Proteja-me
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Assim que o intervalo termina e os alunos voltam pra sala, a aula novamente recomeça e parece não demorar tanto quanto normalmente. As aulas são as mesmas coisas, o mesmo falatório, os mesmos sermões, como se isso fosse mudar alguma coisa no nosso cérebro sujo e burro. Falar não adianta nada, é isso que penso.
Quando o sinal da última aula bate, entrego a folha da lição para a professora e rumo em direção a saída do colégio, com passos lentos e fitando tudo sem prestar atenção em nada. As mesmas coisas nos mesmos lugares, nada muda nesse lugar.
Ouço passos acelerados se aproximarem de mim, quando finalmente chega ao meu lado, pude ver os cabelos loiros presos em um elástico e os olhos azuis brilhantes, ele arfa um pouco com seus lábios finos entreabertos e por um instante eu pensei em continuar caminhando com passos mais rápidos, para me distanciar. Mas eu não podia. Era com Kagamine-kun que eu faria o trabalho, justamente na minha casa.
– Eu pensei que não fosse me esperar, Rin-san. — Ele diz, recuperando o seu fôlego e passando andar ao meu lado, segurando a alça da sua bolsa e fitando um ponto qualquer a sua frente, assim como eu fiz.
– Desculpe. — Pedi, ouvindo-o soltar um suspiro.
– Sua casa é muito longe daqui? — Ele pergunta, assim que cruzamos a saída da escola. Nego com a cabeça.
Eu não daria oportunidades para prolongar o assunto, até porque, depois que terminássemos o trabalho e entregássemos ao professor, era cada um pro seu lado.
Quando estávamos prestes a chegar na minha casa, ele pega seu celular e disca um número, colocando-o no ouvido a espera de que a pessoa qualquer o atendesse.
– Alô? Tia Haku? Eu liguei só pra avisar que eu vou chegar mais tarde em casa, ok? Vou fazer um trabalho, prometo não demorar. Tchau — Falou tudo rápido, assim, desligando o celular e guardando-o de volta no bolso. Voltou a olhar para qualquer lugar, começando a assobiar.
Chegamos na minha casa que, como eu havia dito, não era muito longe do colégio. Kagamine parecia embasbacado com o lugar, mas eu, como moradora daquele lugar por anos, digo que não é lá aquelas coisas dignas de revistas de imóveis decorados.
É só uma casa qualquer de dois andares, com sala, três quartos, banheiro cozinha... Como uma casa qualquer. Até parece que esse Kagamine não tem uma casa normal.
Para minha sorte, minha mãe já não estava mais em casa, para não ficar em cima do meu parceiro de trabalho como, tratando-o como se fosse um rei. É constrangedor.
– Você sabe alguma coisa sobre esse negócio das cordas? — Ele pergunta, sentando-se no sofá e cruzando mais uma vez os braços atrás da cabeça, lançando seu olhar despreocupado mais uma vez para mim, enquanto me sentava do seu lado a uma distância segura.
– Teoria das cordas. — Corrijo. — E sim. Eu sei o essencial. — Respondo sua pergunta.
– Que bom. — Ele fala, demonstrando alívio. — Eu não entendo nada dessa coisa.
– Não precisa se preocupar. — Digo, pegando meu caderno e um lápis. — Eu consigo fazer tudo sozinha.
– Não, que isso! — Ele se exalta, erguendo as mãos e negando com a cabeça. Sobressaltei com sua ação tão repentina, tipo, ele quase gritou. — Eu sou burro mas não tanto. E é em dupla, não é justo deixar tudo pra você.
– Eu já estou acostumada. — Insisto. Mas que droga, me deixa fazer esse trabalho sozinha pra você ir embora logo! Era isso que eu queria dizer.
– Ok, mas eu quero ajudar. — Ele insiste mais, pegando o caderno das minhas mãos sem permissão e em seguida, o lápis. Ele fica pensativo, encarando a folha do caderno e batucando o lápis na testa. Idiota. — Por onde eu começo...?
Suspiro e reviro os olhos. É por isso que eu odeio trabalhos em dupla. Ninguém nunca sabe por onde começar e a trouxa, no caso eu, tem que fazer tudo. Eu me acostumei, sim, mas não deixa de ser chato e repetitivo. E eu já devia saber que esse Kagamine, de tão desligado que aparenta ser, não soubesse de nada da matéria.
Eu pego meu caderno e o lápis de volta, vendo ele me acompanhar com olhar e assim, começo a escrever o nosso trabalho. Ele apenas fica me observando, o que me deixa ainda mais incomodada. Eu errei umas três vezes por causa disso. Uma coisa que eu nunca me acostumei é ser observada, notada.
– Wow, você sabe de tudo isso? — Ele pergunta, surpreso. Nada respondo. — E eu aqui mal sabendo como fazer conta de dividir.
Assim que o loiro pára de falar e de me observar escrever, eu consigo fazer duas folhas inteiras em menos de meia hora, enquanto ele fica dedilhando alguma coisa no celular, sem tirar os olhos da tela. Não sei como as pessoas conseguem ficar vidradas em um dispositivo cheio de tecnologia. Pra mim, celular só serve pra escutar música... Nem pra receber ligação. Só minha mãe me liga, raramente, ainda por cima.
– Ei, Rin-san — Ele me chama, volto o meu olhar para ele, que continua a mexer no celular. — Por que você não fala com ninguém?
Ninguém nunca tinha me perguntado isso. E porque ele, justamente um ser que eu mal sabia da existência, estava me perguntando? Eu não entendo, sério.
Suspiro e volto a escrever.
– Não é nada. — Respondi, só pra que ele calasse a boca e não viesse a insistir no assunto. E parece que de certo, ele não disse mais nada desde então.
E assim se passaram mais meia hora. A tal tia do loiro, Haku, ligou pra ele dizendo que o buscaria aqui em casa, ele passou o endereço. Ele disse que poderíamos terminar o trabalho no intervalo de amanhã, concordei, mas é claro que eu terminaria tudo hoje para poder ficar sozinha, como estava acostumada.
– Nós podemos assistir TV? — Ele perguntou, colocando o pé por cima do joelho e suspirando, assim que guardei minhas coisas na bolsa. Dei de ombros. Não faria diferença alguma assistir as coisas bobas de sempre na TV.
– Claro. O controle está aí, do seu lado. É só ligar. — Apontei para o braço do sofá, onde estava o controle. Ele pega e aponta para a TV, ligando-a. — Você quer alguma coisa? Suco?
Ele assente, mal prestando atenção no que eu digo. Com um suspiro, levanto do sofá e sigo até a cozinha, pegando o suco e servindo-o em um copo. Voltei para a sala, com passos lentos e receosos para continuar. Estava sendo gentil com Kagamine, de alguma forma, me incomodava. Tomei impulso e prossegui até o sofá, estendendo o copo para ele, que o pega.
Sentei-me no sofá, pousando as mãos sobre o joelho. Ele olha de relance para mim.
– Você mora sozinha? — Pergunta, enfim, iniciando mais um curto diálogo. Nego com a cabeça. — Com sua mãe, pai, com quem?
– Com a minha mãe. — Respondo baixo.
Ele murmura um "hm" qualquer e assim, mais uma vez, ficamos calados. Então é assim que os garotos conversam? Fala sério. As garotas gostam tanto assim desses caras sem assunto? Não que eu queira ter assunto com um garoto, prefiro manter distância de todos eles.
Por um tempo, passei a prestar atenção no que se passava na TV. A mesma novela, que nunca acaba, com os mesmos personagens, as mesmas intrigas, tudo a mesma coisa, nada de tão inovador. Deve ser por isso que as pessoas se prendem tanto a essas coisas, não tem nada de novo, só o que elas estão acostumadas a ver.
Volto meu olhar para o relógio e os ponteiros marcavam quase oito horas da noite, minha mãe devia chegar em torno das nove, quando ela sai do trabalho e não sei como ela reagiria quando visse um garoto sentado no sofá, assistindo novela ao meu lado. Ela ia pensar besteiras.
– Não está muito tarde? — Comento, vendo o Kagamine direcionar seu olhar á mim. Ela olha para o relógio e suspira.
– Minha tia já está chegando, não se preocupe. — Responde. — Já já estará livre de mim.
Ao dizer isso, ele ri. Mas parece que ele leu minha mente. Além de burro, é telepata? Ainda bem que ele sabe que eu quero que ele vá embora, assim me poupa a gentileza.
Não demorou um minuto e o celular de Len toca, como esperado, era a tia dele. Ele se levanta e espreguiça.
– Ela chegou. Bom... Eu vou indo.
– Eu te acompanho até a porta. — Caramba, eu tirei o dia para ser gentil... Me levanto e prosseguimos até a porta, abro-a e dou passagem para o Kagamine, assim que o fez, caminhou até o modelo prata de classe média, o carro da sua tia.
E falando em tia, a tal sai do carro. Possuía cabelos platinados e lisos, que caíam sobre os ombros e ia até um pouco acima da cintura. Os olhos vermelhos eram gentis, a pele era alva, tão branca quanto a minha, e tinha um corpo, hm, "evoluído". Parecia estar em torno dos vinte e tantos anos. Ao cumprimentar o sobrinho, ela olhou para mim, sorrindo.
Eu senti uma coisa estranha... Muito estranha. Parecia que... Eu já tinha a visto em algum lugar. Os cabelos me eram familiares demais.
– Olá — Ela diz, acenando. Sorrio e aceno de volta, já que com minha timidez, se eu falasse alguma coisa, sairia tudo embolado. Por estranho que pareça, ela estreita os olhos vermelhos, me analisando. — Eu já não... Esquece. Vamos, Len.
– Até amanhã, Rin-san. — Kagamine se despede, lançando uma piscadela sem segundas intenções, claro, e acenando-me. Entra no carro, a esbranquiçada faz o mesmo e assim, dá partida no carro, sumindo na rua.
Respiro fundo. Eu nunca senti isso antes. Mas aquela mulher tinha alguma coisa familiar. Fala sério, que besteira.
Entro em casa novamente e fecho a porta, caminhando em direção a TV e desligando-a, já que ainda passava aquela novelinha famosinha e tudo mais. Levei o copo até a cozinha e larguei-o na pia, voltando para as escadas e subindo até o banheiro. Lá eu ligo chuveiro e tomo um banho de queimar a pele, já que não gosto de água morna ou fria, não importa a estação.
Voltei pro quarto e coloquei uma roupa de dormir qualquer, catando meu material na sala e voltando para o quarto, trancando-me nele. Larguei-me na cama, passando a fitar o teto.
– Cabelos brancos... — Sussurro, lembrando-me da tal tia do Kagamine. Mas... Porque ela me causa essa impressão? Antes que eu pudesse pensar em qualquer outra coisa, alguém bate a porta. Era minha mãe.
– Rin, já cheguei! Eu trouxe brigadeiro, lá na geladeira! — E assim, ouço seus passos descendo as escadas. Brigadeiro... Minha mãe sabe mesmo o que eu gosto! Mas eu não estou com a mínima vontade de descer as escadas de dezesseis degraus de novo.
Eu tentei ocupar minha mente com o trabalho. Mas nada adiantava. Absolutamente nada. Joguei o caderno num canto do quarto e voltei-me a fitar o teto, bufando. Fiquei parada, vegetando, por mais ou menos quinze minutos, só pensando nos cabelos brancos e olhos carmesim daquela mulher. Eu forcei minha mente, vasculhando em algum canto obscuro, saber de onde ela me lembrava. Nada.
Bufei.
Puxei meu caderno de desenho da bolsa e um lápis, me apoiando na cabeceira e começando a desenhar alguns traços. Sem perceber, eu estava desenhando a mim mesma. Eu nunca fiz um auto retrato, nunca me achei tão importante para fazer um desenho. Acrescentei detalhes, fiz o laço, o uniforme do colégio, sabe, quando não se tem criatividade, sai essas coisas mesmo. Fiquei um tempo desenhando, pintando, quando vi, já eram dez horas, pela fresta da porta, não tinha mais nada aceso. Minha mãe costuma dormir cedo. Eu não. Mas não tinha mais nada pra fazer.
Apaguei a luz, depois de me esforçar para alcançar o interruptor sem me levantar.
Virei dum canto, do outro.
Soquei o travesseiro.
Abracei o travesseiro, mas nada adianta.
Até que, por fim, eu consigo pegar no sono. Mas ainda sim, lembrando dos cabelos brancos da dita Haku.
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