Prongs

24 Foi só uma questão de escolha


Notas iniciais
Pode ser que alguns acontecimentos agora tenham passagens rápidas, mas eu prometo que tudo o que precisarmos saber será devidamente narrado :) Espero que continuem gostando!

Meus olhos demoraram um pouco para se acostumarem com a claridade da janela que se esparramava diante da cama. Era uma manhã de domingo, nada espetacular acontecendo nas redondezas dos chalés de Godric’s Hollow, mas ainda assim eu tinha motivos para sorrir. Era muito recente a sensação da novidade de ver o teto do quarto que eu dividia somente com o corpo nu da minha mulher ao meu lado da cama.

Lily tinha dormido com a trança que fizera na noite anterior e estava absorta num sono profundo. Estava ressonando baixinho, de bruços, as costas nuas expostas depois que os lençóis escorregaram e cobriam somente sua cintura. Não ousei acordá-la, embora ela tivesse feito um breve e sonolento movimento quando me inclinei para roçar os lábios naquelas costas lindas e sensuais. Ela não acordaria tão cedo naquela manhã, não se deixaria, principalmente depois do que tem acontecido.

A Ordem da Fênix precisou de toda a ajuda possível quando Comensais da Morte invadiram uma festa de premiação para aterrorizar o lugar e tentar assassinar um escritor que andava publicando coisas nada admiráveis sobre Voldemort. Estávamos preparados para o possível ataque, então a movimentação da Ordem pegou os Comensais de surpresa. Moody conseguiu capturar um deles para um interrogatório nada bonito, e o duelo quase o fez perder as pernas, resultando na escapada de Evan Rosier, um dos comensais mais perigosos. Foi um estrago contra ambas as partes, mas no fim, todos saíram vivos. Machucados, mas vivos. Inclusive o escritor, que precisou se esconder o mais longe do país.

Era um alívio, motivo de comemoração, voltarmos para a casa ou ver que nas reuniões da Ordem, nenhuma cadeira estava vazia. Ao fim de setembro, um dos gêmeos Prewett, Gideon, perdeu três dedos da mão e o bruxo Dédalus Diggle precisou se hospitalar no St. Mungus por ter sido atingindo com um feitiço que o fez perder os movimentos das pernas e dos braços. Sarou depois de algumas semanas, voltando à mesa e deixando todos mais tranquilos.

A medida que as batalhas pareciam se tornar cada vez mais perigosas, com Comensais cada vez mais dispostos a tirarem a vida das pessoas, tão friamente quanto o próprio Voldemort, Dumbledore tinha pouco tempo para organizar as reuniões com todos os presentes. Quando aconteceu no último sábado, no Casarão dos Potter onde eu havia permitido que realizássemos o encontro para discutirmos nossos próximos passos, ele teve a ideia de tirarmos uma foto.

Eu e Lily fomos registrados de mãos dadas. Precisou de três tentativas, sendo que Sirius era toda vez acusado de fazer chifres em mim e Dorcas saía o tempo todo com os olhos fechados, parecendo que estava espirrando. No fim, acabamos acertando em uma foto digna de orgulho. Como era aniversário de um dos membros, passamos grande parte do tempo tomando sucos e comendo doces. Porque a Ordem da Fênix não se tornou somente uma sociedade secreta ou uma tarefa. Tínhamos um vínculo e esse vínculo era de estarmos sempre lá para salvarmos o traseiro de cada um. Amizades foram inevitáveis.

Moody sempre dizia “Vigilância!”. Precisávamos nos preparar para as mensagens que vinham de Patronos. Nos primeiros três meses depois que Lily e eu nos casamos, fomos surpreendidos com mensagens de ajuda quase o tempo todo. Ao alcance da primeira semana de Dezembro, Lily e eu tínhamos enfrentado duelos que teriam esgotado nossas forças se não fossemos tão dispostos a capturar Comensais e impedir que mortes acontecessem.

Cada vez que ajudávamos a Ordem, era um motivo para ficarmos melhores e mais fortes. Vou dizer a verdade, não éramos fáceis de derrubar. E em nenhuma dessas vezes, eu me separei de Lily. Se éramos designados a uma tarefa em nome da Ordem, ela sempre estava ao meu lado. Em pouco tempo não éramos mais o James ou a Lily. Éramos James e Lily. Os Potter.

Tivemos um mês milagrosamente bem tranquilo em Dezembro, o que me fez aproveitar meu tempo com Lily em Godric’s Hollow. Ela gostava de passear na praça, observando as crianças se divertindo com suas famílias. Costumávamos ser bem discretos quanto a nossa identidade. Somente os amigos mais próximos tinham ideia de onde morávamos. Dumbledore dizia para que fossemos cuidadosos com quem compartilhávamos informações naqueles tempos.

– Alguém deve dizer isso a Batilda Bagshop – disse Lily decididamente, brincando, depois que passamos duas longas horas ouvindo a autora de História da Magia falando sobre tudo da vida dela. Tudo, até dos ex-namorados e maridos e de como eles estavam agora (se estavam vivos).

Godric’s Hollow também foi o lar da família de Dumbledore. Batilda, coincidentemente nossa vizinha, ainda morava aos arredores e gostava de contar sobre o que sabia da infância dele. Sempre que possível, trazia doces para Lily e para mim. E, sempre que possível, ficava horas tomando chá com Lily. Ela nunca negava ouvir alguém disposto a contar histórias. Eu já não tinha a mesma paciência, mesmo que gostasse da velha Bagshop e seu jeito meio lunático, mas decidia explorar os ambientes aos redores com Sirius, devido a vigilância. Eu ainda fazia um uso constante da minha forma animaga, especialmente nas luas cheias que ainda enfrentávamos ao lado de Remus, e a Capa da Invisibilidade.

Havia noites que eu voltava de madrugada. Encontrava Lily deitada em nossa cama lendo um livro com a ponta da varinha acesa em Lumus.

Ela nunca desconfiou de mim. Nunca brigamos por ciúmes. Era tão ridículo pensar na possibilidade de que os motivos por voltar tarde para casa eram porque eu estava traindo ela, que Lily até dava risada.

– Terei que ter uma conversa muito séria com o Sirius – ela disse. – Ele está sendo uma péssima influência para você.

– O que posso fazer se encontramos umas mulheres interessantes pelo caminho? – eu disse espreguiçando-me ao me sentar ao lado dela.

– Você as chamou para sair?

– Não, é claro.

– Então boa noite – ela sorriu, beijando-me nos lábios antes de guardar o livro embaixo do travesseiro. Deitou-se para dormir como se só conseguisse fazê-lo tendo certeza que eu estava de volta para casa.

– Lily – eu chamei quando deitei ao seu lado e a abracei embaixo dos cobertores, aconchegados pelo calor no meio daquele intenso frio de dezembro. – Obrigado por entender.

– Entender o quê? – perguntou baixinho.

– Que eu ainda preciso ficar um tempo com meus amigos também.

– Gosto que saia com seus amigos. Só quero que tenha cuidado.

– Eu tenho – prometi.

– E que volte pra mim todas as noites – ela sussurrou, virando seu rosto para começarmos a nos beijar.

– Eu não seria louco de perder uma noite sequer de sexo selvagem com a minha mulher – eu disse aos risos quando me acomodei entre ela e joguei o cobertor por cima de nossas cabeças.

Passamos um Natal tranquilo juntos e montamos nossa primeira árvore. Lily usou feitiços para escrever diversos cartões de Natal para todos que conhecíamos, em especial os membros da Ordem da Fênix, uma vez que, desde que saímos de Hogwarts, nossos contatos mais próximos eram eles.

Não tivemos péssimas notícias naquele feriado, o que pareceu um bom presente de Natal. Foi possível aproveitarmos com nossos amigos a boa e deliciosa cerveja amanteigada. Voltar para um passeio despretensioso em Hogsmeade fez a saudade que eu tinha de Hogwarts ficar bem forte. Queria usar o Mapa do Maroto de novo, mas eu estava satisfeito que a utilidade da Capa da Invisibilidade não era mais para fins como roubar as comidas da cozinha de Hogwarts ou nos infiltrarmos em salas proibidas.

Mas não podíamos fingir que o que estava acontecendo – os constantes ataques, a vigilância por vinte e quatro horas – não deixava as pessoas preocupadas. Mesmo no Beco Diagonal você via a pressa de alguém para chegar logo a uma loja. Alguns bruxos se mantinham presos em suas casas com medo de que a qualquer instante ela fosse atacada. Na maioria das vezes, ela acabava sendo.

Chegou um momento em que voltar para casa era um alívio tão grande que Godric’s Hollow se tornou o nosso refúgio. Como sempre diziam, sua casa era onde seu coração estava, e acordar de manhã vendo Lily usando a minha camisa – só a minha camisa e uma calcinha – enquanto tentava aprontar o café da manhã era a visão que eu amava ter todos os dias.

E eu estava tendo.

– Você sabe que pode usar magia, não sabe? – eu falei quando me aproximei dela perto do balcão da cozinha e a vi preparando omeletes com uma espátula, usando fogão e as mãos para isso.

– Preciso ter o meu momento trouxa algumas vezes ao dia – contou Lily seriamente concentrada. Estava com o cabelo frouxamente preso em um coque, o que me fazia ter uma tentadora visão do seu pescoço para beijá-lo. Ela riu, sentindo cócegas e quase deixou a frigideira cair. Ela se afastou em um susto quando queimou o dedo, xingando baixinho.

– O seu momento trouxa me parece bem perigoso – brinquei. Peguei sua mão e beijei seu dedo indicador. – Pronto, agora vai sarar.

– Já não basta seu cabelo ser o ingrediente para uma Félix Felices, e agora um pouco do gosto desses lábios – ela me beijou torturantemente –, faz qualquer poção de remédio.

– Você tem um arranhão bem aqui – eu sussurrei encostando minha boca no seu queixo.

– Ah, tenho?

– Sim. Parece que a última vez que saímos para proteger o mundo... algum feitiço a acertou bem aqui – eu desci os lábios até o centro de seu peito abrindo os botões que ainda cobriam aquela pele macia e deliciosa. Lily não estava usando nada por baixo.

– Estranho, acho que está me confundindo. Eu nunca fui atingida por feitiço algum – ela disse pensativa.

– Acho que você está dormindo demais comigo e está pegando um pouco da minha sorte também, então.

– Pode ser. Você se incomoda com isso? – perguntou com os dedos no cós da minha calça do pijama quando eu a ergui para se sentar no balcão. Eu não estava usando a camisa e Lily gostava disso. Passou a mão pelo meu abdômen, subindo até meu peito, enquanto mordia os lábios. Ela fez um som aflito com a boca. – Meu omelete vai queimar e eu fiquei realmente cuidando dele por vários minutos, seria um desperdício.

– Está tentando resistir?

– Estou – disse toda graciosamente aflita.

– Sei que tem princípios de não usar magia para coisas supérfluas como fazer comida, unha e pentear os cabelos, mas... é muita maldade sua usar a minha camisa desse jeito e me seduzir-

Eu estou te seduzindo?

– Nunca sabe disso – eu inclinei o sorriso. – Nunca percebe... que é tão linda, que qualquer coisinha que possa estar fazendo, seja lendo um livro, fazendo o nosso almoço, andando pela casa pensativa e escrevendo cartas para os seus pais... eu fico louco. Quero você o tempo todo, em qualquer lugar... – Parei de sussurrar no seu ouvido quando vi um gato subindo na mesa. – Amor, desde quando temos um gato aqui?

– Não temos – ela me encarou confusa pela mudança repentina de clima. Eu apontei com a cabeça e Lily olhou para trás. Um gato, mais especificamente um filhotinho branco, estava passeando curiosamente por cima da mesa. Ele com certeza não teve ideia de como conseguiu chegar até ali porque ficou miando para o chão, sem saber como descer. – Ele deve ter entrado pela janela...

Nós nos soltamos e Lily se afastou de mim para se aproximar do gatinho.

– Você quer descer? – ela perguntou com uma voz doce. No segundo seguinte, ela carregou o gatinho para colocá-lo no chão. O gatinho parou de miar e andou até mim. Com suas garras afiadas, apertou a minha calça para começar a me escalar.

– Ouch! – eu falei, realmente sentindo as picadas das unhas dele. – Calma, calma. Aí não, aí não!

– Quem diria – riu Lily precisando tirar o gato enroscado em mim antes que ele arranhasse minha virilha. – Um gatinho tão inofensivo deixando o sr. Potter mais machucado do que aqueles Comensais idiotas... Gostei de você. – Acariciou seus pelos brancos e o gato também pareceu gostar imediatamente dela, porque se acomodou em seu colo e fechou os olhinhos para apreciar os dedos dela roçando em sua garganta. Pareceu em êxtase.

Mas Lily achou que o gatinho poderia pertencer a alguém da vizinhança, então saímos para ter certeza de que alguém poderia ter perdido. Depois de meia hora de caminhada, não encontramos ninguém, nem mesmo sinal dos irmãozinhos ou da mãe. Dei a sugestão de deixarmos ele na praça, mas a ideia pareceu muito absurda a Lily.

– Olha o tamanho dele... é tão pequeno... eu não sei, James.

– Vamos fazer o seguinte – eu disse. – Nós o deixamos aqui... Se ele decidir nos seguir, é porque ele não tem outra casa para ir.

– Ok – ela disse. Agachou-se para colocar o gato no chão.

Viramos as costas e demos alguns passos para irmos embora. O gato não nos seguiu, mas ficou parado no mesmo lugar que Lily o deixou, sentado. E começou a miar.

– Ele deve estar com fome – disse Lily e, depressa, voltou para buscá-lo.

Só descobrimos que o gato era uma gata depois que a adotamos. Não foi uma escolha nossa, mas foi da própria gatinha. Ela queria de todas as formas arranhar o sofá, o tapete e dormir sempre no pé da nossa cama. Uma vez acordei com o corpinho dela em cima das minhas costas. Ela decidiu se espreguiçar e isso a fez cravar as unhas na minha pele. Eu acordara num pulo de dor que fez a gata sair correndo.

– A Lily é tão fera assim na cama? – brincou Sirius quando ele veio nos visitar e viu os arranhões em meus braços.

– Nós temos uma gata agora. Ela decide me usar como o arranhador dela. Mas esse daqui foi a Lily ontem a noite e-

Ela entrou na sala pigarreando. Depositou as bolachas na mesa de centro para Sirius e Remus se servirem.

– Por que Wormy não veio hoje? – perguntou Lily ao sentar no sofá entre Sirius e Remus. A gata que demos o nome de Gata pulou no colo dela para a sua soneca.

– Deve estar lustrando a varinha do Olho-Tonto, é a única coisa útil que ele consegue fazer pela Ordem.

– Sirius – disse Remus bravo. – Não é verdade. Na última vez ele conseguiu estuporar Lucius Malfoy e-

– Aquilo foi pura cagada – eu disse. – E o Malfoy estava distraído gargalhando dele quando Peter quase estourou as próprias nádegas.

– Talvez ele ainda não tenha dado a chance de mostrar o que ele sabe. Moody está nos ensinando e ele até que consegue fazer alguns feitiços realmente bons nos treinamentos – disse Lily.

– Não estou dizendo que Peter não sabe fazer magia – disse Sirius abanando a cabeça. – Ele só se acostumou a andar colado com a gente e toda vez que o deixamos sozinhos para resolver alguma coisa, ele não sabe resolver. Quero dizer, não estamos mais em Hogwarts... não vamos ficar o tempo todo cuidando do traseiro dele.

– Devo concordar com você – disse Remus.

– Acho que devíamos dar mais apoio a ele – falou Lily. – Mandá-lo limpar as varinhas foi algo realmente insensível do Moody. Todos querem ajudar a Ordem da maneira que sabem e Dumbledore reconhece que Wormy tem alguma coisa para oferecer, se não ele não estaria com a gente.

– Por falar em Dumbledore – eu disse. – Alguma notícia de onde Voldemort está atuando ultimamente?

– Ele só decide expor a imagem dele quando é realmente necessário – respondeu Remus. – Não tivemos Marca Negra no céu durante esse mês, mas Dumbledore acha que isso não é um bom sinal também. Você-Sabe-Quem trabalhar em silêncio pode ser ainda mais perigoso...

– E vocês viram o que está acontecendo? – perguntou Sirius. – Há rumores, apenas rumores, que... er...

Olhou para Remus como se pedisse permissão para dizer.

– Você-Sabe-Quem conseguiu recrutar Fenrir Greyback.

Fizemos silêncio. Lily não compreendeu a princípio.

– Quem é ele?

– Você não sabe? – Remus olhou surpreso. – Ele... foi ele que me... você sabe.

Mas antes que Lily se preocupasse, ele disse com a voz baixa e determinada:

– Eu já tive mordidas demais para uma vida inteira. Não pretendo deixar as coisas fáceis para ele se algum dia nos reencontrarmos.

Nas próximas semanas, os ataques do lobisomem também começaram a ser constantes.

Alice e Frank se casaram em fevereiro de 79, mas também não pretenderam fazer nada escandaloso. Ficamos felizes que tivemos a chance de festejarmos com eles, por isso no sábado Lily e eu nos arrumamos para ir até Hogsmeade, onde seria o casamento.

Desci as escadas usando um traje a rigor e Lily estava ajeitando a alça do vestido. Nós olhamos um para o outro e eu beijei seus lábios. Havia certos momentos que o fato de estarmos casados chocava-se contra a gente de um modo silencioso e profundo, fazendo com que nem acreditássemos nisso. Mas quando caía a ficha, eu sempre tinha que beijá-la.

– Eu gostei que Alice e Frank enviaram um convite com “Para o sr. e a sra. Potter”. Me fez lembrar que realmente somos casados – eu comentei.

– E você alguma vez esquece? – ele ergueu as sobrancelhas.

– Não esqueço, só acho difícil acreditar. Ei... – eu segurei o rosto. – Quero te fazer feliz, sabia?

– Você me faz – ela garantiu.

– Não, realmente quero te fazer feliz. Quero que esses ataques acabem, quero que tudo isso acabe... não quero ter a sensação de que vamos enfrentar tantas coisas perigosas nossa vida inteira. Quero te dar a segurança que precisa para sairmos de casa só com a preocupação de deixar a Gata sozinha aqui para ela não derrubar todos os copos da cozinha.

– Mas eu estou mais preocupada com isso do que outra coisa – falou ironicamente.

– Vamos viajar – eu dei a sugestão enquanto ríamos. – Mal tivemos tempo de fazer uma viagem depois que nos casamos. E eu quero conhecer o mundo com você.

– Nós realmente devíamos pedir a Voldemort para nos dar um pouco de folga – concordou.

Entendi o que ela quis dizer, por isso encostei minha testa na dela e ficamos calados, absortos com as lembranças dos últimos ataques. Dei um suspiro que fez Lily segurar minha gravata e dizer com muita decisão:

– Vamos, vamos viajar.

– Sério?

– Sim... Se a Ordem precisar de nossa ajuda, podemos voltar. Mas enquanto isso, ainda temos uma vida... e eu quero aproveitar todos os dias com você. Então... amanhã mesmo podemos viajar.

Aparatamos na rua de Hogsmeade para encontrarmos o local onde Frank e Alice fariam a festa de casamento. Eram oito horas da noite e as ruas estavam silenciosas. Segurei a mão de Lily com a minha durante a caminhada.

O silêncio estava me incomodando tanto que tive a sensação de que nós deveríamos ter usado a Capa de Invisibilidade. Principalmente quando ouvimos um crepitar perto das árvores. O vento uivou por perto... Lily soltou minha mão para agarrar a varinha. Eu fiz o mesmo ao seu lado.

Meus olhos captaram uma movimentação quando o Comensal aparatou. Era Malfoy. Seus cabelos platinados estavam soltos e ele sorria nada amigavelmente.

– Que surpresa. Se não é o casal de ouro... ouvi dizer que estão dando um pouquinho de trabalho para os meus colegas ultimamente.

– O que você quer? – eu perguntei, Lily ao meu lado observando cada movimento que Malfoy estava dando. Andou ao nosso redor e percebi que ele não pretendia nos atacar, uma vez que sua varinha não estava sacada.

– A questão não é o que eu quero... a questão é o que o Lorde das Trevas quer.

– E o que o Lorde das Trevas quer? – perguntou Lily.

– Conversar.

– Recusamos a oferta, com muito custo. Mas, se tiver chazinho, posso até pensar nisso.

– Você se acha muito engraçado, não é, Potter? Eu me lembro de você quando estudava em Hogwarts. Insolente, arrastando aqueles dois pés rapados com o idiota do Black como se o prendessem em coleiras... Não sei como ainda estão vivos. Bom, se querem minha opinião, ainda estão vivos porque o Lorde das Trevas anda um pouco complacente.

– Não queremos sua opinião – falei diretamente e apontei minha varinha contra ele.

Malfoy sacou a dele com rapidez, mas antes que o duelo começasse, a voz fria de Voldemort surgiu da escuridão.

– Abaixem as varinhas, por favor – pediu com uma educação exagerada quando sua figura quase fantasmagórica se aproximou de nós. – Lucius, obrigado por encontrá-los.

– Milorde – disse Malfoy com uma mesura ridícula antes de aparatar, deixando-nos as sós com Voldemort como se fossemos realmente bater um papo com direito a bolinhos e chá.

– Lembro de vocês – ele disse. – Ambos se opuseram contra mim quando fui fazer uma visita ao diretor de vocês, Dumbledore. Alguns meses depois, escuto dos meus Comensais que vocês e mais alguns... como foi que Dumbledore os chamou? Ah, sim, rebeldes... estão entrando insolentemente no nosso caminho. Estou ficando um pouco incomodado.

Quando tirou sua varinha das vestes negras, eu me virei para Lily:

– Sai daqui, volte...

Lily me ignorou para dizer com a voz firme em direção a Voldemort:

– Malfoy nos disse que sua intenção é de apenas conversar.

– Isso dependerá de vocês. Estão com as varinhas em mãos, por isso estou com a minha varinha em mão. Se guardá-las, eu guardarei a minha. Terão minha palavra.

– Não – ela disse. – Não confiamos em sua palavra.

– Garotinha tola – disse Voldemort. – Mas corajosa. Falando comigo... como se eu não tivesse a capacidade de, em apenas um aceno, fazê-la cair morta a minha frente. Interessante que essa não é a minha intenção. Veja, alguns acham que eu sou um monstro. Que eu não vejo... não enxergo as qualidades das pessoas, mesmo que o sangue delas possam feder tanto...

– Não dirija suas ofensas a ela. – Eu não sei como eu conseguia reunir tanta estupidez para isso. Eu até ergui meu braço para apontar a varinha contra o corpo de Voldemort ameaçadoramente.

Ele não gargalhou, como achei que teria gargalhado.

Talvez ele acreditasse que eu não era uma criança idiota. Mostrei que eu sabia duelar fazendo os Comensais da Morte dele voltarem frustrados por não terem conseguido conquistar a tarefa designado pelo Lorde das Trevas deles.

– Eu não estou aqui para ofender, sr. Potter. Estou para oferecer uma chance que, se forem realmente inteligentes, espertos... terão a honra de aceitá-la.

– Uma chance para o quê? – perguntei com desprezo. – Para nos reunirmos a você?

Ele tinha essa cara de pau? Essa era nova.

– Sim – ele respondeu displicentemente. – Sabem que é realmente inútil... A Guerra já está ganha. Ou vocês escolhem morrer a toa... ou decidam viver para-

– Decidimos lutar, e não por você – eu respondi. – É essa a nossa escolha.

– É essa a sua? – virou os olhos para Lily.

Ela estava calada. Voldemort estava tentando persuadi-la a se reunir a ele, mesmo que ela fosse nascida-trouxa. Ele estaria dando a ela a chance de não se tornar o alvo das Maldições Imperdoáveis. Estava dando a ela a chance de sobreviver a guerra. O caminho mais fácil... o caminho mais curto...

Voldemort abriu um sorriso horroroso como se achasse que tivesse convencido Lily só com aquelas palavras. Foi quando minha mulher disse baixinho:

– O último inimigo a ser aniquilado é a morte. Eu não tenho medo dela.

E então ela empurrou meu corpo para o lado. Gritou Estupefaça e o raio vermelho explodiu contra o verde que veio da varinha de Voldemort. As luzes vociferaram por breves milésimos de segundos, estourando ao redor de Hogsmeade. Foi tão forte, foi tão intenso que o corpo de Lily tombou para o chão. Eu não demorei a reagir quando vi que ele ia tentar a maldição contra Lily, ainda tentando se recuperar do impacto dos feitiços. Voldemort viu o meu movimento e jogou um feitiço contra mim. Soube me defender com Protego. Ele era rápido, impiedoso, mas eu estava revidando com a mesma rapidez, afastando ele do corpo caído de Lily. Quando conseguiu atingir meu braço, não demorou e gritou:

Avada-

Ele não teve tempo nem de proferir o verbo. Vê-lo querendo matar a Lily me deu tanta raiva que eu não consegui pensar em nada a não ser em jorrar todos os feitiços que eu conhecia e que eu sabia que poderiam machucá-lo. Mas Voldemort nem se movia, não saiu do lugar, nem quando dois feitiços meus o atingiram...

Lily estava se levantando, fracamente. Nesse momento Voldemort me acertou com um feitiço Impedimenta e meus reflexos diminuíram. Não, não, não, ele estava virando para Lily.

Eu não ia conseguir salvá-la, não daria tempo... minhas extremidades estavam lentas, como se meu corpo pesasse uma tonelada.

– Se você não tem medo da morte... o que acha de um pouco de...

– NÃO! – eu berrei sabendo o que ele pretendia fazer. – Não, não...

Voldemort me ignorou.

Crucius.

O modo displicente como acertou a Maldição Imperdoável no delicado corpo de Lily me fez querer rasgar a minha própria pele. Lily gritava. Estava escuro, mas ainda tinha luzes suficientes para que eu observasse a expressão da terrível dor agonizante.

O corpo de Lily parou de se contrair. Ela ainda tentou reunir forças para erguer a varinha. E eu assistia a tudo, sem conseguir me mover... impotente...

– Não se arrependa da sua escolha, sangue-ruim. Crucius.

Nesse momento meu corpo voltou aos eixos. Precisando me concentrar no alvo a minha frente, eu precisava ignorar os gritos de dor da voz de Lily, eram grunhidos estrangulados, como se ela estivesse tentando aguentar, tentando suportar...

Estupefaça! – gritei e atingi Voldemort. Não parei quando ele se virou contra mim. – Estupefaça! Estupefaça! Estupefaça!

Tropeçou quando o quarto feitiço o atingiu no peito. A partir do quinto, Voldemort começou a se defender.

– É só isso o que sabe fazer, Potter? Que vergonha... e eu achando que valeria a pena recrutá-lo como um Comensal da Morte-

Expelliarmus!

Ele não esperou por isso. A varinha saltou de sua mão. Não escapou para muito longe, mas foi o suficiente para que me desse tempo para chegar até Lily. Dessa vez não tinha como não escapar, não tinha como continuar o duelo. Voldemort nem sequer parecia ser atingido por algum dos meus feitiços. E eu precisava tirar Lily dali, o mais depressa possível.

Fechei os olhos e desaparamos.

Quando caímos em nosso quarto, eu depositei o corpo trêmulo dela na cama. Deitei ao seu lado, desesperado, abraçando-a com força.

– Calma, calma, calma – pedi, sentindo seus ombros chacoalharem, afogando-se em um choro profundo. – Amor, tudo bem, estamos aqui.

– Eu só queria ir... ao casamento da Alice... queria ver minha melhor amiga se casar...

– Eu sei – murmurei. – Mas Alice vai entender... Olha pra mim – eu segurei o rosto dela. – Nós escapamos, estamos vivos. Precisamos mandar uma mensagem para a Ordem da Fênix e dizer que Voldemort estava em Hogsmeade...

Fui até a cozinha para preparar um chá para Lily, embora eu não fosse muito bom nisso. Mas precisava que ela melhorasse... se sentisse bem... mesmo que parecesse impossível se sentir bem depois do que enfrentamos.

Enviei meu patrono para Alice, voltei para o andar superior e entrei em nosso quarto. Lily ainda estava deitada e a Gata tinha se aconchegado ao seu lado, com a cabeça aninhada a ela. Lily estava com os olhos bem abertos. Entreguei a ela a xícara. Entrou embaixo da coberta quando deu o primeiro gole. Eu sentei ao seu lado e ficamos absortos, assustados. Não parecia que isso estava acontecendo.

– James? – chamou um tempinho depois. – Nunca vamos nos arrepender disso, não é?

– De termos recusado a honrosa oferta de Lorde Voldemort? Nem um pouco.

– Mesmo que isso... mesmo que isso...

– O último inimigo a ser aniquilado é a morte – eu citei e ela assentiu com a cabeça.

Não chorou mais. Essa era a realidade agora. E talvez Voldemort estivesse certo, talvez estivéssemos correndo risco à toa, talvez a guerra para ele já estivesse ganha... mas enquanto ainda houvesse força e vontade de lutar, nada seria em vão... Porque era essa a escolha certa.

Não a mais fácil, nem a mais segura.

Lutar contra Voldemort era a escolha certa.

Notas finais
Pois eu acredito que Lily amou James porque ele fez a escolha certa. E aqui vamos mais um capítulo... achei que seria interessante narrar a primeira vez que eles saem vivos depois de enfrentarem Voldemort. Em uma entrevista da JK Rowling, ela disse que a primeira vez aconteceu quando ele pergunta aos dois se queriam se unir aos Comensais da Morte. No caso de chamar a Lily, é um caso extremamente raro, mas acontece. Mais capítulos estarão por vir! Até os próximos, gente, e muuuuito obrigada por comentarem!