Protetores Da Alvorada
2 Capítulo 2 - O PODER DOS CRISTAIS
Slayer fitava os dois jovens à sua frente, acenando a cabeça com as palavras de Shigeru. O estranho indivíduo começou a andar silenciosamente, em direção ao fundo do beco. O odor pútrido do lixo que ficava jogado perifericamente ali era notável, o que fez Arya prender o nariz e fazer uma careta apertada. Shigeru riu, acompanhando o homem0.
- Para onde estamos indo?
- Estou os guiando até o portal.
- Portal? – A garota perguntou.
- Vocês verão.
Não foi demorado, porém a curiosidade dos dois escolhidos fazia-os ficarem cada vez mais com a sensação de que o fim daquele trajeto não chegava. Slayer manteve-se calado, caminhando com passos organizados e com a coluna rente. Seu olhar frio parecia fitar os arredores, procurando por algo. O mesmo parou subitamente, fazendo com que Shigeru e Arya – que os seguiam logo atrás – chocassem contra ele. Podia-se ver, perto das tubulações, um trecho daquela paisagem que parecia deformado, com um vórtex ao fundo deste. Os dois adolescentes pareciam surpresos, mas para o recém-conhecido, aquilo já parecia uma rotina.
- Isso é uma falha temporal, na linguagem humana, ou um portal digital, como é mais conhecido em nosso mundo. Por favor, entrem. Mas eu devo dizer algo antes.
- O quê?
- Se vocês tiverem enjôo, bem...apenas peço que tentem segurar ao máximo.
- Creio que nós não tenhamos esse problema. – Arya sorriu com uma gota.
- Isso me deixa mais aliviado. Podem entrar normalmente, é uma sensação estranha de primeira, mas vocês se acostumam.
Slayer permitiu que os dois entrassem ali primeiro, e logo em seguida adentrou o portal. Ele se fechou, e os três se viam sendo jogados por um grande túnel com a parede coberta de números zero e um, toda feita de código binário. Finalmente, depois de alguns segundos rápidos, a dupla caiu em uma espécie de gramado, de cara no chão. Por outro lado, o ser digital apenas caiu sobre as duas pernas, observando-os. Shigeru esfregou a cabeça, sentindo-se tonto. Arya não sentia-se muito diferente, ela caíra de cara no chão, ficando com a cabeça dolorida. O guardião fitou-os, esboçando um leve sorrisinho. Acenou, para que os seguissem.
- Sejam bem vindos ao Digital World. Vocês terão tempo para conhecê-lo, sigam-me por favor.
Assentiram, levantando-se e o acompanhando. O gramado naquele local era extremamente verde e belo, de vários cantos floresciam pontilhados coloridos, onde viam-se vários pequenos digimons correndo felizes, iluminados pelo brilhante sol. As árvores que ali cresciam eram grandes e emanavam vida. Ao longe, viam uma grande construção, dotada de muros e pequenas construções em seu interior. No meio desta, um imponente monte, com uma espécie de Acrópole. Shigeru apontou para lá, fascinado com a grandeza da construção.
- O que é aquilo, Slayer?
- Ah..aquele é o Templo de Pallasmon, localizado no Santuário.
- Que grandioso! – A garota ficou com os olhos brilhando, voltando o olhar para a paisagem. – Tudo é muito bonito. – Ela pegou uma flor, sentindo seu doce odor.
Slayer mantinha uma expressão enigmática, e os dois ali não poderiam saber o que ele sentia, pois sua face, abaixo da região do nariz, era coberta por parte da capa. Para o guardião, alguma coisa parecia fora do normal, tudo estava calmo demais. Podia sentir uma pequena brisa bater contra sua face, de modo suave, chamando a atenção para a floresta ali ao lado. Continuou a caminhar sob as gramíneas molhadas de orvalho. No entanto, antes que pudesse se preparar – sentindo algo mais por ali – uma grande sombra pulou contra os dois Escolhidos. Slayer virou-se, entrando na frente dos dois novatos, segurando o desconhecido. O impacto os jogou para trás, fazendo com que finalmente pudesse identificar o que era, afinal. Era um Beelzebumon coberto com uma armadura metálica que protegia-o, asas negras e um grande canhão no lugar de um dos braços.
- Saia da minha frente, traidor! — Forçou os braços de Slayer, lutando com ele para ver quem cedia primeiro.
- O que quer com eles, Shadow?!
- Ora.. ora.. tolo. – Beelzebumon parou por um momento, sorrindo sarcasticamente. – Vim a pedido do Rei das Trevas, para matá-los. – Atacou-lhe com um poderoso soco no estômago, lançando-o contra um rochedo ali, o despedaçando em pequenos farelos.
- Quanta arrogância. – Slayer levantou-se, com um filete de sangue escorrendo de sua boca. Seus olhos frios e misteriosos encontraram os olhares aflitos dos dois humanos, e ele retirou de seu bolso, dois cristais, sentindo como se estivesse com um profundo furo em sua barriga. Ambos os minerais tinham uma coloração prateada. – Eu não queria adiantar a cerimônia, mas esse será seu primeiro teste, Escolhidos. Parece que a maldição dele me acertou em cheio.. – Ele lançou as duas pedras na direção deles, sentindo uma fraqueza momentânea.
Shigeru e Arya observavam aquilo, com expressões de espanto. Tudo era muito estranho. A respiração da menina era ofegante, o que fez o menino ficar ao lado da mesma, sentindo sua adrenalina subir cada vez mais. O rapaz de cabelos castanhos foi o primeiro a pegar a sua, enquanto a garota de cabelos róseos pegou a outra.
- Slayer! – O jovem bradou, preocupado.
- Não nos deixe sozinhos.. – Arya tinha uma expressão melancólica e aterrorizada com a tamanha força do inimigo.
- O momento carinhoso de vocês me comove. – Moveu um de seus braços, apontando o canhão que tinha no lugar de uma das mãos, sorrindo sarcasticamente. – Por mais que estejam com os cristais sagrados, jamais vencerão o poder do meu canhão! – Uma grande bola negra formou-se no cano deste, e ela foi lançada contra Slayer. – Morra, seu fracassado! Primeiro irei eliminá-lo pela audácia, e depois, por ser um traidor.
Shigeru podia sentir uma poderosa energia emanando daquele mineral. Seu corpo estava quente, sua mente tranquila, era como se algo estivesse nascendo dentro de si. Seu corpo aos poucos começou a ser coberto por uma armadura de coloração prateada feita de Chromodigizoid, com grandes asas, uma grande lança suas mãos, além de um diadema em sua cabeça. Por outro lado, Arya estava se acalmando aos poucos, com uma sensação boa diante daquela energia. Várias placas de metal do mesmo material de coloração prateada começavam prender-se ao seu corpo, no entanto, a armadura da garota era mais compacta, aerodinâmica, com proteções nos ombros. Uma poderosa espada estava embainhada na parte de trás da armadura.
Por milésimos de segundos, Slayer parecia imóvel. Observava a grande cratera no chão, e Shigeru na sua frente, com o corpo cheio de cortes e queimaduras, protegendo-o do golpe.
- Ei cara... não é sua hora de partir.
- M-Mas... – O guardião permaneceu boquiaberto. – C-Como..
Shadow estava extremamente irritado com a audácia do garoto, e quando resolvera atacar novamente a dupla, foi pego de surpresa pelo poderoso corte da lâmina sagrada de Pallasmon. Ouviu-se um urro de dor proveniente daquele Digimon, sentindo sua pele queimar.
- Então esse é o poder da Espada de Pallasmon. – Pela primeira vez foi possível ver o sorriso de Slayer, enquanto ele cobria sua barriga, de onde saía uma poderosa quantidade de dados.
- Aguente mais, Slayer...vamos vencê-lo. – Tentou dar alguma esperança, mas tinha de ajudar sua parceira naquele momento. Sentia um profundo desgosto ao ver aquela cena, o guardião não podia morrer por culpa deles. Manteve o punho rente, voando em sua direção. – Shadow, você irá pagar por isso! – Seu punho cobriu-se com uma intensa energia azulada, lançando-se contra o inimigo, mantendo a lança ao seu lado, pronto para fincá-la no mesmo.
- O heroísmo de vocês me dá nojo. – Novamente apontou o seu canhão, liberando uma rajada de energia contra Shigeru. Por conseqüência, este foi jogado contra as árvores, tendo um forte impacto contra o solo. – E agora, quem vai ser o herói?
- Você quer dizer, heroína! – Arya esbravejou, por ter sido esquecida. Ela aparecia por trás do Beelzebumon, fincando-lhe a espada sagrada da deusa.
Dessa vez, não ouviu-se grito algum. Ele apenas caíra de quatro no chão, com os olhos esbugalhados. Um imenso fluxo de dados, semelhante a sangue, escorria violentamente do local onde ele estava ferido pela lâmina. Arya retirou o objeto das costas, pronta para desferir o golpe de misericórdia, sentindo uma lágrima escorrer pelo seu rosto, ao ver a situação de seus dois amigos.
- Eu não posso perder para dois pirralhos..eu não posso... EU NÃO POSSO! – Ele bradou, levantando-se com uma estranha força negra, semelhante à que Shigeru despertara segundos antes. Seu corpo cobriu-se dela, e ele sumiu em um vórtex. – Eu voltarei, e da próxima vez, não darei trégua, pirralhos!
Arya passou os olhos pela arena, antes bonita e coberta de pequenas gramíneas. O chão estava coberto de buracos, e terra para todos os lados. Alguns metros ali, avistou Slayer e Shigeru caídos ao chão, lado a lado. Aproximou-se deles, segurando para não chorar. Abaixou-se, vendo-os cobertos de ferimentos. O guardião parecia ter um grande buraco na região do seu estômago, e este cuspia sangue. Shigeru parecia dolorido, mas não chegara ao ponto do ser digital.
- Slayer.. Shigeru... – Levou a mão sobre a testa do mais ferido, abraçando-o. – Vai ficar tudo bem, deve haver algum jeito..
- Arya.. – Slayer interrompeu-a, com uma voz doce e suave. – Eu não morrerei por causa daquilo. Eu só preciso curar meus ferimentos..enquanto há tempo. – Soltou-se dos braços dela, levantando-se ainda dolorido. – Precisamos ir.
- Slayer... – O menino levantou-se, provavelmente sentindo um braço quebrado. Já estava sem sua armadura, que agora estava na forma de um pingente com o mesmo cristal. – Para onde vamos agora?
- Para aquele lugar. – Apontou para a mesma imponente construção de minutos atrás, enquanto Arya parecia estancar o ferimento com algum pedaço de tecido que arrancara de sua capa. – Ei.. isso foi caro..
- Cala a boca. – Ela lançou uma careta, terminando de dar um nó. – Isso deve adiantar, vamos?
- Antes, eu preciso avisá-los de uma coisa.
- Pode falar! – Repetiram ao mesmo tempo.
- Essas são duas das armaduras sagradas dos cavaleiros de Pallasmon. Elas são feitas de um poderoso metal chamado Chromodigizoid, combinado aos dados de nossa deusa. Eu queria guardar essas explicações para outra ocasião, mas por conta do imprevisto, é justo eu dizê-los como forma de agradecimento por me defenderem da morte. – Pausou, respirando. – Shigeru, você é a reencarnação do espírito que representa Sagittariumon, e essa armadura que lhe é de direito, representa o seu poder. Arya, você é a reencarnação do espírito de Virgomon, responsável pela cura e pela oração.. devo dizer, uma grande aliada de Pallasmon nos tempos mitológicos.
- Sagittariumon?
- Isso é impressionante... – Ficou maravilhada com tudo aquilo.
- Sim, eu entendo a alegria de vocês – Sorriu, tentando disfarçar a dor. – Mas, a questão é de que como vocês podem perceber, seus cristais e suas armaduras são prateados, o que não corresponde ao nível de seus trajes, que na verdade, são dourados. Uma maldição lançada por Hadesmon sobre o templo, épocas atrás, enfraqueceu nossa deusa. Como conseqüência, o digicódigo nessas armaduras também as fez perder parte de seu poder, além de suas armas, que foram “mortas”, como o caso do Arco da Justiça, que era por direito de Shigeru.
- E o que devemos fazer? – Ele perguntou.
- Por enquanto, nada. Vamos ao Santuário, repousar primeiro.
Assentiram, começando a andar com dificuldade. Arya levava Slayer apoiada em seus ombros, enquanto o terceiro jovem de cabelos castanhos disfarçadamente, achou um pedaço de vidro quebrado no chão. Pegou-o, analisando por alguns instantes, e guardando consigo. Voltou ao caminho, ajudando a menina a levar o guardião também.
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