Proteja-me do que quero

Heredin andava triste.

Faltava-lhe sorrisos no rosto desde muito sempre. Demonstrava sua infelicidade nos menores dos pequenos detalhes, esperando que alguém notasse sua birra feito um menino pequeno. E não foi difícil para Ismael, seu criado mais próximo, perceber cada uma das bobagens feitas pelo seu amo: ele batia os talheres na louça com força, demorava mais do que o necessário para se levantar, fingia esquecer compromissos importantes e criava das mais súbitas e inofensivas doenças com maior frequência que já o fazia normalmente.

Apesar de querer toda atenção do mundo, não é como se Ismael pudesse apenas perguntar para seu Amo qual era o grande (ou pequeno) problema. Não só o príncipe não costumava lidar bem com perguntas diretas e sinceras sobre si mesmo, como também o próprio Ismael não era muito talentoso com as palavras, em momento algum.

E assim, passaram-se os dias.

Lentos, vale a pena ressaltar, mas no mínimo, pensava o príncipe, eles estavam passando. Mesmo com suas inúmeras tarefas, aulas, reuniões e passatempos, era como se o tempo não estivesse acompanhando suas necessidades. Até, enfim, chegar aquele dia específico.

Entardecia, e como se era de costume, Ismael foi até os aposentos de seu Amo para passar a noite. Ele e Heredin faziam todo tipo de coisa quando estavam juntos. No início, apenas conversavam sobre qualquer assunto, como sobre as tarefas rotineiras de cada um e até mesmo sobre as fofocas que aconteciam dentro e fora do palácio. Com o passar dos anos, além das conversas, acrescentaram também a suas horas juntas muito tempo de estudo, em que o príncipe se dedicava a ensinar a seu criado todas as ciências que aprendia com seus professores particulares. Até que, nos últimos meses, além de todos os hábitos já criados, adicionaram também uma dose relativa de contato físico que não demorou a ser mais do que íntimo.

O sexo passou a ser uma rotina muito mais interessante do que os livros, ou as aulas de línguas. Não demorou muito para ocupar a maior parte do tempo em que se encontravam. Durante a primeira vez, foi tímido. Aos poucos, a necessidade de se encontrarem foi maior do que a dificuldade de manter o segredo e o silêncio. E os privilégios do príncipe tornaram tudo mais prático. Fácil. Nem sequer pensavam demais naquilo que estavam fazendo.

Até, claro, Heredin se perceber imerso em uma incalculável paixão. Não conseguia fazer mais nada que não envolvesse o seu mais leal lacaio. Pensava sobre os lábios escuros de Ismael inchados de tantos beijos durante as aulas, sonhava acordado com as melhores memórias durante seus afazeres e contava os segundos até a noite em cada uma de suas reuniões. Ismael, tornou-se então, a maior vontade do príncipe.

“No que vossa majestade tem pensado, meu Amo?” perguntou Ismael, baixinho.

O príncipe não respondeu de primeira. Pensou, quieto, com a pele de banho recente molhando os lençóis caros de sua imensa cama. A toalha, única, pressionava seus cabelos em um nó firme. “Tenho pensado no dia de amanhã”.

Ismael não soube inicialmente sobre o que aquilo significava. Pensou na agenda da semana de trás para frente um bilhão de vezes, mas nada veio à sua mente. Ainda sem compreender, foi até o cabideiro do aposento, onde alcançou outro tecido grosso para enxugar seu Amo. Levou até a cama a toalha branca, ajoelhou na frente do príncipe e passou a enxugar cuidadosamente os pés branquelos e finos de Heredin.

“Amanhã, Ismael” o príncipe disse, “é o dia de venda”.

Foi só então que Ismael compreendeu. Toda última quinta-feira do mês, havia na praça em frente ao palácio, a venda e troca de escravos de todos os tipos, para todos os tipos de lugares e serviços. Lá, foi comprado pela família real logo ao nascer, por dívida de seus pais com o estado. Desde então, só ouvia falar sobre o dia de compras e vendas nas conversas dos corredores, nas histórias de outros escravos, pela janela, ao ver o movimento lá fora. Nunca tinha visto Heredin comentar sobre aquilo.

A toalha, agora, subia às pernas do príncipe. Já era de suspeitar que isso acontecesse, pensou Ismael. Antes mesmo do sexo se tornar o novo hábito no relacionamento dos dois, o criado já tinha em seu peito uma enorme afeição por seu Amo. Adorava como era mimado e cheio de si fora dos seus aposentos, porém inseguro e gentil quando podia; como decorava tudo de primeira com sua memória fantástica e, ainda assim, esquecia das coisas mais triviais com extrema facilidade. Amava como o príncipe conseguia ter o maior coração do mundo, mas mantinha sua aparência para todo o reino como unicamente justo, nunca piedoso. Heredin tinha aqueles cabelos longos, loiros, tão claros quanto seus olhos azuis que, mesmo sendo tão comum dentro da realeza, parecia completamente diferente nele, apenas por ser ele. Ismael amava Heredin até onde sua memória conseguia chegar. Não lembrava de um só momento de sua vida em que o príncipe não fosse o que mais adorava no mundo.

Por isso, quando as coisas começaram a mudar, mesmo que lentamente, Ismael soube que não conseguiria manter seu segredo por muito tempo. Seria impossível, no meio de beijos e lençóis caros, não transparecer toda aquela paixão, toda aquela ardência que queimava dentro de si. E em como toda parte daquele imenso universo, acreditava, nada era mais impuro do que o amor de um homem por outro. Não daquela maneira. Não daquela intensidade.

E, ao descobrir, Heredin seria obrigado a tomar a decisão mais lógica sobre o assunto, que era vendê-lo de modo a nunca mais ter que lidar com todos esses pecados de uma vez. O sexo, por si só, já era o suficiente para condená-los à prisão. Não para Heredin, claro: seu sangue, puro do jeito que era, não sofria com toda essa sujeira.

Das pernas, Ismael passou a enxugar os cabelos encharcados de seu Amo. Olhou-o nos olhos.

Não havia mais nada o que pudesse fazer, pensou o príncipe. Não tinha como lidar com tudo aquilo que habitava dentro de si e fingir que ficaria tudo bem enquanto eles continuassem escondendo. Nunca pensou que poderia acumular tanto desejo e paixão por só uma pessoa. Cada dia que passava era mais difícil retrair o que sentia, e a cada instante ficava mais e mais árduo esconder. Fingir. Manter todas as aparências que eram esperadas dele. Heredin sabia, claro, que independente do que acontecesse ele era filho do rei, o tão amado rei da península, e ninguém nunca faria nada contra ele. Nunca acreditariam que ele estava envolvido de tal jeito, com tamanho amor.

Ismael, pelo caminhar dos acontecimentos, poderia acabar sem vida a qualquer minuto. Um dia que fizessem muito barulho, ou que se esquecessem de trancar o quarto, ou que trocassem um único olhar carinhoso — um único erro já era o suficiente para que tudo aquilo acabasse da pior maneira possível.

Então, tudo o que poderia fazer, era se afastar.

Teria certeza de vender seu melhor escravo e primeiro amor para o melhor dos compradores, onde pudesse visitar mesmo que sem querer. Um lugar em que Ismael estivesse seguro dos desejos mais complexos do príncipe, de forma a nunca se prejudicar por sentimentos que sequer eram seus.

Sentiu os olhos escuros de Ismael caírem sobre os seus. Pensou em se explicar, mas não conseguiu abrir a boca. A pele escura, os lábios tão próximos dos seus, as mãos fortes bagunçando seus cabelos com a toalha já muito molhada. Queria-o como nunca antes.

Sabia, pelo jeito que o olhava, que Ismael acabaria por tirar as impressões erradas daquela decisão. Como se não o quisesse ter por perto. Como se o príncipe fosse muito bom para todo aquele afeto. Como se o escravo não fosse bom o suficiente. E mesmo com toda a capacidade de desmentir aquelas crenças errôneas, Heredin não conseguiu falar o que era preciso. Talvez, pensou, fosse o melhor se Ismael tivesse sempre muita raiva de si, e não voltasse a procurá-lo jamais.

Os olhos encheram-se de lágrimas antes mesmo que pudesse perceber, porém não ousou chorar. Calmo e decidido, interrompeu as ações de seu criado antes de beijá-lo como se fosse a primeira vez. E como se fosse a primeira vez, sentiu toda aquela explosão em seu peito alastrando pelos seus membros, aquecendo-os.

Ismael aceitou o beijo de braços abertos. Soube, como nunca pensou ser possível, que aquela seria a última vez. E, então, quando o príncipe se afastou minimamente para descer os beijos, Ismael sentiu a gota quente de uma primeira lágrima cair pesada em seu rosto. Quis perguntar para Heredin, procurar entender. Se detestava-o tanto a ponto de vendê-lo, qual era, enfim, o motivo das lágrimas?

Heredin andava triste, e Ismael não sabia o porquê.

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