Prometa-me
1 Capítulo único
Notas iniciais
Era uma tarde de domingo quando você decidiu que ficar parado em frente a vitrine de uma livraria seria mais interessante do que entrar nela própria. Não fazia tanto frio, mas o ar condicionado do shopping lhe fazia querer ter vestido roupas mais quentes do que as que usava. Suas mãos procuravam se aquecer dentro dos bolsos do sobretudo.
Você pausou seus olhos verdes em um dos livros, este estava numa espécie de pedestal, acima dos outros, com certa curiosidade exposta. Não havia imagem alguma na capa, apenas um título a decorava: Dom Casmurro. Franziu a testa e pousou uma das mãos no queixo ao notar que aquele nome lhe era familiar.
Mas de onde?
— “Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem.”
Capitu! Era exatamente isso. Mas não foi você quem proferiu a frase.
Você se virou de maneira lenta, olhando, por cima dos óculos, o outro rapaz ao seu lado, que fitava o mesmo livro. Arqueou uma sobrancelha ao observar o estranho, desde os fios escuros até os tênis desbotados.
Fingiu que não o ouviu e entrou na livraria.
— Precisa de ajuda, senhor? — Uma das moças da loja indagou ao aproximar-se. Você a dispensou com um breve menear de cabeça.
Pegou o livro que olhava instantes atrás e se sentou em um dos lugares que o recinto propiciava aos visitantes. Não havia ao menos terminado a primeira página quando o estranho sentou-se na cadeira à sua frente. Você sentiu vontade de tomar chocolate quente ao fitar os olhos marrons. Ele se curvou para aproximar-se mais.
— Eu estava conversando com você, sabia? — disse o recém chegado. Notou o tom de uma falsa angústia na sua voz. — Digo, não era bem uma conversa, apenas a frase do livro, mas… Você vai comprá-lo?
Você não podia evitar o sarcasmo na própria voz ao respondê-lo?
— Como isso pode ser da sua conta?
O estranho colou as costas de volta à poltrona. Juntou as sobrancelhas. Não parecia estar chateado.
— Você não é daqui, certo? — perguntou, sorrindo de leve — É britânico ou… estadunidense. Acertei?
A surpresa que você esboçou não durou nem dois segundos. Porque você era assim. Como um camaleão, sempre escondendo-se, sempre afastando-se.
Sentiu raiva ao ver que continuava sendo observado. Era como se fosse transparente. Você cruzou os braços, como se uma barreira fosse formar-se com esse simples ato.
— É a primeira vez que vem ao Brasil? — ele continuou a falar, como se já te conhecesse. — Deve ser por isso que nunca te vi aqui. Eu sempre estou por aqui, nessa livraria, eu digo. Meu pai é o gerente. Aliás, como se chama?
Você precisou de certo tempo parar processar tudo aquilo que lhe foi dito. Só conseguia pensar no porquê daquele rapaz lhe dar tantas satisfações acerca de sua vida. Achou-o estúpido por aquilo. E se achou ainda mais estúpido por não conseguir levantar-se e ir embora, deixando-o para trás, da mesma maneira que fez antes. Queria afastar-se.
Mas não o fez.
Você continuou sentado. Ficou repetindo em sua mente o nome do estranho quando ele lhe disse qual era – Fabrício – e contou o seu para ele, por mais que não se sentisse confortável com aquilo. Talvez fosse desconfiança.
— Alexander? Ale quisan der — sibilou Fabrício, passando a mão pelos fios pretos. Não haveria como bagunçá-los, já que não eram muitos. — Alec, então.
Você ainda o escutou falar sobre todo o seu amor pela cidade onde morava: Brasília, o coração do país. Ouviu-o reclamar sobre o fato de não haver esquinas e os lugares serem extremamente longe uns dos outros, apesar de ser um lugar não tão grande quanto os demais.
Observador, você notou o sorriso de Fabrício se iluminar ao falar do céu visto ao entardecer. Dizia que era o mais belo. Sem fumaças para atrapalhar a visão. Queria perguntar por que raios ele adorava tanto o céu. Mas permaneceu quieto. Apenas o brasiliense falava, gesticulando sempre. Achou que se lhe arrancasse os braços, talvez, mas só talvez, ele fosse calar-se.
— Ah, me desculpe — Fabrício disse, repentinamente. — Só eu estou falando. Não precisa ter vergonha de falar, seu linguajar é muito bom, sabe? Quase não há sotaque, se quer saber. Eu fui à Londres somente uma vez e por pouco tempo, mas posso tentar falar inglês.
— Não… Não precisa. — Cada letra que você proferiu saiu de maneira lenta. Estava com vergonha, Alexander?
— Como quiser, madame.
Fabrício esboçou um pequeno sorriso. Você notou que os olhos dele também pareciam sorrir para você, e então quis imitá-lo em tal gesto, mas seus músculos faciais pareciam estar petrificados. Ele havia te chamado de madame e você nem ao menos se importou.
Deveria ter sorrido ao invés de olhar de volta para seu livro, Alexander.
Deveria ter sorrido quando trocaram e-mails, com a promessa de Fabrício para lhe apresentar a cidade.
Você deveria…
..:X:..
— Uau! Nunca imaginaria que uma pessoa como você colecionaria action figures.
Você franziu levemente a testa ao ouvir a franqueza com que Fabrício falava. Gritava, na verdade. Soube desde que o conhecera que ele não fazia o tipo quieto. Ou tímido. Ou… qualquer coisa que você próprio o fosse. Era exatamente o oposto.
Ele jogou algo em sua cama, mas você não se virou para olhar o que era.
— Uma pessoa como eu? — indagou, arrumando seus óculos.
Nessas semanas em que haviam passado juntos, você passou a aceitar o comportamento esquisito – a seu ver – do brasileiro. Ora, veja só, agora aceitava até trocar mais que uma dúzia de palavras com ele, não é mesmo?
— Seu avô nunca me falou sobre você — Fabrício mudou de assunto, enquanto segurava um Mestre Yoda da mesma maneira como seguraria uma criança — Na verdade, ele nunca falou sobre a família dele. O conheço desde que eu era pequeno, sabia disso? Que mundo pequeno.
— Que mundo pequeno — você repetiu a frase, enquanto pensava em alguma outra coisa para dizer. Não queria falar sobre seus familiares. Preferia ouvir Fabrício falando apenas sobre si mesmo e sobre as coisas que gostava e desgostava. — De qualquer forma, estarei retornando para Londres amanhã.
E como se um imã estivesse puxando-o, o Mestre Yoda foi ao chão.
Você se surpreendeu e se sentiu incomodado por não conseguir visualizar o rosto de Fabrício. Ele continuava de costas. Por que os olhos dele não estavam fitando os seus naquele momento?
— Minhas férias acabam em breve e preciso retornar à Londres.
E por que você continuava a dar satisfações? Sentia-se obrigado a fazer isso?
Fabrício pegou o boneco do chão e o colocou junto aos demais novamente.
— Já havia me esquecido de que você não ficaria aqui para sempre. — Você considerou a possibilidade de existir melancolia na voz dele, mas logo descartou essa hipótese. — Não sei se vou conseguir achar outra pessoa que se incomode tanto em pedir informação na rua para alguém. Ou que sinta vergonha de chamar um mecânico quando não tiver um estepe no carro.
E foi aí que você se pegou sorrindo ao lembrar da cena.
Fabrício tinha prometido lhe levar à Torre de Tv, dizendo que você precisava ver a vista lá de cima e comer o acarajé que vendiam ali. Oh, você o escutou durante longos minutos falando sobre esse tal de acarajé, que apesar de ser típico da Bahia, fazia sucesso entre os brasilienses.
— Na primeira vez que comi, quase cuspi fora o negócio! — contava, no banco ao seu lado. Estavam usando o carro do seu avô. Você odiava dirigir, sempre tremia, mas preferia isso a deixar que Fabrício tocasse no volante. — Mas vicia. E é picante.
E continuaria a falar, não fosse pelo barulho estrondoso que veio logo em seguida. Você sentiu seu coração disparar e tirou o pé do acelerador, tudo num mísero piscar de olhos.
O carro parou.
Fabrício lhe fitava. No rosto dele havia uma expressão que você não soube identificar, uma vez que logo havia sido substituída por um riso contido. Seu coração permanecia acelerado e suas mãos, tremendo.
Você não sabia, mas Fabrício naquele momento estava ainda mais assustado. Não pelo fato de o pneu do carro ter furado, mas sim por nunca ter lhe visto naquele jeito. Naquele momento, você mais parecia com uma criança, daquelas que já começavam a estremecer só de pensar no tão famoso bicho papão que se esconde nos armários.
Mas você nunca tomaria conhecimento dos pensamentos do outro. Não era bom em decifrar expressões, ou mesmo o que dizem nas entrelinhas. Odiava o que era subjetivo.
— Como foi que você conseguiu estourar o pneu? — ele perguntou, e você sentiu o rosto esquentar. De raiva, e não de vergonha. Ou talvez fosse o contrário?
— Ora… Não deve ser difícil de consertar.
— Vamos, me diga onde está o macaco e a chave de roda. — Você não conseguiu controlar seus músculos. Seus olhos se arregalaram e engoliu em seco. Fabrício lhe imitou involuntariamente ao ver sua reação. — Tem isso no carro, não tem?
— Eu não costumo trocar muitos pneus.
— Não costuma? Em algum momento da sua vida, ao menos pegou em uma chave de roda?
Você virou o rosto e enfiou as mãos no casaco. Fazia isso quando queria se esconder.
As outras pessoas não lhe confrontavam. Fabrício, por outro lado, parecia gostar de fazer isso a toda hora. E você não sabia como lidar com isso. Como lidar com ele.
E era tudo uma bagunça em sua mente.
Naquele momento, o silêncio, que sempre era um alívio em sua vida, havia começado a lhe incomodar. Você o quebrou:
— Tenho certeza que se ligarmos para um guincho ficaremos a salvo.
— Uma madame nunca deixará de ser uma madame.
Novamente, não havia um traço de irritação em você quando ele lhe chamou disso.
Você voltou à realidade atual quando notou a presença quente do outro rapaz perto de si. Ele passava as mãos de um lado ao outro em frente ao seu rosto, como que querendo lhe acordar de seus devaneios.
Sobressaltou-se, afastando seu corpo do de Fabrício.
E somente agora você havia notado que ele segurava uma pequena sacola decorada com o emblema da livraria onde se conheceram. Fabrício tirou um livro de lá e lhe entregou. Pela primeira vez, você conseguiu identificar um sorriso acanhado no rosto moreno.
— Eu queria ter tido tempo para embrulhá-lo, sabe? — Ah, essa mania dele de falar “sabe” sempre te irritava. — De qualquer forma, encare como um presente de… despedida. É, isso mesmo. Não sabia que iria embora hoje.
— Eu devo ter me esquecido de te avisar. — Você pegou o livro. Ele era praticamente idêntico ao que você estava olhando na vitrine, não fosse pelo título, que você sibilou baixo — Memórias póstumas de Brás Cubas…
— “Porque cada qual sabe amar a seu modo” — ele recitou, e novamente aproximou-se de você. Levantou a mão esquerda e encolheu os dedos, com exceção do mindinho. — Vai me dizer que nunca fez a promessa do dedinho?
Você permaneceu estático. Por que Fabrício precisava ser assim?
— Promessa?
Por que você, mesmo passando boa parte do seu tempo com ele, nunca entendia as frases subliminares que ele lhe lançava?
— Me prometa que nós nos veremos novamente — pediu. Incrivelmente, sua voz não soava irônica, mas, sim, séria — Quero te ver comendo acarajé de novo. Ou arrumando esses seus óculos a cada minuto. Quero até mesmo te ver abrir e fechar algum cadeado repetidamente como na semana passada.
Era verdade. Você tinha a irritante mania de mexer em cadeados quando não ocupava suas mãos com algo. Abria-os e fechava. Colecionava-os de maneira quase compulsiva.
Você olhou para seus pés antes de imitá-lo, deixando somente o mindinho levantado. Ele entrelaçou o dedo com o seu. A pele dele era quente, notou. Bem como os lábios.
Demorou o que pareceram anos para notar que os lábios dele estavam pressionando os seus. Você estava sendo beijado.
…
Era algo meio bagunçado, o beijo dele. Ou talvez fosse você quem não soubesse acompanhá-lo. Nunca havia encostado sua boca na de alguém.
Por que você não o acompanhava ao menos no beijo? Ele mordeu e sugou seu lábio inferior e você não soube se deveria corresponder ou não.
…
Doía. Você agora correspondia, mas se sentia pior do que antes.
Doía porque, embora Fabrício estivesse tão perto naquele instante, dali uns dias aquilo não passaria de uma simples lembrança.
Doía porque você sabia que era apenas um momento.
Mas você correspondia.
…
Fabrício se afastou e você nem ao menos pôde fitar os olhos castanhos. Continuou estático, segurando o livro. Ele girou a maçaneta, mas antes que saísse porta afora, cessou os passos. E foi nesse instante que lhe olhou.
Você sentiu um arrepio em seu corpo. E logo em seguida sentiu uma raiva contida.
Por que Fabrício não conseguia tirar aquele sorriso enigmático do rosto? Por que encarava aquela situação com uma normalidade absurda?
Ele se virou novamente, mas não antes de pronunciar:
— Treine seu português para quando voltar. E não fique me olhando com… com esses olhos de ressaca.
..:X:..
Seu peito estava apertado. Uma agonia insistia em se manter presente desde que você havia deixado Brasília. Deixado Fabrício. Fazia apenas alguns meses desde o beijo – poderia realmente chamar aquilo de beijo?
Ansiava voltar o quanto antes. Mas toda a sua vida permanecia ali, em Londres; com exceção daquela pequena parte que parecia ter sido deixada no Brasil.
Será que era aquilo que as pessoas chamavam de saudade? Se assim o fosse, você odiava sentir saudades. Sentimento traiçoeiro.
Mas você era orgulhoso demais para admitir que sentia falta do único que conseguira te alcançar. Daquele rapaz que conseguia bater de frente com você. O Alexander apático quase sumia quando ele estava por perto, com aquela presença quente e irritante ao mesmo tempo. Irritantemente feliz.
E irritantemente detestável, pois era ele quem lhe fazia ficar com aquela dorzinha dentro de si.
Você era muito sensível, Alexander.
Irritantemente sensível.
..:X:..
Você sentia certa dificuldade em controlar sua ansiedade. Era sempre assim.
E isso piorava quando você estava dentro de um avião. Mas o que lhe confortava era a lembrança da última conversa que havia tido com Fabrício.
— Isso é sério? Você vai voltar pro Brasil? — Fabrício gritava, do outro lado. Havia se tornado um hábito conversar com ele pelo Skype — Tudo isso é saudade?
Saudade… Você odiava essa palavra.
— Não. Mas preciso visitar meu avô e…
Mas você cessou sua fala ao ouvir a risada do outro. Não era irônica ou debochada. Era alegre.
— Eu sabia — Fabrício falou entre os risos e as lágrimas que escapavam de seus olhos.
— Sabia o que?
— Que você cumpriria sua promessa, Alec.
E era isso que você estava fazendo neste momento, não era? Por mais que achasse perda de tempo esse tipo de coisa, havia feito a promessa. A promessa do dedinho, como Fabrício chamava.
E estava contente com isso. Desta vez, era você quem estava irritantemente feliz.
Tão feliz que não notou quando seu avião começou a tremer incessantemente. O piloto falava alguma coisa que você não conseguia escutar. Ele podia simplesmente calar-se. Mas continuava a falar mais e mais coisas para os passageiros. O que era mesmo que ele dizia?
Estava mesmo acordado, Alexander? Estava são?
Por que não percebeu que o avião estava caindo?
Seu olhar permanecia travado no vidro da janela, onde você podia visualizar o pouco do seu reflexo. Os óculos não podiam esconder suas olheiras. Mas de que isso importava mesmo? Nada.
Havia uma mulher gritando com você. Seria a aeromoça? Por queela lhe sacudia tanto?
E por que você não lidou com a situação, em vez de desmaiar? A escuridão lhe parecia mais atraente?
Mas, ainda assim, você vai cumprir sua promessa, certo?
…
Certo?
..:X:..
Não.
Você havia quebrado sua promessa.
Você era o causador das lágrimas se formarem nos olhos de Fabrício.
Era uma tarde de domingo quando ele apareceu na livraria e ficou olhando para a vitrine. Dom Casmurro permanecia naquele pequeno pedestal. Era o mesmo exemplar que você, Alexander, ficou observando enquanto tentava se lembrar de onde o conhecia.
— “Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem.”
Fabrício repetiu a frase de Bentinho, mas você não estava lá dessa vez para olhá-lo e, em seguida, ignorá-lo. Você não estava lá para ouvi-lo repetir seu nome vagarosamente.
Ale
quisan
der
Ele não te veria comendo acarajé, enquanto reclamava do gosto apimentado. Não te veria brincar – era isso mesmo que você fazia? – com os cadeados. Ou arrumar os óculos.
Fabrício só notou estar lacrimejando quando sentiu o gosto salgado em sua boca.
— Por que você não cumpriu sua promessa, Alec?
E era verdade.
Você não havia cumprido sua promessa, Alexander.
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