Protection
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Temari
Como resposta recebi um olhar curioso e um aceno de cabeça, Shikamaru se sentou ao meu lado e aguardou paciente até que eu suspirasse algumas vezes antes de começar a falar. A esse ponto meu estômago já se revirava de ansiedade e meus ombros doíam por causa da tensão das lembranças. Eu planejava falar as palavras com calma, filtrar as memórias e evitar um furacão que pudesse me invadir, me trazendo de volta toda a agonia de viver aquela situação.
—O Kankuro resolveu me arrumar uma companhia... – Suspirei pesado e fechei os olhos. Eu não tinha ideia de como dizer aquilo.
—De novo. – O Nara completou me encarando seriamente, sabendo que eu não aprovava aquilo.
Não sei se podíamos ser chamados de melhores amigos, mas ele era o shinobi de Konoha com quem eu passava mais tempo e, talvez, por isso, eu já tenha compartilhado algumas coisas pessoais com ele. Como das outras vezes em que Kankuro insistia que eu deveria arrumar um namorado e eu sempre desabafava com Shikamaru, normalmente durante um treinamento e isso resultava em golpes mais violentos da minha parte. Soltei os ombros. Eu posso confiar nele.
—Sim. Hideo. – Engoli o seco. Aquele nome me trouxe um gosto amargo na boca – Eles são amigos há algum tempo, mas eu não o conhecia. Eu deveria ter desconfiado, sabe... – Abaixei os olhos para a barra do vestido e comecei a mexer no tecido. A sensação de culpa era péssima e eu senti vergonha de continuar.
—O que aconteceu? – O tom preocupado que saiu de Shikamaru me motivou a continuar. Ele havia se inclinado em uma tentativa vaga de me olhar nos olhos.
—Eu aceitei conhecê-lo. E no primeiro mês, ele agia como um verdadeiro cavalheiro. Eu nunca tinha me sentido tão bem tratada. – O olhei e ele assentiu atento à minha fala – Me entregava flores todas as vezes que nos víamos. Eu achei que merecia ser feliz. – Balancei os ombros me sentindo estúpida por aquilo e uma pequena e amarga risada me escapou dos lábios – Mas é claro que eu não seria. Depois de um tempo ele começou a me tratar com grosseria, como se eu fosse obrigada a agradá-lo sempre e... – Apertei bem forte os olhos quando as lembranças vieram à tona e minha voz emudeceu. Eu sentia um soluço se formando e eu tive que ser forte para segurá-lo.
—Temari, está tudo bem. Você está segura aqui. – Aquela voz doce me ajudou a segurar o choro. Precisei de alguns minutos filtrando novamente os pensamentos, calculando como colocaria aquilo em palavras e, caramba, como era difícil.
—Eu só disse sim porque estava cansada de Kankuro me dizendo sobre como vou passar o resto da vida sozinha. Que eu estaria abandonada se não arrumasse alguém. Quando voltei da primeira missão depois de conhecer Hideo, foi bem assustador. Eu nunca me senti tão incapacitada! – Era difícil falar sobre aquilo, mas por um momento era como se não estivesse me referindo a mim. Eu estava indignada com àquela Temari estupidamente fraca e intimidável – E tem sido assim sempre. Ele grita coisas horríveis, está sempre bravo por eu estar o evitando e frequentemente... me bate.
Essa foi, sem dúvida alguma, a parte mais horrível de todas. Não havia contado tudo o que ele já havia feito ou tentado fazer, mas era como se eu me sentisse despida na frente de Shikamaru. Eu havia contado a alguém toda a situação, estava me sentindo exposta e vulnerável. Eu não sabia se teria forças para encarar tudo aquilo de novo. Estava começando a ficar exausta daquele cenário e eu não sabia o que fazer para me livrar de Hideo. Abaixei a cabeça, sentia que algumas lágrimas preenchiam meus olhos e, dessa vez, não estava disposta a impedi-las. Eu queria tanto que aquele pesadelo acabasse e, de alguma forma, ter contado a Shikamaru tornou aquele momento mais suportável, eu me sentia segura em ser fraca. E eu nunca aceitei ser fraca.
Sentia aquele calor morno escorrendo pelas minhas bochechas, um aperto enorme no peito me provocava falta de ar e as palavras pareciam presas na minha garganta. Eu queria gritar, queria dizer tudo o que já havia acontecido, cada xingamento que Hideo tinha proferido, mas tudo que eu conseguia era segurar o choro soluçado.
—Há quanto tempo isso vem acontecendo? – O Nara era paciente, mas sua voz demonstrou insatisfação.
—Há uns cinco meses. – Outro soluço estava se formando – Eu já não sei mais ao certo. – As lágrimas se intensificaram quando notei que já não sabia mais quanto tempo Hideo me assombrava com suas atitudes grotescas. O soluço não foi impedido e logo eu estava entregue àquele choro desolado e vergonhoso.
Shikamaru não teve reação nenhuma. Ele continuou sentado ao meu lado, com os olhos fixos em mim, mas agora analisavam meus braços e eu tive certeza que ele enxergava os hematomas. Eu soluçava sem conseguir parar. Estava me esforçando muito, mas quanto mais eu tentava sufocar os soluços, mais altos eles saíam. Levei as mãos ao rosto em uma tentativa de me esconder, meu corpo todo tremia em espasmos que eu nunca vivi antes. Era péssimo não ter controle algum sobre meu próprio corpo. Entretanto, como ele não demonstrou nenhum interesse em me consolar de imediato, deixei-me levar, deixei-me lavar.
Só consegui me acalmar depois de alguns minutos, quando Shikamaru segurou suavemente meu braço e passou levemente as pontas dos dedos por eles, estudando as cicatrizes obtidas durante as batalhas e medindo os hematomas. Ele encontrou alguns no meu pulso, que já estavam na fase final, praticamente dissipados, resultando somente em uma sombra amarelada. Notou os demais em torno do braço e concluiu que eram marcas de uma mão com um aceno de cabeça. Ainda segurando meu braço, me olhou de forma compreensiva e eu acalmava meu choro. Shikamaru soltou meu braço e direcionou a mão ao meu rosto, secando um pouco das lágrimas com o polegar. Fechei os olhos ao sentir a delicadeza do toque dele e não pude evitar de comparar com o toque de Hideo, que era sempre brusco.
—Fico feliz que tenha confiado em mim.
—Eu... – Alguns soluços finais ainda me atrapalhavam – Eu não sei o que fazer... – Passei as mãos no rosto, secando os resquícios das lágrimas.
—Não se preocupe, mulher. Vamos dar um jeito nisso.
—Não quero te envolver nisso, eu só... – Novas lágrimas ousaram se formar e eu as impedia com os dedos freneticamente.
—Temari. – Abri os olhos para atender ao chamado e o vi segurando meu rosto com as duas mãos enquanto soltava um suspiro longo – Não seja problemática. Não vou te deixar sozinha em uma situação dessas. Em situação nenhuma.
Os olhos castanhos me fitavam constantes. O Nara levantou o canto direito na boca em forma de um meio sorriso e assistiu a minha reação. Tenho certeza que meus olhos estavam arregalados, já que realmente me espantei com a disposição que ele demonstrou em me ajudar. Aquela conversa não tinha objetivo nenhum, eu simplesmente descarreguei em alguém que confiava e ainda assim Shikamaru demonstrou preocupação.
—Problemática. – Ele riu levemente e me soltou – Você fez a coisa certa em contar para mim, mulher. Eu vou te proteger.
Expirei lentamente e abri um curto sorriso. Shikamaru ainda me olhava com seu olhar pacato e aquilo me ajudou a manter a calma. Ele se inclinou na minha direção e depositou um beijo demorado na minha testa. Depois se levantou e colocou as mãos no bolso, caminhando até o lado do interruptor.
—É melhor você dormir. – Ele me deu um curto sorriso enquanto apagava a luz e logo retornou ao seu colchão.
—Obrigada. – Soou como um sussurro. Me aninhei em baixo do cobertor e senti o balanço do barco.
—Você está segura aqui, Temari. – O ouvi se remexer – Não vou mais permitir que isso aconteça.
Shikamaru
Quando acordei, Temari ainda dormia profundamente. Era óbvio que estava exausta, não só pela missão, mas por todos esses meses que deve ter passado em estado de alerta e provavelmente era por isso que ela tinha se atrasado aquele dia em Konoha. Não tenho ideia de quantas noites mal dormidas ela viveu e nem como isso a afetou em todos os seus sentidos. Também estou um pouco surpreso porque uma situação dessa derrubaria a qualquer um e Temari mal se permitiu demonstrar. Aquela problemática tem a força de um exército inteiro.
Eu havia saído do quarto e estava apoiado nas grades do bombordo do barco observando a água turbulenta ao redor, relembrando as expressões de Temari e toda a força que ela fez para não desmoronar enquanto me contava sobre aquele cara... Seu olhar vago e opaco demonstrava que estava amedrontada e insegura. Tudo passou a fazer sentido. Os ombros retraídos quando estava perto de uma população desconhecida, os olhos ligeiros à espera de uma surpresa e o olhar distante revivendo cada pesadelo. Como alguém conseguiu colocar Temari numa situação dessas?
Mesmo que nunca tenha sido dito em voz alta e com palavras claras que Kankuro havia desandado na vida, era possível saber. Não é a primeira vez que a ouço dizer sobre as noites de bebedeira dele. Provavelmente, com boas intenções, Kankuro tentava auxiliar seu amigo para chegar até Temari. Mas Hideo não tinha boas intenções. E ele tinha o apoio do irmão. Com as palavras certas é possível alcançar a fragilidade de qualquer um. E a Sabaku não é diferente. Ela estava vulnerável.
Soltei os ombros junto a um suspiro. Como eu poderia ajudar alguém como Temari? Uma pessoa com personalidade tão forte e tão determinada. Orgulhosa e segura de si. E se Hideo foi capaz de colocá-la nessa situação não gosto nem de imaginar o que ele faria comigo. Massageei a têmpora direita com dois dedos. Eu não poderia mais deixá-la sozinha e essa jornada problemática estava apenas começando.
Depois de um tempo colocando em ordem os pensamentos decidi que seria melhor ajudar Temari a enfrentar novamente o mundo com o peito aberto que ela sempre teve. Deveria relembrá-la de quem ela era e que nunca era surpreendida. Eu resgataria Temari e aquilo era, definitivamente, a situação agravante mais problemática que poderia acontecer durante essa missão.
○
Era fim da tarde quando chegamos à Névoa e o Mizukage já não estava mais disponível para nos atender. Teríamos que esperar até a manhã seguinte para dar como concluída a missão. Pelo menos, para nossa sorte, ele sabia que viríamos e então preocupou-se em deixar reservado um quarto no hotel. Um quarto, novamente. De imediato acreditei que Temari questionaria a questão da privacidade, entretanto, logo me recordei de que ela poderia sentir-se insegura. E parece que acertei, de fato, já que um sorriso discreto havia se formado em seus lábios.
Ainda era muito cedo para dormirmos, então sugeri que saíssemos para comer algo. Um tanto receosa ela acatou a ideia e caminhamos lentamente até encontrarmos algum quiosque na região central da vila. Durante a refeição conseguimos conversar bastante sobre a geopolítica dos países, da diversidade cultural e qualquer outro assunto impessoal. Os olhos da Sabaku já transmitiam um brilho leve e seus lábios se curvavam em um sorriso com mais frequência. Aparentemente eu estava tendo sucesso em distraí-la, mas sabia que ainda não era o suficiente. Recordei-me de duas barracas de jogos pelas quais passamos no nosso percurso até aqui, talvez fosse interessante para entreter um pouco.
Os olhos verdes me fitaram curiosos quando indiquei aquele passatempo. A princípio senti um ar frio na barriga, uma tensão me invadiu quando imaginei que ela fosse rejeitar a sugestão e com as mãos trêmulas alcancei uma bola feita com sobras de panos, atirando-a contra estacas de madeira posicionadas na vertical, derrubando cinco das doze estacas. Temari riu sarcástica de mim e com sua postura desafiadora tomou as duas bolas de pano restantes derrubando o restante e conquistando o direito de jogar mais uma partida. Com o intuito de atrapalhar suas jogadas, eu constantemente empurrava seu braço fazendo-a perder a concentração e derrubar apenas quatro estacas em suas três jogadas. Irada por ter perdido um jogo idiota, como a própria Mandona chamou, ela logo virou as costas para mim caminhando em direção ao hotel enquanto mordia o lábio inferior segurando uma risada que escapou tão breve quanto a alcancei. Nossos risos estiveram em sincronia por um momento, até que foram cessados por uma série de reclamações da parte dela. Revirei os olhos e soltei um suspiro antes parar em um quiosque de doce, Temari continuou seu discurso sobre como teria vencido todas as partidas se eu não tivesse a atrapalhado enquanto eu fazia o pedido para viagem. Assim que entreguei a ela um pequeno embrulho suas pupilas se contraíram levemente e direcionou a embalagem para aspirar o aroma. Levantou os olhos em minha direção mais uma vez, um tanto confusa.
—Doce de castanha, seu preferido. – Sorrindo retomei os passos em direção ao destino final.
Sorrindo também ela me alcançou e com o olhar gentil me agradeceu. Eu sabia que ela não agradecia só pelo doce e ficava feliz por ela ter reconhecido como eu estaria disposto a resgatá-la.
Conversamos brevemente até que a sonolência nos arremetesse e na manhã seguinte corremos contra o tempo para encerrar a missão a tempo de pegar o barco de volta a Konoha. Mizukage nos recebeu bem cedo e foi objetivo, leu o pergaminho imediatamente e nos dispensou dizendo que o assunto poderia ser tratado com mais calma. Agradecemos a estadia e nos dirigimos ao porto, tomando o barco e dando início a nossa jornada de volta que duraria aproximadamente mais três dias.
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