Prongs
28 Os olhos iguais ao da mãe
31 de julho de 1980. Eu tinha 20 anos.
E meu filho nasceu.
Foi em uma madrugada calorenta, quando Lily começou a se queixar das imensas dores. Contrações. O bebê queria sair, estava preparado para sair, ele precisava sair.
Mas nós estávamos confinados em casa, não podíamos ser vistos, não sabíamos se Voldemort sabia que nosso bebê teria o poder de derrotá-lo em um futuro próximo. Pensei em levá-la ao Hospital St. Mungus o mais rápido possível, mas... não podíamos correr o risco. O risco de que alguém indesejável descobrisse que, realmente, meu filho nasceria no final de julho e que a profecia estava acontecendo.
O bebê de Alice tinha nascido um dia antes. Um dia antes. Pela carta que Frank nos enviou, ele dissera que o parto tinha sido feito pela própria sra. Longbottom.
Lily e eu estávamos sozinhos. A mãe de Lily, três semanas atrás, tinha sido internada no hospital da cidade trouxa devido ao agravamento de seu câncer e não tínhamos quem nos ajudasse. Sirius prometeu que ia achar alguém... talvez alguém da Ordem mesmo... mas Harry não estava com mais paciência.
Lily estava sufocada de dor, mesmo que tentasse se reprimir. Na cama de nosso quarto, quanto mais se reprimia da dor, mais dor ela sentia. Eu precisava fazer alguma coisa. Eu não tinha ideia do que fazer. Eu estava desesperado.
– James! Por favor... por favor...
– Calma, amor...
– Não me peça para ter calma! Não vai dar tempo! – ela berrou.
– Olha pra mim – eu pedi, afagando seu rosto molhado de suor. – Vai dar tudo certo. Nós vamos ter um filho... nós vamos... ele vai nascer e...
Tive uma ideia. A ideia de eu mesmo fazer o parto. Foi aquele tipo de ideia que você tem quando não há mais solução.
– O que está fazendo? – ela gritou desesperada quando eu me postei a frente de suas pernas.
– É, o que você está fazendo, Prongs? – perguntou Sirius no momento em que ele se aproximava do nosso quarto. E trazia com ele uma mulher mais velha do que nós. Já tinha visto ela algumas vezes nas reuniões da Ordem da Fênix. Calada, apenas prestava atenção. Era uma boa mulher.
– Essa é a Arabella Figg – disse Sirius.
– A senhora... a senhora é...
– Sim, sou um Aborto – ela disse. Era filha de bruxos, mas ela mesma não era bruxa. – Mas tenho experiência com partos...
Um alívio percorreu toda a minha espinha.
Ela me pediu para ficar ao lado de Lily. Fez algumas instruções para que Sirius ajudasse a trazer algumas coisas e, depois, só depois que Lily parecia que ia explodir, Sirius se afastou para esperar no banheiro. E eu continuei o tempo todo ao lado dela, enquanto berrava até a voz sair rouca. A mão dela prensava contra a minha como se fosse ferro, mas não reclamei. Nada se comparava a dor que Lily estava sentindo.
– Calma, amor, você vai conseguir...
– SE VOCÊ ME PEDIR PARA TER CALMA DE NOVO EU TE ESTRANGULO! – gritou, chorando.
– Vamos, Lily, ele está quase... – dizia Arabella. – Está quase lá...
Não sei quanto tempo durou, pareceu ter sido o dia inteiro. De qualquer forma, quando escutamos o som de um bebê chorando, todos os problemas que enfrentamos antes, o desespero e medo, simplesmente... sumiram.
Meu corpo amoleceu e eu achei que ia desmaiar. Sem brincadeira. A mão de Lily apenas soltou a minha para que ela pegasse a coisinha pequena e ensanguentada que Arabella entregou a ela com muito cuidado. Estava berrando tanto que parecia que ia perder o fôlego, mas não perdeu, não perdeu. Continuou chorando com todos os pulmões, vivo, finalmente entregue para os braços de Lily, que não berrava ou grunhia de dor. Estava rindo, chorando ao mesmo tempo, olhando apaixonadamente para o nosso filho.
Minha visão estava embaçada e minha garganta seca. Achei que eu estava sem óculos, mas... na verdade eu estava, bem, eu chorei naquele dia.
– Papai, corte o cordão umbilical – disse Arabella sorrindo.
Foi um belo feitiço.
– Obrigada – disse Lily a Arabella, a voz miúda camuflada no choro do bebê.
– Não há de que... não há de que... Imaginei que não seria mais difícil do que gatos...
– A senhora disse que tinha experiência em partos!
– Não disse que era de humanos, eu disse?
Mesmo assim, não senti nada além de uma enorme gratidão por ela. Meu filho nasceu saudável e aquele foi o melhor dia da minha vida. Da nossa vida.
Quando Sirius viu Harry pela primeira vez, alguns minutos depois que nasceu, ele fez uma expressão aflita e coçou a nuca.
– Que coisinha minúscula. Pelo jeito que berrou, Lily, eu achei que sairia um filhote de cervo.
Achei que Lily ia mandá-lo parar naquele lugar, mas ela não desviava os olhos de Harry. Era incapaz. Eu também.
– E esse, Harry, é o meu melhor amigo Sirius Black – eu apresentei a ele.
– Oi – disse Sirius para o bebê. Sirius nunca faria voz fofa, mas estava bem sorridente. – Tudo bem aí, Harry?
Ele berrou. Harry tinha cabelinhos pretos, o que me fez pensar que ele realmente adquiriria a minha beleza incrível e eu sorri orgulhoso com isso. Achei que nunca haveria alguém com os mesmos olhos de Lily, mas me enganei quando Harry abriu os dele pela primeira vez.
E era a primeira coisa que alguém reparava quando o via pela primeira vez. Recebemos muitas visitas, já que não podíamos sair da casa, e todo mundo, sem exceção, comentava quando o via:
– São os seus olhos, Lily.
Em menos de uma semana de vida, Harry ganhou diversos presentes, todos esses brinquedos e acessórios para bebês. Roupinhas, macacões, berço, canecas e o melhor foi o suéter minúsculo que Sirius, Remus e Peter deram a ele — juntos. Era um suéter vermelho com listras douradas e na estampa um chifre de cervo, apenas para representar. Ainda ficava muito grande nele, porque seu corpo era pequeno, recém-nascido, mas com certeza nós o guardamos para que ele usasse no próximo Natal.
Harry foi a melhor coisa que nos aconteceu. Lily pareceu ter nascido para esse momento, porque ela sabia o que fazer, mesmo que em alguns momentos nós dois sozinhos com um bebê, sem experiência alguma, ficávamos nervosos e assustados. Mas nada que não conseguimos fazer juntos. Nada que não déssemos contas, mesmo que amamentar, dar banho, trocarmos a frauda, não adiantava fazê-lo parar de chorar.
Eu sempre tinha confiança para segurá-lo, mas Lily precisava me ajudar a colocar em meu colo. Meio sem jeito, conseguia confortá-lo ali, ainda nem acreditando direito que ele era meu filho. Que eu tinha um filho.
Aos poucos, ele foi parando de chorar... e só ficou me observando. Não tive certeza se ele conseguia me enxergar, se ele sabia quem eu era, se ele sabia o que eu era, se ele sabia quem ele próprio era, mas ele estava olhando em minha direção.
– Oi Harry – eu disse sorrindo. Ele sentiu o movimento que Lily fez perto de mim e olhou para ela quando segurou sua mãozinha. Aqueles dedinhos tão frágeis, miúdos, que se moviam. – A mamãe não é linda? Sim, é muita linda... Mas olha para o papai, eu sou mais lindo.
Lily riu.
– Não vamos disputar a atenção dele, vamos?
– Acho que devemos ter mais uns quatro desses – eu dei a dica. – O que acha?
– Vamos com calma, amor – rindo, ela deu um beijo em mim e depois outro na testa de Harry. Falou que ela mesma precisava de um bom banho depois de passar os primeiros dias com Harry de forma tão agitada, surpreendidos com o que ele representava para nós.
Quando Harry dormia, sua expressão de que tudo estava bem para ele, de que não havia nada no mundo que o preocupasse... simplesmente fazia com que também não ficássemos preocupados com mais nada. Só com ele.
Lily dizia que ela podia olhá-lo por horas e nunca se cansaria. E percebi que isso era verdade quando a vi debruçada em um sono profundo ao lado do berço, onde Harry também dormia tranquilo. Foi um desafio tremendo entrar no quarto sem fazer um barulho, mas precisei chamá-la com toda a calma... segurando seu ombro.
– Ei, amor-
Ela pulou de susto quase me socando. Acabou empurrando o berço sem querer. Nós dois olhamos temerosos para o Harry, onde ele aos poucos abria os olhos e...
– Não, não, não – disse Lily depressa. – Não chora, Harry...
Lily o pegou no colo e começou a balançá-lo em um ritmo suave, mas não estava adiantando. Ela estava tão exausta, tão sonolenta, que eu precisei me aproximar.
– Deixa comigo – falei. – Você precisa dormir, Lily. Ei – eu sorri ao ver sua expressão. – O que acha que vou fazer com o nosso filho? Levitá-lo?
Lily entregou Harry para mim, sem responder, porque ela tinha essas ideias que eu ia aprontar alguma azaração contra ele. Mas claro que isso era coisa de mãe preocupada – e de pessoa que conviveu comigo por anos. Ela acabou sorrindo quando peguei Harry no colo e tentei fazer de tudo para acalmá-lo do susto. Percebendo que eu era bom nisso, Lily se sentiu na segurança de deixar Harry sozinho comigo.
Fiquei alguns minutos colocando Harry de volta para o sono dele. Agora quando eu aproximava meu dedo indicador da sua mão, aqueles dedinhos fechavam em torno dele. Era um aperto bem forte. Finalmente quando Harry voltou a dormir, eu bocejei e cocei os olhos para sair do quarto. Apesar de amá-lo, eu fiquei feliz por ele ter voltado a dormir. Precisava ficar com a minha mulher, embora eu soubesse que ela estaria exausta demais.
Em nosso quarto, deitada na cama, Lily estava com os olhos bem abertos.
– Você o fez parar de chorar? – perguntou estupefata.
– Talento – eu disse com modéstia, e ela apenas sorriu.
Lily ergueu o edredom ao lado dela e apalpou o colchão para que eu me deitasse.
– Faz tempo que nós não improvisamos – comentei, abrindo devagar os botões da minha camisa.
– Pois faz – ela concordou. – Você não espera ficar fazendo isso toda hora sendo que temos um filho para cuidar agora.
– Olha, na verdade, eu ainda espero fazer a noite inteira. Mas se você estiver cansada...
Eu sabia que insinuar sua exaustão a fazia querer demonstrar o contrário.
Conhecia Lily. E, felizmente, ela foi previsível.
– Cansada? – ela se ajoelhou e se aproximou de mim para me ajudar a tirar minha camisa. Quando abriu a calça, ergueu os olhos para mim. Seriamente, revelou: – Nunca.
Ergui a camisola dela e nos beijamos com força, talvez para sanar a vontade e a saudade. Eu queria ela o tempo inteiro, ainda. Não tinha mudado nada, mesmo agora com um filho. Para falar a verdade, saber que ela teve um filho meu fez com que eu ficasse ainda mais louco por ela. Mais excitado por saber que ninguém, ninguém mais a tinha da mesma maneira. Nunca haveria.
Eu era feliz com ela. Eu fui feliz com ela. Eu não seria feliz com mais ninguém.
– Ohh, isso. – Nada era mais delicioso do que ouvi-la gemer fraquinho bem perto do meu ouvido. Passamos tempo suficiente casados para conhecermos o ponto fraco de cada um. O meu era Lily gemer, ofegar, sussurrar, no meu ouvido. E quando ela mordiscava o meu lóbulo? Loucura. Ela o fazia sempre, especialmente no momento em que eu estava quase gozando. Nossos corpos se moviam em uma sintonia que adquirimos ao longo do tempo. Lily gostava de um ritmo lento, no ponto certo. Ela gostava de beijos. Não importava se era na boca, nos ombros, no peito, ela apenas gostava quando eu não dava só atenção para a penetração. Mesmo assim, chegava um certo momento em que era impossível controlar o corpo. Nesse momento, ela pedia para que eu fosse rápido, forte. Eu a obedecia em tudo. E o melhor de ser casado com Lily era que ela não precisava que eu pedisse. Ela me conhecia, ela sabia o que eu precisava, o que eu amava que ela fazia comigo. E se Lily também não gostasse, de fato ela não teria passado o momento prazeroso na região do meu membro, chupando-me com toda a atenção e delicadeza que só ela tinha. Eu me sentia bem por ela não ter nenhum problema em ficar assim comigo, porque a língua e a boca dela, tudo, davam-me a sensação de que o mundo podia acabar, mas ainda assim eu morreria feliz.
Ela subiu os lábios até meu peito, acariciando meus ombros. E, então, depositou um beijinho nos meus lábios. Nós estávamos embaixo do edredom, sem roupas. Apesar do frio, estávamos quentes, grudados, peles suadas. Eu acariciei seu rosto perto do meu. Lily fechou os olhos, o queixo apoiado no meu peito.
– Você é boa nisso – eu elogiei, ainda ofegante.
– Como pode saber? – abriu um pouquinho os olhos para perguntar, sorrindo toda descrente. – Não tem com quem comparar, tem?
– Não preciso comparar para saber. Não vai aceitar o elogio? – ergui uma sobrancelha e ela riu.
– Sempre é bom. Eu nunca quero perder isso, James – ela murmurou, pensativa. – Não quero ficar sem isso.
– Também não.
– Não só o sexo, entende? Eu gosto do jeito que você fica... ou do jeito que eu deixo você. E eu gosto do jeito que você me deixa. Não quero que um dia isso fique entediante.
– Ei, você é casada comigo – eu a lembrei. – E desde quando eu te deixo entediada?
– Tem razão. Era só o que eu estava pensando. O que você está pensando?
Fui bem sincero:
– Que essa foi a melhor transa que tivemos.
– Você fala isso toda vez depois que transamos.
– Não tenho culpa de que ficamos incríveis a cada noite.
Ela riu. Mas depois ficamos um tempinho calados, até Lily confessar:
– Você pensa no que Dumbledore nos contou, não pensa?
– Sobre o Harry com menos de um mês de idade dar medo em Voldemort? Sim, o tempo todo.
– Isso não assusta você?
– Na verdade, isso me deixa bastante orgulhoso. Se a profecia for verdadeira... saber que meu filho pode ter esse poder de acabar com o filho da puta. Cara, é incrível.
– Se a profecia for verdadeira, Voldemort vai fazer de tudo para que não aconteça.
– Ele pode tentar – eu dei de ombros. – Vai perder é tempo.
Ela me olhava apaixonadamente.
– Que foi? – perguntei.
– Você sabe que uma das coisas que eu sempre amei em você foi sua estupidez ao ser tão corajoso, não sabe?
– É o meu charme, não posso negar que isso excite algumas grifinórias.
– De fato, excita – ela sorriu travessamente e beijou meu pescoço. Apesar de estarmos quase despencando de sono, continuamos a noite inteira.
E foi um grande erro porque acordamos depressa umas duas horas depois que finalmente conseguimos sossegar do sexo e dormir.
Se Harry não chorasse tanto quando precisava de alguma coisa, eu acordaria ainda com a ideia de que estive sonhando. Mas era bem real. Bebê, comida, banho, limpar, admirar Lily amamentando-o em nosso sofá, ao lado da gata. Era real porque meus dias se resumiram a ele. A ele, as notícias da Ordem, e depois a ele de novo. Eu nunca deixava Lily cuidar sozinha. Éramos uma equipe.
– Frauda.
Eu pegava a frauda.
– Lixo – ela mandava para eu jogar a velha no lixo. – Macacão.
Ao longo de dois meses, Lily já o trocava com mais facilidade, e Harry ajudava ficando mais levemente tranquilo. Seus movimentos, reparei, estavam menos descoordenados. Agora ele nos encarava, virava o rosto de um lado para o outro, reconhecendo a gente e então...
Foi ali, naquele dia tão normal, que ele abriu um enorme sorrisão completamente desdentado...
– Ele tem o sorriso igual o seu – disse Lily encantada. – Até parece que vai aprontar alguma coisa agora.
O sorriso dele era o melhor, fazia a gente esquecer o fato de que não dormíamos por causa dele. Harry começou a ter vontade de pegar qualquer coisa que Lily deixava ao redor dele. Sirius era tipo a pessoa que mais dava presente ao Harry. Basicamente toda semana trazia algo novo, que na maioria das vezes Harry babava em cima.
Uma vez ele não se conteve e perguntou a Lily se podia segurá-lo. Harry ficou encarando-o bem seriamente, com a boca aberta, tipo “por que você está me segurando?”, ou “por que você fez minha mamãe parar de me segurar?”. Mas ele não pediu Lily de volta.
– Ele me assusta, Lily – confessou Sirius, fazendo-nos rir. – Para de olhar para mim – pediu ao Harry. – Para. Olha para o seu pai.
Sem aviso algum, Harry levou a mão, desajeitado, até o nariz de Sirius. Era o que ele fazia para dizer oi ao Sirius. Eu já queria que ele fosse o padrinho de Harry também, mas por incrível que pareça, Harry que basicamente o chamou para isso. Ele gostava bastante de Sirius, mais do que qualquer um dos nossos outros amigos.
Sirius tem ficado mal humorado com as coisas da Ordem, queixando-se até mesmo de Dumbledore por parecer que está ocultando algumas informações da gente... mas Harry o fazia sorrir sempre. Porque bebês não faziam nada contra a gente e ter um pouco de inocência naqueles tempos era uma forma de se acalmar.
Harry dormia por mais tempo agora. Sorria quando fazíamos algo por ele. Gostava da hora do banho, brincava com a água ao redor dele na banheira. Lily o segurava dentro da banheira nesse momento, sorrindo a cada segundo, e eu fazia um feitiço com a varinha para a água flutuar ao redor da cabecinha dele. Harry acompanhava o movimento da água e quando tentava pegá-la, eu parava o feitiço e a água caía suavemente pelo seu corpo. Ele sorria com isso, embora algumas vezes ficasse incomodado por não conseguir pegar a água.
Não podíamos sair com Harry pela rua, e isso deixava Lily entristecida. Não zangada, apenas triste. Ela queria dar a ele a chance de conhecer o jardim, as flores, os passarinhos e novas pessoas, mas o máximo que se podia ser feito era segurá-lo na batente da janela para que ele observasse toda a movimentação de Godric’s Hollow. Recebemos notícias através de Peter – ele era mandado por Dumbledore para nos atualizarmos. Moody havia perdido pedaço do nariz ao duelar com Evan Rosier; o final resultou na morte do Comensal. Peter também nos disse que haviam outros procurando-nos. Especificamente a nós. Não Alice, nem Frank e nem seu filho Neville. Estavam procurando a gente.
– Mas não se preocupem – disse Peter –, ninguém revelou nada.
Peter não tinha jeito com bebês. Uma vez Harry jogou nele um brinquedo, foi um ato completamente involuntário que fez Lily ralhar com ele. Peter acabou indo embora de casa muito emburrado.
Era o frio de novembro, Lily estava lendo o Conto de Beedle, O Bardo para o Harry quando Dumbledore nos fez novamente uma visita. Dessa vez, ele quis segurar Harry. Foi engraçado porque Harry tentava puxar sua barba toda vez, além de tirar os óculos dele, como ele sempre fazia com o meu.
– Harry, nele não, nele não – eu disse rapidamente, tentando afastar a mão dele do rosto do meu ex-diretor. Mas Dumbledore sorriu.
– Não tem problema. É um garotinho esperto.
Lily aproximou-se da sala com chás e bolachas para oferecer a ele.
– Peço desculpas, diretor – falou. – Nós adoramos que venha visitar o Harry, mas... não consigo deixar de pensar que vem com notícias.
– Eu também peço desculpas. Gosto sempre de ser uma agradável visita, mas sei o que isso representa a vocês.
– Pode nos contar – eu disse. – Pode dizer o que tiver que dizer. Vamos enfrentar isso. Lily e eu concordamos. O que for preciso.
– Como falei a vocês, tenho um número considerável de espiões – ele disse. – E um dos meus espiões mais... talvez, confiáveis... me revelou que Voldemort está consciente da profecia e do conteúdo dela. Está ciente de que há dois garotos que nasceram no final de julho com o poder de derrotá-lo. Por alguma razão, ele está interpretando que esse é o seu filho, Lily.
Nesse momento, Harry fazia bolhinhas de saliva com a boca, tentando alcançar os óculos de Dumbledore de novo.
Tinha lágrimas nos olhos de Lily.
– Não consigo imaginar.
– Harry agora é uma ameaça a Voldemort – continuou Dumbledore. – E ele vai tentar, não vou mentir, vai tentar destruí-lo. No entanto, ainda não tenho mais nenhuma informação sobre os passos dele quanto a isso. Mas vocês devem se esconder. Aconselho que saiam de Godric’s Hollow.
– Mas ninguém sabe que vivemos aqui. Quero dizer, ninguém que trabalhe para Voldemort e...
Parei aos poucos de falar, percebendo a expressão dele.
– O senhor acha que algum de nós trairia a Ordem?
– Precisamos tomar cuidado com todas as possibilidades.
– Isso é um absurdo – eu retruquei. – Ninguém faria isso. Depois de tudo o que lutamos? O senhor está ficando paranóico.
– Posso estar, James – ele confessou, entregando-me Harry de volta. – Eu espero estar apenas paranóico. – Levantou-se e disse para Lily. – Saibam que podem contar com minha ajuda. Use a Capa da Invisibilidade quando precisarem sair agora, James. O mesmo a você, Lily.
Quando Dumbledore foi embora, Lily pegou Harry e o levou para cima. Eu a segui, percebendo sua agitação.
– Não vai adiantar nada sairmos daqui, James – ela falou. – Não podemos ficar nos escondendo...
– Eu sei, eu concordo completamente com você. Mas, amor, se Voldemort realmente está atrás de nós, é insensato que fiquemos esperando ele chegar até aqui. Precisamos agir... Algum plano, qualquer coisa. Você pode colocar seu feitiço de proteção ao redor da casa.
– Fiz isso desde o dia em que Dumbledore nos avisou da profecia, James. Eu não posso correr com Harry pelo mundo, me escondendo e achando a cada maldito segundo que em alguma hora ele vai nos encontrar.
Ela jogou o cabelo para trás, como faz quando está nervosa e ansiosa. Nesse momento Harry encostou sua cabeça em seu ombro, fechando os olhos verdes iguais ao dela, acalmando-se, com sono. Isso me deixou em alerta. Fui sempre bom com planos e não decepcionei naquele instante.
– Dumbledore desconfia, mas eu não desconfio dos meus amigos. É a única forma de realmente nos protegermos. Faremos o que Dumbledore sugeriu. Sairemos de Godric’s Hollow. Ou... vamos contar que saímos. Fazer todos acharem que estamos em outra cidade por exemplo, nos escondendo. Se Voldemort ou os Comensais da Morte vierem nos procurar, eles sempre irão procurar no lugar errado.
– Damos a informação de que saímos de Godric’s Hollow, mas ainda continuamos aqui?
– Sim. Eu tenho dinheiro pra comprar milhares de casas ao redor do mundo.
– Está querendo despistar?
– É, mais ou menos.
– A ideia é arriscada.
– Pode nos afastar do perigo por algum tempo. Pelo menos para termos certeza de que Voldemort tentará alguma coisa. Para ele, estaremos morando na Escócia, por exemplo. Se ele tentar alguma coisa, vai tentar no lugar errado.
– E como vamos ter certeza de que eles vão tentar nos procurar por lá?
– E aí que Sirius entraria. Ele está procurando algum lugar novo para morar. Eu acho que vivemos perigo suficientemente para eu ter certeza de que ele faria isso por nós três.
Quando contamos nosso plano para Sirius, ele não hesitou.
– Posso fazer isso. A ideia então é morar em uma casa com o seu nome?
– Sim.
– E esperar Voldemort aparecer?
– Não devíamos pedir isso – murmurou Lily. – É arriscado demais para você, Sirius-
– Não me ofenda – ele levantou a mão. – Não me ofenda. Eu vou fazer, serei a isca. Não vamos deixar ninguém chegar perto do Harry – ele acrescentou, abanando um chocalho em forma de pomo de ouro acima da cabeça dele. – Vocês contaram para mais alguém?
– Dumbledore diz que não é uma boa ideia espalharmos isso para todo mundo. E concordamos com ele.
– Bem, ele está certo. Vocês têm falado com Remus ultimamente?
– Não. Ele tem ficado meio obcecado em tentar arrumar um emprego pra fazer a gente parar de ajudá-lo – respondi. – Não tem passado muito por aqui.
Ele não disse mais nada depois, mesmo que eu tivesse perguntado o motivo. Não acreditei que Sirius podia estar desconfiando de um de nós. Estava ele ficando paranóico também? Tínhamos jurado solenemente.
Lily não dormiu muito bem nas próximas noites e dessa vez Harry não teve nada a ver com isso. Desde que enviamos Sirius para nos ajudar a despistar qualquer tentativa de Voldemort de nos encontrarmos, ela ficara ansiosa, esperando sempre a notícia de uma carta pela coruja dele, vindo da pequena cidade da Escócia. Nenhum ataque. Passou a corresponder com Sirius quase que diariamente, aliviada que sempre eram notícias simples, nenhuma tragédia ou movimentação suspeita de Comensais. Ela sabia que era arriscado para a vida de Sirius, mas se ele não nos ajudasse, seria arriscado para Harry. Dependíamos de Sirius para continuarmos escondidos, e confiamos nele mais do que qualquer outro. Era um plano de conhecimento dele e de Dumbledore, apenas. E sabíamos que se algum Comensal aparecesse na cidade da Escócia, era porque alguém da Ordem teria falado alguma coisa. Algum Comensal teria forçado a contar, porque eu não conseguia, não podia acreditar que alguém faria isso.
Por essa razão, por acharem que estávamos escondidos em outro país, não tivemos mais visitas em Godric’s Hollow. Mesmo com o plano com Sirius, Lily conjurou o melhor feitiço de proteção ao redor da nossa casa, além de ter feito inúmeras árvores crescerem ao redor do terreno para que ficasse devidamente escondida, longe dos olhos curiosos dos trouxas. Lily sentia falta das amigas. Nossa única e inevitável visita continuou sendo Batilda Bagshot. Mesmo que Lily se certificasse de não ligar as luzes durante a noite, Batilda aparecia com frequência só para ver o Harry. Lily não reclamava, e nem mesmo eu. Era bom para Harry sempre ver um rosto novo. Não queríamos que ele ficasse trancado para sempre ali em casa, embora não tivéssemos escolhas.
Foram semanas difíceis para nós. Tivemos um Natal absolutamente tranquilo, sozinhos, apenas nós três. Recebemos os presentes por Sirius, uma vez que os dos outros amigos estavam sendo enviados para a residência em meu nome na Escócia.
Lily se surpreendeu com o que ganhou. Petunia lhe enviou uma foto do seu filho, gorducho e rabugento, junto com um vaso horripilantemente horroroso que, segundo a carta da irmã, poderia combinar com a nossa casa.
– Podemos deixá-lo em um canto bem escondido – disse Lily. Era incapaz de não fazer uso dos presentes que ganhava. E talvez ela tivesse ficado agradecida por Petunia ainda se lembrar dela.
A sra. Evans faleceu algumas semanas depois, infelizmente perto do aniversário de Lily. O pior de tudo, para Lily, foi ela não poder ir ao funeral. Pelo menos não sem a Capa da Invisibilidade. Apenas por esse motivo, pelo motivo de medo de continuar sendo tão odiada por Petunia, enviou-lhe uma carta explicando o motivo de estar precisando se esconder. Petunia nunca respondeu a carta. Provavelmente ela culpava a mim. Lily chorou por dias e eu acho que se Harry não existisse em nossas vidas, ela não teria voltado a sorrir tão cedo.
Harry cresceu rápido. Foi quase como um piscar de olhos. Lily não precisava mais amamentá-lo nos seios, fazendo assim com que aprontasse uma deliciosa mamadeira toda vez que ele precisava. Sempre terminava jogando a mamadeira no chão e ria com o feito, observando ela cair e rolar pelo chão. Deixávamos ele brincando com os inúmeros brinquedos que juntamos durante os seus seis meses... aos poucos ele já parecia mais independente, porque conseguia se sentar quando preparávamos suas roupas, e os sons que saiam da boca dele eram repetitivos, algo tipo “bah bah bah bah bah” quando olhava todo sorridente para mim enquanto arrumava seu macacão.
– Bah bah bah – eu disse. – Você tem tanta razão.
– Bah – ele disse de novo.
– Bah – eu concordei. E ele tentava arrancar meus óculos.
– Não tira os óculos do papai, querido – disse Lily. – Ele não vai conseguir te enxergar desse jeito.
– Oh meus olhos! – eu exclamei dramaticamente, fazendo caretas. Harry dava risada.
Harry curtia colocar tudo o que via na boca. Babava em cima dos brinquedos, do controle e seu objeto preferido, com certeza, era a varinha. Acho que de tanto nos ver fazendo feitiços pela casa, ele conseguia imitar os movimentos. O feitiço preferido dele era bah.
Ele sempre dizia:
– Baaaah.
E acenava com a varinha.
Nada acontecia, claro. Uma vez ele ficou tão irritado que tacou minha varinha longe.
– Não se preocupe, Harry, um dia vai aprender – Lily contava a ele. – É por isso que todos os bruxos, como você, irão para Hogwarts. Magia é algo que vem dentro de você, mas apenas se desenvolve quando aprendemos os princípios...
E Lily ficava contando tudo sobre Hogwarts para ele, mesmo que ele não tivesse a mínima ideia do que ela estava falando. Uma vez ele até dormiu no meio das histórias que contávamos a ele. A partir daquela noite, sempre contamos algo sobre Hogwarts. Durante umas das minhas narrações sobre como ganhei a minha Capa da Invisibilidade, mostrei a capa para ele. Harry achava divertido quando eu tampava minha cabeça para ela ficar invisível. Abria um daqueles sorrisos de um dente mas maravilhoso quando eu voltava a aparecer. Porém, quando eu desapareci na capa, ficando completamente invisível, ele reclamou com sons da boca. Achou que eu tinha sumido e chorou um pouco. Voltou a sorrir quando eu apareci.
Harry gostava de tacar as coisas no chão, só para que eu fizesse um feitiço para levitá-las. Uma vez ele estava de bruços no chão e tentou ficar apoiado com os joelhos e as mãos para alcançar o pomo de ouro de plástico dez centímetros a sua frente flutuando. Foi uma tentativa corajosa de engatinhar para apanhar o pomo de ouro. Naquele dia, eu soube que ele seria um excelente apanhador. Mas se desequilibrou, caindo com o queixo contra o chão. A dor o pegou de surpresa e chorou por um tempinho.
– Um beijo da mamãe para sarar – eu andei com ele em meu colo até a cozinha. Lily estava distraída com a comida e o viu com os olhos cheios de lágrimas. – Mamãe, um beijo pra sarar. Ele tentou engatinhar e caiu de boca no chão.
– Ele tentou engatinhar? – ela exclamou, beijando-o. – E você não me chamou pra ver isso?
– Não deu tempo. Ele me surpreendeu também.
Harry abriu os braços para ir com a Lily. Parou de chorar quando ela o pegou. Ele agora ficava bastante inquieto no colo, tentando se jogar para cima e para baixo. Ficava inquieto em todos os momentos. Rolava pela cama quando tentávamos por roupa nele, as vezes até desistíamos só para vê-lo engatinhar no colchão. Fazíamos brincadeira com ele. Em poucos dias, conseguiu apanhar o pomo de plástico. Como recompensa pelo seu belo esforço, Lily entregava-lhe a mamadeira e ele ficava quietinho, encostado ao seu peito.
Eu saí do banho e a vi dormindo com ele em seu colo. Os dois respiravam quase no mesmo ritmo. Enxuguei meus cabelos com a toalha e tentei não fazer nenhum barulho para pegar minhas roupas... mas ouvi um barulho forte vindo do primeiro andar.
Peguei a varinha imediatamente, Lily se levantou depressa. Olhamos alarmados. Harry ainda continuava dormindo no colo de Lily.
– James – ela grunhiu, mas eu já tinha saído do quarto em disparada.
Estava escuro na sala, e silencioso. Desci as escadas. Vi um vulto. Segurei fortemente a varinha em minha mão. Mesmo de toalha na cintura, eu ia enfrentar se Voldemort estivesse ali, mas era só o Sirius.
– Quer matar a gente de susto? – eu quase berrei.
– Foi mal – ele disse. – Precisei vir o mais depressa possível. Dois Comensais da Morte por perto. Não me atacaram porque eu me disfarcei de animago. Mas invadiram a casa.
– O que está acontecendo? – a voz de Lily, baixinha, chegou até nossos ouvidos. Ela descia as escadas, ainda com Harry no colo.
Nós tivemos que cochichar.
– Descobriram o esconderijo na Escócia – eu disse.
Ela ficou tensa, apoiando a mão na nuca de Harry, como se quisesse protegê-lo ali mesmo.
– Provavelmente acharam que vocês já tivessem sido avisados e fugiram para outro lugar a tempo. Logo estarão procurando de novo.
– Eles só não podem saber que ainda estamos em Godric’s Hollow.
– Então temos que ir para outro lugar imediatamente, de qualquer forma. Quero dizer, eu tenho que ir. Temos a ideia concreta agora... Voldemort está procurando vocês – ele disse apenas. – Mas estarei aqui para continuar a despistá-lo. Só queria que soubessem disso. Como está o Harry?
– Aprendeu a engatinhar – contei, mas Sirius não ficou muito tempo para ver, aliás, porque Harry estava dormindo e ele precisava atualizar Dumbledore.
Quando voltamos a ficar sozinhos no silêncio da casa, Lily devolveu Harry ao berço. Por sorte, ele não acordou.
Na cama, Lily não conseguiu voltar a dormir. Eu acariciava distraidamente seu cabelo ruivo e observa sua expressão aflita ao meu lado.
– Enfrentamos Voldemort três vezes – ela sussurrou. – Podemos enfrentá-lo quantas vezes for necessário, não podemos?
– Sim.
– Mas... mas pode ser que...
– Não fala – eu disse severamente.
– James, se algo acontecer... com nós dois... precisamos ter certeza de que Harry ficará em boas mãos. Se algo acontecer... a única pessoa que ficaria com Harry, que faria isso por nós, é o Sirius, não é? Se algo acontecer a nós dois, o Harry ficará com ele. Tudo bem?
– Por favor, Lily...
– Estou falando sério.
– Tudo bem – eu dei um suspiro. – Mas não pensa nisso agora, tente dormir um pouco.
– James, ele só tem sete meses – falou inconformada. – Por que... eu não consigo pensar que isso é possível. Meu filho só tem sete meses.
– Nada vai acontecer ao Harry – eu disse com firmeza. – Não vamos deixar nada encostar nele.
Beijei sua testa e ela me abraçou para dormirmos. Ou pelo menos tentarmos.
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