Protection
7 Epílogo
Notas iniciais
Shikamaru
Fui despertado no meio da noite por um barulho serenamente problemático. Tive que me levantar e caminhar lentamente para fora do quarto enquanto coçava os olhos. Aquele caminho já havia se tornado comum e eu seguiria por ele com os olhos fechados se fosse preciso. Acendi a luz do corredor e olhei para um porta-retratos sobre um aparador, ele era composto por várias fotografias pequenas em volta de uma grande no centro. Não resisti parar por alguns instantes e observar a maior foto. Ela estava tão linda. Eu nunca a vi tão radiante como estava no dia do nosso casamento. Os seus olhos verdes estavam com um brilho inovador, Temari tinha se transformado em outra pessoa depois de tudo o que aconteceu a ela.
Gaara descobriu tudo quando ela retornou àquele dia para Suna, já que tivemos que explicar tudo o que acontecera. Ele prontamente tomou algumas atitudes, buscando afastar Hideo de Temari e intimando Kankuro a mudar de vida. Hideo não desistiu fácil, continuava assombrando os passos de Temari, mas agora Gaara e eu zelávamos por ela. Os irmãos Sabaku passaram por um longo período de conflito, discutiam com Kankuro com muita frequência e ele sempre arrumava uma maneira de fugir das obrigações e se acabar em uma garrafa de saquê, entretanto, um tempo depois, pareceu se cansar disso e resolveu ouvir os irmãos.
As visitas dela à Konoha se tornaram mais frequentes e a nossa relação se intensificou graças a isso. Dedicou-se incansavelmente aos treinos individuais e coletivos, restaurando sua força interior acima de tudo e fazendo minha admiração por ela crescer cada vez mais. Passamos a realizar mais missões juntos, aumentando consideravelmente nossa sincronia nos campos de batalha e fora deles. Os laços entre as duas vilas se tornavam cada vez mais estreitos, trabalhávamos para os Kages com mais frequência e chegamos a resolver vários assuntos administrativos de eventos juntos.
Quando Temari estava em Suna, acompanhava Gaara na maioria do tempo e raramente estava sozinha – coisa que não a agradou muito, mas teve que suportar. Ao passar dos anos, entretanto, reestruturou sua postura e passou a olhar Hideo nos olhos com mais segurança. Ele jamais deixaria de assombrá-la, pelo menos agora ela sabia que não estava mais sozinha. Ela tirava forças de lugares inexistentes e finalmente estava voltando a ser a Mandona do Deserto que sempre fora.
E as coisas só melhoraram para ela quando Hideo foi designado para uma missão de alto escalão e não conseguiu voltar com vida. Era como se as últimas correntes que a prendessem naquele mar de memórias infelizes tivessem se rompido. Kankuro ficou arrasado por algum tempo, lamentando a perda do companheiro e se enterrando outra vez nos bares. Teve uma recaída tão drástica que demandou mais um período de recuperação, dessa vez aceitando mais facilmente a ajuda e colaborando com Gaara e Temari até se desprender do vício lentamente. Finalmente um final feliz para os irmãos Sabaku.
Shikadai chorou levemente mais uma vez e me tirou dos pensamentos. Era hora de alimentá-lo e, por sorte, as coisas já estavam todas dispostas no balcão da cozinha aguardando apenas serem preparadas. Fiz todos os passos com os quais já tinha me acostumado, estava virando algo automático cuidar de um bebê. A única coisa que me traz desgosto foi ter acatado a ideia que a minha mãe sugeriu: Temari cuidaria do bebê durante o dia e eu levantaria no meio da noite para cuidar dele.
Suspirei enquanto terminava de preparar seu leite, voltei para o quarto e o peguei nos braços, aquele pacotinho estava crescendo rápido demais para o meu gosto. Logo já o veria correndo por aí, aprontando com as outras crianças e poderia ensinar a ele Shogi. Como um bom Nara que é, Shikadai apagou rapidamente, ainda sem acabar de tomar todo o seu leite, mas também não parou de mamar. Estava o aninhando nos meus braços até que terminasse sua cota noturna de leite e assim que terminou o posicionei em pé, apoiando sua cabeça sobre o meu ombro. Ele havia acordado com o movimento e passei mais alguns minutos o chacoalhando até que pegasse no sono outra vez.
Assim foi feito. Shikadai demoraria a acordar novamente, eu poderia voltar a dormir e torcia muito para que ele não acordasse mais nenhuma vez durante a noite. Cocei a cabeça me sentindo um pouco culpado por não querer acordar para cuidar dele, entretanto eu cumpria bem com meu papel de pai durante o dia também – eu não ousaria por nada irritar Temari com isso, ela é assustadora, principalmente agora que se tornou mãe. No começo tudo era muito assustador, a alteração de humor repentina de Temari, os choros de Shikadai, a troca de fralda, a hora do banho e fazê-lo arrotar antes de deixá-lo dormir. Mas agora eu gostava de cuidar dele, por mais que fosse cansativo, e eu já havia aprendido lidar com essa nova versão de Temari, que tinha se tornado muito mais doce ao mesmo tempo em que me provocava arrepios.
Eu estava parado no mesmo lugar e sem perceber observava meus dois problemáticos. Shikadai no seu berço desmontável e ao lado Temari deitada na cama. Eles tinham uma expressão tão serena no rosto e estavam sorrindo, mesmo que dormindo. Não pude evitar de sorrir também. Havia um sentimento muito bom suspenso no ar, talvez fosse paz, talvez fosse amor. Ah, como eu amava aquelas duas criaturas assustadoras.
Me sentindo preenchido retornei lentamente ao meu lado da cama e me deitei com sutileza para evitar acordar Temari, mas essa problemática tem o sono muito leve.
—Obrigada, Shika. – Ela murmurou baixinho enquanto abria um sorriso doce para mim. Tudo que consegui fazer foi beijá-la na testa e a envolver com meus braços. Temari se aconchegou e voltou a dormir.
“Shikamaru... ouça, não existiria nenhum homem se não fossem as mulheres. Os homens não são bons sem mulheres por perto. Até a mulher mais difícil... É amável com o cara que ela ama. Você vai entender quando crescer.”
É, velho. Você tinha razão.

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