Prometa Não Lembrar One-Shot
1 Maybe love is not for ever, but still burns
Se algum dia perguntar à ela, ela dirá que tudo aconteceu rápido de mais e que foi em novembro, vai sorrir e dizer que você não deve mais se importar. Eu não mudaria nenhuma palavra. Sim, eu sei que novembro é um mês clichê, mas é o mês em que todas as grandes histórias de amor acontecem, então por favor, sente-se e leia com calma, de preferência acompanhado(a) de sua bebida favorita e então poderemos ir até nossos personagens e eu prometo, não levará mais que 10 minutos do seu tempo.
Ao contrário do que se espera de uma noite de novembro, naquela madrugada não chovia, faltavam poucos minutos para o nascer do sol, mas o quarto de paredes roxas ainda estava no escuro. Susannah acendeu o último cigarro da cartela e pensou que era apropriado, o último cigarro para a última noite, um sorriso resignado se abriu em seu rosto enquanto acolhia aquele sentimento tão familiar: Despedida, era a palavra que ela fingia não conhecer, dizia a si mesma que era só nostalgia sem saudade, prometia mais uma vez não chorar, Susannah nunca chorava, não ela que era cheia da sua própria verdade, dizia a si mesma que aquele sentimento estaria com ela para o resto da vida e que seria feliz se nunca olhasse para trás.
Tais pensamentos duraram tanto tempo quanto o cigarro poderia queimar e ela tomou o cuidado de só olhar para Lydia quando estivesse pronta para nunca mais vê-la. Como tantos outros, deixaria o retrato dela em algum canto da memória, se Lydia fosse uma história como todas as outras (e ela esperava que fosse), então Susannah jamais se encontraria o retrato dela onde quer que guardasse.
“Quando dorme você parece um anjo”, Susannah lembra-se de ter dito certa vez, em uma hora muito também próxima ao amanhecer em que Lydia acordou enquanto ela observava. “Então é assim que vai se lembrar de mim?” Ela perguntou abrindo um sorriso tímido, Susannah não respondeu, apenas sorriu. Não, Susannah esperava não se lembrar, mas nunca diria isso a Lydia, não mentiria para aqueles olhos verdes, tinha medo de que a mentira se tornasse verdade e a dona de tais olhos se estivesse presente para sempre em seus sonhos.
Foi com esses pensamentos e lembranças duraram mais que o cigarro, era como um ritual, trazia todas as boas lembranças à tona enquanto se vestia e recolhia os poucos pertences espalhados pelo quarto de Lydia, esquecendo-se é claro do frasco de perfume já no fim. O frasco deveria ficar no quarto roxo como único testemunho do segredo das duas, o perfume era a memória boa que Susannah deixaria para Lydia, a única prova de foi real.
Os primeiros raios de sol já entravam pela fresta na cortina quando ela finalmente sentiu-se pronta para deixar Lydia e quando seus olhos recaiam sobre a menina de cabelos negros com leves ondas que caiam em cascatas ao redor do rosto delicado de traços finos, pele um pouco queimada pela exposição ao sol e lábios rosados na medida certa, ela ainda parecia um anjo e naquele momento os olhos de frias esmeraldas do anjo não ofereciam perigo, pois ela dormia com o corpo envolto pelo edredom.
“Por que sempre vai embora pela manhã?” Lydia havia perguntado, “Você pode ficar um pouco mais, Jake não vem hoje.” Susannah havia sorrido, como sempre fazia quando não queria mentir e ficou um pouco mais, mas tudo o que ela conseguia pensar é que elas tinham um prazo de validade e um prazo quase esgotado, Lydia a amava e embora ela nunca confesse, também amou Lydia do seu próprio jeito (E sabemos que o jeito de Susannah lidar com seus amores era duro e se pudesse, nunca teria sentimento algum), mas era sem dúvida amor. “Somos uma bela promessa Lydia, mas nunca seremos mais que isso. Em alguns dias você estará casada, em alguns anos terá filhos e a vida que sempre sonhou, com o cara certo para você, talvez até se lembre de nós, mas vai parecer que tudo aconteceu em outra vida.” Susannah tinha dito enquanto aqueles olhos a atraiam para mais perto, perto o bastante para que Lydia pudesse sentir sua respiração, Lydia colocou alguns fios do cabelo loiro de Susannah no lugar e então a beijou, “E você estará sozinha, não é? Talvez até com outra garota como eu, talvez você a ensine a sensação de quebrar as regras e talvez você até a ame como me amou, mas ainda assim quando chegar a hora de partir, você estará sozinha, porque você tem medo Suze, mas medo de que?.” Lydia disse depois do beijo, palavras suaves e cortantes como quase todas as palavras importantes em uma história de amor e Susannah não pode responder, porque ela só soube a resposta no momento da partida. Sabia que se a dona daqueles olhos a pedisse para ficar, ela ficaria, talvez ficasse para sempre e era exatamente do que ela tinha medo.
Lydia não ouviu a porta e nem o barulho do carro de Susannah, ela estava em paz, imperturbável, se naquele momento alguém perguntasse, ela afirmaria com toda a certeza que raramente tinha sobre algo, que conhecia o amor e talvez até o definisse. Se ela soubesse que não iria à janela ver Susannah partir, que não receberia um torpedo engraçado com um “Até breve” nas entrelinhas e que seria incapaz de jogar fora o perfume que Susannah deixara (sim, ela sabia que o esquecimento era proposital) e que mesmo assim o manteria distante dos olhos e bem fechado em uma gaveta qualquer para não sentir aquele cheiro novamente… Bem, se ela soubesse disso, não teria acordado, mas ela acordou. O cheiro do cigarro ainda estava no ar, como ela não sentiu o cheiro? Como não acordou? No celular não havia mensagem alguma, fora isso e a ausência das coisas de Susannah e da ausência da própria Susannah, tudo parecia no lugar.
Esperou mais alguns minutos por uma mensagem, ligação, qualquer sinal de que Susannah voltaria, mas não se permitiu esperar mais que isso. Seguindo seu próprio ritual, Lydia tomou banho e secou cuidadosamente os fios negros do cabelo, colocou a maquiagem e teve ainda mais cuidado com o rímel do que teve com o cabelo, escolheu uma roupa apropriada, fez um café forte, apagou do celular o número, as fotos, as mensagens e as músicas de Susannah, abriu a gaveta do criado mudo, um pequeno post it amarelo foi a primeira coisa que viu ali, a letra de Susannah marcava em preto o papel, ela o jogou no lixo sem ler o que parecia um código indecifrável naquele momento, então pegou a aliança de noivado, que ela tinha o cuidado de nunca usar enquanto Susannah estivesse por perto, no lugar da aliança, deixou o pequeno frasco de perfume e durante muito tempo, não voltou a abrir a gaveta. Ela estava salva, dentro dela tudo estava fora do lugar, mas os planos não haviam mudado. Ela estava segura na rotina estabelecida pelo plano. Seguiria em frente, mudaria as coisas de lugar, jogaria fora algumas certezas e sem saber, algum dia realizaria o desejo deixado por Susannah naquele post it amarelo: “Seja Feliz, Lydia.“
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