Promiscuous

7 Capítulo 6 - Did It Again


Notas iniciais
O hit que embala esse capítulo é “Did it again” da Shakira. Assistam o clipe se puderem. Algo na performance da cantora e do bailarino me faz lembrar um casal de ninja.

Promiscuous

Capítulo 6 – Did it Again

Revisado por Blanxe

Você é como um daqueles caras.

O tipo com um olhar delirante.

Mas eu disse: "Hei, que inferno!

Será que pela primeira vez vou andar do lado selvagem?”

Você estava tão cheio de si.

Mas que maldição!

Mesmo assim, era tão atraente!

No dia seguinte, na mesa do café dos Namikaze, o pai da família estava entretido no folhear do jornal, quando sentiu a mão da mulher apertando levemente sua coxa. Abaixou o impresso e a viu apontar o filho, que tinha os hashis detidos no caminho para a boca.

Naruto, mesmo tendo engolido as primeiras porções de arroz, não sentia fome o suficiente para a segunda.

Pai e mãe trocaram olhares de preocupação. Minato dobrou o jornal e o depositou em cima da mesa, apanhou a xícara de café, sorveu um gole, voltou a pousá-la no pires e, tentando soar casual, inquiriu o filho.

— Sem fome, filho?

Naruto pareceu despertar do transe ao ouvir a voz do pai. Devolveu os hashis à mesa, empurrou a tigela de arroz; olhou para a mãe, que preparou o café com carinho e desculpou-se.

— Perdão, okaasan?

— Você está indisposto, querido?

— Eu só estou sem fome.

— Se não está com fome, não precisa se forçar — a mulher garantiu com um sorriso, voltando-se para o pai dele. — Seu pai dará dinheiro para que compre o almoço na faculdade.

Antes que o pai puxasse a carteira, Naruto interveio, levantando-se.

— Não é preciso, pai. Eu ainda tenho dinheiro comigo.

— Sakura está bem?

— Sim, está se recuperando melhor que o esperado.

— Então, acho que não precisa mais manter essa expressão preocupada o tempo todo — o pai observou, imaginando que o filho ainda estava abatido pelo acontecido com ela. Também, ignorando totalmente a informação de Naruto sobre não querer o dinheiro, retirou a carteira do bolso do paletó, apanhou algumas notas altas e as pôs sobre a mesa, de frente ao filho. — Ou está acontecendo algo mais que queira nos contar?

Naruto viu o pai guardar a carteira e respirou fundo. Tinha pais maravilhosos, que sempre se esforçaram para que fosse bem cuidado e feliz. Por isso, temia magoá-los. Sabia muito bem o quanto o pai torcia para que sua relação com Sakura evoluísse para um namoro e o quanto ele desaprovava a amizade com Sasuke.

Na tarde do dia em que Sasuke e ele se desentenderam, atendeu ao pedido do pai e saíram para jantar em um dos restaurantes de alto-padrão que ele costumava frequentar. Obviamente, passou o dia pensando em uma justificativa plausível para dar ao genitor, algo que explicasse seu estado naquela manhã. Cogitou dizer a verdade, mas temendo a reação dele, acabou omitindo mais informações do que queria.

Explicou ao pai que não foi passar a noite estudando na casa de Sasuke, como havia informado anteriormente, e sim, na casa de Ino. Junto com Sasuke e Sakura. E que as coisas saíram um pouco de controle quando começaram a beber.

O pai de Naruto, que não tinha mais o hábito de beber, ficou aturdido quando ouviu o próprio filho dizer que havia bebido ao ponto de perder o controle.

Seguiu-se uma sequência de sermões: por terem se reunido na casa da filha do Sr. Yamanaka, na ausência dele. Depois por terem ingerido álcool. Naruto estava desistindo de continuar, quando o pai insistiu em saber o ponto “x” do seu desentendimento com Sasuke.

Pensou por algum tempo, medindo as palavras. Explicou que Ino estava tentando ficar com ele, mas quando a rejeitou, ela tentou Sasuke, que por estar muito embriagado, aceitou ficar com ela. Ao presenciar a cena, Sakura o convidou para ficarem e não conseguiu resistir. Sakura era sua paixão de infância e seu pai sabia. Não precisou explicar mais nada.

O pai engoliu facilmente toda história e passou parte da noite o aconselhando. Dentre os conselhos, ele pediu para que se afastasse de Sasuke. Repetindo o discurso batido sobre o rapaz não ter limites, por ter crescido sem uma estrutura familiar adequada. Minato também repetiu que apoiaria a relação com Sakura, caso quisessem engatar o namoro e falou até de um futuro noivado.

Naruto achou aquilo demais, mas procurando finalizar a noite de forma tranquila, não prometeu nada ao pai, apenas disse que esperaria que Sasuke e Sakura se resolvessem primeiro.

De volta ao momento atual, Minato levantou da mesa do café e apanhou as chaves do carro no suporte na parede.

— Vou deixá-lo na faculdade — anunciou, desistindo de obter alguma resposta.

— Querido, você tem uma reunião de negócios importante hoje — Kushina interveio. — Eu dou uma carona para nosso filho.

— Vocês não precisam se incomodar. Eu posso ir de bicicleta como faço todos os dias.

— Está passando da hora de você ter um carro. Precisa tirar sua carta. Eu quis ter de dar um carro quando entrou na faculdade, mas você se recusa a tirar a carta.

— Pai, você sabe que não sou fã de dirigir.

— Todo homem tem que dirigir.

— Quem impôs essa regra?

— Parem, por favor — pediu Kushina, ao notar que a discussão entre eles iria se acalorar. — Os dois vão se atrasar, esse não é o momento. Agora vamos, Naruto.

Ela levantou-se, beijou o marido, apanhou outra chave no mesmo suporte na parede e os dois saíram.

...

No carro, passados alguns quilômetros, ao parar em um semáforo, Kushina observou o filho, que encarava o vidro da janela com um olhar distante. Depois que entrou na faculdade, Naruto pareceu ter amadurecido rapidamente. Antes ele era um jovem enérgico e hiperativo, que adorava aprontar. Jamais imaginou que ele se tornaria tão ponderado e responsável.

Percebeu que essa mudança começou a acontecer com a chegada dos amigos. Antes, quando pequeno, Naruto tinha dificuldade em fazer amizade, pelo fato de ele ter traços diferentes. Foi muito perseguido pelos colegas de escola que o chamavam de “estrangeiro”, mesmo ele tendo nascido no Japão. Mas tudo mudou quando passou a andar na companhia de Sasuke e de Sakura. Hoje, Naruto era tão popular quanto seus amigos.

Kushina suspirou saudosa das gargalhadas exageradas do filho, enquanto voltava a dirigir.

Ela entendia muito bem as nuances entre ser sério e estar deprimido. Naruto não estava bem. Por mais que Minato tenha dito que tiveram uma conversa proveitosa, ela sabia muito bem que seu querido esposo era desprovido da sensibilidade necessária para captar certas coisas. Avistou o prédio da faculdade a frente e estacionou o carro na praça, duas quadras antes.

Naruto encarou a mãe com um ar confuso.

— Sei que não deve ser nada interessante para um rapaz da sua idade chegar à faculdade na companhia da mãe, por isso, você pode seguir daqui a pé.

O rapaz loiro sorriu e deu um grande e aliviado sorriso para a mãe.

— Mãe, a senhora não existe. Obrigada.

— Mas vou querer meu beijo mesmo assim — ela negociou, apontando para a própria bochecha.

Naruto sorriu mais abertamente e a beijou estalado na face, em seguida, apanhou a mochila que estava no chão entre suas pernas, tencionando descer do carro, mas antes de destravar a porta do veículo, a mãe falou:

— Posso apenas te falar uma coisinha, filho?

— Ah, Okaasan — ele quis protestar, pressentindo que viria mais represálias.

— Sei que você já conversou com seu pai. Mas, às vezes, falta no homem um pouquinho da sensibilidade feminina para perceber algumas coisas. Seu pai vê tudo de forma muito categórica e objetiva. Porém, eu vejo de uma forma mais emocional e eu sinto que ainda tem algo o incomodando. E esse algo não tem nada a ver com a Sakura e sim com Sasuke.

Os olhos do loiro, de cor e formato tão idênticos aos da mãe, se arregalaram.

— Eu sabia — ela sorriu com sua assertividade.

— O que a senhora sabe exatamente?

Os dois se contemplaram por um tempo, mas Naruto sabia que, diferente dele e do pai, Kushina jamais vacilava no olhar. Seus olhos grandes e brilhantes estavam fixos nos dele e transmitiam toda certeza e determinação daquilo que iria dizer.

— Que ele o ama.

Certamente, Naruto não estava pronto para aquela resposta. Sentiu o coração bater mais depressa. Fechou os olhos e engoliu em seco. Aquelas palavras ecoaram em sua mente causando até mesmo vertigem.

— A senhora não está falando em amizade, não é, mesmo?

— Você sabe que não.

— Quando soube disso?

— Isso realmente importa?

— E se eu disser que importa?

— Eu não sei ao certo, meu bem. A resposta talvez seja: sempre — ela deu de ombros, deixando entender que aquilo realmente não tinha tanta relevância como ele queria que tivesse. — Os olhos com que Sasuke sempre olhou para você, o jeito que ele sempre cuidou de você. Meu filho, é tão óbvio.

— Nunca foi óbvio para mim.

— Por que falta em você a mesma sensibilidade que falta ao seu pai.

— Sasuke conversou com a senhora sobre isso?

— Claro que não. Não diretamente. Mas Sasuke e eu sempre conversamos aleatoriedades. Muitas vezes ele me contou suas dores, suas frustrações, a falta que os pais faziam e a inveja que ele sentia por você ter tudo o que ele não teve. Eu o incentivava a lidar com esse sentimento, com as dores. Sabe, querido. Ter crescido sem a presença dos pais e ainda ter que lidar com uma homossexualidade, com certeza não deve ter sido muito fácil para ele. É por isso que seu amigo se perdeu em algum momento, e está tentando outros caminhos. Mas eu sabia que essa fachada que ele construiu de “rapaz pegador” não duraria muito tempo. E, pelo que percebi, desmoronou mais rápido do que eu imaginava e em um momento não muito oportuno. Agora a amizade de vocês está em jogo. Veja, querido, a única coisa que eu peço, é para que seja sensato. Como sempre foi. Não julgue seu amigo de forma superficial.

— Mas eu não sou gay, mãe.

— Não estou falando que seja e nem precisa ser para tentar entendê-lo. Só estou dizendo que aceitar seu amigo, não é nenhum problema. Posso te contar um segredo? — a mãe perguntou.

Naruto encarou a genitora, que ganhou um ar mais jovial ao pedir para contar-lhe algo que parecia uma fofoca.

— Pode.

— Antes, erga sua mão direita e me prometa que jamais contará isso para ninguém, nem sobre a pior das torturas.

Naruto sorriu, ergueu a mão e assentiu.

— Eu juro.

— Seu pai já gostou de um homem, antes de amar a mim.

A revelação fez Naruto abrir a boca em choque.

— Está brincando, okaasan?

— Nunca brincaria com algo tão sério.

— E diz isso com tanta tranquilidade assim?

— Mas é algo tranquilo.

— Quem é essa pessoa?

— Segredo de estado — ela respondeu. — Mas, isso não impediu seu pai de amar novamente; e amar uma garota, no caso, eu. O amor é esse grande mistério, meu filho. Ele se manifesta das formas mais inesperadas. Se seu melhor amigo o ama, e você não pode retribuí-lo, apenas respeite esse sentimento.

Naruto pensou em contar para mãe o ocorrido daquela noite de forma integral. Sua chateação não era exatamente por ter descoberto o sentimento de Sasuke, mas sim pela forma que ele a revelou. Pela violência. Por ter tido seu corpo violado. Aquilo sim não conseguia perdoar e nem aceitar. Muito menos o jeito que ele terminou com Sakura, fazendo-a se desorientar ao ponto de sofrer um acidente quase mortal.

Mas sua mãe era tão boa, tão dócil e acreditava tanto nas pessoas que não queria destruir aquilo.

— Eu tenho que ir — anunciou ao consultar o relógio de pulso. — Obrigada por essa conversa, okaasan. Confesso que estou me sentindo mais tranquilo. Não com essa revelação sobre meu pai — ele quebrou o gelo com o comentário e sorriu. — Mas prometo que vou tentar lidar com tudo isso da melhor forma possível.

— Saiba que se precisar de mim, em qualquer momento que for, eu estarei aqui por você.

— Obrigado.

— Eu te amo, querido.

— Eu também te amo, okaasan.

Naruto desceu do carro.

— Venho te pegar?

— Eu volto sozinho.

— Certo, se cuide — ela jogou um beijo no ar, travou as portas, deu seta e entrou na via novamente. Logo, o veículo foi ganhando velocidade e desapareceu.

Naruto suspirou. De alguma forma, a conversa com a mãe havia sido mais proveitosa que a conversa com o pai.

Caminhou por duas quadras e entrou no Campus da Universidade, que estava cheio. Consultou o relógio de novo e notou que estava tão atrasado, que chegou na primeira troca de salas.

— Ei, Naruto?

Ouviu o chamado em suas costas e ao reconhecer o dono da voz, aguardou o amigo se aproximar.

— Oi, Gaara. E aí?

— E aí, cara? Até que enfim apareceu.

— Pois é.

— Como está a Haruno?

— Acordou ontem.

— E os boatos são verdadeiros?

Naruto parou para encarar Gaara Sabaku. O rapaz ruivo, assim como ele, tinha uma triste história de bullying por sua aparência estrangeira: ruivo de olhos verdes. Mas, Gaara, diferente dele, não teve amigos que o amparasse na infância e teve que passar por um longo tratamento para depressão.

Quando soube da história dele, decidiu que seria seu amigo e se aproximou. O problema é que Sasuke não gostou nada da ideia e esse se tornou um dos motivos das brigas constantes entre eles.

Agora entendia que era pelo fato de o rapaz ser assumidamente homossexual. Sasuke certamente imaginava que Gaara não queria amizade, e sim, tê-lo, da mesma forma pervertida que ele queria.

— Que boatos são esses?

— Que ela tentou suicídio por causa do retardado do Uchiha.

Naruto sentiu o ar faltar em seu peito, ao imaginar a maldade das pessoas ao espalharem aquele tipo de boato.

— Quem disse isso?

— Não sei. É o que estão falando por aí.

Naruto revirou os olhos, indignado.

— Ela não tentou suicídio.

— Eu imaginei que não. Sakura é uma mulher segura suficiente para não fazer...

Mas o ronco exagerado do motor de um carro que entrava no Campus interrompeu Gaara, chamando atenção dos dois. Não só deles, mas de todos que estavam naquela região. Logo era possível ouvir gritinhos eufóricos e os comentários das admiradoras de Sasuke.

— Vejam, meninas! Ele veio!

— Ih, eu não aguento — Gaara comentou. — Vou me retirar. Aí vem seu dono.

Fez menção de se retirar, porém, foi impedido.

— Espera — Naruto segurou o antebraço do ruivo, franzindo as sobrancelhas para o que ele tinha dito. — O que você disse?

— O que você ouviu.

— Eu sei o que ouvi. Eu quero saber porquê disse isso?

— Ué, Naruto? Preciso desenhar? Não está na cara que ele quer monopolizá-lo?

Os dois interromperam a conversa quando viram o Uchiha vindo na direção deles, de óculos escuros e uma pose arrogante. Naruto desviou o olhar, por imaginar que Sasuke iria falar com ele. Mas, diferente do que imaginou, Sasuke passou ao lado de Gaara, fazendo questão de esbarrar em seu ombro, e continuou andando.

O rapaz de cabelos vermelhos não gostou nada da trombada, cerrou os punhos, e retrucou:

— Qualé, Uchiha? Não olha para onde anda, não?

— Gaara, melhor não — Naruto sugeriu, com receio de que acontecesse uma briga, igual a que houve no dia anterior entre Sasuke e o irmão mais velho. Não queria que mais ninguém fosse ferido por Sasuke.

O Uchiha não voltou de imediato para certificar-se de quem o chamava. Primeiro, retirou os óculos do rosto, segundo, correu os dedos pela franja, jogando-a para trás. Olhou de um lado a outro, como se não soubesse de onde viera a voz que falou com ele, em seguida deu meia volta e repousou sua atenção no loiro e no ruivo.

— Foi mal, eu não te vi — após dizer isso, enganchou as hastes dos óculos na camisa e voltou a caminhar, enquanto era rodeado por garotas que queriam alguma atenção dele.

— Eu ainda vou arrebentar esse cara — resmungou Gaara.

— O que tem contra ele?

— Fora o fato dele ser extremamente arrogante?

Naruto deu de ombros.

— Quer saber mesmo o que realmente me irrita nele?

— Fale se quiser.

— Eu vou falar. O que me irrita nele é o fato de ele ser gay e ficar brincando com a Haruno, com todas aquelas trouxas e até mesmo com você. É por causa de tipos como ele que tipos como eu são tão escrachados por aí.

Naruto coçou a nuca. De repente, todos pareciam saber sobre a homossexualidade de Sasuke, menos ele e Sakura.

— Então, você também sabia.

Gaara riu debochado.

— Que Sasuke Uchiha é gay? Que ele é doente por você? Ah, Naruto. Só não vê quem não quer.

— Estou cansado de todo mundo jogar isso na minha cara — Naruto deu as costas para Gaara, decidido a seguir para sua aula. Porém, foi a vez de ele ter o braço agarrado pelo outro e ser impulsionado de volta para ele.

— O que foi, Gaara? Não me diga que é afim do Sasuke?

— Argh! Não brinque com isso. Tenho nojo de tipos enrustidos como ele. Mas, e você, é afim dele?

O coração de Naruto deu um salto. Olhou para os lados e notou que algumas pessoas haviam parado para tentar descobrir o que estava acontecendo entre eles, espionando-os aos cochichos. Sentiu o rosto corando.

— Pare com isso.

— Isso não responde minha pergunta.

— Não é da sua conta.

— Está aprendendo a ser grosso como ele?

— Eu não sou afim dele.

— Então, aceita namorar comigo?

Antes que pudesse responder, Naruto sentiu um crescente frio no estômago ao notar que o ruivo venceu rapidamente a distância entre eles e tocou seu rosto. Antes que pudesse recuar do intento deste, foi beijado na boca, na frente de uma boa parte da faculdade.

O rosto do loiro enrubesceu violentamente, enquanto ouvia os comentários das pessoas que se aglomeravam em torno deles fazendo todos os tipos de burburinho.

Colocou as mãos no peito do ruivo e o afastou devagar. Em seguida passou o punho fechado para limpar a boca.

— Não deveria ter esperado eu responder antes de fazer isso?

— Perdão, eu... não... só me movi sem pensar.

“Nunca vi dois garotos se beijando”. "Tão lindos e gays”, eram alguns dos comentários aleatórios.

— Perdão?

Naruto respirou fundo e abaixou a guarda por um instante.

— Eu estou cansado, apenas isso.

— Desculpe-me, por favor.

— Certo. Só vamos para aula, vai. Depois conversamos melhor.

Gaara assentiu e os dois saíram dali o mais rápido que conseguiram.

...

Enquanto isso, no Hospital de Tóquio, Ino penteava o cabelo da amiga enferma. Percebeu que Sakura estava com um semblante um pouco melhor naquela manhã, o que a animou também.

— Depois que sairmos daqui, vamos virar a noite em uma balada — ela anunciou com seu jeito entusiasmado de sempre.

Sakura sorriu discretamente, sentindo as cerdas da escova desembaraçando seus fios rosa e alisando-os. Estava muito feliz por saber que pelo menos no quesito “amigos verdadeiros” tinha feito as escolhas certas. Ino e Naruto eram muito melhores do que poderia esperar.

A mãe contou que Ino demorou muito para vir visitá-la, mas justificou o motivo: pavor de hospital. Mas a amiga venceu a fobia e desde então, começou a passar o dia e a noite ali ao lado dela. Enquanto Naruto vinha todos os dias, mesmo quando nem podia vê-la. Muito diferente da pessoa que seu coração havia escolhido para amar.

Fez uma careta de dor ao sentir um puxão mais brusco.

— Ai, Ino. Devagar — reclamou. — Ficar deitada por muito tempo deixou meu cabelo horrível, não é mesmo?

— Nada que uma boa hidratação não resolva depois. Estou puxando com muita força? — Ino perguntou, preocupada, parando a escovação.

— Não se preocupe, pode continuar, só vai mais devagar.

— Certo — a loira concordou, sorriu e retomou a tarefa. — Sabe que nem havia reparado o quanto seu cabelo estava comprido.

— Pois é, vim deixando crescer desde aquela vez que decidimos cortar, lembra?

— Eu lembro em partes. — Ino desfez o sorriso. — Você ouviu uma conversa do Sasuke e do Naruto, não foi? O que foi mesmo que eles disseram que te fez decidir aquilo? Eu não lembro mais.

— O cabelo do Naruto estava crescendo e o Sasuke falou que ele precisava cortar... Que idiota eu sou. Imaginei que aquilo fosse uma indireta do Sasuke para mim e eu decidi cortar no mesmo dia, e você ainda me acompanhou na loucura de querer cortar.

— Depois os dois riram pra caramba de nós, não foi?

— Eu fiquei tão envergonhada, que decidi que nunca mais deixaria o cabelo curto novamente.

— Mas eu até gostei. E estou pensando sinceramente em cortar os meus de novo.

Sakura sorriu. Sabia que a amiga estava tentando animá-la.

— Sabe de uma coisa, Ino?

— O quê?

— Eu nunca havia reparado o quanto Naruto é bonito — afirmou de repente, apertando o lençol que cobria suas coxas. — Ele sempre foi apaixonado por mim, sempre foi meu melhor amigo. Era ele quem eu deveria ter escolhido desde o começo.

A jovem Yamanaka parou de vez a escovação e, com um semblante mais sério, fixou os olhos nos fios rosa que haviam ficado presos nas cerdas da escova. Começou a retirar estes, com certa irritação, pensando o quanto a amiga era idiota.

— Por quê ficou tão quieta? Você não concorda?

“Claro que não, sua idiota! Como posso concordar com uma burrice dessas! Naruto e Sasuke são gays e deveriam ficar juntos e bem longe da gente”, foi a resposta que queria dar, mas não a fez. Saiu da cama, jogou os fios que tirou da escova na lixeira e deixou o objeto sobre a cômoda.

Voltou para a amiga e parou diante dos orbes verdes dela tão indagativos.

Sakura não entendeu o que viu; a loira estava com um semblante contraído, o rosto levemente vermelho e os olhos brilhando, como se fosse começar a chorar a qualquer momento. Então a viu abrir um grande sorriso e dizer:

— Você acha que se eu cortar os cabelos — ela falou, buscando o longo rabo de cavalo e trazendo-o para frente do corpo. — Será que posso ficar mais parecida com o Naruto?

— Quê? — Sakura balançou a cabeça sem entender. — Para quê quer ficar parecida com ele?

— Me responde — pediu, com um tom levemente sarcástico. — Uma transformação para parecer com o Sasuke seria um pouco mais radical.

— Ino, do que você está falando? — Sakura perguntou, deixando formar um vinco entre suas sobrancelhas, realmente confusa.

Porém, não teve tempo de a colega responder, pois ouviram algumas batidas na porta e logo a mãe Haruno surgiu, trazendo com ela uma nova visita.

— Meninas, com licença. A senhora Namikaze está aqui.

— Olha que ótimo: Sua futura nova sogra — Ino sussurrou, devolvendo os cabelos loiros para trás, fazendo Sakura se sobressaltar.

Após cumprimentá-las, dizendo que iria comprar algo para comer, a loira deixou o quarto.

Sakura ouviu o cumprimento da mãe de Naruto, recebeu as flores que ela trouxe, mas não conseguiu assimilar o que ela falava. Seu coração estava batendo mais acelerado. Fora impressão sua, ou a amiga estava tentando dizer que queria ficar parecida com um dos garotos que ela gostava, só para agradá-la?

“Ino Yamanaka? Não, isso seria estranho demais!”

— Filha? — a mãe a chamou, apertando o ombro dela. — A Kushina está fazendo uma pergunta.

— Ah, gomenasai? Eu me distraí por um minuto.

— Eu percebi, querida. Fica tranquila. Eu só perguntei como está se sentindo?

Sakura sorriu gentilmente e respondeu.

— Muito melhor. Obrigada, Kushina-san.

...

Naruto não passou uma manhã agradável. Devido ao ocorrido na entrada da faculdade, a única pauta que se ouvia pelos corredores era do possível envolvimento dele com Gaara. Além disso, Sasuke o ignorou durante todas as aulas que tiveram juntos. Alguns assimilaram ao acontecido. Chegou a ouvir no refeitório que o Uchiha não estava falando com ele por não querer amizade com caras gays. O que o fez rir internamente, da incoerência da informação.

Naruto decidiu comparecer ao treino no fim das aulas. Itachi, que era o treinador e diretor do clube de basquete, dividiu os rapazes em dois grupos para jogarem entre eles.

Naruto e Sasuke acabaram no mesmo time. Porém, diferente do que acontecia sempre, onde ele e o amigo dividiam as melhores jogadas e faziam as garotas que acompanhavam o treino suspirarem, Sasuke nomeou como novo parceiro o colega Kiba. E, após ter seu pedido de “passe a bola” ignorado pela décima vez, mesmo estando dentro da linha do garrafão, optou por sair da quadra e sentar-se no banco vazio dos reservas. O que foi notado pelo professor, que o seguiu.

— Cansado, campeão? — Itachi perguntou, sentando-se ao lado dele.

— Só de ser ignorado.

O homem sorriu discretamente. O rosto de Itachi estava cheio de hematomas, provocados pelos socos que havia levado do irmão.

— Parece que o boato de você e Gaara causaram certa revolta nos caras, não foi?

— Pode ser.

— Mas o que levou a isso?

— Sei lá, sensei. Sempre fomos amigos. E hoje, do nada, ele me beijou.

— Interessante. E você? O que fez?

— Nada. Nem conversamos sobre isso ainda. Mas eu não entendo por que todo mundo agora acha que sou gay e pode fazer o que bem entender.

— E você, não é?

— Vai a merda, sensei.

Naruto falou sem pensar e antes que levasse uma bronca se retratou.

— Foi mal.

— Essa resposta malcriada significa o quê exatamente?

— Eu não sei.

— Está confuso com sua sexualidade? Você sabe que posso te ajudar a se encontrar.

— Vindo de um professor, isso é assédio.

— Na verdade, foi uma cantada.

— É a mesma coisa. E eu sempre gostei de garotas. Da Sakura para ser mais exato. E agora eu não sei. Sinto meu estômago revirando por coisas estranhas. Eu não sei o que está acontecendo comigo.

Dois rapazes entraram na frente de Sasuke e o derrubaram, Kiba começou a gritar e foi segurado pelo parceiro, e o que seria o princípio de uma briga fez com que Itachi levantasse, soasse o apito e anunciasse o fim do treino.

— Chega por hoje, cambada. Todos para o chuveiro.

Itachi ouviu os resmungos de sempre, porém, dois olhares fumegantes o preocuparam: o primeiro, de rabo de olho, do seu irmão mais novo; e o segundo de Sai.

O rapaz com quem estava saindo, ainda marchou em sua direção, parou diante dele e cruzou os braços no peito enquanto o encarava, como se pedisse uma explicação. Tentou esboçar um sorriso ameno para o acadêmico.

— Pode recolher as bolas para mim, Sai? — pediu. — Eu já vou te ajudar — complementou. Não teve uma resposta, mas o rapaz foi fazer o que solicitou.

Itachi voltou-se para o loiro, e antes que a situação ficasse mais crítica para o seu lado, o dispensou também.

— Vai lá, campeão. Vai tomar banho.

Naruto concordou, sem ânimo algum, seguiu para o vestiário. Ainda com os pensamentos distantes, adentrou a sala onde ficavam os armários, tirou as roupas e apanhou sua toalha, indo para a área dos chuveiros; como era de costume.

Mas ao entrar naquela região, o silêncio que pairou, acabou fazendo-o despertar. Ergueu os olhos e viu todos os amigos cessarem a conversa e o olharem com desconfiança. Como se fizessem questão de deixar claro que ele era o assunto principal.

— Era o que faltava. Termos que dividir o banheiro com a menina que fica trocando beijinhos com outro cara na frente da faculdade — Kiba foi o primeiro a lançar a alfinetada, sendo apoiado pelas risadas dos demais.

— Talvez o banheiro agora seja misto e nós não sabemos, pessoal — ouviu outro deboche aleatório, que foi acompanhado de novas e altas risadas.

O rosto de Naruto corou no mesmo instante. Seus olhos vagaram por todos, mas os quais ele buscava, eram aqueles que poderiam desfazer aquele mal entendido.

Mas Sasuke estava de costas, tomando seu banho, o único que sequer parou o que estava fazendo. Cerrou os punhos, sentindo o sangue fervendo nas veias. Estava esgotado de tudo aquilo. Se havia algum culpado daquela confusão, era ele.

— Sasuke-teme! — Naruto gritou. Permitiu-se então ser dominado pela raiva, marchou pesadamente pelo carpete de borracha do centro das repartições, invadiu o pequeno cubículo onde o amigo estava; assim que este se virou para ver o que estava acontecendo, desferiu um golpe certeiro na face dele, fazendo-o bater as costas na parede de mármore. Então sussurrou para que os outros não ouvissem: — Isso é pelo que me fez. Estou guardado desde aquela noite.

— Sério? Achei que fazia parte do time “paz e amor” e nunca revidaria. Estou esperando esse soco faz dias — Sasuke disse, erguendo a face para encará-lo. Em seguida, abriu um largo sorriso e elevou a mão direita no lado onde o golpe havia acertado; fazendo uma massagem com os dedos.

— Nunca é tarde para acertarmos as contas. Mas eu ainda não terminei — Naruto levantou seu punho e, desta vez, golpeou o estômago de Sasuke, fazendo-o tossir e se debruçar.

— Cara, é isso mesmo. O Naruto está socando o Uchiha?

— Alguém vai chamar o sensei!

— Não façam isso! — um dos colegas pediu. — Eu estou a fim de ver essa briga.

— É galera, não vamos estragar o show. Não é sempre que a gente tem diversão por aqui.

— Esse foi devido ao que você fez a Sakura — o loiro sussurrou mais uma vez, enquanto via o amigo deslizar as costas na parede molhada, até sentar-se no chão, apertando a barriga e buscando respirar.

Apesar dos gritos dos colegas, Naruto percebeu que ninguém ousou a interromper o acerto de conta dos dois, até mesmo porque, depois do segundo golpe, ele saiu da repartição onde Sasuke tomava banho e olhou para o restante com a face contraída, decidido a descarregar.

— Primeiro: eu não tenho nada com o Gaara. Ele é só meu amigo. Eu não sei porquê ele me beijou hoje. Mas querem saber? Não foi ruim e danem-se o que vocês pensam. O problema é meu e dele. Eu não tenho que ficar me justificando para ninguém aqui. Por mim, podem continuar se mostrando um bando de hipócritas ignorantes. Vão todos para o inferno!

Naruto saiu do banheiro.

Sasuke tentou se erguer, mas precisou da ajuda de um dos colegas de time, que fazia perguntas ao mesmo tempo em que os demais, mas só conseguiu assimilar uma delas: o que havia feito para levar aquelas pancadas, justo do cara que era seu melhor amigo.

Sentiu-se um covarde. No fundo, Naruto era bem mais forte que ele. Em nenhum momento o amigo o expôs para o grupo.

“Ele poderia ter dito a verdade, ter me sujado na frente na frente de todos. Porém, desde manhã, ele está aguentando sozinho os piores tipos de piadinhas e provocações por causa do acontecido com Gaara”

Sasuke, ao conseguir pôr-se de pé, molhou a cabeça embaixo do chuveiro ainda aberto, cuspiu o sangue acumulado na boca. Em seguida, fechou a válvula tranquilamente e saiu da repartição com os cabelos pingando. Observou os olhares curiosos e mentalmente xingou o grupo. Afinal, aqueles eram os mesmos amigos que, até então, idolatravam o Naruto e agora cuspiam piadas preconceituosas.

Abriu novamente um grande sorriso e encarando os olhares firmes a sua frente, perguntou:

— Querem saber por que ele me bateu?

— Ele é bicha. Deve estar a fim de te comer e você o rejeitou.

Todos os garotos riram do comentário, mas para decepção de Kiba, Sasuke o contradisse.

— Na verdade, não é isso, Kiba — ele negou, abrindo mais o sorriso e informando: — É o contrário.

— Como assim, Uchiha?

— Eu é quem estou a fim dele e é ele quem está me rejeitando. Depois do caráter que ele demonstrou aqui, esse sentimento só se reforçou. Ele podia ter contado a verdade na frente de vocês, trouxas. Mas ele não fez para me poupar — o moreno sacudiu a cabeça de um lado para o outro, fazendo as longas franjas molhadas chicotearem seu rosto.

— Ele me socou porque eu tentei forçá-lo a ficar comigo. Depois dispensei a Sakura, da pior forma possível. Ela ficou tão aturdida quando descobriu que eu preferia caras como o Naruto, ao invés de garotas sem sal como ela, que sofreu um acidente.

Sasuke passou pelo grupo, caminhando nu, serenamente, enquanto os olhares de perplexidade o seguiam. Mas antes de sair, concluiu:

— Se querem alguém para tacar pedras e chamarem de “bicha”, o cara certo sou eu.

— Tá de zoeira, Uchiha? — Kiba o inquiriu, incrédulo em tudo que tinha acabado de ouvir.

— Não. E tem mais uma coisa. Uma notícia de primeira mão. Algo que nem o Naruto sabe ainda. Eu estou fazendo programa com caras. Sou um puto completo. Se alguém aí estiver afim, é só entrar em contato. Já conferiram a mercadoria, certo? — ele apontou pro próprio corpo. — Garanto que não vão se arrepender — afirmou, dando uma piscadela com um dos olhos e após acenar para o grupo, saiu do lugar.

Um dos garotos se debruçou no chão e vomitou.

Sasuke, ao se aproximar da saída do vestiário, vestido e com a mochila nas costas, se deteve diante do irmão, que estava bloqueando a passagem.

— Eu ouvi o que disse lá dentro. Isso significa que está dando adeus a faculdade? — o professor, que havia ouvido todo o discurso, quis confirmar.

— Já conversamos, Itachi. Eu decidi viver daquilo que você mesmo me apresentou: sexo fácil.

Continua...