Prongs
30 Até o fim
"Muito bem. Agora você me enfrenta, como homem... de costas retas e orgulhoso, do mesmo modo que seu pai morreu." — Lord Voldemort
A chegada de setembro trouxe pesadelos a Lily. Duas vezes, em menos de uma semana, acordei na madrugada com suas constantes inquietações ao meu lado. Murmurava coisas, os olhos fechados em angústia... mas naquela noite em especial, ela foi clara. Sua voz era nítida, e isso me assustou como nunca antes:
– Não... não... por favor...
– Lily-
– Não...
– Lily...
Precisei encostar-me a ela, para acordá-la do pesadelo. Ela ofegou e agarrou meu peito com força, abrindo imediatamente os olhos. Seu coração estava tão disparado que eu mesmo o senti quando a abracei. Beijei seu rosto, colocando-a o mais próxima de mim. Lágrimas escorriam por seu rosto e molhavam a minha camisa.
Ficamos horas calados, acordados, incapazes de voltarmos a dormir.
Ela se levantou sem avisar e foi até o quarto do Harry. Passou a noite só observando-o dormir.
Ela me viu parado na porta e murmurou:
– Não consigo tirar meus olhos dele.
– Ele de fato roubou seus olhos – falei e isso a fez sorrir fraquinho.
– Acho que ele está sonhando.
– Com uma vassoura de corrida – adivinhei.
– Ou leite.
– Ou com a linda mamãe dele.
– Ou com o papai.
– Com certeza, está sonhando comigo – concordei. Segurei sua mão. – Ei, vamos, vamos voltar a dormir, amor.
– Não consigo – ela disse. Apertou a mão nos olhos, como se não quisesse que eu a visse chorando. De novo.
Talvez fosse exigir demais. Não tivemos nenhuma boa notícia nas últimas semanas. Voldemort e seus Comensais da Morte aterrorizavam o mundo de uma maneira ainda pior do que estivemos vendo desde então. Não havia mais motivo para ansiar por uma Mensagem da Ordem. A última foi Moody nos contando que a família de Edgar Bones, incluindo ele mesmo, fora assassinada pelos comensais, quase da mesma maneira que fizeram contra os McKinnon. No entanto, os Bones tinham nove filhos. Nove. Crianças e bebês. Ninguém era poupado.
Se já não fosse péssimo o suficiente ouvir que mais um membro da Ordem da Fênix fora encontrado morto, tivemos a notícia de que foram preciso cinco comensais para matarem os gêmeos Gideon e Fabean, depois, é claro, de torturá-los. Quando Sirius nos contou, eu não aguentei e pedi para ele não contar os detalhes.
Ficar em casa não ajudava em nada. Eu queria lutar, eu queria vingar, eu queria matar Voldemort e afogar cada um dos Comensais da Morte em uma maldição para eles pagarem pelo que faziam. Como vencer um exército de bruxos que não poupavam a vida de ninguém? Sabíamos que as mortes deveriam nos servir como um modo de erguer e lutar. De fato, os membros da Ordem que continuavam em pé e dispostos estavam lutando até suas últimas forças.
Pelo menos foi o que Remus garantiu quando a Marca Negra foi encontrada no céu de uma madrugada no fim de Setembro. A Marca Negra queria dizer que Voldemort agiu. Que Voldemort havia assassinado alguém. Que Voldemort estava querendo aparecer de novo. Anunciando seu poder, para fazer ninguém esquecer.
Moody disse que nunca viu Dorcas se dedicar tanto. Ela enfrentou Voldemort na última batalha da Ordem. Disseram que matou um Comensal da Morte, e isso irritou Voldemort. Ao ouvir que ela não saiu viva, Lily não dormiu mais. Não conseguia. E se dormia, tinha pesadelos. A única pessoa que de fato a acalmava entre todo aquele turbilhão de péssimas notícias era Harry. Era a presença de Harry.
E eu? Eu não sabia o que fazer.
Pela primeira vez, eu não sabia o que fazer.
Apenas sabia... apenas falava para mim mesmo... seja forte. Lily precisa que você seja forte. Lily e Harry. Os dois são o que mais importa agora. Nada mais importa agora. Apenas proteja os dois, cuide dos dois. Fique com os dois.
– Lily – eu a chamei quando ela estava brincando distraidamente com Harry no sofá. A televisão estava ligada em um canal de desenhos. Eu me aproximei com o violão que Sirius trazia todo fim de semana para tocar para o Harry. Eu pigarreei e sentei ao lado dela. – Fiz uma música pra você.
Ela se ajeitou no sofá, sorrindo, para ouvir.
– Lily, Lily, Lily... não sei o que rima com Lily. Mas sei que rosas são vermelhas, o pomo é de ouro e você é o meu maior tesouro.
Soei a última acorde, dramaticamente, desafinado. Ela olhou para mim e se aproximou para enrolar um braço ao redor do meu pescoço.
– Esse foi o verso mais lindo que você já fez para mim em todos esses anos – sussurrou ao me dar um beijo.
– Eu estava inspirado – falei com sinceridade. – Quer ouvir outro?
– O tempo todo – sorriu.
Era só isso. Era só isso o que eu precisava nos meus dias. Ver Lily sorrir. Eu não fazia poemas para ela com outro objetivo senão esse. Até parecia que tínhamos voltado para Hogwarts. Ao longo daqueles dias, eu apenas brincava com o violão para divertir Harry.
Mesmo em casa, você consegue se sentir exausto. A água da banheira relaxava suficientemente. E tudo o que você quer é relaxar. Eu precisava disso, nós dois precisávamos disso. Em um sábado qualquer, enquanto Lily preparava Harry para dormir, eu ajeitei o quarto com velas, conjurei uísques e preparei a música preferida dela, romântica. Quando ela chegou, surpreendeu com o que viu.
– O que é...?
– Faz tempo que não faço algo romântico por você – eu disse. – Quero te fazer tranquila todas as noites.
– James – ela disse baixinho. – Você me faz...
– Não, olha, eu não faço. Eu tento, não parece o suficiente.
– A primeira coisa que eu vejo quando acordo, quando abro os olhos, é o seu corpo ao lado do meu. E é isso o que me tranqüiliza, o que me faz erguer os pés e levantar. Não teria conseguido passar por tudo isso sem você, James. Então é o suficiente. É mais do que o suficiente.
Ela me beijou, puxando-me pelo cós da calça. Pudemos aproveitar nós mesmos, o tempo silencioso que tínhamos embaixo dos lençóis. Estava chuviscando, ouvíamos as batidas das gotas de água na nossa janela, dando um tipo de som abafado para os gemidos deliciosos dela embaixo de mim. Coloquei-a de costas, ao meu lado, para penetrá-la naquela posição, para beijar seu pescoço, para lhe dar prazer. Ela apertava meus cabelos. Acariciei sua coxa, levantando um pouco suas pernas, levando um de meus dedos para o seu clitóris, alcançando-lhe o prazer. Minha pele se esfregava nela, deliciosamente dentro dela.
– James – gemeu, ficando de bruços. Eu apoiei meus braços em cada lado de seu corpo e continuei estocando. Ela apertava o travesseiro com força, gemendo contra ele. Observei seus cabelos lindos caídos ao redor de suas costas e o coloquei de lado para poder beijar seus ombros enquanto transávamos assim.
Apertei meu peito em suas costas, segurei seus seios contra o colchão e estoquei mais rápido, mais forte, inquieto de prazer, perto do seu ouvido. Ela virou o rosto, beijei a boca dela, com a língua, gozando. Continuei penetrando devagar até finalmente sentir que eu estava plenamente satisfeito. Ajudei ela finalizar por último, acariciando-a. Lily mordeu o travesseiro e, como todas as noites, chegou ao orgasmo. Só então, eu saí de dentro dela, molhado.
– Foi maravilhoso – eu disse, beijando seu pescoço. Ela estava respirando com dificuldade. – Acho que sou viciado em você. Não deve ser bom.
– É perfeito – ela sussurrou.
Abraçamo-nos confortavelmente, seu cheiro delicioso de xampu impregnando o meu nariz. Eu beijei sua testa e enrolei um pedacinho do seu cabelo no indicador.
– Uau, eu estou exausta – ela disse quando bocejou. – Geralmente tínhamos mais pique para próximas rodadas.
– Bom, culpa do Sirius. – Sempre era culpa do Sirius. – Quem mandou ele dar uma vassoura para o nosso filho. Agora temos que ficar correndo atrás dele.
– Por que ele não poderia ser apenas normal e só andar como todo bebê faz?
Mas isso apenas nos fazia sorrir. Não reclamamos um momento do trabalho que Harry nos dava. Aliás, agradecíamos por isso.
Lily olhou para o teto do quarto, pensativa. Ela sempre ficava pensativa depois da transa, era linda. Arrastava os cabelos para trás e esperava a respiração voltar ao normal, distraidamente roçando a perna na minha enquanto pensava em alguma coisa.
– Posso confessar uma coisa? – ela perguntou.
– Qualquer coisa.
– Eu ia ao seu treino de Quadribol só para vê-lo tirar a camisa.
Eu ri com essa revelação.
– Vamos ser sinceros aqui, querida, todo mundo sabia disso.
– Só acho que agora que estamos casados eu não devia esconder essa informação.
– Posso confessar uma coisa, então?
– Vamos lá.
– Quando me apaixonei por você, nunca mais precisei ver nenhuma revista de mulher pelada. Só a sua imagem já me deixava duro.
Ela fez um som que mais pareceu uma exclamação incrédula.
– Isso é pra me deixar lisonjeada, eu espero.
– Com certeza.
Ela bocejou de novo e fechou os olhos. Começou a dizer umas coisas mas parou no meio da frase, cortando-se, para dormir. Eu sorri intimamente. Ela não dormia fácil há muito tempo, então nem ousei atrapalhá-la. Eu mesmo só consegui dormir quando tive certeza de que ela estava sonhando. Não teve pesadelos naquela noite.
Acordei no pulo quando ouvi um barulho lá embaixo. Agarrei a varinha e desci correndo, o coração disparado, mas eu estava com tanto sono que não reparei que Lily não estava na cama, então fiquei bem aliviado quando ela surgiu atrás do balcão da cozinha.
– Bom dia, amor. Nunca mais vou fazer o feitiço reparo na frente do Harry – informou.
Harry estava sentado em cima do balcão, lambuzado ao redor da boca de comida.
– Papai... – ele disse e ergueu os braços. Balbuciou um monte de coisa indicando que ele tinha quebrado os pratos que estavam espatifados no chão.
– Não vai – ela disse severamente quando me aproximei para pegar o Harry. – Estamos bravos com ele.
– Estamos? – ergui uma sobrancelha.
– Sim! Ele quebrou os pratos de propósito, temos que impor limite ao nosso filho.
– Onde é que você leu isso? Harry só estava se divertindo – abri um sorriso e ergui minha mão na altura dele para Harry tocá-la. Ele já fazia high-five com um ano.
– Bom, eu não quero que ele cresça achando que as pessoas vão consertar as coisas toda vez que ele quebrar um prato.
– Muito feio o que você fez – eu disse a ele, mas eu não sabia ser bravo. E nem queria. – Muito feio. Não pode.
Ele abriu um sorrisão. Dois dentinhos inferiores estavam crescendo.
– Não pode, Harry, não pode. Como é que se fica bravo com ele?
Lily acabou sorrindo.
– Eu queria saber – confessou. – Acho que somos pais meio desnaturados.
– Com certeza. Ops! – eu fiz, de propósito, ao jogar outro prato no chão. Harry gargalhou.
– James! – Lily me deu um tapa no braço.
– É só um prato, amor. Tente jogar também, faz bem.
Entreguei um prato a ela. Um pouco hesitante, mas tentando apenas resistir, Lily prometeu que faria só uma vez. Ainda achava super errado, mas ela acabou não se importando mais quando Harry gargalhou de novo com o prato se espatifando. Com a varinha, demonstrei um ótimo feitiço reparo. Quando os cacos estavam se juntando, eu abandonei o feitiço e os cacos voltaram a cair no chão. Era inacreditável como Harry gargalhava com isso. Não tinha graça alguma, mas com Harry até um ventilador era engraçado.
– Aaaaaaaaaaaaaaaaah – ele fazia a frente do ventilador e sua voz saía toda engraçada. Era indescritível a voz do Harry, eu queria escutar ela o dia inteiro.
Quando Lily viu o que ele estava fazendo, ficou brava com ele e comigo. Lily andava com mania de apresentar ao Harry princípios e limites. Em um Potter? Ah, Evans!
– Não pode ficar na frente do ventilador o tempo todo! – ela reclamou. – Ele vai ficar gripado, James.
E realmente ficou.
Foi um período no fim de setembro, não soubemos muito bem o que fazer. Preocupados por ele, Lily também não tinha certeza se era recomendável curá-lo com poções. Era só um bebê. Mas cuidamos dele o tempo todo. Na maioria das vezes, dormia mais do que ele estava acostumado a dormir. Lily ficou preocupada com isso. E com um monte de coisa. Ela nunca tinha sido mãe e queria ser a melhor para o Harry. Em todos os sentidos. E queria que ele aprendesse muitas coisas, especialmente a guardar os brinquedos depois de usá-los.
Harry gostava de ver magia, mas Lily o ensinou que nem sempre ele precisaria dela. Algumas coisas ele aprenderia com o tempo, mas soube guardar os brinquedos na caixa como uma boa criança, imitando-a. Ou apenas ajudando. Não começava a guardar, mas quando Lily iniciava, ele dava uns passinhos até a caixa e guardava de volta o brinquedo, para ajudá-la.
– Ele é um bom menino – eu disse.
– Quero que ele cresça um bom homem – ela disse. – E que seja forte e independente, não vai ter a gente pra sempre.
Lily sentia muita falta dos pais. Quando não sabíamos resolver um problema com Harry, ela desejava que tivesse a mãe para ajudá-la. Ela desejava que tivesse as amigas. Correspondia-se com Alice o tempo todo. As duas trocavam cartas e fotos de Neville e Harry. Pensar que Dorcas e Marlene não estavam mais lá trazia um impacto tão gigante em nós que, quando menos esperava, Lily estava com os olhos aguados de novo.
Em outubro Harry já estava se sentindo melhor e voltou a fazer suas gracinhas de sempre. Foi um alívio vê-lo curado da gripe, o que quis dizer que não havia sido nada muito grave. Como todo o domingo, nós dois líamos o Profeta Diário.
Lily estava de mau humor naquele dia, então sem aviso algum ela agarrou o jornal e o rasgou em pedacinhos.
– Não mostre isso a ele – ela mandou.
– Nós precisamos ver as notícias.
– Tudo o que a gente precisa saber Dumbledore vem nos avisar.
– Dumbledore vem nos avisar, mas trazer a minha capa ele não traz, né?
– Você está preocupado com a sua Capa estúpida? Pretende fazer o que com ela? Sair por aí nas suas excursões-
– Sim! – eu disse. – Pretendo visitar o Sirius, que está se escondendo pela gente! Pretendo lutar! Pretendo vingar a morte de todo mundo que a gente conheceu! Dorcas, Marlene-
– Não, James! Não! Não entre nisso.
– É o que eu quero – eu disse, sério. – Desculpa, Lily, mas eu não aguento mais só ficar aqui. Eu quero lutar. Eu quero acabar com isso! Não aguento mais!
– Estamos fazendo isso pelo Harry, sabe.
– Eu sei – apertei as mãos no rosto.
– Eu entendo o seu lado, James. Eu também quero lutar. Mas não me importo, não me importo com mais nada, só com o Harry. Não me importo se Voldemort acha que meu filho é uma ameaça a ele, não me importo com o que ele tentar fazer com a gente para conseguir destruir o Harry. Não me importo! Eu só quero que ele fique longe do meu filho! Eu quero essa guerra longe do meu filho! Não tem que ser dele! Simplesmente não tem que ser dele também!
A voz dela estava bem alta. Harry observava a discussão com a boquinha aberta, sem entender porque sua mãe estava tão brava e zangada.
– Vem, querido – ela abaixou o tom de voz, docemente, ao carregar Harry no colo. – Mamãe precisa dar banho em você agora.
Quando eles subiram as escadas, chutei o sofá com raiva. Não pelos dois, mas por mim. Eu não queria ter falado que não aguentava mais. Eu precisava aguentar, era necessário, pelos dois.
Lily estava na banheira com Harry, tentando pentear os fios do cabelo dele enquanto ele afundava a lula-gigante de plástico na água, fazendo sonzinhos com a boca. Quando entrei no banheiro e vi os dois, arrependi-me de ter perdido a cabeça há dez minutos. Eu não era orgulhoso.
– Ei, desculpa – eu disse.
Ela estava molhada também, sentada dentro da banheira, mas seus olhos ficavam vermelhos quando eu sabia que ela esteve chorando.
– Eu que peço – ela disse. – Não queria ter estourado daquele jeito.
– Não, você tem razão. Estamos fazendo isso pela segurança do Harry. É só ele que importa agora. E precisamos afastá-lo dessa guerra.
– Ele não tem nem ideia – ela sussurrou observando nosso filho brincando. – Não faz a mínima ideia. Às vezes desejava que eu tivesse a mesma inocência.
– É encantadora – concordei.
Aproximei-me para dar um beijinho na cabeça do Harry e demorei um pouco mais na boca de Lily. Quando me afastei, ela agarrou minha camisa para me parar e sussurrar:
– Eu te amo.
– Eu também. Os dois.
Estava silencioso naquele mês, a casa e a rua. Batilda apareceu para ver o Harry e trazer docinhos para Lily, que os adorava. As duas conversaram até o sol desaparecer.
Quando o sol desapareceu, Batilda não foi nossa única visita.
Lily fechou os olhos, recompondo-se, quando viu Dumbledore atravessar o jardim. Hora de notícias.
Ele não quis chá.
– Voldemort sabe – apenas disse.
De alguma forma, não me pareceu uma notícia. Quando nos contou que Voldemort sabia que estávamos escondidos em Godric’s Hollow, não foi uma notícia. Foi, talvez, uma confirmação do que já estávamos esperando há muito tempo.
– Foi um bom plano atrasá-lo escondendo Sirius por vocês – ele disse. – Um plano que o frustrou severamente.
– Nós sairemos daqui – eu disse. – Já estávamos pensando nisso.
– Não – Lily interferiu. – Não vai adiantar.
– Não podemos perder mais tempo – disse Dumbledore. – Prometi que os ajudaria. Ainda se lembram na aula do Professor Flitwick sobre o Feitiço Fidelius, eu espero.
– Já ouvimos falar – eu disse. – Feitiço complexo, não existe muita explicação sobre ele em livros. Difícil encontrar alguém que saiba como fazer.
– É a única chance que temos? – perguntou Lily. – O Feitiço Fidelius é uma medida extremamente...
– Urgente. Peço que confiem em mim para ser o Fiel do Segredo – ele disse.
Lily e eu nos entreolhamos.
– Senhor, agradecemos – eu disse. – Mas Sirius passou um ano nos cobrindo, dando a vida dele para nos proteger, despistando Voldemort... Ele vai querer ser o Fiel do Segredo.
Dumbledore não concordou.
– James, é arriscado-
– Não! – eu disse com firmeza. – Confio minha vida em Sirius. Ele vai ser o Fiel do Segredo. Vou chamá-lo.
O cervo prateado fez o trabalho. Sirius apareceu pela lareira dois minutos depois. Foi mais rápido do que esperávamos.
– Boa noite, Dumbledore.
– Sirius – ele cumprimentou, cordialmente.
– É verdade? Você-Sabe-Quem descobriu que vocês estão aqui?
– Por isso não temos muito tempo, Padfoot – eu disse. – Quer ser o nosso Fiel do Segredo?
– O Feitiço Fidelius? – ele estreitou os olhos, não querendo soar tão preocupado. – Não me ofenda perguntando uma coisa dessas. Sabe que eu quero.
– É uma certeza, James? Lily? – quis confirmar Dumbledore. – Então acenem suas varinhas. – Como se estivesse em um teste, Dumbledore perguntou a Lily. – Sabe o encantamento?
– Não existem palavras – ela respondeu. – É só dar a ele o segredo.
– E pensar na importância que existe e no motivo que estão dando a ele o segredo.
– Para proteger o Harry – eu disse.
– Exatamente.
Nos próximos cinco minutos, eu me concentrei em guardar o segredo em Sirius, a varinha inclinada em sua direção. Lily pousou sua mão na minha e, nesse momento, como se fossemos um só, um feixe bem pequeno de luz, quase um rastro, entrou no coração de Sirius.
– Não pareceu complexo – eu comentei.
– Não se instala na pessoa instantaneamente – contou Dumbledore. – É um segredo que vai passar em todas as células do corpo do Fiel. Amanhã de manhã, ninguém mais saberá que vocês estão aqui. Voldemort poderá trazer todo o exército dele para essa casa, eles nunca saberão que vocês estão aqui. Irá protegê-los.
– Por quanto tempo? – perguntou Lily baixinho.
– Pelo tempo que o Fiel do Segredo determinar.
– Bom, nem se ele precisar me matar – disse Sirius, e isso foi o suficiente para nós acreditarmos.
Sirius ficou em casa naquela noite, queria brincar com Harry. Pensativo, não comentou muito sobre o que tínhamos acabado de torná-lo. Eu tinha certeza absoluta que ele não se arrependeria disso. Mas ele ainda estava aflito, como se algo estivesse errado.
Lily lhe entregou cobertas para ele passar a noite no sofá, mas Sirius decidiu passar a noite no jardim, transformado em animago, como um guarda-costas.
– Não precisa, Sirius, você vai passar frio.
– Esqueceu que cachorro tem pelos? Não se preocupe, Lils, é sério. Estou bem.
Também não dormimos naquela noite. Lily ficou observando Harry no berço, dormindo tranquilo e feliz. Estava sonhando com hipogrifos de pelúcia, certeza.
Quase no finalzinho da noite, Sirius voltou para dentro de casa.
– Não me parece certo – ele disse. – Estive pensando, é muito óbvio. Com certeza Voldemort virá até mim, tentará extrair a informação. Pode me torturar até acabar com os meus miolos, não vou contar a ele, mas... o que estou querendo dizer é que é muito óbvio. Fizemos Voldemort perder tempo durante esse ano, vamos fazê-lo perder mais um pouco de tempo.
– Como assim?
– Vamos usar outra pessoa. Uma pessoa que não seja óbvia, a última pessoa no mundo que Voldemort tentaria procurar saber do segredo. Alguém...
Lily e eu dissemos ao mesmo tempo.
– Peter.
– Vocês o tornam o verdadeiro Fiel do Segredo... Voldemort nunca vai desconfiar.
– Está querendo ser uma isca de novo, Sirius?
– Eu sou bom nisso – ele disse ansioso. – É sério. Ele vai tentar me procurar, me caçar, o que precisar fazer, vai perder tempo. Não serei o verdadeiro Fiel. Eles vão achar que sim, é claro. Não contamos a ninguém, nem a Dumbledore, que eu não serei o verdadeiro. O que acham?
Olhei para Lily.
– O que acha, querida?
– Confio em todos que juram solenemente – ela disse.
E, então, Peter Pettigrew se tornou o verdadeiro Fiel do Segredo no final da noite. Meu amigo sentiu-se útil dessa vez, honrado, e jurou solenemente que não trairia o segredo.
Jurou solenemente.
Lily abraçou Sirius quando eles se despediram. Bem forte.
– Obrigada – ela disse. – Por tudo o que tem feito pela gente, pelo Harry, não conseguiríamos sem você.
– Sem choradeira – ele ralhou. Lily acabou rindo, porque de fato ela estava quase chorando. – Cuida do Prongs, ok?
– Pode deixar.
Ele sorriu para mim e apertou minha mão antes de me dar um abraço.
– Harry está protegido agora – ele disse. – Vamos, Peter.
Lily também parou Peter para abraçá-lo antes de ir embora. Ele deu uns tapinhas sem jeito nas costas dela. Acho que Lily foi a única alma feminina que o abraçou na vida.
Enquanto ela dizia algo para Peter, talvez pedindo para ele cuidar do segredo, levei Sirius para um canto da sala.
– Padfoot. Não quero só pedir isso para você ainda – eu disse, num cochicho. Segurei o ombro dele. – Ei, escute, Lily e eu conversamos. Se algo acontecer com a gente... Não, escuta agora, nós pensamos seriamente nisso. Se algo acontecer, a gente quer que você fique com o Harry. Sei que não tem jeito com bebê, eu achava que também não tinha, mas... ele te adora e é um bom garoto. Gosta de voar na vassoura três vezes ao dia, descansa no final da tarde e depois dorme a noite inteira.
Estendi a minha mão. Ele me olhou seriamente. Não me mandou calar a boca. De fato, apertou a minha mão. Ele ia dizer alguma coisa, mas Lily nos interrompeu.
– Visitem a gente sempre – pediu. – E se puderem chamar o Remus...
– Eu não vou chamar – Sirius disse e foi embora com Peter.
Lily apertou a mão na cabeça quando voltamos a ficar sozinhos de novo, na casa.
– Vai ficar tudo bem – eu sussurrei para ela, massageando seus ombros.
– Você acha que Sirius tem razão? Você acha que Moony é o espião?
– Não – eu disse sem rodeios. – Todo mundo está estranho. Não espera que depois que a Dorcas e a Marlene – pigarreei –, não espera que eles fiquem bem com isso. Mas não faria mal algum para o Remus visitar a gente de vez em quando.
– Ele está envergonhado.
– Pelo que?
– Ele sempre foi envergonhado, James. Espero que ele fique bem.
Ficou calada o restante da noite. Vimos pela janela da sala de visitas o sol aparecer sem muita intensidade. Estava fazendo frio naquela manhã. Nós ficamos no sofá abraçados. O tempo parecia tão miseravelmente... lento. Os dias estavam ficando lentos.
– Não gosto de outubro – confessou Lily olhando a rua pela janela. – Sei que nos casamos nesse mês – acrescentou –, e que tem o dia das bruxas, mas não gosto de como as folhas ficam mortas. O jardim está horrível.
– Por que você não faz sua linda mágica?
Lily abriu um pequeno sorriso. Um sorriso triste.
– Porque é a natureza. Não posso interferir nela, mesmo com magia.
– Foi uma boa resposta.
– Resta apenas esperar, certo? Vão nascer outras.
Abracei ela e, nisso, Lily apoiou minha mão no seu abdômen. Meu coração deu um salto gigantesco.
– Lily...
– Não tenho certeza ainda – ela sussurrou.
– Acho que está – eu cochichei no seu ouvido. – Daremos o nome de Larry no próximo? Ou Jarry?
Ela riu.
– Você quer outro?
– Olha, não é segredo que eu gostaria de ter um time de Quadribol inteiro com você – falei. – Encher essa casa.
– Você certamente não sabe como é ter uma cabeça saindo da sua vagina – ela disse. Eu gargalhei. – Mas depois que eu coloquei o Harry nos braços pela primeira vez... não lembrei da dor. Não existiu dor.
– Mas meus dedos ainda estão quebrados daquele dia – eu olhei para eles, ironicamente, fazendo-a girar os olhos. Sorri para ela e inclinei-me para dar um beijo. Não foi um beijinho. Nossas línguas se acariciaram, entrelaçadas. Eu nunca esquecia como ela era boa nisso, em beijar. Senti o gosto dos lábios dela, quis sentir para sempre. Fomos interrompidos com Harry chorando lá em cima.
Lily desgrudou os lábios e me encarou, estranhando.
– Ele não costuma acordar a essa hora.
– Eu vou ver. Pode descansar, amor.
Passei um ano, todos os dias, conhecendo Harry. Seus choros, suas risadas, e eu conhecia cada tipo. Mas aquele choro, não, eu não conhecia. Ele estava berrando, enormes gotas de lágrimas se formavam nos seus olhos verdes. Eu entrei em seu quarto para ver o que estava acontecendo.
Ele estava em pé no berço. Engasgou um pouquinho quando me viu. Chorava, mas a intensidade diminuiu quando me aproximei.
– Calma – eu pedi, sorrindo. – Estou aqui. Vai ficar tudo bem agora, Harry.
Pelo jeito que ele chorava não era para conseguir comida ou brincar. Acho que ele realmente teve um pesadelo. Eu não sabia que bebês podiam ter pesadelos. Ela parecia bem assustado.
Vi que seu hipogrifo de pelúcia estava no chão e o peguei. Talvez fosse isso, talvez fosse porque ele não tinha o bichinho com ele. Segurei Harry no colo e entreguei o brinquedo em suas mãos.
Ele observou o brinquedo, segurando a asinha do hipogrifo. Estava soluçando. Sentei na cadeira ao lado do berço esperando ele se acalmar. Só se acalmou quando peguei minha varinha e brinquei um pouco com ele, fazendo a fumaça sair da ponta dele, e ele gostava de tentar pegá-la.
Coloquei-o de volta no berço, esperando que ele voltasse a dormir, quando seus olhos fecharam de novo. Harry reclamou um pouco mais, mas ele era destemido. O que quer que o deixara com medo, soube resolver isso. Voltou a dormir e ficou quieto o restante da madrugada.
Tentava inventar brincadeira para ele naqueles dias. Brincadeiras novas, para ele se alegrar. Não ficar na mesmice de ser trancado em Godric’s Hollow.
Havia dias que só tinha o silêncio da casa. Lily não estava para conversar; eu não estava para conversar, Harry também não estava. No outro era correria para todos os lados, quando ele brincava na vassoura. Correria e risadas. Dificuldade em dar banho nele, depois fomos surpreendidos por ele aprender mais algumas palavras.
– Pomo – ele dizia.
– Olha, se ele não for jogador de Quadribol vou tirar satisfação – comentei fazendo Lily rir.
Na manhã de sábado do dia das bruxas, fui acordado com uma mão apertando meu nariz. Harry estava peladinho na cama onde Lily estava tentando com todas as forças e dedicação colocar uma roupinha nele.
– Não precisava acordar o papai, Harry – Lily reclamou.
– Não tem problema – eu disse com os olhos embaçados. Fui alcançar meus óculos mas eles estavam na mão de Harry. – Devolve?
Ele não devolveu. Lily sorriu.
– Acho que ele vai usar óculos de tanto que adora os seus.
– Vai ficar incrível como fica em mim. O que... o que é isso, Lily? – eu perguntei desesperado quando ela colocou a roupa verde no nosso filho. Tinha pantufinhas gigantes e ela colocou um nariz feio no pequeno do Harry.
– Não ficou legal? – ela perguntou preocupada. – Eu fiz a fantasia. Ele é um trasgo!
– Ficou... diferente – falei com sinceridade.
Ela analisou Harry com a testa franzida, aflita. Harry tirou o nariz e o jogou no outro lado do quarto.
– Pensei que talvez como está tudo tão calmo aqui em casa, resolvi que devíamos fazer um Halloween admirável para o primeiro ano de Harry.
Depois do almoço de Harry, nós fizemos ele experimentar um feijãozinho de todos os sabores para crianças pela primeira vez. Lily ficou preocupada que fosse um gosto muito ruim e chegasse a fazê-lo vomitar, mas ele só fez uma expressão muito, muito engraçada quando mastigou o pequeno doce. Ficou com a língua de fora, provavelmente mastigando alguma coisa azeda.
– Será que foi de limão?
– Nunca vamos saber que sabor que era – lamentei. Ele demorou um pouquinho para tirar aquela expressão do rosto. Lily e eu ficávamos observando ele de sua cadeirinha, rindo com suas expressões a cada pedacinho.
– E agora... um sapinho de chocolate.
Ele adorou o gosto do chocolate.
– Devíamos ter apresentado a ele há muito tempo – eu disse.
– Não se preocupe – disse Lily –, ele terá tempo para experimentar quantos ele quiser.
Tivemos uma tarde tranquila. Lily o colocou para a soneca, o que nos deixou um pouco entediados sem suas risadas e sua bagunça. Eram nesses momentos importantes de descanso que aproveitávamos para um banho juntos.
Eu a puxei para mim, para o meu colo, ao redor da água morna da banheira. Assoprei seu pescoço para ela se sentir arrepiada. Segurei os cabelos dela para erguê-los e então passar o sabonete em seus ombros. Lily sorriu, acariciando levemente meu rosto. Analisei cada traço do seu rosto, dos seus lábios. Gravei tudo, na minha memória.
– Pensei sobre o que disse – ela disse, jogando os braços ao redor do meu pescoço, brincando com os cabelos atrás de minha nuca. – Sobre termos um time de Quadribol de filhos.
– Não é uma boa ideia, não é? Principalmente agora...
– É uma perfeita ideia. Harry não se importaria em dividir o troninho dele.
– Você...
– Estou.
Encostei minha testa na dela, ofegando. Enxuguei meu rosto e Lily abriu um sorriso que mostrava os dentes.
– Você está emocionado?
– Não – eu disse. – Entrou sabão nos meus olhos, só isso.
Ela beijou minhas pálpebras, delicadamente, uma de cada vez. Desceu os lábios pela minha bochecha até chegar aos lábios. Nossas línguas se entrelaçaram e ela se ajeitou no meu colo, colocando-me dentro dela, lentamente. Moveu o quadril e apertou meus cabelos, com força. A água caiu por todos os lados, frenéticos estavam nossos corpos, desesperado por mais contato que isso, um contato impossível, que nunca chegaria a ser o suficiente.
– James! – ela ofegou, chamando meu nome com força e o orgasmo chegou tão profundamente a ela que ela desesperadamente mordeu a minha boca.
O banheiro silenciou nos próximos minutos.
– Vamos sair de Godric’s Hollow – murmurei, meu peito apertado por um sentimento inevitável de continuar alcançando o mundo por eles. Um sentimento de querer continuar na luta. Uma inspiração que eu não tinha há meses. Uma inspiração que tomou conta de mim.
Ela fez que sim, entendendo a minha vontade. O segredo ainda ficaria com a gente, não importava para onde formos... Ainda estaríamos protegidos pela segurança de não sermos encontrados por Voldemort. Eu só não queria prendê-los no mesmo lugar para sempre.
Os postes das ruas lá fora começaram a se acender. Sentíamos mais seguros em deixar as cortinas abertas por causa do Feitiço Fidelius. Eu via as crianças correrem de um lado para o outro na rua, crianças trouxas que pediam doces de graças, para a festa do feriado tão trouxa quanto bruxo. Lily arrumou algumas caixas para guardar os pertences que ela gostaria de levar para onde quer que fosse. Deram umas três caixas só com os brinquedos de Harry e foram essas as que mais importaram. Ela estava nervosa porque não achava o hipogrifo de pelúcia do Harry de jeito algum. Ele tinha mania de botar em algum lugar estranho da casa.
Levei Harry até a sala, para voar um pouquinho na vassoura. Dessa vez, ele estava um pouco cansado e não ficou muito tempo nela. Queria brincar de feitiços comigo, suas mãozinhas fechavam-se em torno do vapor colorido que saía da ponta da varinha. Ria toda vez, feliz, alegre, satisfeito.
Lily abriu a porta da sala e entrou com um alívio imenso no rosto.
– Achei o brinquedo. Estava atrás do fogão. Como apareceu lá eu não faço a mínima ideia. Vamos, Harry, já está tarde para ficar acordado.
Entreguei Harry em seus braços e larguei a varinha no sofá, exausto de tanto entreter o Harry com ela, mas feliz. Espreguicei-me para me jogar no sofá e dar um bom cochilo.
Não deu tempo.
Um barulho ensurdecedor veio do hall de entrada. Não era Sirius, não era Peter, não era Dumbledore, porque nenhum deles escancararia a porta de entrada.
Não cheguei a ver o rosto de Lily naquele momento que eu corri.
Não, hoje não. Por favor, não... não pode ser, não pode ser, não poder ser, não pode ser ele.
Antes mesmo de ter certeza, antes mesmo de vê-lo, eu gritei.
– Lily, pegue o Harry e vá! É ele! Vá! Corra! Eu o atraso...
Não ia dar tempo de voltar para a sala e pegar a varinha. Não ia dar tempo de voltar para os dois, para o meu filho. Disso eu soube no momento que cruzei a porta para ver a figura de Voldemort dentro da minha casa. Eu não sabia com o que eu ia atrasá-lo. Jogar o carrinho do Harry na direção dele o faria rir de mim; se já não estivesse rindo, por notar que eu estava sem varinha.
Mesmo assim, eu não cedi o espaço. Eu não me curvei.
Ele não achou que eu o faria, de qualquer maneira.
Então, ergueu a varinha. Não ia perder seu tempo comigo.
Harry, pensei naquele instante. Um único e poderoso sentimento para protegê-lo até o fim mesmo que, agora, fosse impossível...
– Avada Kedavra!
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