prédios, um vermelho-alaranjado se projetava em duas silhuetas que caminhavam tranquilas pelas ruas pouco movimentadas do bairro. Suas sombras se estendiam no asfalto acinzentado e seus passos eram uniformes. Osomatsu carregava uma sacola de compras e Choromatsu outra sacola. Os dois voltavam para casa com um sentimento suspenso, um silêncio tênue que qualquer um poderia quebrar a qualquer momento. Havia acontecido outro incidente, dessa vez na loja de conveniência há alguns minutos atrás.

Estava na sessão de revistas, olhando as capas de moda e personalidades, sua ídolo aparecia nas primeiras páginas de uma que folheava, Choromatsu devorava a revista e estava pronto a comprá-la, mal sabia ele a expressão que fazia enquanto olhava sua ídolo. E mal sabia ele que um par de olhos na sessão de congelados saboreava a cena com tanto apetite que salivava. Osomatsu chegou por trás, e ao tapar a luz que dava para a revista, chamou a atenção do terceiro filho. Este virou-se abruptamente e deu de cara com o mais velho, literalmente, foram os dois para o chão.

Levantou-se a custo e estava prestes a censurar o outro quando pegou o sutil sorriso em seu rosto, era o mesmo que usava ao aprontar uma. Choromatsu parou de falar, a mão congelada com o dedo indicador levantado, a fotografia de um sermão.

— Você fica uma graça quando quer, Choropunhesky. – E esfregou o dedo embaixo do nariz.

Segundos depois recebia um soco na cara, um bem dado.

— Vê se se coloca em seu lugar. – Acariciou o próprio pulso. – Vamos para casa, já pegamos o necessário e nossa mãe está nos esperando. – Choromatsu foi indo até o caixa, um rubor tomando conta de sua face.

E agora os dois caminhavam lado a lado sem dizer uma palavra um para o outro. Havia sido uma cena cotidiana, Osomatsu sempre o provocara, parecia gostar de pegá-lo por vítima, talvez fossem suas reações exageradas, o que sabia era que só ele arrancava aquela atitude imatura do mais velho, só ele tinha paciência para passar pela mesma provação. Choromatsu continha a respiração durante o percurso, o outro estava bem perto, e eram só os dois. Era como se Osomatsu adivinhasse o que se passava dentro de si e tirasse um sarro disso. Como uma criança que pega o amigo tendo uma paquera e fica a cantarolar: Keiko e Satou embaixo de uma árvore se beijando. Conseguia até ouvir a voz do mais velho nessas horas.

A verdade era que Choromatsu nutria sentimentos por Osomatsu desde muito tempo, desde que eram inseparáveis no ginasial. Houve uma lacuna, quando Karamatsu preenchia seu espaço ao lado do mais velho, e foi a primeira vez em que ficou com os olhos verdes, a primeira vez em que sentiu ciúmes. Não soube lidar tão bem com isto e jogava suas frustrações sendo o mais responsável dois seis, ordens e censuras. Não caía em cima do segundo filho, como era de se esperar em situações semelhantes, ao invés disso discutia com sua paquera, era tão reprovável quanto eles.

Havia outra válvula quando chegava no limite, a que lhe concedeu o carinhoso apelido, ele achava assim, de Choropunhesky. Assim como todo jovem de sua idade, ele tinha fantasias, era uma outra maneira de liberar toda a pressão por que passava. As revistas eram um começo, mas depois as jogava para longe e ficava só com sua mente. Sonhava com Osomatsu chegando numa tarde qualquer, o pegando no ato, e depois dando uma mãozinha. Sentia que seu tato, que seus dedos, eram do outro, subindo e descendo por seu pênis, sentia um calor em suas costas, era Osomatsu o abraçando por trás enquanto lhe dava prazer. E então, vinha na sua mão e suspirava profundo. Resignava-se.

Depois vinham novamente as reprovações e censuras, apontava o dedo na cara de todos, em especial pelo desleixo do mais velho, mas em seu interior era a si mesmo que reprovava. Sabia que era inútil, lembrava da proximidade de Karamatsu com Osomatsu, sempre os via juntos, e ele todo se tornava verde. Mais uma vez passava pela provação. E sabia que sobrava para ele ser o mais maduro naquela casa, ele tinha que aturar o que lhe esmagava o peito, respirava fundo e deixava passar, voltava sua atenção para seus hobbies.

Até Osomatsu mexer consigo novamente. Como uma garota apaixonada. Choromatsu e Osomatsu sentados embaixo de uma árvore se beijan—Tapou o rosto com força, balançou a cabeça e afastou a imagem. Precisava usar o banheiro.

Olhou de relance para Osomatsu, ele ia atipicamente quieto, suspirou vencido.

— Estou pensando na janta que nossa mãe fará. O que acha que vai ser?

Osomatsu continuou olhando para frente.

— Eu? Acho que ela vai preparar frango assado, ontem foi ensopado, hoje vai ser frango. Por mim a gente saía para beber. Podíamos ir só nós dois um dia desses, que tal? Eu saí com o Karamatsu ontem, seria bom variar de vez em quando.

De novo.

— É, o Karamatsu, o que tem assim de tão especial nele?

Osomatsu virou o rosto em sua direção, uma dúvida em seu semblante.

— Ora, somos os mais velhos. Gostamos de falar dos nossos irmãozinhos. Sabia que é de você que eu mais falo para ele?

— Ah, é. – Soou desinteressado, mas seu coração disparava na caixa torácica.

— Sim, ontem mesmo eu disse “sabia, o Choromatsu fica fofo quando fala da Reika”, acho que o assunto era o que gostamos mais dos nossos irmãozinhos. E hoje mesmo. – Foi interrompido.

— Chega! Não quero saber, nunca quis saber.

— Calma, o que te mordeu? — Ele pareceu ofendido.

De súbito largou a sacola no chão. Olhava para baixo e a franja cobria-lhe a fronte. Osomatsu parou junto e olhou para ele.

— Tem algo que eu devia ter te contado. Agora não é o melhor momento, mas... – Mordeu o lábio inferior. Seu rosto chamuscava. Sua voz foi ficando pequena e quase sumiu quando murmurou bem baixinho: eu gosto de você.

— Hein, não consegui te ouvir.

— Eu, e-eu, eu go-go... Eu gosto de você! – Sentia seu corpo todo tremer.

Osomatsu chegou bem perto de si e colocou uma mão em seu ombro, forçando-o a desviar o olhar para ele.

— Eu já sabia. Sempre soube e fico feliz em finalmente escutar de você o que sente. – Seu tom era leve, sério. – Eu sinto o mesmo Choromatsu.

Seu rosto ainda ardia, mais ainda por não prever que seria correspondido. Sentia-se aliviado, grato, se tivesse tido coragem antes poderiam ter aproveitado suas juventudes, mas havia muito o que experimentar até chegar esse momento. Ele passara por tudo.

— Mas essa declaração, hein, só podia ser um virgem mesmo. – Osomatsu desatou a rir.

— Olha quem fala, você também é um virgem!

— Não serei mais esta noite. – E tirou do bolso dois mil ienes. – Depois da janta saímos de fininho e vamos para um motel aqui perto.

Tudo que pode se lembrar foi do sorriso inebriante de Osomatsu, pois sua cabeça tinha enguiçado e uma fumaça deixava o topo e ia se juntar com as nuvens. Ele estava no céu.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!