Remus estava cansado, não só por causa do trabalho, mas a preocupação com Peter era crescente dentro de si. Podia ser impressão, porém ela já durava há mais de uma semana, então imaginava que não era só sua mente lhe pregando peças. Andava achando o comportamento de Peter estranho, eles eram amigos de infância, o conhecia desde os onze anos, conviveram juntos até o término do Ensino Médio, quando Peter conseguiu uma vaga na faculdade da capital. Ninguém achou que era possível, mas lá estava ele morando na cidade grande e, quando Remus perguntou o que ele achava da ideia dele se mudar também para lá após a morte da mãe, não restando mais nada que o prendesse à cidade natal, Peter foi receptivo e ofereceu a própria casa para que morassem juntos.

Era divertido na maior parte do tempo, mesmo que seu quarto fosse um cubículo, ajudava a economizar e a companhia era boa, especialmente após ter pedido a carinhosa mãe que tinha… Mas ultimamente sentia que Peter estava escondendo algo. Como se quisesse falar algo e não conseguisse. Remus já imaginava que sua presença estava se tornando incômoda, afinal era natural que Peter quisesse seu espaço e privacidade de volta, Remus sabia que por mais que fizesse o possível para passar despercebido e ajudasse nas contas, não era a mesma coisa que morar sozinho após estar tão acostumado. Provavelmente ele estava prestes a expulsá-lo.

Imaginou se conseguiria arcar com as despesas de um aluguel sozinho com o trabalho no café. Não queria gastar do que havia conseguido com a venda na casa no interior, afinal era seu desejo começar uma vida e ter uma casa… Dividir também seria uma opção, mas preferia não fazê-lo com desconhecidos.

Devia parar de ser exigente. Não podia mais abusar da boa vontade de Peter… A partir de amanhã, decidiu, iria procurar vagas em quartos. Não podia ser tão ruim assim. Iria conversar com o amigo hoje para comunicar sua decisão, assim ele não ficaria tão incomodado.

Determinado, subiu os lances do pequeno prédio em que Peter morava, ficando surpreso quando o encontrou parado na porta do próprio apartamento, aproximando-se com um sorriso suave.

“Esqueceu a chave, Peter?” Perguntou com tom carinhoso enquanto resgatava do bolso da calça a chave do apartamento. “Podia ter me ligado.”

“Não! Não é… isso.” Ele exclamou, exaltando-se, bloqueando a entrada da porta com o corpo, os braços abertos como se quisesse impedi-lo de passar, fazendo Remus arquear as sobrancelhas com o comportamento estranho. “Digo. Remus. Preciso te falar algo. Mas você precisa me prometer não surtar.”

Remus respirou fundo, odiando o rumo daquela conversa do amigo. Guardou novamente as chaves, cruzando os braços em uma postura defensiva, imaginando que na pior das hipóteses havia sido despejado do apartamento do amigo. Ou ele estava escondendo uma namorada, mas imaginava que Peter seria mais escandaloso sobre isso, voltando então a primeira opção.

“O que é, Peter?”

“Precisa me prometer antes. Promete?”

“Sim, eu prometo.” Respondeu mecanicamente, sem muita paciência. “Então? O que foi?”

Peter mordiscava o próprio lábio inferior como se quisesse mastigá-lo e demorou alguns segundos para ele começar a falar.

“Então, eu meio que te inscrevi naquele programa de reforma que eu comentei, eu não colocava tanta fé, mas uns dias atrás recebi uma correspondência dizendo que você foi escolhido e então os caras tão aí dentro com uma equipe de TV e eu não consegui te contar antes porque achei que você ia surtar e desistir, mas eu acho muito que foi uma boa ideia e eles disseram que não tem que falar nada da sua mãe então não surta por favor.”

Peter mal respirava enquanto falava, mas Remus foi capaz de registrar a maior parte; ao menos a que importava.

“Você O QUÊ?!”

Exclamou com indignação, empurrando Peter para o lado e entrando no apartamento do amigo. A sala, que era facilmente o cômodo mais espaçoso da casa, era dividida com a cozinha e estava abarrotada com pessoas com equipamentos de luz, câmeras, som, e fez a cabeça de Remus girar imediatamente. Boquiaberto, olhou para o estado do lugar e não tinha nem palavras para o que via.

“Sirius, não coloque o pé na mesa dos outros.” Uma voz se sobrepôs aos burburinhos da preparação da equipe e Remus a seguiu com o olhar.

“Tá bom, tá bom, Reg. Por isso eu sou o irmão mais legal. Não acha, docinho?”

Viu o que havia dito primeiro revirar os olhos para o sorriso convencido do irmão — porque, sim, eles eram inegavelmente irmãos, tinham os mesmos cabelos pretos e traços faciais, embora os de um fossem mais longos que o do outro. Sirius estava sentado na poltrona da sala, acabando de retirar os pés de cima da mesa de centro, a cabeça jogada para trás para que uma maquiadora fizesse o trabalho. O outro já estava pronto, cabelos arrumados, camisa social alinhada, e um sorriso discreto que se abriu quando percebeu a presença de Remus. Ele se levantou e caminhou até ele e Remus só não saiu correndo porta afora porque Peter havia acabado de entrar por ela e bloqueava a passagem ao seu lado.

“Por favor, Rems! Vai ser legal!” Ele dizia, sorrindo nervoso como se pedisse desculpas, mas Remus não respondeu, mais desesperado sobre se parecer um pé-rapado desleixado em frente a celebridades de televisão.

“Remus Lupin, certo?” Ele estendeu a mão, com o sorriso educado digno de só alguém que tinha um programa de televisão poderia ter, pensou Remus, e ele achou que começava a entender o apelo do programa de reforma quando sua mão foi recepcionada por um aperto firme. “Não se preocupe, o processo é tranquilo. Seu amigo Peter nos contou a situação. Saiba que não temos intenção de expor ninguém, só queremos fazer nosso trabalho. Regulus Black, à propósito.”

“Falou tudo, irmãozinho.” De algum jeito, Sirius havia se posto ao lado do irmão, os poucos centímetros mais alto garantindo que conseguisse apoiar o cotovelo no ombro dele. Remus observou com curiosidade que era mais alto que ambos. “Está em boas mãos, Remus! Somos os melhores no que fazemos.”

Sirius sorria convencido, mesmo com o outro empurrando seu braço e o tirando de cima de si. Remus adivinhou que era uma constante no comportamento deles. Enquanto Regulus também tinha um olhar altivo, mas parecia mais discreto de forma geral.

“Certo…” Não sabia o que responder, murmurando com os ombros encolhidos.

“Ele não vê muita TV.” Informou Peter, somente para fazer Remus se envergonhar. “Se puderem explicar a ele…”

Sirius e Regulus se entreolharam e Remus não conseguiu olhar, imaginando se teria os ofendido por não conhecê-los do programa.

“A premissa é simples. Vamos te ajudar a escolher uma casa em mau estado e depois reformá-la inteira para você.” Regulus explicou calmamente.

“Isso. Eu sou o corretor e ele aqui é o empreiteiro.”

Quando ergueu os olhos para fitar a ambos, não conseguiu esconder a surpresa, olhando de um ao outro repetidas vezes.

“Eu achei que…”

“Fosse o contrário?” Regulus arqueou as sobrancelhas.

“Todo mundo acha isso.” Sirius completou, dando de ombros.

Era fácil entender o motivo. Enquanto Regulus tinha cabelos bem arrumados, a franja jogada para o lado, sem cobrir os olhos e as mechas pretas não indo além da nuca; Sirius tinha cabelos mais longos, nos ombros, embora ambos estivessem igualmente cheio de gel de cabelo e não se moviam com seus movimentos. As roupas também pareciam estranhamente fora de lugar, embora de calça jeans, Regulus vestia uma camisa social e Sirius, embora de gravata, tinha uma jaqueta de couro por cima, fazendo a cabeça de Remus dar um nó e se perguntar como eles eram levados a sério nos respectivos trabalhos. Parecia totalmente errado e engraçado.

“... Então, fiquem à vontade, vamos começar a gravar em breve. Mas não se preocupem, queremos algo natural…”

Os irmãos Black pareciam estar falando algo além, Regulus explicando mais seriamente as diretrizes do programa e Sirius fazendo comentários completando ou só sendo engraçadinho, porém Remus estava tão atordoado que só caiu em si quando Peter o empurrou com muito ânimo, sentando-o no sofá e se sentando ao lado dele.

“Quem diria, vamos aparecer na TV! Me deixem ainda mais bonito, meninas. É minha hora de brilhar.”

Peter jogou a cabeça para trás, fazendo as duas maquiadoras rirem dele, uma ruiva se aproximou dele enquanto a outra foi até Remus, segurando-lhe o rosto e virando para trás.

“Não sei se quero isso…” Desconfortável, quis negar o tratamento, enquanto Peter parecia estar adorando o momento de celebridade.

“Vamos, é meu trabalho. Precisamos passar ao menos um pó, você não quer ficar brilhando na frente da câmera, certo?”

Soltou um muxoxo incompreensível, mas que fez a mulher de cabelos ruivos rir mesmo que ela não entendesse o que ele havia falado, e Remus se deixou levar com um suspiro longo, fechando os olhos e permitindo que ela trabalhasse sem que a incomodasse.

Notas finais
Remus está #cansado
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.