Prosápia
2 Ato 2
Notas iniciais
ATO 2
Naruto bisbilhotou o teatro por trás da cortina vermelha. Como ele imaginou, estava cheio. O espetáculo estava longe de começar, mas as pessoas já se encontravam sentadas em suas poltronas, comentando suas expectativas para a peça. Na primeira fileira, Itachi estava sentado ao lado de um casal extremamente refinado, de modo que foi fácil para o Uzumaki concluir que eram seus pais. A mulher estava exuberante em um vestido formal azul-escuro. A cor de seus cabelos lembrava ao Uzumaki dos fios do protagonista daquele espetáculo e o loiro sorriu, achando-a incrível e maravilhosa. Discutindo qualquer coisa que a fazia rir, um homem em um terno sob medida bufava e alisava os próprios cabelos castanhos. Itachi assistia aos pais com afeição.
Desviando os olhos para os pontos estratégicos, o assistente encontrou Orochimaru meditando antes de começar a cuidar de seus equipamentos de sons. Longe dele os irmãos Zetsus rezavam perto do controle das luzes do local, segurando as mãos dos figurinistas Hidan e Kakuzu, que já haviam checado cada centímetro das roupas e acessórios do elenco dez vezes.
— Naruto! — Tsunade rugiu e ele foi na direção da avó. Ela carregava uma taça de vinho e Jiraya massageava seus ombros — Seus tios já finalizaram as maquiagens, agora só nos resta fazer o discurso e aí só deus sabe o que nos espera.
— Vai dar tudo certo, vovó. — Garantiu carinhosamente, abraçando-a com ternura. Jiraya se juntou ao gesto, protegendo-os com seus longos braços.
— Dessa vez nós garantimos que ninguém vai nos sabotar. Os Uchihas estão conosco, minha velha. — O homem a confortou, acariciando os fios dourados de sua mulher — Não estamos sozinhos, amor.
— Ok, isso está nojento. — Naruto proferiu e os três riram.
— Vocês estão certos, nós trabalhamos duro nisso. — Ela concordou ao roubar um beijo do marido. O neto fingiu que vomitava e a Diretora Técnica revirou os olhos — Agora é com nossas estrelas, né? Nós os guiamos até aqui. Eles que se virem agora.
— Isso! — Jiraya gargalhou quando eles se dirigiram ao camarim — Se essas pestes fizerem feio, é bom se prepararem para pagar minhas idas ao pub até o fim da minha vida.
Ao chegaram no destino, o Uzumaki percebeu a confusão típica que se instalava ali. Konan elogiava a pele bem cuidada de Sakura, enquanto Pain — seu marido — berrava com Kiba. Sasuke tinha o corpo imóvel na frente do espelho, preso em um transe de concentração. Kimimaro relia seu roteiro, devorando as páginas com pressa, enquanto o elenco entrava e saía, fazendo exercícios vocais e checando sua aparência diversas vezes nos espelhos iluminados por uma luz branca.
Deidara, Sasori e Sai estavam sentados no canto da sala, analisando uma maquete e repassando o plano do cenário pela última vez. Eles estavam calmos e confiantes e Naruto pegou-se admirando os amigos, em toda sua concentração e profissionalismo. Eles tinham suas diferenças, mas eram os melhores cenógrafos daquele país, com certeza.
— Sakura, cuidado! — O assistente exclamou e a menina o fitou assustada — Nós temos um samurai burguês aqui! — Seus olhos anis indicaram o mais novo dos Uchihas e a menina respirou fundo, se recuperando do susto.
— Sou um guerreiro honrado. — Sasuke resmungou, apontando para a armadura bem-feita que usaria no segundo ato — Sei que está com inveja, dobe.
— Eu não, tô fora de virar um demônio que só mata, teme — Provocou ao mostrar a língua. Sasuke revirou os olhos e lhe presentou com o dedo do meio erguido — Mas até que dá para o gasto. — Sussurrou baixinho e o Uchiha exibiu um sorriso confiante quando Naruto piscou.
Tsunade chamou por sua equipe e fez um discurso motivacional, que trouxe lágrimas aos olhos do elenco. Ela narrou pelas dificuldades que o grupo havia sofrido no decorrer do meses, no quão difícil havia sido preparar as cenas de Kakashi, que estava pouco se fodendo para as complicações que seus rascunhos traziam — o homem riu e brindou-a com uma taça do mesmo vinho —, mas que mesmo assim, durante os meses e com as mudanças das estações, assim como muita ajuda extra — ela fitou Sasuke e ele a presentou com um sorriso amigável —, mesmo com o inferno em seus ombros, todos eles tinham chegado ali. E ela não esperava um trabalho perfeito — garantiu e todos riram da mentira —, mas sim que seus amigos se divertissem e fizessem o possível para entreter e emocionar aqueles que estavam além das cortinas vermelhas.
Os olhos de Sakura e Naruto começavam a se encher de lágrimas quando Konan berrou que era o bastante, ou a própria diretora teria que refazer suas maquiagens. O elenco riu, gargalhando com gosto da fúria da maquiadora e Tsunade desculpou-se, gritando que confiava neles e os amava. O Uzumaki soube que a avó provavelmente estava levemente bêbada, mas não a julgou. Era um dia especial, no fim das contas.
— Ei, horrorosos. — A Haruno murmurou segurando as mãos deles — Hoje vamos fazer história.
— Com a feiura do Sasuke, vamos ser confundidos com um circo dos horrores. — Ele brincou e o cotovelo do Uchiha encontrou sua cintura. Naruto arquejou e os amigos reviraram os olhos com seu drama.
— É sério, se eu for muito bem hoje, posso me jogar para cima do Itachi. Ele com certeza vai querer provar dos lábios da Princesa Mizuki, a Preciosa.
Naruto a fitou com nojo.
— Quem é maluco para se envolver com Uchihas?
— Não é, dobe? — Sasuke grunhiu com os lábios formando um biquinho infantil.
— Acho bom ser a madrinha desse casamento ou vocês estão mortos. — Ela declarou seriamente e os dois se fitaram com diversão.
✼✼✼
No momento em que as luzes se apagaram, a cortina vermelha deslizou pelo chão, revelando uma Sakura na beirada do palco, fitando o público com uma expressão neutra. Seu grito ecoou para a plateia no mesmo instante que a vibração dos tambores taikos cortaram o ar. O vento soprou nos cabelos negros da princesa Mizuki, movendo seu kimono prateado e ela deu as costas para o público quando cascos de cavalos denunciaram alguém se aproximando. Uma fumaça cinzenta tomou conta do palco e a voz da princesa foi ouvida novamente em um arquejo de horror. A sombra de um homem caminhando projetou-se no chão e, dela, Kimimaro — caracterizado como Kazuma — surgiu apontando uma afiada katana para a princesa. Ela tentou fugir, escondendo-se nas sombras e eles dançaram com os tambores ao fundo por vários minutos. O ritmo dos tambores cantava em seus ouvidos aumentando consideravelmente, martelando a cabeça dos espectadores, expondo todo o desesperado da princesa que lutava por sua vida e implorava por qualquer tipo de ajuda.
Então o breu consumiu o teatro no momento em que os instrumentos foram silenciados.
Um circulo de luz jorrou no meio do palco após segundos que pareciam intermináveis, expondo para a plateia um homem largado ao chão, carregando a estonteante princesa em seus braços. O quimono delicado agora tinha um tom pálido e era maculado por cortes e o sangue vermelho da mulher. O homem urrou, deixando que o timbre de seu sofrimento afetasse a plateia e abraçou o corpo feminino. A voz de Sasuke surgiu nas caixas de sons quando o tom enfurecido de Minoru transformou sua expressão em um ódio animalesco:
— Irei destruir todos eles, Mizuki.
Ele depositou o corpo inerte da princesa embaixo de uma árvore e sussurrou:
— É uma promessa.
“O ato 1 começou”, Naruto pensou ao vibrar internamente.
Ele se impressionou mais uma vez com a performance de Sasuke e toda a segurança que sua voz passava, transportando-se para o dia em que havia rabiscado sobre a possível insegurança de um rapaz que passava tanta certeza em suas palavras no momento de atuação. No palco ele era a representação de tudo o que atores buscavam durante anos, mas após os seis meses em que se conheciam, o Uzumaki acabou por descobrir que a firmeza em seus gestos e falas eram apenas ilusões para atender às expectativas daqueles que os cercavam.
No início se perguntava silenciosamente os motivos das inseguranças de alguém moldado para ser perfeito. A inteligência de Sasuke era a maior de suas qualidades e seu senso de humor sombrio e ácido sempre divertiam o assistente. A própria beleza não ficava para trás e mesmo que a maquiagem cobrisse suas imperfeições naquele momento — esculpindo um rosto que se tornaria inesquecível e aumentando a autoestima do ator —, Naruto não hesitava em afirmar que o admirava sem quaisquer indícios dos produtos caros de Konan.
Mesmo atrás das camadas de pó, base, iluminador e corretivo, aquele desgraçado chamava a atenção quando caminhava pelo palco entonando os monólogos de seu personagem. Ele sempre era cobiçado quando atravessava as portas dos bastidores e procurava por Kakuzu e Hidan para debater os detalhes de suas roupas. As pessoas paravam para observá-lo, fascinadas por sua beleza genuína.
Não importava se as mãos hábeis de Konan haviam transformado seu rosto num sinônimo de perfeição, escondendo a falha em sua sobrancelha ou dando valor ao nariz fino que ele tanto odiava. Ainda assim, Uzumaki Naruto o enxergava como o teme irritante. Ali, no meio do palco que era consumido pela névoa, ele via os cabelos negros cintilarem na iluminação que voltava a sumir. Os olhos negros reluziram comovidos pela cena, expondo a sua alma e dedicação de ator e o coração de Naruto martelou com os tambores que voltavam a soar.
— É agora! — Jiraya comentou, depositando uma mão em seu ombro e apertando.
O neto fitou o palco e assistiu o desenrolar da cena da audição daquele desgraçado. Ele estava exuberante, berrando o seu ódio para Kimimaro. A espada brilhava, dando contraste a fúria que Minoru sentia e o Uzumaki lembrou-se das vezes que eles encenaram aquela passagem e como Sasuke franzia as sobrancelhas, revoltado com as críticas construtivas do neto de Tsunade. Eles passavam a noite assistindo filmes de samurais e anotando observações, como a melhor pose para segurar a espada depois de desembainhá-la ou o jeito certo de desviar de um golpe. Eles dançavam com vassouras, riam até que os vizinhos reclamassem e se pirraçavam, cutucando-se com o objeto de limpeza.
No palco, o Uchiha jazia no chão, ensopado de sangue.
— Se fosse mais sincero comigo mesmo e menos orgulhoso... Nós estaríamos vendo as cerejeiras juntos. — Sussurrou sem fôlego.
Naruto recordava da audição de Sasuke e em como ele atuava bem. Realmente, os anos vivendo secretamente no clube de teatro da melhor escola do país haviam lhe dado uma base sólida. No entanto, havia mais além do talento e dedicação do rapaz. Ele se enxergava como Minoru. O caçula dos Uchihas compartilhava os pensamentos do solitário personagem que — por seu orgulho — sufocava-se em seus próprios sentimentos e vontades. O talentoso ator encobria seus desejos com o medo de desonrar sua família e todo o respeito que eles haviam lutado para conquistar. Em seu desespero, vivia uma luta interna contra si e se achava insuficiente.
Estava errado, é claro.
Nas noites em que ficavam acordados rindo de memes e bobagens da internet, o Uzumaki sempre parava para encará-lo em silêncio e — acariciando o rosto alvo — tinha a certeza de que o desgraçado estava errado. Não compreendia como, mas no decorrer daqueles meses, em algum momento, Uchiha Sasuke começou a representar o mundo para ele e doía a Naruto saber que ele não se achava digno de seus sentimentos. O sofrimento o convencia de que o seu verdadeiro eu não seria suficiente para sua família e amigos.
Mas olhando para a plateia — onde Mikoto secava as lágrimas com um paninho e Fugaku a abraçava, hipnotizado pela atuação do filho — o loiro soube que seus pais o amavam incondicionalmente. Eles não se importariam com detalhes bobos quando Sasuke representava tanta coisa boba em suas vidas. O próprio irmão trazia em seus olhos inteligentes o orgulho de ter apoiado o mais novo a conseguir aquele papel, como admitira em certa noite que haviam virado três litros de cerveja sozinhos. Itachi contara que o caçula não acreditava em seu talento e temia a vergonha de ser rejeitado, mas que — por sorte — havia conseguido convencê-lo a enfrentar a audição.
— Se sobreviver, peço aos deuses que me permitam percorrer o Caminho da Guerra, destruindo tudo e todos que foram responsáveis por te tirar de mim. — A voz sôfrega foi pronunciada quando ele tossiu sangue — Não importa se for nessa vida ou em outra. — Disse caído no meio do palco.
O silêncio prevaleceu quando as luzes se apagaram mais uma vez.
E então, a voz de Sasuke soou baixinha e firme:
— Eu te vingarei, Mizuki.
As cortinas se fecharam, indicando o fim do Primeiro Ato e a luz devorou a escuridão. Atrás do pano o Uchiha pulou, pronto para começar a se preparar para a segunda parte da peça. Entretanto um corpo o impediu quando certo rapaz o abraçou com força, fascinado por seu talento, por ele ter incorporado o personagem tão bem, trazendo o orgulho para toda a companhia.
— Puta que pariu, teme! — Rugiu extasiado — Você brilhou!
— Eles são boiolinhas eles. — Sakura resmungou trajando agora um Yukata dourado. A peruca estava presa com um delicado grampo e suas aparições agora seriam apenas memórias de Minoru, em seus delírios quando matasse inimigos. Ela grunhiu a tristeza do personagem enquanto caminhavam para o camarim e afirmou que não conseguiria levar uma vida com aquele peso.
— Kakashi é louco. — Naruto brincou, ajudando o companheiro a vestir sua armadura.
Sasuke se manteve quieto, concentrado em seu papel e isso somente despertou no Uzumaki a mais pura das afeições pelo desgraçado. Ele começou a repetir suas próximas falas quando Konan encarregou-se de retocar sua maquiagem e o loiro ocupou-se em arrumar as mechas rebeldes.
Um arrepio cruzou seu corpo quando os dedos do assistente tocaram sua nuca e eles precisaram de muito esforço para não se perder em risos naquele camarim estressante. Tsunade dava ordens para qualquer alma que cruzasse seu caminho, riscando itens de sua lista furiosamente e Jiraya tentava acalmar um rapaz ansioso.
Dentro desse caos, Naruto recordou-se de como o Uchiha bagunçava a franja quando estava bravo com ele, nos finais de tarde que ficavam sozinhos no palco vazio e o Uzumaki ajudava o rapaz a chegar no tom certo de sua voz, deixando explícito seu tédio quando Sasuke errava a fala pela quinta vez do treino, imitando-o propositalmente com uma voz infantil. Na ocasião, as caixinhas de pocky sempre acertavam seu corpo, seguidas dos protestos do ator prodígio.
Nesse ponto, os dedos cor de alabastro bagunçariam os fios negros em revolta e nervosismo e Naruto assistia hipnotizado. Ele jogaria a cabeça para trás e o cabelo cor-de-carvão iria se movimentar graciosamente, enquanto o rapaz resmungaria sobre o quão inacreditável o amigo era. No minuto seguinte, os lábios do Uzumaki capturariam os seus e a briga anterior seria esquecida.
— Estão prontos? É agora que vamos fazer todo mundo chorar! — Jiraya exclamou quando o relógio anunciou o começo do segundo ato. Os atores bradaram juntos e partiram para o palco, prontos para finalizar a história.
Deixando o amigo na posição inicial, Naruto o abraçou e desejou boa sorte.
Ele percebeu que Sasuke estava nervoso, pois não o respondeu com alguma piada sarcástica ou prepotente, apenas acenou e sorriu para chão. Ali, percebendo que ninguém os fitava, o Uzumaki aproveitou o momento e roubou um beijo. Foi um pequeno selar de lábios, mas ele viu o quanto aquilo mexeu com o ator que finalmente o encarou nos olhos.
Então a mágica aconteceu.
Ao contrário dos sorrisos esculpidos e milimetricamente calculados que sempre estavam bordados em seu rosto para conquistar a plateia ou as pessoas que estavam ao seu redor, o sorriso dedicado a Naruto apareceu. Assim como na primeira vez que o presenciou, o Uzumaki refletiu que aquele corvo desgraçado não sabia o verdadeiro poder de sua beleza, desconhecendo seus encantos por completo.
Aquele maldito sorriso começou pequeno, mas logo preencheu e iluminou o rosto do jovem ator, desaparecendo com todas as inseguranças e coisas as quais o Uchiha fora ensinado. Ali, o mais bonito e genuínos dos sorrisos cintilou, suavizando a expressão recheada de prepotência e cinismo. Naquele momento, Sasuke não era mais Minoru, não era mais um ator ou um Uchiha que a sociedade cobrava coisas absurdas. Ele era apenas Uchiha Sasuke, um cara normal que estava feliz com o apoio de alguém que se importava com ele.
Com o coração palpitando e uma sensação de plenitude, Naruto voltou para seu lugar.
As cortinas foram puxadas novamente e Sasuke respirou fundo.
O segundo ato começava sanguinário. O sol era representado pelo vermelho ofuscante na vila em que Minoru caminhava. Homens aproximavam-se com espadas, berrando que ele era um demônio e traria a desgraça se fosse deixado vivo, mas o samurai os cortava, sem pronunciar uma única palavra. O sangue manchava o chão, sujando a terra em que pisavam. Seus olhos eram sérios, carregados por bolsas negras que simbolizavam a morte de sua alma.
As luzes piscavam, mostrando a princesa Mizuki no fundo do cenário. A cada vez que o negro tomava conta do palco e era devorado pela luz, Sakura estava mais próxima do homem. Sua voz era amável, indicando que ele se perdia nas memórias de um passado feliz. A princesa exclamava alegre, expondo para o público um broche de cabelo refinado e feminino, presente do samurai para a dama. A sua voz doce garantia que Minoru não precisava se preocupar com ela, pois a jovem tinha a certeza de que ele a protegeria de todo o mal.
Eles caminhavam lado a lado agora e o samurai fitava o chão, de punhos cerrados. A memória ignorava os corpos mortos em seus pés, ocupando-se em afirmar que seu amado Minoru não precisava ser tão discreto com ela. A princesa gostava de seu sorriso e desprezava as leis dos homens que os impediam de expor seus sentimentos. Ela brigava com ele, implorando para que fosse apenas seu Minoru, não um samurai ou lorde qualquer. Ela só o queria. Nada mais.
— É uma promessa Minoru: no desabrochar das Cerejeiras iremos declarar nossos sentimentos sem que as regras da sociedade nos guiem, está bem? Seremos apenas nós. E meu amado senhor irá se despir de seu orgulho, me mostrando o seu melhor sorriso.
O samurai parou de andar e as luzes apagaram-se novamente. A risada doce de Sakura preencheu o teatro e ela havia desaparecido quando a claridade retornou. Havia apenas o homem com as mãos manchadas de sangue e sua espada suja por um magenta caótico.
A história seguiu narrando a mudança do homem de coração partindo transformando-se em um demônio sanguinário. Personagens surgiram, tentando ajudar o protagonista, mas ele os recusava, matando-os friamente. A vingança passou a reger o caminho daquele que seguia o caminho da Guerra e ele continuou em sua vida, perdendo-se dentro de si e debulhando-se em seus próprios fracassos, perguntando-se se um dia poderia voltar a ser um mero um humano.
Por uma hora, Naruto assistiu maravilhado a atuação de Sasuke. Pela primeira vez na vida, os cenários bem produzidos do trio cenográfico tornaram-se apenas um complemento para a imersão da história, pois o Uchiha fisgava a atenção de qualquer um. Ele encenou a história do pobre e solitário samurai, sozinho em suas noites assistindo fogueiras extinguirem-se e desejando que a amada voltasse. Sakura continuava a assombrar seus sonhos e a garota também não decepcionava, valorizando toda a pureza de Mikuzi, a qual contrastava com o ódio do amado.
Em determinado momento, o braço do solitário homem foi quebrado pelos capangas de Kazuma e os olhos de Sasuke encontraram os de Naruto nos bastidores. O loiro assentiu, mostrando que ele estava fazendo um bom trabalho em encenar a dor de ter um membro tão danificado e recordando de como Sasuke havia sido gentil em perguntar sobre o que havia acontecido com ele.
Afinal, Uzumaki Naruto era o talento em pessoa, conhecendo todos os elementos que compunham um teatro. Entretanto ele não atuava e isso deixava Sasuke confuso. O jovem sabia todas as principais técnicas de atuação, todos os exercícios vocais e sempre entrava nos personagens para ajudá-lo a repassar cenas, mas mesmo assim não se candidatava para nenhum papel. Naquele dia, o loiro aproveitou a cena de Minoru e seu braço para explicar com tristeza sobre o infeliz acidente nas estradas do sul do Japão, em que um caminhão destruíra o carro de seus pais. Naruto havia sido o único a sobreviver, mas havia perdido um pouco a coordenação do braço e desde então tinha se tornado inútil para a maioria dos testes. Felizmente Tsunade o convencera a participar da organização do teatro e ele havia encontrado seu lugar ali.
Sasuke ouviu seu discurso em silêncio, massageando o membro defeituoso e distribuindo beijinhos carinhos por todo o braço. Uma cicatriz gigante estava exposta ali e ele sussurrando que por isso que o companheiro era tão forte: o Uzumaki havia lidado com a morte pessoalmente e por isso não temia mais nada. A risada de Naruto preencheu o ar e o rapaz resmungou que era apenas estúpido e teimoso, mas Sasuke discordou e eles entraram em uma briga que acabou com ambos deitados na cama, abraçados e assistindo televisão.
As lembranças o levaram para as tardes frias em que saíam de mãos dadas, abandonando o prédio do Teatro De Konoha. Após começar a andar com o Uchiha mais novo, Naruto nunca mais havia ficado sozinho no proscênio, já que o desgraçado de cabelos negros sempre fazia questão de estar ao seu lado. Quando os ensaios acabavam, eles ficavam por lá treinando mais um pouco e depois iam para a lanchonete mais próxima, aonde Sasuke pedia que ele narrasse a sensação do braço quebrado, desculpando-se rapidamente caso o deixasse desconfortável. O Uzumaki ria de sua polidez e o obrigava a pagar caipirinhas de morango para os dois, sentindo-se leve para conversar sobre o passado traumático e descobrindo que falar sobre aquilo com Sasuke não machucava tanto, pois o desgraçado o respeitava e ouvia atentamente suas histórias, nutrindo uma empatia incomum para alguém que sempre tinha respostas sarcásticas na ponta da língua.
Ele enxergava em Naruto algo que as pessoas geralmente não viam.
Na perspectiva da maioria do elenco, o Uzumaki era apenas o neto de Tsunade com um braço debilitado. Um coitado que havia tido os sonhos destruídos pelo destino. Todavia o caçula dos Uchihas enxergava sua alma, compreendia suas inseguranças e o apoiava em seu trabalho. O assistente retribuía como podia, sempre pontuando suas qualidades.
Eles se completavam, de certa forma. Possuíam seus defeitos, mas formavam um equilíbrio. Sasuke era silencioso e carregava o orgulho no sangue, ao passo de que o Uzumaki era afobado e extrovertido em níveis atmosféricos. Mas eles aprendiam a manter isso funcionando e o Uchiha esforçava-se para seguir o mesmo ritmo de Naruto, fazendo questão de comer as coisas que ele gostava ou de assistir os romances clichês favoritos do rapaz, nem que fosse para reclamar depois. A paciência daquele corvo sempre surpreendia aquele que carregava o sol nos cabelos e, por isso, assistindo Minoru conduzir a peça para seu fim, o Uzumaki descobriu-se nutrindo fortes sentimentos por seu ator. Ali percebeu que queria o ator prodígio desesperadamente, com todos os seus defeitos e qualidades. Ele desejava mais de todas as manhãs em que rolavam preguiçosamente pela cama, antes dos chutes começarem e eles brigassem entre si, ordenando para o outro levantar logo e abandonar o calor dos cobertores, mesmo sabendo que nenhum que deles iria se mover de verdade para se separar do abraço confortável
O Uzumaki o queria mesmo quando eles dividiam um croissant de chocolate e Sasuke ficava com a maior fatia, fingindo-se de louco para seus protestos e devorando o doce como se não fosse nada. Ele o desejava desesperadamente pelas noites em que o Uchiha surgia em seu apartamento, com caixas de pizza e Heinekens, sabendo que o loiro adorava a cerveja. Ele sequer conseguia acreditar que havia sido o rabugento ator a tomar a atitude do primeiro beijo, quando o empurrou contra a porta dos fundos do teatro e roubou um beijo, permitindo que os lábios macios capturassem os de Naruto, no começo de uma noite fria. Sasuke fingiu-se de louco por três dias, agindo como nada tivesse acontecido e foi preciso o assistente prendê-lo no camarim para arrancar a confissão de que o desgraçado queria continuar beijando-o.
E desde então eles estavam ficando sério
— Cumpri minha missão, Mizuki. — O samurai sussurrou quando o corpo sem-vida de Kazuma caiu ao seu lado. Entretanto ele tinha a espada do outro guerreiro presa em seu peito e cuspiu sangue, caindo de joelhos e fitando a plateia, que o olhava horrorizada — Shura me acolheu e tornou meu desejo real. — Concluiu quase sem ar.
A princesa surgiu ao seu lado, sorrindo com tristeza.
— Nós... nós vamos assistir ao cerejeiras, Mizuki. — Explicou para o corpo feminino que apenas segurava sua mão, sem proferir nenhuma palavra. A Naruto pareceu que seria a última vez que o casal se veria, antes do samurai ser enviado para o inferno — Eu vou sorrir para você, minha princesa. — Disse rapidamente, deixando que sua mão grande e suja de terra acariciasse as bochechas alvas da mulher — Então por favor, não me olhe assim. Sorria, Mizuki. Sorria. — As lágrimas vieram e a princesa o abraçou.
— Descanse, Minoru. — Sua voz trazia apenas um sentimento de pesar e ela começou a cantarolar, deitando o homem em seu colo. Sasuke agiu como se estivesse se engasgando no próprio sangue, enquanto a princesa continuava sua cantiga de ninar, ignorando o sofrimento dele.
— Entendo. Os céus irão me renegar. — Lágrimas caíram no rosto dele quando os dedos pequenos contornaram sua testa. — É o que mereço. — Concluiu colando as testas deles, fitando a amada com intensidade, passando a ideia de que gravava todos os detalhes de seu rosto.
Satisfeito, o samurai fechou as pálpebras e sorriu minimamente.
— Olhe, Mizuki. As cerejeiras estão florescendo. — Sussurrou quando a escuridão tomou conta do teatro.
— Eu vejo.
— Nós podemos sorrir agora, sem regras ou imposições.
— Sim.
No breu, apenas o silêncio se fez presente.
— Mizuki? Você está sorrindo? — A voz estava longe, como se o homem começasse a desfalecer. Um soluço na plateia foi escutado quando ele tornou a repetir o nome da princesa.
— Descanse, meu senhor. Sonhe com nossas cerejeiras.
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