Prongs
26 "Porque onde estiver o vosso tesouro também estará o vosso coração"
Ao final de abril, Frank Longbottom mostrou que isso era possível. Era possível sair vivo pela segunda vez de mais um confronto contra Voldemort. Ele e Alice se tornaram responsáveis por agirem fora do país, onde Voldemort constantemente recrutava novos Comensais da Morte estrangeiros e, assim, expandindo ainda mais o seu poder.
Eu tenho uma vaga lembrança da segunda vez que eu e Lily enfrentamos Voldemort. Talvez eu não fosse ter lembrança alguma se se eu não enxergasse luzes vermelhas e verdes explodirem em meu cérebro. Nas três semanas que fiquei internado do Hospital St. Mungus após isso, eu estava confuso e desorientado, confundindo os acontecimentos. Minha mente, naqueles tempos, tinha ficado uma bagunça.
Mas Lily se lembrava tanto que ela ficou sem dormir por dias. Lançava-me olhares preocupados quando almoçávamos em silêncio, juntos, na cozinha de nossa casa. Eu era bastante acostumado a pegá-la de surpresa para um beijo e um abraço, mas dessa vez ela quem precisou fazer isso todos os dias. Ela quem queria me fazer sorrir.
Aparentemente, eu não estava fazendo com a mesma frequência de antes.
Senti os braços dela ao redor do meu corpo enquanto a água do chuveiro jorrava pela minha nuca. Eu estava com os olhos cerrados, ainda sentindo a dor física daquela noite de julho ofuscada em minha visão, muito embora tivesse passado meses desde então. Era manhã do dia das bruxas quando Lily se aproximou atrás de mim e beijou minhas costas. Entrelacei seus dedos apertados em meu peito.
Eu tentei um breve sorriso, mesmo que nos últimos meses tivesse ficado mais difícil. No entanto, eu ainda tinha uma mulher todos os dias ao meu lado, e isso me acalmava, tanto quanto a água relaxando o meu corpo. E isso me faria sempre sorrir.
– Senti sua falta na cama – ela disse. – Por que não me acordou para tomarmos banhos juntos?
– Você estava dormindo tão tranquila... não queria te atrapalhar sonhando com gatinhos e nuvens fofas.
– É, eu estava sonhando com gatinhos e nuvens fofas – ela concordou, rindo. – Como é que sabia?
– Já te observei dormir durante um bom tempo, conheço todas as suas expressões quando está sonhando – confidenciei.
– Isso é assustador – ela brincou.
Viramos um de frente para o outro. Beijou-me lentamente nos lábios, afogando os dedos nos cabelos molhados da minha nuca. Às vezes, era preciso esperar para as coisas ficarem boas de novo. Era preciso tempo para que nos recuperássemos. Eu queria que tivesse uma maneira de agarrá-la para sentir aqueles lábios e aquela pele o tempo todo, a cada maldito segundo, mas isso era impossível. Então eu precisava beijar, tocá-la naquele momento como se eu precisasse disso mais do que ar... pra viver. Parece patético dizer isso, mas era a verdade. Eu precisava dela.
Saímos do chuveiro e voltamos pra cama, onde saboreei todos os cantos de seu corpo, aquele corpo que pertencia a mim e somente a mim, aquele corpo que ansiava pelo meu, leve, arfante, deslumbrante. Sentir aquele espaço úmido, quente, apertado, entre suas pernas esfregando em um movimento contínuo pelo meu tamanho. Os beijos que eu distribuía para dar prazer e amor a ela, suas unhas passeando por toda a textura do meu peito, abdômen, braços, costas. Mesmo que eu ainda sentisse algumas pontadas de dores, transar com Lily, ouvi-la gemer até a voz ficar rouca, era me libertar totalmente dos machucados.
Graciosa ao pender a cabeça um pouco para trás, os cabelos soltos em cascatas, para me dar espaço e beijar seu pescoço, enquanto cavalgava em meu colo, lenta e delicadamente. O rosto vermelho, a expressão em êxtase e os olhos lacrimejados.
Seu beijo estava salgado, por causa das lágrimas... Em meio ao movimento rápido de nossos corpos, ela agarrou-me pelo pescoço para sussurrar que me amava. Eu não queria me afastar em nenhum momento... nossas testas estavam coladas e nossas respirações entrelaçadas. Quando gozamos juntos, no mesmo instante, eu não tinha saído dela. Derramei até a última gota dentro dela e ela finalizou com um beijo profundo contra a minha boca.
Não conversamos nos próximos minutos. Ficamos deitados juntos na banheira, a cabeça dela descansando em meu peito enquanto eu roçava o sabonete pela extensão de seus ombros mais relaxados, mais suaves... Prendi o cabelo dela acima da nuca. Ela ficou passeando dois dedos pelo meu antebraço encostado a banheira. A água e o calor estavam tão gostosos que eu decidi que ficaríamos ali o dia inteiro, nem que Voldemort resolvesse destruir o mundo. Eu não sairia dali para nada.
– Nenhuma lembrança daquela noite ainda, James?
– Estou com medo de que ele jogou uma Maldição Impérius contra mim, Lily.
– Não foi isso – ela contou. – O impacto... o impacto do duelo foi intenso. Nossas duas varinhas duelaram ao mesmo tempo com a dele... Você desmaiou depois.
– Como eu não me lembro de nada disso...?
– Talvez sua memória apenas esteja bloqueada, por causa do susto. Não me lembro também dos detalhes... E às vezes eu penso que... eu penso que é melhor assim. Às vezes é melhor não lembrar.
Beijei seu pescoço e a abracei, a água circulando ao nosso redor.
– Eu faria qualquer coisa para que toda essa guerra terminasse. Qualquer coisa – ela disse com a voz baixa. Deu um suspiro e fechou os olhos. Estava cada vez mais difícil soltá-la.
Era impossível não voltar vivo de dois confrontos contra Lorde Voldemort e não ser reconhecido por todos. Esperamos voltar com as reuniões da Ordem da Fênix na mesma semana. Estava um clima de intenso abatimento, uma vez que agora as cadeiras estavam ficando vazias, não pelas mortes, mas pelos machucados que colocavam boa parte do pessoal no hospital St. Mungus.
– Nós estávamos um passo a frente de Voldemort – contou Dumbledore. – Mas ele continua a espalhar o terror pelo mundo. Tivemos ataques contra crianças... tivemos assassinatos contra famílias trouxas... O Ministério da Magia agora não consegue passar por cima da dominação dele. Precisamos contar com nós mesmos... James e Lily voltaram mais uma vez depois de tentarem impedir Voldemort de prosseguir com o plano de matar crianças trouxas de orfanatos...
Nesse momento senti as mãos apertarem meus ombros, inclusive a de Sirius, que estava muito calado ao meu lado desde quando ouviu a notícia de que seu irmão Regulus havia sido assassinado por Comensais da Morte, na tentativa de se redimir e fugir das obrigações de Voldemort.
Era impossível fugir da Guerra.
– Estamos cercados por grande terror e eu agradeço por estarem lutando ao meu lado com a mesma determinação que começamos no ano passado. Estávamos um passo a frente de Voldemort porque ele desconhecia nossa determinação; ele achava que não haveria pessoas que tivessem a audácia de se opor a ele, mesmo com o terror que ele vem distribuindo. Mas agora ele sabe... ele sabe que os aurores não estão apenas trabalhando... ele sabe que estamos buscando salvar o mundo das Trevas em que ele nos enfiou. Por isso... os próximos passos devem ser sigilosos... É provável que agora entremos em um período da guerra que resultará na vontade de Voldemort em eliminar cada um de nós. Eu apenas quero saber, preciso saber, se continuarão a lutar com a mesma força...
– Só pode estar caduco se acha que vamos colocar o rabo entre as pernas depois de tudo isso, Dumbledore – disse Sirius. Os outros apoiaram com murmúrios exaustos, mas dispostos. – Sem ofensas.
Dumbledore sorriu.
– Era o que eu precisava ouvir. Alice e Frank estão nos atualizando da Islândia, onde Lord Voldemort está atuando com mais freqüência por lá. Enquanto esperamos mais notícias deles, estamos dispensados por hoje. Aproveitem seus tempos com as famílias, os amigos... eu de fato aproveitarei o meu com uma deliciosa caneca de cerveja amanteigada que só Rosmerta sabe fazer. Quem quiser se juntar a mim está convidado. Não todos, para não darmos tanto na cara...
Rimos um pouquinho. Quando me levantei, estava afim de uma cerveja amanteigada também. Remus e Sirius tiveram disposição. Dorcas, Marlene e Emmeline chamaram Lily, mas ela se queixou de dor de cabeça e preferiu voltar para casa. Eu me dispus a acompanhá-la, mas ela sorriu fraquinho.
– Não vê que Sirius já está quase me estrangulando por eu tirá-lo de você quase todos os dias?
Sorri para ela, beijando seu rosto.
– Se precisar de alguma coisa, mensagem – avisei.
– Pode deixar.
Mas não ficamos tanto tempo. Era meio que proibido e insensato ficarmos até mais tarde fora. Além disse, a Capa da Invisibilidade estava em casa, então nem explorar era possível. Ficamos ouvindo as histórias de Olho-Tonto sobre alguns dos duelos mais intensos que teve desde a Ordem a Fênix.
Os próximos dias que se seguiram não tiveram muitas mensagens da Ordem para a gente – exceto o alívio de sabermos que Frank e Alice voltaram da Islândia com as boas notícias de que estavam vivos mesmo depois de enfrentarem Voldemort pela terceira vez – e pareceu a Lily que esse tipo de “folga” a deixou mais propícia para ficar o dia inteiro dormindo. Ela provavelmente dormiu naqueles últimos dias o tempo que ficou sem dormir nos últimos anos. Ficava brava se eu pensasse em acordá-la.
Uma vez a flagrei babando perto do fogão quando desci as escadas para tomarmos café da manhã juntos. Decidiu largar mão do seu momento trouxa, pois a espátula estava se movendo sozinha para preparar os ovos. Enquanto isso, ela tinha a mão apoiada na bochecha, os olhos fechados, sentada na mesa com um livro aberto em cima, os cabelos completamente despenteados, com a boca levemente aberta...
Ela era linda de todos os jeitos.
Até quando ela estava irritada.
No momento em que eu entrei em casa depois de mais uma pequena missão, sem muitos perigos, apenas uma exploração pelos arredores com Sirius, Lily estava me esperando sentada com a gata em seu colo no sofá.
– Onde você estava?
– Com o Sirius.
– Hum.
– Algum problema? Eu juro que não chamei nenhuma mulher para sair – brinquei. Ela não riu.
– Quero te mostrar uma coisa – ela disse séria. Levantou-se do sofá e, sem me dar um abraço feliz por me ver, Lily se aproximou do balcão da cozinha e me mostrou o saleiro.
– O que... Uau. Um saleiro.
– Eu sempre deixo o saleiro no balcão. Eu não encontrei o saleiro em nenhum lugar e eu estava louca para comer. Fiquei duas horas procurando... Você tirou o saleiro, não foi? Colocou ele embaixo do balcão, na gaveta. Eu falei que não é pra você mudar essas coisas de lugar.
– Eu fui... eu fiz um pouquinho de pipoca para assistir ao filme da televisão. Precisei pegar o sal... eu não reparo onde você o deixa, então coloquei em qualquer lugar-
– Em qualquer lugar? Essa gaveta é de talheres, James, talheres.
– Onde você queria que eu o colocasse? – perguntei curioso.
– Em cima do balcão! – ela exclamou como se fosse óbvio. – Se você pegou o saleiro em cima do balcão a coisa sensata a se fazer é devolvê-lo onde o achou.
– Bom, até o filme acabar eu já não lembrava.
– Pare de tentar se defender.
– Lily, o que-
– E não é a primeira vez que você some com as minhas coisas.
– Mas é só um saleiro...
– Não é só um saleiro! O saleiro é só o pouco do que você fez...
– Você está estressada, amor – eu disse. – Eu compreendo, mas não precisa brigar comig-
– Eu não estou estressada, você me deixa estressada. E você comeu a pipoca na sala. Deixou tudo jogado no chão! E se a Gata comesse? E se ela morresse engasgada por sua causa? Olha, não vou ficar aqui discutindo com você, eu estou exausta...
– Você ficou o dia inteiro em casa – estranhei.
Arrependi-me de ter retrucado isso. Lily piscou e me olhou furiosamente.
– O que você disse?
– Nada.
– Você acha que eu fico a toa aqui em casa, James Charlus? Eu faço a comida, eu limpo a casa... Você acha que ficar aqui sozinha e não explorar o mundo com o seu melhor amigo é ficar a toa em casa? Me desculpe, então, me desculpe.
– Eu não disse isso, querida.
– Então eu estou ficando louca, é isso? Estou escutando coisas?
– Não, meu amor, eu não quis dizer isso, de jeito algum...
– Então realmente disse que eu não faço nada da vida.
– Eu só estranhei! Você sempre foi tão lindamente disposta para tudo, só achei estranho que está ficando exausta...
– Eu não posso ficar exausta agora? Eu não posso me cansar de ficar correndo atrás daqueles idiotas!? Eu não posso ter um dia de sossego com a minha vida, com a minha gata? Eu não posso me cansar de lutar nessa merda de guerra, sem ter um sossego, sem ter o medo de sair de casa, sem ter o medo de ver você saindo daquela porta – nesse momento Lily estava com a voz falhando – e com a possibilidade de você nunca voltar? De você... James, eu não quero ficar assim pra sempre, eu quero viver tranquila quando sairmos na rua, eu quero ter um encontro com você sem ter que ficar com a mão encostada na varinha pois a qualquer instante podemos ser atacados... eu estou cansada de lutar, cansada de viver correndo perigo...
Não estávamos falando do saleiro?
Ficou com a cabeça encostada no meu peito nesse momento, chorando. Minha camiseta até ficou molhada porque ela teve que enxugar suas lágrimas nela.
Se eu achei que iríamos ter um sexo de reconciliação, fiquei enganado. Quando fomos pra cama, Lily trouxe todo o lençol para o lado dela, virou-se para o lado oposto ao meu e despencou em dois tempos de sono. Acordei na manhã seguinte com um empurrão no ombro, e não beijinhos. Sem muitas palavras, jogou minha camisa no meu rosto enquanto andava pelo quarto de calcinha e sutiã:
– Mensagem da Ordem. Vamos.
Parecia que seu desabafo da noite anterior havia sido esquecido. Estava totalmente disposta a fazer Comensais da Morte pagarem pelo que eles estavam fazendo.
– Lily! – gritou Sirius antes de protegê-la de um feitiço que Malfoy ia acertar contra ela. Nem mesmo eu, nem ela tínhamos visto aquilo chegar. Lily quase foi estuporada. Ela nunca tinha sido antes. Quase teria ocorrido se Sirius não a tivesse protegido.
No meio da batalha, eu precisei aumentar a proteção com a ajuda de Sirius e Remus no local, para afastar Lily dos feitiços. Ela estava distraída, dispersa...
Ela estava ofegando, suando e tirou o cabelo do rosto, arquejando. Respirando profundamente, apoiou as mãos no joelho quando nos afastamos da batalha por um tempo.
– Alguém te acertou? – perguntei preocupado.
– Não – ela disse baixinho olhando para o chão. – Eu to bem, eu to bem. É só...
Tive que empurrá-la para o lado quando um Comensal tentou nos atingir. Foi estuporado rapidamente. Olhei ao redor.
– Vamos aguentar mais um pouco, ok? Precisamos ajudar Sirius... Mas precisamos aguentar, ok?
– Aguentar, eu consigo aguentar.
O Ministério da Magia havia sido tomado. Embora houvesse resistência, muitos funcionários e trabalhadores se voltavam para o poder de Voldemort porque parecia impossível contê-lo.
Mas não importava para mim. Não importava, nós estávamos lá para deixar as coisas difíceis para Voldemort. Para que ele suasse um pouco, ficasse preocupado, não ficasse rindo e achando que nós éramos fracos. Esse era o significado de lutar até o fim. E, sinceramente, quando Voldemort apareceu para acabar com a gente de novo, achei que ele conseguiria.
– Lily, cadê o Remus? – gritei em meio à agitação dos jatos de luzes que quebravam os pilares do saguão do Ministério. Duelos para todos os lados, membros da Ordem e Comensais da Morte. Tínhamos tentado interromper a sessão de tortura e de beijos dos dementadores que o Ministério estava constantemente fazendo contra os nascidos-trouxas. Diziam que eles roubavam a magia e que era preciso puni-los. Azkaban agora era infestada de pessoas inocentes, e a Ordem da Fênix não ia deixar barato.
Lily não ouviu minha pergunta; estava ocupada estuporando Rosier. Pegou a minha mão e, juntos, corremos pelos corredores e as escadas enquanto explosões em todos os lugares aconteciam. Remus não estava em nenhum lugar... Mas eu não podia ter isso na cabeça, ou me distrairia. Lily gritou protego e um enorme véu se formou a nossa frente nos protegendo de três Comensais que vinham em nossa direção soltando feitiços. Era tão intenso que não prestávamos atenção em quem era. A batalha estava tão desajustada que estuporávamos qualquer coisa que víamos pelo caminho. Isso era errado, imprudente, mas era o que devíamos fazer. Por sorte, não estuporei ninguém que eu gostava.
– Potters! – a voz de Olho-Tonto chegou até nossos ouvidos. – Quinto andar, agora! Reféns e dementadores! Tire-os de lá!
Gritava aquelas ordens se defendendo de Mulciber. Perdendo a paciência, Moody estuporou o Comensal e ainda arrastou o corpo dele com um feitiço de levitação para o teto, prendendo-o em uma enorme estátua de Voldemort.
Não tínhamos tempo a perder. Lily e eu corremos juntos, sempre nossas mãos agarradas para nunca ter o perigo de nos separarmos durante as batalhas... Os elevadores estavam despencados, tivemos que subir inúmeras escadas. Nesse local do Ministério a batalha estava tranquila, não havia Comensais... Eles estavam tentando impedir a entrada dos membros da Ordem da Fênix no saguão, então conseguimos o feito de ultrapassarmos a barreira que levava a Voldemort...
Eu sabia que o veria no momento em que ultrapassássemos o corredor e subíssemos as escadas para o próximo departamento. Ele estava mantendo os funcionários do Ministério como reféns... parecia até que queria nos atrair para ele...
– Espera – cochichou Lily quando avancei contra a porta.
Estava silencioso demais. Achei que Lily ia me dar um beijo, para termos certeza de que, se morrêssemos logo ali, ela teria me dado um último... Mas ela era confiante o suficiente para apenas montar um plano:
– É melhor usarmos a Capa de Invisibilidade. Não podemos ser vistos por Voldemort.
Então nós fizemos. Entramos no local onde Voldemort estava prendendo no mínimo doze funcionários importantíssimos do Ministério, porém eu sabia que eram nascidos-trouxas. Tinha dementadores o suficiente para beijar cada um deles. Voldemort assistia a tudo... e não deu tempo de continuar vendo aquilo sem fazermos nada.
Fizemos uma surpresinha a ele. Nos revelamos embaixo da capa quando ele não estava olhando. Dois feixes de luz prateada saíram da ponta de cada uma de nossas varinhas. Enquanto a corça e o cervo espantavam os dementadores... Voldemort finalmente se deu conta de nossa presença.
– O que vocês não fazem por Dumbledore, não é? – ele tinha a varinha em mão e apontou para nós.
Pulamos atrás de pilares porque os jatos dos feitiços dele não dariam tempo de serem defendidos. Cascatas de pedras e cimentos explodiram para todos os lados. Não vi Lily depois disso. Mas também não me preocupei, ela estava com a Capa da Invisibilidade e eu sabia, conhecendo ela, que tentaria proteger os doze funcionários...
Então minha tarefa foi distrair Voldemort.
Não fiquei muito tempo agachado me escondendo atrás do pilar estraçalhado, mesmo assim. Dei um longo suspiro e me levantei. Até parece que eu ia dar o gostinho de parecer amedrontado para Voldemort.
Nós estávamos distantes um do outro... mais ou menos oito metros. Ele não me jogou nenhum feitiço quando nos encaramos. No entanto, no momento em que ergueu a varinha e começou a sibilar a Maldição Imperdoável, eu fiz uma coisa totalmente estranha...
Eu fiz uma breve mesura.
Uma irônica e breve mesura.
A mesura que se faz para dar início a um duelo. Uma tradição antiga, uma tradição que eu sabia que Voldemort entenderia.
– Ora, ora, ora – ele disse. – Se é assim... eu não serei desrespeitoso.
E retribuiu a mesura.
Devo ter despertado o interesse dele em duelar comigo, e não me matar. Qual a graça de me matar assim tão diretamente? Talvez ele gostasse de um pouco de desafio. Ou de se mostrar.
Foi um duelo não-verbal, então eu não podia saber que tipo de feitiço ele estava tentando me acertar. Para o efeito do entretenimento, todas as minhas defesas deram certo. Quando o ataquei, não acertei nenhuma vez também.
Estava silencioso, por incrível que pareça.
Mas ele não honrou o duelo por muito tempo. Deve ter ficado irritado que ele não conseguia me acertar com uma Maldição Imperdoável. O que ele fez a seguir... foi apenas apelação. Um pouco de covardia até. Eu teria debochado dele se ele não tivesse sibilado “Avada Kedavra”. Mas não foi para mim. Foi para um dos funcionários que Lily estava tentando levar para fora... Lily se revelou na capa e tentou protegê-lo da maldição, mas foi impossível. O funcionário caiu morto no chão, sem vida, perto de Lily.
Seria a vez dela se um feitiço não tivesse estuporado Voldemort. Não viera da minha varinha, viera da varinha de uma das funcionárias. Era uma mulher alta. Mesmo sem ter tido efeito contra Voldemort, isso o deixou desnorteado. A mulher tinha se levantado com forças e erguido o queixo. Estava a frente de Lily, apontando sua varinha a Lord Voldemort. Trêmula.
Ela ia morrer naquele instante, com certeza, mas fiquei bastante admirado. Admirado que, afinal de contas, alguém pelo menos tentou se defender... Para a minha surpresa, mais dois funcionários também se levantaram. Parecia até um conto de fadas... eu nem acreditei.
– Que bonitinho – disse Voldemort e, então, não quis saber. Lily conseguiu empurrar a mulher que a tinha salvado, mas os outros dois que haviam se levantado morreram naquele instante.
Nesse momento, eu não quis mais brincar.
Descobri que eu precisava ser rápido jogando meus feitiços contra Voldemort, assim nunca dando tempo a ele para erguer a varinha para uma Maldição Imperdoável. Lily conseguiu se enfiar na capa com a mulher, tirando-a para fora do quinto andar. Logo depois, Lily voltou para me ajudar. Nós dois duelamos contra ele. Nunca vamos dar tempo para Voldemort proferir a Maldição Imperdoável. Era esse o segredo, o segredo de sobreviver.
Nós íamos lutar até as últimas forças... e tentaríamos esgotar a dele.
O momento que parecia que estávamos perdidos, em um último ato desesperado, Lily ergueu a varinha para o teto.
Uma luz ofuscou todo o andar do Ministério. Não fora uma luzinha qualquer, ou um flash, foi um clarão prateado capaz de cegar o olho humano. Senti o chão tremer em meus pés. Aos poucos, tudo tremulou ao nosso redor. E então...
O teto despencou sobre nossas cabeças.
– Salvio Hexa! – proferiu Lily. Um enorme escudo de proteção pairou sobre os corpos dos funcionários dementados para que eles não fossem atingidos pelos pedaços enormes que caíam do teto, mas ela se esqueceu de jogá-lo em si mesma, ou apenas foi altruísta demais. Com um simples feitiço de levitação que fez meu nariz sangrar de tanta concentração e força, apontei minha varinha na direção dos tijolos que cairiam sobre ela. No entanto, não foi o suficiente.
Era como se Voldemort não existisse mais e eu apenas precisasse proteger Lily do próprio estrago que ela havia feito.
Mas deu certo... deu certo... Voldemort não estava mais a vista. A poeira, o cimento, as pedras, tudo estava ao nosso redor, separando-nos dele. Ela deve ter se inspirado no que Frank tinha feito na primeira vez que o enfrentou também... fiquei agradecido que o fogo não tivesse sido necessário.
Eu estava distante dela, tive que me proteger do teto ainda caindo aos pedaços contra nossas cabeças. Eu tinha reflexo o suficiente para isso... Mas não encontrei Lily nos destroços... meu coração se desesperou... Comecei a empurrar tudo o que tinha no meu caminho, tossindo e ofegando.
– Lily?! – eu gritei chamando por ela. – Lily! Lily! Por favor, ajudem-me a encontrá-la – eu pedi aos funcionários e eles assim o fizeram...
Por favor, Lily, por favor...
– Aqui! – gritou alguém e eu corri depressa para ajudá-lo a tirar as pedras que estavam afogando Lily, desmaiada. Acho que cheguei a ficar tão desesperado por ter visto parte do seu cabelo vermelho fogo que eu larguei minha varinha e tentei tirar os restos caídos contra o pé dela com minhas próprias mãos. Elas até sangraram.
– Ela está bem? – perguntou alguém.
Carreguei ela em meus braços. Mandei um patrono para qualquer um da Ordem e desaparatei para o Hospital St. Mungus. Lily estava sangrando e desacordada.
Não consegui aparatar dentro do hospital, mas fora, o que me deixou completamente desesperado. Mais do que eu já estava. Conhecia apenas pouco do lugar, embora minha mãe tivesse passado grande parte de sua vida trabalhando nele. Mas talvez nossa situação estivesse tão visivelmente desesperadora, tentando encontrar alguém que pudesse ajudá-la, que imediatamente fui atendido por duas medibruxas... tive que depositar o corpo de Lily em uma cama que eles rapidamente levaram para a sala. Eles tentavam de todos os jeitos reanimá-la enquanto isso...
Foi a pior sensação que tive na vida. A espera mais longa da minha vida, para ter a certeza de que Lily voltaria a ficar bem... de que nada de ruim tivesse acontecido com ela...
– Precisamos que se afaste, James – disse a medibruxa. Ela me conhecia por causa da minha mãe e foi muito atenciosa comigo, embora eu estivesse tentando empurrar sua mão de mim. – Ela vai ficar bem, conseguiremos dar um jeito... fique esperando na sala de espera, por favor?
– Temos que levá-la imediatamente – disse a outra medibruxa que estava verificando algo na barriga de Lily.
– Ela vai ficar bem...?
A primeira medibruxa não respondeu. Ambas ficaram tensas, embora não estivessem querendo transmitir aquela sensação para mim. Ela não ia ficar bem? Ela não ia ficar bem?
– James! – ouvi vozes. Sangrando e mancando, Sirius, Remus... bom, metade do pessoal da Ordem da Fênix estava se aproximando de mim. As medibruxas se afastaram com Lily... foi terrível demais vê-los depressa levando Lily desacordada na cama.
Eu precisei me sentar.
Estava tudo muito confuso. Tudo impossível de colocar em ordem.
Não escutei as discussões dos meus amigos sobre as últimas notícias da batalha no Ministério. Sirius ficou em pé o tempo todo, andando de um lado para o outro, exigindo de qualquer medibruxo que estivesse a frente dele para que desse alguma notícia de Lily.
Mas não adiantou. Não tivemos notícias da Lily pelas próximas duas horas... quando finalmente a mesma medibruxa veio me chamar e também tinha um ar mais calmo.
– Só o marido por enquanto – ela disse ao alvoroço de Marlene, Remus e Sirius. – Lily está se recuperando, depois todos vocês podem visitá-la.
– Eu sou o padrinho deles – disse Sirius depressa se levantando. – É minha obrigação acompanhá-lo nesse momento.
Não era exatamente verdade, mas pareceu impossível deixar Sirius na sala de espera. Eu fui com o meu melhor amigo rever Lily. Entramos juntos na sala onde ela estava deitada. Tinha os olhos fechados para a claridade da janela. Estava inteirinha machucada, precisando de três poções ao mesmo tempo, que estavam depositadas na mesa ao lado da cama.
Sirius ficou um pouquinho longe, apenas assistindo. Eu tive que me aproximar dela, segurar sua mão. Isso a despertou e a fez abrir os olhos, fraquinho, lentamente.
Eu sorri para ela e acho que Lily tentou sorrir também, mas não foi com a boca. Foi com os olhos.
– Oi – eu disse. – Saímos vivos de novo.
Ela tentou rir, mas isso era muito dolorido para ela, então fez uma careta. Eu afaguei seus cabelos despenteados e acariciei seu rosto. Ela não conseguia falar, lágrimas saíam de seus olhos com tanta força que mesmo enxugá-los não estava adiantando.
E então ela disse bem fraca, bem baixinho:
– Desculpa ter brigado com você por causa do saleiro...
– Lily...
– É sério. Imagina se a gente não escapasse dessa vez? Nossa última briga foi por causa de um saleiro estúpido... eu nem me importo com aquele saleiro... eu não sei o que me deu...
– A culpa foi minha por ter colocado o saleiro na gaveta de talheres, em primeiro lugar. – Suspirei e observei seu corpo imóvel por baixo do lençol. A medibruxa entrou novamente para verificar mais algumas coisas em Lily. Ela permitiu que eu ainda continuasse segurando a mão dela nesse momento.
– Essa – disse a medibruxa entregando-lhe um frasco de poção com o líquido rosa – é a mais importante que deverá tomar nos próximos meses...
E então sorriu brilhantemente para Lily que, por alguma razão, tampou a boca para abafar o choro descompassado. Eu não soube decifrar o tipo de choro. O sorriso da medibruxa indicava que tudo ficaria bem, por que Lily estava chorando?
– Eu vou deixá-los a sós – disse a medibruxa, ainda sorrindo.
Quando ela saiu, Lily tentou recuperar a compostura. Enxugou os olhos com as costas das mãos machucadas. Ela estava tremendo.
– Vai ficar tudo bem – eu disse sorrindo também.
– Eu sei, eu sei – fungou. – Sirius – ela chamou. – Estão todos bem?
– Bem preocupados com você – ele disse. – Mas acho que agora eu posso tranquilizá-los... Eu vou... eu vou lá... avisar que vai ficar tudo bem. É capaz da Lene sair quebrando o hospital.
Lily riu, mas as lágrimas não paravam de cair.
Fiquei observando ela quando Sirius saiu. Eu estava com a sensação de que eu queria alcançar o fim do mundo por ela, mas não conseguia chegar lá mesmo com a mais veloz vassoura de corrida. Eu tentava e tentava, mas não parecia possível alcançar meus objetivos.
Quero fazer o mundo melhor para ela... Quero fazê-la parar de chorar... quero acabar com essa guerra.
Ela apertou as mãos nos olhos com força e tomou fôlego para dizer:
– Achei que algo terrível tinha acontecido. Eu fiz aquilo para tirar Voldemort do caminho das pessoas... Não me importei com o que fosse acontecer comigo... Mas isso foi um erro porque eu... eu não estou... não é só a minha vida agora que vai importar... Eu... eu coloquei a vida dele em risco também...
Ela levantou os olhos para mim. Nunca vi tanto medo estancado nos olhos verdes dela. Um medo incomparável ao que sentíamos quando estávamos duelando... um medo incomparável a guerra acontecendo lá fora.
– A vida... a vida de quem, Lily? – eu sabia de quem.
– Do bebê.
– Não vi... não vi nenhum bebê por lá – eu disse pateticamente.
– É porque ele ainda está na minha barriga, James.
Parecia que tinha um hipogrifo bicando o meu coração.
Naquele momento, todas as dores sumiram.
Fiquei bem assustado. Mas não tinha nada a ver com Voldemort.
Até me esqueci quem ele era.
Esqueci do mundo.
Só olhei para Lily. Só importou a Lily.
Ela conseguiu erguer o braço para roçar as costas da mão delicada no meu rosto e, assim, docemente, me contar que estava grávida.
Quis falar alguma coisa, ter uma reação digna e corajosa, mas precisei apenas beijá-la. Nenhuma outra reação seria boa o suficiente. Dizer alguma coisa nunca seria o suficiente. Eu apoiei meus lábios nos dela, e os anos anteriores pareceram pertencer a vida de uma pessoa completamente diferente.
Porque, nos próximos, eu ia ser pai.
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