Prongs

4 Lupin tem problemas peludos e não é puberdade


Notas iniciais
Escrevi esse bem rápido, porque não é um capítulo grande, mas talvez um dos mais importantes da vida de James e os Marotos :)

"James costumava dizer 'probleminha peludo' em público. Muitas pessoas achavam que eu tinha um coelho mal comportado." Remus Lupin

***

– Não devíamos estar aqui – resmungou Peter Pettigrew, trêmulo ao meu lado.

– Olha, Peter, não obrigamos você a vir – retrucou Sirius. – Se está com medo, pode voltar para o castelo.

– Mas nunca fomos tão longe antes... e se não conseguirmos voltar?

– Pare de resmungar!

– Calem a boca – eu disse aos dois.

A Capa da Invisibilidade nos cobria. Final de tarde. Não estávamos orgulhosos por seguirmos o diretor Albus Dumbledore pelos arredores de Hogwarts, longe do castelo. Mas esse era um daqueles momentos em que a Capa da Invisibilidade era o mais útil objeto de um bruxo curioso.

Estávamos seguindo Albus Dumbledore porque, ao lado dele, estava Remus John Lupin, calado e absolutamente nervoso. Foi uma caminhada de meia hora. Tivemos que fazer muita concentração para não tropeçarmos ou darmos sinal de que estávamos por perto. E, acredite, isso era bem difícil com três pessoas tentando andar no mesmo ritmo dentro de uma capa, com Peter tendo problemas com gases quando estava nervoso.

Mesmo assim, a curiosidade era maior do que os problemas. Precisávamos ter certeza do que estava acontecendo com nosso amigo.

Dumbledore e Remus pararam em um morro. Há dez metros, erguia-se a silhueta de uma árvore que tinha sido plantada no ano passado; davam o nome de Salgueiro Lutador. Seus galhos estavam mais grossos e com um aspecto mais violento. Os alunos mais velhos, do quinto ou sexto ano, costumavam fazer competições para saber quem conseguiria ficar mais próximo dela, sem ter o corpo arremessado há dez metros.

– Ela está crescendo – disse Dumbledore em um tom amigável. Remus ficou calado o caminho todo, mesmo que Dumbledore tivesse tentado puxar algum assunto. – Não é fácil, sr. Lupin. Por isso acredito que precise de uma companhia para chegar até aqui.

– Senhor, com todo respeito, é melhor ir embora... A lua...

– Sim – ele disse seriamente. – Acredito que já saiba usar o encantamento sozinho.

Ele assentiu.

Os dois se aproximaram. Peter ficou tenso, porque um passo a mais, e os galhos jogariam os dois até o lago com a Lula Gigante.

Remus levantou o braço com a varinha e murmurou uma palavra que não escutei direito, embora tivesse desejado escutar. Os galhos estremeceram antes de adormecerem e, sem olhar para trás, Remus ultrapassou as raízes grossas para entrar em um buraco que só reparei que existia nesse momento. Deu uma última olhada para Dumbledore e disse:

– Obrigado, diretor. Por me acompanhar.

Então entrou no Salgueiro Lutador.

Dumbledore olhou para o céu, onde as nuvens densas se juntavam para anunciar talvez a chegada da tempestade com a lua cheia. Tive o pressentimento que ele observou o lugar em que estávamos, mas depois abanou a cabeça e foi embora.

Tirei a capa de cima de nossas cabeças quando o perímetro ficou vazio.

– Onde será que Remus foi? – perguntou Sirius.

– Acho que é uma passagem secreta – eu disse.

– Ele conhece uma passagem secreta que não conhecemos? – indagou, zangado. – Eu vou entrar lá.

Puxei a camiseta dele quando deu um passo na direção do Salgueiro Lutador, porque um dos galhos se remexeu, como se estivesse acordando para a vida.

– Opa, opa, opa!

Foi por pouco. O galho tombou no chão de folhas secas, alguns centímetros perto de onde Sirius estava há dois segundos. Mas não deu tempo de respirar aliviado, porque outro galho veio na minha direção.

Pude sentir meu estômago varando as minhas costas quando o galho se chocou com um impacto dolorido contra minha barriga. Por um reflexo que eu nem imaginava que eu tinha, agarrarei com toda a minha força a textura do galho, para não ser lançado para longe. Era a sensação de estar voando em círculos na vassoura mais rápido de corrida. Eu teria achado divertido se o galho tivesse um percurso mais constante, no entanto ele decidiu bater contra o chão para me derrubar, como se não me quisesse agarrando-o.

Eu tinha perdido meus óculos no percurso. Não conseguia ouvir o que Sirius ou Peter estavam gritando. Apenas vi, meio borrado, outro galho se aproximando, quase em câmera lenta, para me atingir. Eu estava caído de costas, então rolei para o lado o mais rápido que pude. Senti o vento que o galho trouxe com ele, quando ricocheteou muito perto de mim.

Mas eu tinha dado um jeito de cair no mesmo buraco que vi Remus entrando.

– James?! – ouvi a voz de Sirius, assim que me levantei e encarei a escuridão. – Você entrou aí?

– Entrei! – Tateei meu bolso para encontrar minha varinha, de algum modo ela não foi quebrada, então sussurrei: – Lumus.

A ponta da varinha iluminou o caminho.

Eu estava dentro de um túnel.

– Remus? – chamei. Minha voz fez eco. Antes que eu desse um passo para continuar o caminho...

Senti um corpo me empurrar contra o chão novamente, mas dessa vez era mais leve e cabeludo. Sirius tinha conseguido entrar também.

– Gritei que eu tava entrando – disse enquanto eu o empurrava para ele sair de cima de mim. – Peter está vigiando.

Ele olhou para o fim do túnel. Era tentador.

– Juntos? – quis confirmar.

Eu assenti.

– Juntos.

Um rangido quebrou o silêncio do lugar no momento que pisei no primeiro degrau de escada. Alcançamos um corredor e iluminamos o caminho até o primeiro quarto com a porta aberta. Estávamos em uma casa.

Vimos as costas de Remus. Ele estava sentado na única cama do quarto. Não havia janelas.

– E aí, Remus? – falei displicente.

Remus se levantou tão depressa que tropeçou.

– O que estão fazendo aqui? Não podem, é perigoso!

– Calma. Só estávamos curiosos – eu disse. – Não é todo dia que um aluno sai para uma caminhada com Dum... Ei, ei, ei... – dei um passo para trás quando Remus apontou a varinha para mim. – O que está fazendo, Remus?

Sua mão estava trêmula. Quando notou para quem estava ameaçando a varinha, largou ela no chão e se virou de costas, parecendo envergonhado com alguma coisa. Sua voz estava baixa.

– James, Sirius... saiam daqui, por favor.

– Não até dizer o que está acontecendo! – disse Sirius inconformado. – Sério, acha que somos idiotas? Da próxima vez que vier com desculpas de que sua avó morreu, terei que ver o corpo dela.

Enquanto Sirius falava, eu peguei um tempo para observar as paredes ao redor. Estavam estragadas, mas não como se estivessem velhas. E sim arranhadas.

Por unhas. Anormalmente afiadas.

– Remus, está tudo bem – eu disse baixinho, sabendo o que estava acontecendo com ele. – Podemos dar um jeito nisso.

– É impossível. Não há cura.

– Podemos pesquisar...

– Não seja idiota! Desde os meus sete anos... Eu sou um monstro.

Analisamos ele. Um garoto nerd de cabelos loiros com os olhos assustados. Que medo.

– Você está com medo, Sirius?

– Eu não, James, você está?

– Porque vocês são idiotas! – ele exclamou desesperado.

– Parece a Evans falando.

– Não. Evans não fica pulada uma vez por mês.

– Isso não é engraçado! – ele disse desesperado. – Vão embora, saiam daqui, no minuto em que eu começar a me trans...

Foi só dizer isso que ele fez uma expressão dolorida. Coçou a nuca e jogou a varinha no chão ao arcar o corpo como se tivesse levado um chute no saco.

– Remus? – observei preocupado, porque ele começou a gemer de dor. Ouvi um barulho semelhante a ossos se quebrando e notei que era a coluna de Remus quando ficou salientada na pele.

Engoli em seco, só que mais admirado do que realmente com medo.

Não consegui mover os pés quando Remus gritou. Ele estava sentindo mesmo muita dor, dava para perceber. Seus olhos foram os primeiros a se modificarem. Ainda parecia ter a consciência, porque nos olhou de forma suplicante que traduzi para “vão embora”. Não podia ir embora enquanto ele parecia que estava morrendo na minha frente.

Os pelos da nuca gradualmente aumentaram, assim como a da mão e dos pés, e eu ficaria mais um pouco para ver, pela primeira vez, a transformação de um lobisomem, se Albus Dumbledore não tivesse aparecido para nos tirar dali imediatamente, indicando a verdade de que Remus Lupin era, afinal de contas, muito perigoso.

Dumbledore não tinha a expressão de McGonagall quando nos pegava esgueirando pela escola durante a noite. Mas parecia seriamente preocupado. Assim que ficamos o mais longe possível do Salgueiro Lutador, depois de termos saído do túnel, Dumbledore ficou a frente de nós três e disse:

– Às vezes coragem demais é estupidez.

– Professor, ele é nosso amigo.

– Não estou dizendo o contrário. Mas devem ficar longe do sr. Lupin em toda lua cheia. Não somente pela segurança, sr. Potter – acrescentou ao ver a minha expressão indignada. – Se o sr. Lupin voltasse amanhã e soubesse que feriu os próprios amigos, ele nunca se perdoaria. E já é difícil o suficiente para ele. Uma verdade cruel, sim, mas uma verdade com a qual precisamos lidar... com prudência.

– Só estávamos curiosos... Sirius começou a suspeitar logo que tivemos nossa primeira aula de Defesa Contra as Artes das Trevas esse ano...

– Eu entendo. Eu faria a mesma coisa. Eu o seguiria e eu tentaria ajudá-lo. Lupin certamente não merece.

Sirius e eu nos entreolhamos quando o ar noturno se fundiu ao uivo de Remus, indicando que já estava transformado. Peter se encolheu.

– É tarde – anunciou Dumbledore. – Sugiro que voltem ao castelo.

Ficamos parados.

– O que estão esperando?

– Bem, professor, é nesse momento que levamos detenção – contei.

Dumbledore sorriu nos olhos por trás daqueles óculos meia-lua.

– Hoje não, sr. Potter, hoje não. Vocês só estavam vigiando um amigo. O que há de errado nisso?

Voltei para o dormitório com Sirius e Peter, sem parar de pensar em Remus e na idéia ruim que era ser um lobisomem a noite inteira, uma vez ao mês, sem ninguém, completamente sozinho e assustado. Eu não desejaria isso a nenhum inimigo. Nem a Snape.

Descobrimos por Dumbledore que na manhã seguinte Remus estava na ala hospitalar, cuidando de seus ferimentos, que estavam piores do que jamais vimos. Nós sentamos ao redor de sua cama e Sirius abriu um grande sorriso quando Remus acordou.

– Oi! Trouxemos uns presentes.

Ele encostou-se à cabeceira da cama e olhou para nós, confuso, principalmente depois que Sirius jogou um pedaço de carne vermelha em sua barriga.

– Pensamos que talvez pudesse estar com fome – ele piscou.

– E passamos a manhã na biblioteca – eu disse, segurando o livro na altura do rosto. – E veja só o que encontramos. Manual do Lobo. Pode ser bem útil para o seu dia-a-dia. Ou melhor dizendo, lua-a-lua.

Ao nos observar rindo, ele perguntou:

– Vocês não estão...

– Assustados? Amedrontados? Completamente.

– Não vamos mentir que ficamos traumatizados para a vida.

– O que aconteceu com você, de verdade?

Ele nos encarou. Sua voz saiu baixa, quase sombria, quando revelou:

– Fenrir Greyback.

O nome era familiar. E assustador. Nossos risos pararam com a menção dele. Ouvíamos noticias horríveis que envolviam o nome. Mortes horríveis. Como Remus sobreviveu? Ele continuou:

– Meu pai o ofendeu uma vez... e essa foi a maneira de se vingar. Eu era bem novo quando fui atacado. Meus pais não queriam que eu estudasse em Hogwarts, mas Dumbledore, homem bom que é, não achou que seria justo eu não ter uma formação em magia. Plantou o Salgueiro Lutador para uma passagem secreta até uma casa na vila de Hogsmeade para eu me esconder... assim não posso ferir ninguém. No fim, só acabo ferindo a mim mesmo.

Por isso as cicatrizes, pensei.

– Você escondeu isso da gente durante um ano?

– Você escondeu que havia uma passagem secreta em Hogwarts para Hogsmeade durante um ano?

– Nunca deveríamos perdoá-lo por isso – eu abanei a cabeça. – Você sabe que Sirius e eu vivemos procurando por passagens secretas!

– Eu sou um monstro e vocês estão bravos que eu não falei da passagem secreta? – ele abriu um sorriso involuntário e passou a mão nos cabelos.

– Desculpe desapontá-lo por não tremer com sua presença, oh, aterrorizante Moony! – Sirius fingiu tremer todo o corpo. Remus riu com o apelido.

– E não se preocupe, juramos solenemente que não vamos mencionar nada a ninguém sobre seu... probleminha peludo – apoiei a mão no peito para enfatizar o juramento.

De alguma forma, aquela particular manhã de meu segundo ano se tornou a lembrança mais nítida que eu usava para justificar o que aconteceria nos próximos anos em Hogwarts. A manhã em que decidimos uma amizade verdadeira e leal. Pareceu a Remus que um grande peso havia saído de suas costas, quando descobrimos sobre seu segredo, e não fugimos assustados como menininhas. Com isso, ele passou a aproveitar os dias e noites em Hogwarts porque, pelo menos entre mim, Sirius e Peter, ele não seria tratado diferente. Aos poucos, com sua insegurança, fizemos Moony entender que, quando não tinha pelos, não tinha problemas.

***

2 de dezembro de 1972

Oi pai,

Desculpe pela demora para responder a última carta que me enviou. O segundo ano está tomando meu tempo... e por “tomando o tempo” eu quero dizer que estou fazendo bom uso da Capa da Invisibilidade. Conheci alguns lugares diferentes do castelo, mas muitas portas precisam de senha ou charadas para se abrirem... Sirius, Peter, Remus e eu estamos trabalhando nisso.

Não aguento mais ver a Grifinória perder no Quadribol, pai. Está começando a ficar bem difícil de aturar os sonserinos zombando... Sirius acha que alguém deve estar azarando o posto de apanhador, o que eu não duvido também. E olha que de azarações eu entendo bem. Queria ter idade o suficiente para fazer os testes de Quadribol. Eu seria bem melhor que qualquer um, sem dúvidas disso.

Tivemos uma notícia muito ruim sobre os pais de uma garota do quinto ano... foram capturados por esses tais Comensais da Morte, mas acredito que o senhor já saiba disso, já que lê toda manhã o Profeta Diário. E não param de comentar sobre isso por aqui. Dizem que é só uma questão de tempo até que tomem o poder no Ministério.

Tem essa garota no meu ano e os pais dela são trouxas. Mas ela é a mais inteligente da turma. Mais inteligente que um monte de sangue-puros (tirando eu, claro). Acho injusto o que falam sobre os que nascem trouxas... O senhor os acha tão ruins assim para chegar ser necessário matá-los, como aconteceu com os pais da garota do quinto ano? Quando eu vejo Lily Evans, eu acredito que não, e espero que não se incomode com isso ou tente me deserdar.

Evans não gosta muito de mim. Acho que isso tem a ver com o fato de que eu gosto de testar umas azarações no melhor amigo dela. Nada grave. Só para me divertir. O pessoal acha bem engraçado.

Já escrevi demais. Estou quase caindo em cima do pergaminho... espero que consiga me responder logo, preciso saber se Sirius e Remus podem passar o Natal com a gente esse ano. A mãe do Peter não deixou de novo. E Remus é um garoto legal, ele não dá nenhum trabalho, até garotas acham ele fofo.

Pensem nisso!

VAI MONTROSE MAGPIES,

Seu filho incrível James.

Notas finais
Sempre quis escrever como eles descobrem sobre Remus. Estou tentando colocar os fatos mais importante que sabemos pelos livros e acredito que esse foi o principal do segundo ano deles. No próximo cap, eles já estarão no terceiro ano. Por enquanto os fatos relatados podem estar em um ritmo acelerado, mas espero que não esteja ficando muito confuso e que continuem acompanhando! Obrigada pelos comentários! Sério mesmo, prometo postar o próximo o quanto antes!