Prongs
27 Nunca desperte uma grávida adormecida
Tive uns daqueles sonhos em que eu saí vivo depois de duelar com Voldemort e Lily destruiu o teto do quinto andar do Ministério da Magia para escaparmos. Depois, no hospital St. Mungus, ela me contou que estava grávida.
Não era um sonho, mas parecia. Parecia que tudo tinha virado do avesso. Em um dia que achei que ia perder Lily, descobri que ganharia mais um para amar... se eu já não estivesse amando.
Ela ainda precisou ficar alguns dias nos cuidados da medibruxa para sarar dos machucados e dos ossos que havia quebrado. Disseram que foi meio que um milagre nada ter ocorrido... ele ainda estava lá, na barriga de Lily, apenas com algumas semanas. Quatro, ouvi a medibruxa confirmar a Lily. Meu filho naquele momento era menor do que um feijãozinho de todos os sabores.
Nossos dedos estavam entrelaçados sobre seu abdômen. Não passei um dia longe dela no hospital e acabava dormindo ao seu lado na cama, embora não tivesse lá muito espaço para nós dois. Mas eu conseguia me enfiar embaixo do lençol, encostar meu peito as suas costas e meu rosto no seu ombro para dormirmos. Desde o dia em que nos casamos, nunca deixamos de dormir juntos.
E dessa vez não parecia que estávamos sozinhos... parecia, de alguma forma, que não era somente nós dois.
– Preparada para voltar? – cochichei quando percebi que ela estava acordada porque seus dedos acariciavam as costas da minha mão, que não abandonavam seu abdômen. Eu acho que eu queria ter uma prova concreta de que era verdade, queria sentir a verdade de que eu seria pai, ela seria mãe e nós teríamos um filho.
– Sempre – ela sorriu. Beijei seu rosto, agora intacto devido as poções que fizeram com que ela sarasse e se tornasse saudável novamente. Eu estava tão aliviado, que já nem me lembrava da confusão no Ministério. Não saía da minha cabeça que ela estava grávida. Não saía um segundo da minha cabeça.
Após atualizarmos nossos amigos que estávamos bem, voltamos para casa. Lily decidiu, e eu concordei com ela, que esperaríamos mais um pouco para darmos a eles a notícia. Concordei com ela, mas contei a Sirius no mesmo dia, através do espelho que ainda tínhamos para nos comunicar.
– Grávida, tipo grávida?
– Que outro tipo seria?
Ele estava sorrindo na imagem do espelho.
– Então Prongs vai ter um filhotinho.
– Lily agradeceria se você não contasse para o pessoal ainda-
– Oi James! – exclamou Marlene. E foi então que eu percebi que Sirius não estava sozinho na cama dele, quando Lene apareceu na imagem do espelho ao seu lado. – Parabéns aos dois!
– Vocês não tinham parado com isso? – perguntei com um riso aflito.
– Sim, mas achamos que depois da batalha no Ministério nós precisávamos...
– Relaxar um pouco – completou Sirius. – Mas prometemos que é a última vez.
– A última – concordou Marlene.
– É o Sirius pelado embaixo do lençol? – a voz de Lily me fez pular de susto. Ela chegou devagar atrás de mim no encosto do sofá para espiar o espelho por cima do meu ombro. – Eu prometo não achar isso estranho, amor.
Sirius virou o espelho para mostrar Marlene ao lado dele. As duas deram tchauzinho.
– E eu prometo não ficar chateada que você não ia me contar que está grávida agora, Lily – disse Marlene, embora estivesse sorrindo.
– Queríamos que passasse mais um tempo até contarmos... Mas é claro que não há segredos na relação do Sirius com James.
– Em defesa ao Prongs – disse Sirius – ele é obrigado a me contar tudo desde que sou o padrinho de vocês.
– Fico feliz que esteja se empenhando nas obrigações de ser nosso padrinho, Pads – disse Lily.
– Sem problemas, Lily. Alguma coisa que posso fazer por vocês?
– Claro. Pedir a Voldemort para dar um tempo – respondeu Lily. – E meio que deixar todo mundo em paz.
– Posso tentar – disse Sirius lealmente. – Não prometo que sairei umas três vezes vivo como vocês. Mas, claro, posso tentar.
– Obrigada! E agora é o tempo do Prongs ficar com a mulher dele, ok? – Lily se debruçou para tirar o espelho da minha mão, interrompendo os protestos de Sirius. Rindo, eu a puxei para o meu colo e ela me apertou em um beijo que envolveu nossas línguas e as mãos dela arrancando minha camiseta em um movimento rápido.
Tirei um pedaço de seu cabelo do rosto quando nos encaramos. Ela sorriu fraquinho para mim, sentada em meu colo. Seus dedos apoiados no meu peito subiram até o meu rosto e ela acariciou meus lábios. Não me contive e mordisquei a ponta do seu polegar suavemente.
Devagar desabotoei sua blusa. Quando cheguei ao último botão... não consegui deixar de sorrir quando olhei para sua barriga. Eu não sei, era um sentimento contraditório de susto e felicidade... um medo que eu nunca senti antes. Um medo que me deixava corajoso.
Comecei a pensar nas possibilidades, comecei a pensar em tudo, em como eu poderia ser pai e que essa ideia nunca tinha sido absurda para mim, na verdade. As vezes eu me pegava pensando em como deixaria meu legado e que a primeira coisa que eu ensinaria para o bebê era a voar numa vassoura de corrida, ensinar a ele tudo o que eu aprendi com meu pai ou até o que eu aprendi por mim mesmo...
– Como você está se sentindo? – Lily perguntou para mim. – Em uma palavra. Seja sincero.
– Em uma palavra? – pensei e disse: – Completo. E você?
Lily não tinha uma palavra que definisse o que ela estava sentindo, mesmo que buscasse em todos os dicionários de todas as bibliotecas dos mundos. Ao longo da semana eu reparei que ela sentia tudo ao mesmo tempo em um curto período do dia.
De manhã era o mais intenso. Eu geralmente era o primeiro a acordar, acostumado a ficar observando-a dormir, mas o estômago de Lily não colaborava, o que a fazia se levantar abruptamente para ir ao banheiro. Não gostou que na primeira vez que vomitou eu tinha tentado ajudá-la, preferindo que eu não a visse daquele jeito. E eu disse “Lily, isso é ridículo, deixe-me ajudá-la”. E foi o meu primeiro erro.
– Rídiculo? Você acha que o fato de eu estar grávida é ridículo, James Charlus?
Edgar Bones, responsável e pai de uma família de nove filhos (teve trigêmeos no fim de novembro), disse que os nuances de humor das mulheres eram normais.
– Você precisa ver o jeito que a minha mulher ficou quando eu troquei a nossa cama por um carro trouxa. – Mas acrescentou para si mesmo depois de franzir a testa. – Se bem que ela não estava grávida. E eu acho que já contei essa história pra você.
Dorcas ficou admirada, eufórica, por Lily. Em menos de dois meses, já queria dar nome ao bebê.
Moody deu tapinhas em meus ombros e me ofereceu gim.
– Vai precisar aproveitar enquanto ainda tem tempo pra dormir, rapaz.
Hagrid nos deu um presente, algo que ele disse para nos dar sorte. Parecia uma planta. Estava seca, era enrugada e a coisa mais feia que eu já vi na vida, mas Lily se emocionou pelo gesto e pendurou a plantinha na porta de entrada da nossa casa.
– Você fez isso? – ele não acreditou quando Lily contou onde havia deixado seu presente. E deu um abraço nela, bem forte, que quase esmagou suas costelas. – Desculpe, desculpe...
E se afastou enxugando as lágrimas, todo feliz e emocionado que alguém finalmente tivesse guardado um presente seu.
Emmeline abraçou Lily, mas não foi tão calorosa. Nós sabíamos a visão dela sobre ter filhos naquela época. Era insensato.
Vendo a expressão de Lily depois que Emmeline a abraçou, Alice achou melhor dizer:
– Ter um filho é a melhor forma de buscar alguma energia pra lutar nesses tempos. E já que a Lily contou pra vocês, acho melhor contar. Eu também estou grávida. Pronto, falei.
Hagrid imediatamente foi comprar outra plantinha.
– Vocês combinam isso? – perguntou Marlene com a testa franzida, mas com a felicidade duplicada.
Lily e Alice se abraçaram. Se juntar duas mulheres grávidas em um mesmo aposento, você precisava se preparar para as lágrimas. Apertei a mão de Frank que estava parecendo petrificado ainda, e eu o entendia. Ele parecia nervoso, mas ao mesmo tempo sorridente, e precisava enxugar as mãos suadas nas vestes antes de receber os apertos de mãos. As pessoas ficavam felizes com a notícia, nos cumprimentava e se sentiam tentados a contarem histórias sobre seus próprios filhos e esposas... mas era difícil acreditar. Parecia um sonho. E você ficava assustado, preocupado e, cada dia que passava, a sensação que mais tomava conta era de ansiedade.
– Por que sua barriga não fica grande logo?
– James, não é um balão em que você o enche com um assopro – explicou Lily distraída, deitada na cama enquanto lia um livro. Eu estava debruçado na altura de sua barriga para poder acariciar aquela pele cheia de sardinhas minúsculas no abdômen dela. Levei minha boca no seu umbigo e Lily soltou uma risada alta quando eu fingi começar a assoprar a barriga dela como uma bexiga. Era inexplicável quando eu a fazia rir desse jeito.
Sua barriga continuou do mesmo tamanho, obviamente.
– Precisava tentar – expliquei diante dos risos dela.
– É, você não descansaria se não tentasse.
Sorri e comecei a distribuir beijinhos em sua barriga, subindo até seu peito, chegando ao pescoço e finalmente, finalmente, naqueles lábios que eu amava.
Quando acho ser impossível amá-la mais do que eu já a amava, alguns dias depois eu a pegara se olhando no espelho da porta do armário, verificando a pequena, porém significativa saliência do abdômen. Foi naquele momento, em um domingo qualquer, que o impacto de que ela estava mesmo grávida caiu sobre minha cabeça.
Ela me viu admirando-a e, um pouco alegre, começou a perguntar:
– Reparou que meus peitos cresc-
Eu avancei para dar um beijo na boca dela, interrompendo sua pergunta. Ela não estranhou o gesto, de fato recebeu meu beijo com entusiasmo também.
– Vai ter um filho meu – eu murmurei quando nos soltamos. – Vai ser mamãe. Como está se sentindo? Em uma palavra?
– Banheiro.
Banheiro? Percebi que ela arquejou um pouco. Por sorte, tinha o banheiro dentro do quarto e ela correu imediatamente para ele.
Eu a segui depressa. Quando entrei, vi que estava debruçada ao vaso sanitário com a expressão nauseada, e ela apertava o estômago. Um pouco ansioso por não saber o que fazer, mas tendo a plena consciência de que eu tinha que ajudá-la, afaguei seu cabelo e a ajudei se limpar. Dessa vez ela não me empurrou ou disse que não me queria vendo-a daquele jeito. Seus enjôos tornaram-se tão constantes que ela eventualmente precisou que eu estivesse ao seu lado. Apertou os cabelos para trás, para tirá-los do rosto.
– Isso... isso é normal? – eu perguntei. Eu não sabia nada sobre gravidez; no máximo, só tinha visto mulheres grávidas. Mas não tinha a mínima noção.
– Acho que sim...
– Você conseguiu falar com sua mãe?
Ela negou com a cabeça.
– Não respondeu minha carta ainda... James, quero visitá-la.
– Vamos. Vamos. Depois do almoço eu compro o pó de flu e-
– Agora – ela disse. – Eu quero vê-la agora.
– Mas eu preciso comprar o pó de flu ainda, amor, então se você puder esperar só um pouquinho...
Ela saiu do banheiro em disparada e começou a vasculhar todas as gavetas da casa. Irritada por não ter encontrado nada, virou-se contra mim:
– Nós tínhamos um estoque inteiro de pó de flu, como é que sumiu de repente?!
– Eu emprestei um pouco para o Peter e o Remus, querida, eles estavam precisando.
– Você emprestou? Eles te devolveram?
– Eu vou comprar todos do Beco Diagonal agora – falei imediatamente.
– Não vai adiantar nada. Vamos aparatar mesmo.
– Você fica enjoada toda vez que aparatamos... E o pó de flu é mais seguro-
– Então por que você emprestou a eles o nosso estoque?
– Tarefa da Ordem – eu disse depressa.
– Sim, a Ordem é mais importante – ela bufou. Começou a andar de um lado para o outro e, finalmente, sentou-se no sofá como se não soubesse o que fazer. – Se aconteceu alguma coisa com a mamãe, a Petunia me falaria, não falaria? Ela... ela entraria em contato comigo, não entraria? Ela não me ocultaria uma coisa dessas...
– Você acha que algo aconteceu a sua mãe e sua irmã não te contou?
Lily começou a chorar. Muito.
– E-eu não sei! Minha irmã me odeia, James. Ela me odeia! Eu falei para ela que não é minha culpa, que eu não escolhi ser uma bruxa, mas eu amo isso, eu amo que eu sou bruxa... mas nããão! Ela me acha uma anormal, detestável, ela me excluiu de tudo! Não quero que as coisas fiquem assim entre a gente a nossa vida toda... Mas eu não sei o que fazer! Contei a ela que e-estou grávida por uma carta e sabe a única c-coisa que ela me enviou?
Estupefato com o desespero dela, sentei ao seu lado e neguei com a cabeça. Lily tirou do bolso um pequeno bilhete. Pareceu um papel rasgado as pressas sem muita preocupação. Estava escrito o seguinte:
Parabéns.
Eu também estou. Três meses.
Petúnia.
– Ela também está! – guinchou. – E não ia me contar isso se eu não tivesse enviado a carta!
Chorou por um tempão. Eu fiquei acariciando seu cabelo até que Lily finalmente deixou de chorar e ficou estressada, nervosa, zangada. Levantou-se do sofá e rasgou o bilhete de Petunia em pedacinhos, começou a xingar a irmã e dizer que “se ela não se importa comigo, também não vou me importar com ela”.
Não mais do que vinte minutos depois, eu a vi tentando colar os pedacinhos do bilhete com feitiço na mesa da sala.
Tentei fazer o almoço naquele dia. Ela estava exausta, cansada e com sono. Insistiu que faria, mas eu fui mais teimoso e, por fim, Lily ficou cochilando na sala. Pensei nas vezes que eu a observava fazendo o almoço e pensei: “bom, isso não deve ser mais difícil do que fazer poção.”
Infelizmente era. A bagunça que se formou na cozinha pareceu ter vindo do espaço. Fui ligar o fogão com Incendio, acabei fazendo o fogão se incendiar inteiro. E a gata ainda ficava tentando chegar perto da comida, o que me fazia tentar arrastá-la para fora da cozinha vezes suficiente para que eu perdesse a minha paciência.
Quando Lily apareceu na porta, o fogão estava queimado, os pratos estavam espatifados no chão e a gata estava flutuando pelo teto da cozinha como se tivesse asas. Minha varinha estava apontada para ela enquanto meu braço esquerdo movia a espátula.
– Prometo que eu limpo – falei depressa. – Prometo.
Como o humor da Lily estava bastante instável naqueles últimos meses, fiquei temeroso que ela começasse a berrar. Até senti as gotas de suor caindo pelas minhas têmporas por causa do meu esforço de fazer o almoço naquele dia, e também a preocupação de que ela brigasse comigo pra valer.
Mas, para a minha surpresa, Lily se aproximou de mim suavemente, mais calma, e enrolou seus braços no meu corpo. Não ousei me mover. Depois ergueu o rosto para me dar um beijinho e dizer:
– Minha mãe está bem e ela disse que os enjôos na gravidez são normais.
– Falei que não tinha com o que se preocupar, amor – eu disse sorrindo.
Quando a gata caiu em pé sobre a mesa, Lily só disse:
– Não me deixe vê-lo levitando nossa gata de novo, tudo bem?
– Não vai ver – eu prometi.
Quando ela saiu da cozinha, sem alterar a voz, eu deixei escapar um suspiro de alívio.
Nos dias que se seguiram recebemos visitas e uma delas foi de Remus. Ele não parecia bem, estava aflito e quando Lily se sentou ao lado dele no sofá, Remus contou:
– Terminei com a Dorcas.
– O que houve?
– Ela tem sonhos – disse. – Quer ter filhos. Não disse diretamente mas o jeito que ela fica quando olha para vocês dois... E... nas minhas condições, não posso dar a ela o que quer.
Lily apertou suas mãos e, baixinho, perguntou:
– Remus, você não pode ou não quer? Há uma certa diferença. Você e Dorcas...
– Não é mais a mesma coisa – ele concordou. – Em Hogwarts parecia ser mais...
– Fácil – disse. – Você a ama, Moony? Porque quando amar, vai ver que probleminhas peludos não vão atrapalhar nada.
Quando ele não respondeu, Lily disse:
– Então acredito que tenha feito a decisão certa. Se você não a ama, e isso não quer dizer que você é uma pessoa ruim, o certo é não continuar se iludindo. O que Dorcas disse sobre isso?
– Ela concordou. Vamos ficar bem, só achei que devia contar a vocês. Não vejo vocês há um tempo. – Abriu um pequeno sorriso. – E... e também queria contar que estou trabalhando.
– Isso é ótimo, Moony! – exclamou Lily feliz, abraçando-o. – Finalmente... eu te disse que conseguiria... suas notas do N.I.E.M’s foram excelentes. Seria um desperdício não contratarem você... Mas- Mas onde você está trabalhando?
– Em uma loja... no Beco Diagonal.
O sorriso de Lily vacilou um pouquinho. Eu a entendi.
– Não minta para nós – eu disse zangado. – Não minta, Remus. Já te dissemos que não é problema algum ajudá-lo financeiramente... tenho ouro demais, o suficiente para umas dez gerações. Seria errado usarmos apenas para dois.
– Três – ele disse. – Não é? Eu não posso pedir para que continuem me ajudando sendo que terão um filho.
– Por isso eu nunca perguntei se queria ajuda – retruquei. – Ter “lobisomem” escrito no seu currículo não ajuda muito, mas nós ajudamos.
– Não queria que precisassem me ajudar – ele disse tristemente.
– James diz que estamos ajudando – replicou Lily –, mas não estamos. É o dinheiro da família, e você, assim como Sirius e Peter, é nossa família. Queremos que fique bem, e faremos de tudo para isso. Tudo bem?
Ele assentiu, depois de hesitar muito.
– Eu sou péssimo em mentir – ele se lamentou.
– Se pelo menos tivesse inventado um nome para a loja, teria sido mais convincente – eu disse. Nós rimos e ele se aproximou para apertar a minha mão.
– Parabéns aos dois. Pelo bebê.
Nos próximos dias, tudo o que importava era Lily grávida. Mesmo apenas no terceiro mês eu comecei a desejar que fosse um menino. Lily não se importava de que sexo fosse, ela apenas se importava que seria um filho seu. Sirius deu a sugestão de que poderia ser gêmeos. Quando as discussões sobre os nomes começou a rolar na mesa, o primeiro nome que veio a mente de Lily foi Harry. Se fosse menino.
– E se for menina? – perguntara Peter.
– Não – Lily fez um gesto para que eu não falasse. – Não me faça me arrepender de ter casado com você, James. Não vou dar o nome do nosso filho ou filha de Elvendork, já te falei!
– Não tem erro, Lily! – eu teimei. E então lembrei que teimar com Lily naqueles meses de gravidez era um erro gravíssimo. – Mas tudo bem. Harry é ótimo.
Ela tinha a sensação de que seria um menino, porque escolheu o nome com muita convicção, embora não tivesse sido homenagem óbvia a ninguém. Era o que agradava a ela. Achei que até o final da gravidez Lily poderia mudar de opção, mas sempre, sempre que perguntavam qual seria o nome... Era Harry. Uma vez brinquei com ela que caso acabasse nascendo uma menina, ela ainda se chamaria Harry. De todas as formas, Lily queria que nosso filho fosse Harry.
Antes nós percebíamos que o tempo passava através do crescimento da nossa gata, mas agora a barriga de Lily indicava que a cada dia eu estaria mais próximo de ser pai. Essa convicção se tornou presente em todos ao nosso redor e Sirius foi o mais afetado por isso.
As tarefas da Ordem continuaram depois do ano novo, com crimes ao redor do mundo por causa dos Comensais da Morte. Voldemort obviamente agora estava procurando sigilo, não tínhamos notícia dele há meses.
Mas os Comensais não descansavam. Lily e Alice obviamente queriam continuar batalhando, mas sabiam que suas vidas eram suportes para as vidas dos bebês. E mesmo que elas chegassem a serem imprudentes, eu não deixava Lily correr nenhum risco. Certificava-me a cada instante de que ela estivesse bem. Quando voltei a enfrentar os Comensais, não foi só por mim, não lutava só pela minha vida, para me salvar, eu lutava por Lily e o meu filho crescendo em sua barriga. Eu lutava para poder voltar para a casa e me admirar cada vez mais com a barriga de Lily estava ficando grande, estava aumentando. Um frio perpassava pelo meu estômago; a concreta verdade de que em alguns meses eu seria pai... Na verdade, como Lily sempre dizia, eu já era pai.
E, durante essas lutas, Sirius se certificava que eu voltasse vivo. Foi uma promessa que fez a Lily e ele cumpria tanto com essa promessa que, durante um duelo contra Dolohov, Sirius basicamente foi estúpido e leal o suficiente para se jogar a minha frente e levar o feitiço que quase lhe arrancou o braço.
– Sai daqui, James! – ele gritara, sangue jorrando pelo imenso corte em seu braço. Mesmo assim nós não parávamos de duelar. – Sai daqui!
A raiva tomou conta de mim e eu estuporei Dolohov três vezes seguido, deixando-o contra o chão, desacordado.
– Não tem mais o que fazer aqui, Prongs – Sirius estava ralhando comigo. – Volte para a Lily. Agora. Eu fiz uma promessa a ela, então me ajude a cumpri-la. Agora você vai ter um filho, volte para eles.
Eu pensava nele todo segundo.
– Ok – eu disse. – Mas você vai voltar também, está sangrando.
– Não me ofenda, Prongs, isso não é nada! Volte. Prometi a Lily. Volte.
E eu voltava. Machucado e sangrando, mas voltava. Quando Lily me via passar por aquela porta de entrada, ela abria um grande sorriso, mesmo que na manhã anterior ela tivesse brigado comigo ou estivesse estressada, magoada, zangada. Mesmo que ela não estivesse se sentindo muito bem ou com dores... ela sempre abria um largo sorriso.
E me abraçava.
Naquela noite, quando eu voltei, ela me abraçou. E foi engraçado, porque a barriga dela estava entre a gente, como se o bebê quisesse que o abraçássemos também. Rindo, eu me agachei e levantei a blusa de Lily para depositar um beijo em sua barriga.
– Viu? – ela fez olhando para a barriga. – Eu disse que o papai voltaria para casa. – E virou-se para mim, explicando: – Ele fica inquieto aqui dentro quando você não está.
– Você consegue sentir?
– Claro – ela disse. Ela deu um risinho. – É estranho, mas é maravilhoso. Mamãe diz que são chutinhos, mas pelo impacto eu tenho certeza que são socos. Parece até que quer sair mais cedo. Já sabemos que é teimoso e impaciente igual ao pai – acrescentou, agarrando meu rosto para me dar um beijo.
Passei a madrugada inteira esperando sentir os chutes do bebê. Quando senti, a sensação foi de alívio. Ainda bem que voltei pra casa.
Lily estava mais linda do que nunca. O fato de que ela carregava um filho meu era indescritível. De manhã quando ela estava aprontando o café e eu me aproximava para um beijo gostoso em seu pescoço... ela tentava me afastar, alegando estar acabada demais.
– Você está linda – eu disse.
– Você realmente não tem nem ideia – ela abriu um sorriso, embora estivesse aceitando meus beijos com muita boa vontade. Segurou a parte inferior do abdômen grande e fez uma careta. – Eu realmente acho que nosso filho tem uma varinha aqui dentro, James.
Gargalhei com isso.
– Já posso imaginar o grande bruxo que ele vai ser então – comentei. – Por que você não descansa um pouco?
– Já descansei muito – ela disse.
– Não, não. Você não tem conseguido dormir...
– Culpa da minha bexiga!
– Com certeza. Mas agora eu é que estou responsável por essas tarefas de fazer nossa comida.
– James, eu amo que você está me ajudando.
– Mas...?
– Mas você realmente não tem jeito pra cozinha.
– Tenho jeito pra aprender – respondi. – E você tem jeito pra ensinar.
Ela sorriu para mim e tirou o cabelo do rosto.
– Quer aprender?
– Quero ser perfeito pra você – eu disse. – E para o Harry.
Trocamos um beijinho e, desde aquela manhã, nós dois passamos a fazer nossas comidas juntos. A verdade era que havia desequilíbrio quando estávamos sozinhos. Tive a sensação de que agora éramos um só. E o resultado disso era o que ia nascer daqui dois meses, senão um.
– Como está se sentindo? Em uma palavra? – perguntara a Lily antes de dormirmos.
– Assustada – ela sussurrou. – Mas de um jeito... de um jeito bom. E você, como está se sentindo?
– Em uma palavra? Preparado.
– Não está assustado também?
– Completamente. Mas isso nunca foi um problema para mim. Sou um grifinório.
– Você acha que ele também vai ser?
– Nosso filho? Absoluta certeza de que será.
– Ruivo ou moreno?
– Moreno – eu disse. – Vai ser lindo igual ao pai. E inteligente igual a mãe.
Nesse momento, eu estava com a mão apoiada em seu abdômen e senti a pressão de quando o bebê está reagindo lá dentro. Lily e eu nos entreolhamos.
– Acho que ele quis dizer... Sim, papai, você tem toda a razão.
– Você não imitou a voz de um bebê – ela riu.
– Acabei de imitar. É, mamãe, eu vou falar assim quando eu nascer.
Ela estava rindo tanto que lágrimas caíam de seus olhos. Depois, ela parou de rir e eu percebi que estava emocionada.
– Não chora, mamãe.
– James – ela riu, enxugando o rosto. – Não é de tristeza.
– Sei que não é. – Beijei seu rosto calmamente e a segurei para dormir. – Boa noite, Lily.
– Boa noite, James.
– Boa noite, Harry – dissemos juntos. E eu acrescentei num sussurro para a barriga: – Mesmo se você for menina.
Junho não costumava ter noites frias, mas choveu contra nossa janela a noite inteira. E foi naquela madrugada que Lily acordou abruptamente, sentando imediatamente na cama e me acordando junto. Ela estava gemendo de dor.
Muita dor.
– Lily?
Não soube o que fazer. Ela arquejou e respirou profundamente.
– Você...
– Estou bem – ela disse fraquinha. – Não foi um chute dessa vez. Está tudo bem... – ela acrescentou quando viu minha expressão.
– Eu vou preparar um chá pra você.
– Não precisa, amor-
– Não quero saber. Eu já volto. Fica aqui, não sai da cama.
Desci a escada até a cozinha. As janelas estavam todas fechadas. Aprontava um chá e, enquanto eu esperava, ouvi um barulho lá fora.
Peguei a varinha que eu deixava no cós da minha calça do pijama antes de abrir uma pequena fresta da persiana para enxergar a movimentação lá fora. Uma figura alta surgiu da escuridão perto das árvores. Quando vi a longa barba por baixo das vestes, imediatamente guardei a varinha e me aproximei para abrir a porta antes mesmo que a campainha tocasse.
– Entre, diretor – eu disse. – Aconteceu alguma coisa? Algo sobre a Ordem que não podia esperar pra contar? Por que está aqui as duas da manhã?
Porque para bater um papo que não seria.
– A Lily está aqui, eu suponho – ele disse enquanto entrava pelo hall. Observou as janelas. Parecia ansioso. Parecia estar em alerta. Tanto que fez um gesto para mim. – Tranque a porta, James.
Fiz o que ele mandou.
– Estou fazendo um chá para Lily, se o senhor-
– Não – ele disse depressa. – Agradeço, mas estou sem fome. Acabei de voltar do Cabeça de Javali.
– Muito uísque de fogo?
– Talvez.
Eu sorri e o levei até a sala para que ele se sentasse no sofá. Nesse momento os pés de Lily anunciavam que estava descendo as escadas. Quando ela apareceu na sala, Dumbledore imediatamente se pôs de pé.
– Está tão grande – ele comentou referindo-se a barriga dela.
Permitiu-se aproximar um pouco. Não a tocou, apenas analisou a barriga, tirando os óculos do rosto. Lily e eu trocamos um olhar e eu ergui os ombros, meio que respondendo a expressão dela: “também não faço ideia.”
Mas não fomos mal educados. De fato, Lily foi bem receptiva, mesmo que Dumbledore parecesse um pouco bêbado. Quando Lily ofereceu o chá para ele, acabou aceitando, mas aparentemente o que quer que ele esteja fazendo ali, não parecia ser para passar o tempo.
Hesitou antes de dizer:
– Acredito que o bebê nascerá no próximo mês.
– Sim, acho que no final de julho ou começo de agosto... se as contas estiverem certa – ela disse ansiosa. – James está ansioso, ele acha que vai ser logo depois desse mês. O senhor... o senhor está bem?
– Sim, sim, estou. Só um pouco... abismado ainda. Só uma pergunta... uma última pergunta. Será um garoto?
– Bom, ainda não-
– Sim – disse Lily. – Será um garoto. Desculpe, Albus, mas não posso achar que está aqui para perguntar sobre o nascimento do meu filho. Sei que, se pudesse esperar, falaria assim que nos víssemos na reunião da Ordem. O que o senhor não pode esperar para nos contar?
– Preciso que fiquem afastados – ele disse. – Afastados das tarefas da Ordem e das pessoas.
– Precisa? – eu ergui uma sobrancelha. – Acha que não fizemos um bom trabalho?
– Não é isso – ele disse. – É para o bem da criança.
– Nós estamos fazendo o melhor por ela – retorquiu Lily. – Sei que estou sem condições de lutar, mas ainda participo da Ordem da melhor maneira que posso. E existem milhares de outras crianças nascendo agora, por que veio nos avisar especificamente?
– Porque o filho de vocês nascerá no final de julho e, segundo a profecia que acabei de escutar no Cabeça de Javali, ele terá o poder de vencer o Lorde das Trevas.
– Isso é... – eu disse. – Isso é incrível. Ouviu essa, amor? Nosso filho...
– Cala a boca, James – ela disse baixinho. – Uma profecia? – virou-se para Dumbledore. – Desde quando... peço desculpas, mas toda essa coisa de profecia e adivinhação... nós não acreditamos.
– Não importa se acredita ou não, Lily – disse Dumbledore com a voz tensa. – Voldemort acreditará se a profecia chegar ao ouvido dele. E com o Cabeça de Javali lotado esta noite, não posso me assegurar de que alguém não tenha escutado...
– O que quer dizer com isso? – eu perguntei.
– Quero dizer que Lord Voldemort tentará aniquilar todos que tentarem entrar no seu caminho, independente se isso vem ou não vem de uma profecia.
Lily ainda não estava acreditando.
– Não somos os únicos pais que terão um filho no final do mês de julho.
– Sim – ele concordou.
– E você está avisando todas as famílias do mundo então?
– Não. Avisarei apenas os pais que desafiaram Lord Voldemort três vezes. Isso reduz a quantidade de família para duas.
– Duas?
– Alice e Frank – eu percebi.
– Avisarei eles – Dumbledore disse. – Assim como estou avisando vocês. Não posso mais me estender, porém, preciso voltar-
– Não pode mais se estender? – Lily estava furiosa. – Está nos dizendo que é provável que Voldemort coloque nossos filhos como alvos... e o senhor não pode mais se estender?
– Lily, ainda não temos certeza de que Harry... – eu comecei mas Lily me interrompeu.
– Não interessa se a profecia se refere ao Harry ou ao filho dos Longbottom. Isso é horrível de qualquer maneira. Voldemort faria isso? Faria isso?
– A essa altura, Lily – disse Dumbledore – Voldemort fará qualquer coisa. Um aviso sobre alguém com o poder de derrotá-lo...
– Mas ele nem nasceu ainda! Acha que isso vai adiantar? Vai adiantar ficarmos escondidos aqui?
– Não tenho certeza de nada. Talvez Voldemort nunca tome conhecimento dessa profecia, mas isso é pouco provável. Precisava apenas avisá-los sobre o que acabei de escutar. Aconselho que se preocupem com o nascimento de Harry agora em diante. Não posso mais, não terei coragem de enviá-los as tarefas da Ordem. Mas obviamente essa é uma escolha que cabe apenas a você, Lily, e James.
– Farei qualquer coisa para a segurança do meu filho – ela sussurrou. Eu concordei.
– Só não nos deixe fora das obrigações da Ordem – eu pedi. – Ainda somos parte dela. Queremos saber de tudo.
– É justo. Mas não podem sair daqui até que eu tenha certeza, absoluta certeza, de que Lord Voldemort não tomará conhecimento algum sobre o que acabei de lhes contar.
Quando Dumbledore foi embora depois de dizer aquilo, Lily e eu ficamos em silêncio no sofá. Não falamos por horas e não dormimos. Estávamos deitados juntos, minha mão acariciando a barriga dela. Quando falei, foi para confirmar:
– Não falei que ele será um grande bruxo?
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