Propósito

1 Propósito


Notas iniciais
OK, então eu assisti Eternals assim que saiu no Disney+ e eu não consigo pensar em outra coisa que não Druig e Makkari 24/7. Esse trabalho é uma pequena homenagem escrita em uma tarde/noite em que eu simplesmente não conseguia fazer nada além de imaginar o quanto esse slow burn (slow mesmo!) estava me consumindo.

Espero que aproveitem!

Propósito

Quando sentiu a vibração da voz dele, ainda na Babilônia, e de relance percebeu que ele dizia “minha bela Makkari”, continuou com os olhos baixos por mais um tempo. Talvez tivesse entendido errado, seria melhor não confundir as coisas. Quando logo em seguida ele a implicou com seus furtos, suas negociações com os humanos, e ergueu o queixo ainda mais alto que o seu, ela sorriu.

Nos séculos seguintes, ele continuou as implicâncias, as brincadeiras, os sorrisos de canto. Ele não dava aquele tipo de sorriso para nenhum dos outros Eternos. Nem mesmo para Phastos, quando ficava observando-o trabalhar em suas tecnologias. Nem mesmo quando passou um século afirmando para Phastos que estava certo quando disse que ainda era muito cedo para a construção da Pirâmide de Gizé, depois que começaram a dizer que visitas de extraterrestres era a única explicação.

Pequenos toques, tão gentis e sublimes e efêmeros que às vezes ela se questionava se realmente haviam existido. Se questionava se realmente era ela quem tinha a supervelocidade, porque cada vez que ele tocava seu braço no meio de um jantar sem qualquer necessidade aparente, o toque se esvaia tão depressa, como se ele fosse o velocista na situação.

Mas então, 1521 aconteceu. Makkari o viu se impor diante de Ajak, até mesmo diante de Ikaris e marchar com todo aquele povo para longe do império Asteca. O viu caminhar na distância sem nem mesmo olhar para trás.

“Vocês podem ir agora”, Ajak disse.

Makkari aguardou durante um tempo na Domo, achando que tudo aquilo era um grande mal entendido, que logo todos voltariam e estariam juntos novamente. Quando os anos se tornaram séculos, pensou que talvez estivesse enganada. “Busquem seus próprios propósitos”, quase podia ouvir a voz de Ajak retumbando em sua mente. Qual propósito ela teria? Qual propósito ela escolheria?

Foi quando olhou para a pequena escultura em cima da mesa, ao seu lado, que a ideia voltou à sua mente: a Tábua de Esmeralda. Haviam dito a ela que era apenas um mito, mas sendo ela própria tratada muitas vezes como apenas um — inclusive, enquanto apenas erraram o nome de Thena acrescentando um “A”, haviam errado tanto seu sexo quanto mantido apenas o “M” de seu nome¹? Nem um pouco justo, se a questionassem — não acreditava em tal coisa antes de uma pesquisa a fundo.

E foi o que fez. Dedicou a próxima década a investigar o paradeiro do artefato, leu e releu diversas vezes o (suposto) texto original de Hermes Trismegistus² e as traduções para as mais diversas línguas que existiam, na esperança de encontrar alguma indicação. Adentrou todos os museus de arte, todas as casas de colecionadores de arte e bibliotecas particulares. A encontrou 74 anos depois do início da sua busca, em meio aos escombros da Biblioteca Perdida de Alexandria — que, assim como a tábua, não era um mito e esteve em funcionamento de forma incógnita por um período muito maior que o documentado³.

Quando pegou a tábua em suas mãos, passou os dedos pelas letras talhadas em alto relevo, sorriu. Tantos anos de busca, e estava finalmente ali. E agora?

A única coisa que conseguia pensar naquele momento era em como queria mostrar aquilo à Druig. Mostrar que havia conseguido, que havia encontrado seu propósito. Antes que percebesse, havia dado 80 voltas no mundo no mesmo dia, procurando por ele em cada recanto.

O encontrou não muito longe de onde haviam se visto pela última vez, no meio da floresta amazônica. Chegou aos arredores do local e sentiu as primeiras vibrações das conversas que sempre havia em povoados. Viu um grupo de mulheres agachadas próximas à beira do rio, viu suas bocas falando e sentiu suas vibrações rítmicas, percebeu que estavam cantando enquanto lavavam suas roupas. Mais próximo à aldeia em si, viu um grupo de homens carregando o que se assemelhava a um animal. Mais alguns quilômetros, viu um grupo de crianças, não mais de cinco anos, que gargalhavam tanto que vibravam todo o chão. E, então, lá estava ele . Rindo com as crianças. Feliz.

Ela sorriu por um momento antes de correr de volta para o domo. Ele havia achado seu propósito.

Voltou ao domo e passou os próximos séculos ali, saindo para suas viagens a pesquisa, investigando e resgatando o máximo de antiguidades que podia. Todas aquelas preciosidades perdidas no tempo, ela recuperou cada uma delas. Preservando a história da humanidade tanto quanto podia. Aguardando o dia que voltariam para Olympia, sua casa.

Não sabia exatamente quanto tempo havia se passado até o momento em que eles entraram ali de novo e a encontraram sentada, como se aguardando o seu retorno. Estavam ali: Sersi, Kingo, Phastos… e Druig. Sentiu seu coração retumbar de uma forma que não sentia nem mesmo quando alcançava velocidade máxima: sentia tantas saudades — de todos.

— Então, como conseguiu arranjar essa Tábua de Esmeralda, minha bela, bela Makkari?

Druig estava na sua frente, ela olhava diretamente para ele. Não havia como fingir que não havia entendido, ou que pudesse ter sido um mal entendido, como da primeira vez.

Sorriu, pegando a tábua de sua mão em um puxão.

— Sentiu minha falta? — ele disse, ao mesmo tempo que sinalizava.

Era quase como se estivesse lendo seus pensamentos, lhe perguntando exatamente o que ela queria lhe perguntar desde que havia retornado. Sorriu novamente, nem mesmo conseguindo distinguir o que Phastos e Kingo diziam, apenas sentindo suas vibrações como algo de longe. O sorriso de Druig em resposta ao seu era mais do que ela se lembrava. O modo como apenas um dos cantos da sua boca sempre se erguiam, como em uma provocação silenciosa.

E então, a implicância, tocando-a com seu ombro mesmo durante a explicação mais que importante que Phastos oferecia. Era como os velhos tempos, era como se aqueles quinhentos anos não tivessem se passado. Era como se nunca tivessem se separado.

E foi apenas quando viu Druig ser carregado rumo aos céus por Ikaris, para o único lugar em que ela não poderia alcançá-lo, que sentiu seu coração retumbar por seu cérebro como nunca sua audição havia captado nenhum som. E foi apenas quando o viu ser devolvido para a Terra pelo raio de energia que saia direto dos olhos de Ikaris e sentiu a vibração de ele afundando no solo daquela pequena ilha, que descobriu como era o som de um coração quebrado. Gritou, como nunca havia feito antes, como nunca havia tentado antes, como nunca havia ousado antes. A vibração que sempre sentia transmitida como uma vibração em sua garganta.

Correu para Ikaris, descontou toda sua raiva em forma de velocidade e socos. E mesmo quando Sersi conseguiu impedir o despertar, mesmo quando devia estar comemorando a vitória, ela não conseguia. Porque só conseguia ver e rever, bem atrás de sua memória, Druig sendo acertado no peito por Ikaris.

Sentiu as vibrações na areia antes que sua vista pudesse identificar algo. Talvez seu próprio sentido estivesse pregando peças nela agora. Talvez seu próprio organismo estivesse tentando achar um jeito de lidar com aquilo da melhor forma — e talvez a melhor forma fosse fingir que não era real.

Mas era real. Avistou no horizonte a forma preta distinta de Druig, e correu até lá. Não como velocista que era, mas apenas como mulher que era. Jogou seus braços ao redor dele em um abraço que estava retido em suas entranhas sabe-se lá por quanto tempo, sentiu que ele enlaçava sua cintura em resposta. Se afastou, pregou sua testa à dele, encostou seus narizes. Sentiu suas lágrimas escorrendo pelo rosto, silenciosas.

— Eu tô bem — ele nem mesmo murmurou, apenas mexeu os lábios no formato das palavras, o suficiente para que ela entendesse, para que ela sentisse.

Não tinham mais Ajak para curar seus ferimentos. Pela primeira vez em todos esses milênios, seus corpos estavam marcados e machucados pela batalha, e ficariam assim por um bom tempo, até se curarem naturalmente. Makkari percebia o andar lento e mancante de Druig, e não tinha nada que pudesse fazer para ajudá-lo naquele momento.

Estava esvaziando a parte dos dormitórios intactos que estavam cheios de suas coisas para que todos pudessem passar a noite. Não tinham como tirar Domos dali antes que Phastos a reparasse, ele estava muito cansado para fazer aquilo essa noite e ela exausta para conseguir carregar todos por sobre o oceano para algum lugar habitado. Iriam descansar ali.

Quando acabou de instalar todos em seus quartos (naquela casa que era de todos, mas que de certa forma se tornou um pouco mais dela depois de passar tanto tempo ali, sozinha), soltou o ar de seus pulmões — ar que nem sabia que estava segurando. Não podia se impedir por mais tempo.

Bateu com os nós dos seus dedos na porta, a abriu lentamente. Ele estava sentado próximo à única mesa do cômodo, com uma bacia de água já um pouco avermelhada à sua frente e uma camiseta suja com um pouco de sangue jogada em seus pés, a olhando atentamente.

“Sei que você deve estar cansado. Mas precisava vir”, gesticulou. Entrou no cômodo, fechou a porta atrás de si. “Como você está?”.

— Phastos comentou algo sobre ter dado uma surra em Ikaris. Queria ter visto — sorria, um daqueles sorrisos apenas com o canto da boca, como sempre fazia.

“Druig, como você está?”, ela insistiu, ainda de pé, com as costas apoiadas na porta.

— Vivo, o que já é mais do que podemos pedir para o dia de hoje ser considerado bom.

“Deixe-me te ajudar”, ela se aproximou. Seus ferimentos já não sangravam, mas haviam contusões por todo o seu tronco: grandes manchas avermelhadas-arroxeadas por todo seu peito e barriga, por todas suas costas. Makkari estendeu as mãos e pegou o pano molhado que ele segurava, passando gentilmente por todas as lesões. Sentia que ele encolhia mesmo sob seu toque gentil, como se cada vez que ela encostasse nele, o ferisse mais um pouco.

Suspirou. Ajoelhou na frente dele, para que pudesse ver o rosto dele.

“Eu achei que você tinha morrido. Achei que Ikaris tinha te matado. Em um segundo você não estava mais do meu lado, e eu não podia te alcançar. Só senti o chão se afundando junto contigo em seguida. Achei que tinha te perdido”, gesticulou tudo com tanta velocidade que Druig quase se confundiu em alguns pontos.

— Isso tudo é medo de ter me perdido? Se soubesse que era só ter uma experiência de quase morte pra ganhar uma confissão, teria feito antes.

“Eu fiquei apavorada, Druig. É sério. Achei que tinha te perdido”, falava, nervosa. Não acreditava que ele podia estar brincando com aquilo, não nesse momento.

— Ei, calma — ele estendeu a mão para ela, a puxando levemente para que sentasse do seu lado no colchão — Estou bem. Estamos bem.

“Eu fui até lá, sabia? Na sua aldeia. Não sei que ano era, mas foi logo quando eu consegui a Tábua de Esmeralda. Você era a única pessoa para quem eu queria mostrar. Mas você estava feliz lá. Eu não quero te perder, Druig”.

— Minha bela Makkari, você não vai me perder — a puxou mais uma vez para perto de si, colando suas testas — Estou bem aqui.

Makkari havia passado milênios com toques suaves, cogitando se estava imaginando coisas. Outros séculos se perguntando se alguma vez os sentiria novamente. Não estava disposta a esperar mais.

Se afastou o suficiente para gesticular.

“Senti sua falta, Druig”.

Sentiu quando a mão de Druig tocou sua nuca. Sentiu quando seu polegar acariciou sua bochecha. Sentiu quando ele se aproximou, centímetro a centímetro. Devagar demais, ela pensou, enquanto acabava com os centímetros entre eles e o beijando pela primeira vez em milênios.

Quando se separaram, Druig sorriu.

— Você realmente devia ter me contado que era só quase morrer junto com todo o planeta para me beijar, eu teria feito isso acontecer alguns séculos atrás.

Makkari não se importava de ter levado tanto tempo para isso acontecer. Poderia passar os próximos séculos tendo como único propósito recuperar todo aquele tempo.

Notas finais
¹ Sei que Athena era usado na mitologia grega e Mercúrio na romana, mas peguei um pouco de liberdade poética, ok?
² Não sei se já leram algo sobre a Tábua de Esmeralda, mas é um documento que supostamente é o texto de origem da alquimia. Diz-se que fazia referência à pedra filosofal. Porém, a primeira referência em texto que encontrei à tábua é do século sexto ou sétimo d.C., então não entendi muito bem como no filme ela questiona o pessoal da Babilônia sobre. Mas aceitarei.
³ Supõe-se que a biblioteca de Alexandria foi destruída no quarto século d.C., durante aquela disputa entre cristianismo e paganismo do império romano. Contudo, como são dados um pouco incertos, tomei a liberdade (assim como o filme de alterar a primeira menção sabida da tábua para bem antes), de mover a biblioteca para funcionante até alguns séculos depois. Nada demais, mas achei importante mencionar.

E, então, foi isso. Algo bem simples, algo de coração, algo pra você que, por um acaso, está sedento por qualquer conteúdo Druig e Makkari (alô, Disney, uma série das andanças da Makkari ao longo dos séculos, por favor!).

Um beijo e até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!