Protocolo: Mundo Perfeito
2 Capítulo 01 - Sem Futuro.
Notas iniciais
15/03/2013 08:30 da manhã, Ribeirão Preto.
As vibrações da bomba que massacrou São Paulo chegaram aqui, e tenho certeza que não demoraria muito pra radiação chegar também... Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, Léo está desesperado, correndo de um lado pro outro parecendo uma mocinha de 11 anos de idade.
Olho para as janelas arrebentadas pela pressão do impacto, as duas fileiras mais próximas delas e as pessoas que estavam sentadas estão cheias de cacos de vidro muitas gritando de dor, algumas já mortas por não responderem aos estímulos de amigos próximos e foi neste momento que eu vi uma erupção de caos e pânico se formar e acontecer em minha frente.
Logo boa parte dos 90 alunos do cursinho se desesperaram, bem acho que até eu fiquei um pouco, foi ai que lembrei Pedro sentava na segunda fileira, meus amigos foram mais rápidos Nathalia e Léo já o tinham puxado da confusão e o levaram para fora, puxei os outros em meio a confusão de pessoas correndo e batendo uma nas outras para perto da lousa, mas logo já estavam gritando mais alto que os outros.
– Cadê o resto Felipe!? — Letícia não poupou seus pulmões, eu ainda estava em choque sem saber o que fazer direito.
– Mais importante o que foi tudo isso? — Raul perguntou, sua voz apesar de calma continha uma leve alteração.
– Algo grande, algo possivelmente ruim. — Foi tudo que consegui falar antes de João nos trazer ao objetivo principal.
– Eles estão lá fora com o Pedro. — Ele pegou a gente pelos braços e nos arrastou até a porta já arrebentada, não sei como ela ficou assim e nem quero saber honestamente.
O clima nublado e não comum em Ribeirão Preto logo me atingiu no peito, olhei para o céu apenas para ver algumas nuvens negras pairando, e acho que estava um pouco louco, pois posso jurar ter visto uma nuvem em forma de cogumelo ao longo do horizonte, mas os gritos de meus amigos me trouxeram novamente ao assunto principal, que era o fato de Pedro estar ferido, olhei para ele sua camisa preta da vans estava rasgada e manchada de sangue, alguns cacos jaziam no chão, ferimentos leves dois três cortes no peito já parecia sobre controle, porém ao olhar para seu rosto vi o problema, um caco de vidro de uns 3cm estava fincado abaixo de seu olho.
– Eu estou bonitão? — Pedro sorriu ao ver minha cara de espanto, sempre fazia isso não importava a situação nada era sério o bastante para ele.
– Idiota. — Disse Nathalia enquanto jogava água nos cortes do peito.
– Hey Felipe tem uma caixa de primeiros socorros na sala, pega e a gente tenta tirar esse vidro da cara dele. — Disse Léo um pouco ansioso.
– Eu vou com você, tipo vai que alguém tenta pegar ela. — João parecia pronto para uma briga.
– Ok, Vinny vem também.
A sala já estava deserta exceto pelos corpos abandonados e algumas mochilas, não tive a coragem de olhar para ambos, meu medo de ver alguém que conhecia era algo além do compreensível, se eu desmoronasse em frente aos meus amigos me tornaria um peso morto, eu não deixaria isso acontecer. João já com o kit em mãos mexia no laptop esquecido pelo professor.
–Não consigo entrar na internet, quero acessar meu facebook. -João olhou triste para o laptop.
– Mano... Você está me zoando né ? Tá tudo explodindo e você quer acessar o facebook ? Postar o que ? #partiuradiação? — Perguntei.
– O laptop pode ser útil ainda, quem sabe...- Vinny nunca terminou aquela frase, um grito vindo de fora mobilizou nós dois até fora da sala, um dos garotos da sala acertou um soco no Raul falando para derem tudo que tinham e que iria levar as meninas com eles.
– O mundo já era mesmo! — Ele gritava, parecia até desesperado.
Pedro levantou e tentou um soco, porém machucado e fraco o resultado foi um soco revidado na sua cara arrancando o pedaço de vidro e deixando um terrível corte.
João jogou o laptop ainda aberto no chão e atacou o agressor, uma rápida troca de socos entre os dois, mas João tinha muito mais experiência do que seu oponente, então após um soco torto, ele revidou com uma joelhada na altura do peito e deslizou para a esquerda, sem tempo para se recuperar logo o agressor caiu no chão com dois socos de direita na cara que possivelmente quebraram sua mandíbula.
– Que cara louco é esse!? — João parecia surpreso.
– E porque ele gritava fim do mundo? — Vinny que pouco se manifestara resolveu quebrar seu silencio.
– Isso está fora de controle. — Disse Raul se levantando com a ajuda de Nathalia.
– Concordo, temos que chamar a policia! — Léo já parecia mais ansioso que o normal.
– Que tal primeiro ajudarmos o Pedro? — Letícia ajudava ele a se levantar, seu olho esquerdo parecia um banho de sangue.
–Ok, Pedro fica quietinho enquanto eu tento ver o que você fez. — Mantive minha voz calma enquanto jogava um pouco de álcool no ferimento, Pedro torceu o rosto, acho que devia estar bem fundo.
– João, me passa a faixa e o esparadrapo. — Peguei os dois da mão de João e espirrei na faixa o produto.
– Isso vai doer cara. – Falei.
– Eu sei. — Pedro fechou os olhos, na esperança de aliviar a dor.
– Pronto, é o melhor que podemos fazer. — Depois de muito tempo e de tentativas dolorosas, chegamos ao que consideramos o melhor curativo para o olho, tampando ele totalmente com esparadrapos e a faixa.
–Bem, um problema a menos. — Nathalia parecia cansada, bem todos estávamos, mas pessimismo agora não ajudaria.
– O que é aquilo? — Pedro apontou para o laptop que estava com um tela brilhante.
Abri o laptop uma mensagem que mudaria nossos rumos estava em forma de vídeo de 15 minutos que ficaria sendo repetida nas próximas, e ele era bem simples, vou tentar descrevê-lo da melhor forma possível.
Um homem, por volta de seus 40 anos aparece em uma sacada perto de um oceano, o sol já se põe no vídeo, a câmera da um zoom em seu rosto ele tem uma aparência seria e alguns cabelos brancos se destacam no meio dos fios castanhos.
– Eu venho trazer uma mensagem para aqueles que desejam sobreviver, aqueles que não desistiram da vida, e o que ela significa. — A voz dela soava melancólica pelo speaker do laptop. — Neste momento a Coréia do norte atirou todas suas ogivas nucleares em lugares estratégicos impossibilitando qualquer retaliação ou sobrevivência humana, sendo assim no mundo inteiro.
Ele fez uma pausa dramática com um suspiro e continuou.
– Nos próximos seis meses vocês devem ficar em abrigos anti-radiação como porões de supermercados,restaurantes,lojas e prédios no geral que tem torneiras de chumbo e alimento, porém só até o prazo de 6 meses desse dia ,depois disso muitos tentaram restaurar ordem, mas aviso vocês estão por conta própria.
– Boa sorte. — Disse a voz por fim.
A transmissão acabou e um relógio apareceu, falando que haviam se passado uma hora e vinte minutos, quando desse seis meses não teríamos mais nada, na melhor das hipóteses um laptop com pouquíssima bateria, um silencio prolongado foi quebrado por Pedro.
– Bem não temos muitas escolhas, tem um supermercado a duas quadras daqui. — Ele não parecia tão confiante, e menos ainda carismático com o tapa olho.
– Você tá tão gatinho com esse tapa olho cara. — Disse Léo sorrindo.
Dei um sorriso de canto de rosto, e o resto do pessoal segurou o sorriso.
– Vamos, peguem suas mochilas, e tudo que for possível, até mesmo dos corpos que ficaram, como celulares, baterias, canetas, tudo. — Todos me olharam, diferentes emoções em cada olhar, diferentes emoções não manifestadas.
– Bem então vamos lá “líder”. — Pedro riu um pouco.
– Falou o garoto sexy de tapa olho. — Enquanto eu falava isso, todos sorriram, isso era um bom sinal, um sinal de que poderíamos ter momentos alegres, mesmo que eles envolvam saquear corpos.
Entramos na sala, o cheiro de morte já havia se instalado nela, olhamos em volta a procura de qualquer coisa que pudesse ser útil, Letícia e Nathalia pegaram celulares e baterias, Pedro, Vinny e Raul pegaram roupas e mochilas de defuntos já que eram os com “menos remorso” ou “amor pela vida” enquanto eu, Léo e João arrancávamos pedaços das mesas pela madeira e pregos. No final tínhamos um bom suprimento de coisas aleatórias, que poderiam formar antenas, barricadas e até mesmo redes improvisadas, dividimos o peso (meninos mais e meninas menos) e saímos da escola pela primeira vez para um mundo desolado e cruel e o que vimos não foi bonito.
Uma palavra para definir, seria difícil demais, mas se necessário seria horrível, mesmo a escola sendo em uma área afastada da cidade, era visível a destruição de alguns prédios pequenos que ficavam em volta da escola, acidentes de carros, corpos jogados no chão e gritos, a maioria fechou os olhos ou virou o rosto inclusive eu, mas Pedro foi perto de um dos corpos na rua, fechou os olhos depois de olhar o corpo, falou algo muito baixo para ser ouvido, com dois dedos fechou os olhos da pessoa e arrancou o colar, parecia manchado de sangue e um pouco derretido, com alguma jóia verde no meio, olhei para ele e reparei que parecia triste e mais melancólico, como se as ultimas 2 horas o tivessem deixado 20 anos mais velho, sábio e gentil, ele olhou para mim e vestiu o colar em volta do pescoço e falou para seguirmos caminhos, todos olhavam para ele, mas apenas Letícia teve coragem de perguntar.
– Quem era? — A voz dela pesava no ar.
– As vezes a coisas que é melhor não sabermos, não por maldade ou falta de compreensão, mas sim por humanidade e questão de poder continuar sem sentir fraquezas, então ela não é ninguém de importância. — Pedro concluiu com a voz dele que pesou mais que a de Letícia, seguido pelo silencio tenso ele continuou a falar.
– Vamos, aqui não tem nada além de caos e morte, se quisermos seguir nosso objetivo de ir em frente devemos ir logo. — Curto e sem lamentações Pedro jogou a mochila nas costas e seguiu em frente.
– Quando foi que ele virou o homem de gelo? — Léo me afastou para perguntar isso João e Nathalia prestavam atenção na pergunta e esperavam tanto quanto Léo a resposta.
– Cara,eu não tenho a mínima ideia, mas ele esta certo em alguns pontos, se ficarmos aqui parados nos juntaremos aos mortos. — Falei calmamente sem expressar muita emoção, mas eu queria mostrar que estava triste que sentia suas dores, porém um líder não tem esse luxo.
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