Notas iniciais
aí mano, pessoalmente uma das minhas histórias favortas.
e não, eu não sei narrar em primeira pessoa sendo séria, me julgue.

Hum...Olá! Meu nome é Max, e... eu estou morto.

Bem, eu queria, pelo menos, poder dizer que foi uma morte heroica, uma morte na qual eu morri lutando, uma morte ao menos merecida! Mas, não. Foi uma morte entediante, por causas naturais.

E com “naturais” eu quero dizer que eu fui atropelado. Atropelado como quando se é tacado por metros no ar, e então aterrissando rápido o suficiente para o carro passar por cima de seu corpo.

Sim, eu morri. No hospital, eu imagino, pelo simples fato de relembrar de sentir muita dor por um bom tempo.

Mas eu acordei, normal, como se nada tivesse acontecido. Eu só me lembrava de uma imensa dor no corpo inteiro e então abrir os olhos, sem sentir nada, e ver todos os meus familiares envoltos do meu corpo inerte deitado numa cama de hospital, chorando. E tudo que eu pude pensar foi “Ah, que maravilha!”.

Eu estava perdido. Literalmente perdido, pelo único motivo de ter morrido, saber que eu tinha morrido e permanecido... vivo, da maneira que fosse. Só o que eu podia fazer era esperar até meu enterro. Lá, eu pensaria em algo pra saber o que fazer com minha vida... Morte... Não sei como chamar isso... Enfim, o dia eventualmente chegou.

Victória estava lá.

E, a partir daquele momento, eu já sabia o que fazer com minha... Vorte? Mida? Vida-após-a-morte?! Olha, eu não sei. Eu não sabia. Não sabia o que ela estar lá significava, não sabia o que isso causaria... Cara, eu não sabia de nada. E você provavelmente não sabe também...

Sei que todo mundo deve estar muito confuso, então vamos voltar um pouco no tempo...

Pro fim das férias.

O começo do ano letivo.

***

21:34 do dia 11 de fevereiro, shopping, é aí que minha história começa. Pelo menos, a história necessária pro entendimento geral deste conto. Eu estava com minha mãe, pai e minha melhor amiga e irmã Lena, sua mãe e seu pai. É, ela tem pais diferentes dos meus, mas, ei! Nos conhecíamos desde a maternidade e não nos separamos desde então, não é assim que irmãos funcionam?

Tínhamos meia hora até o filme, então fomos andar pelo shopping. Na sessão alimentar, especificadamente, longe dos nossos pais, onde tínhamos a mais plena liberdade para reclamar da vida sem receber seus olhares. Só eu, Lena...

E sua maldita câmera.

—Ei, dá pra afastar esse negócio da minha cara antes que ela e meu olho se fundam? –pedi, delicadamente, à Lena, que afirmava estar checando o foco de sua nova câmera, e jurava que eu já a tinha estragado por colocar o dedo na tela.

—Se você deixasse esses dedos gosmentos longe da câmera, eu não teria que fazer isso... –explicou-se, prosseguindo em “consertar” a câmera em PERFEITO ESTADO. – Consegui! –comemorou – Neato! Dá pra ver todas suas espinhas agora!

—Assim você me magoa...

Continuamos andando até um café próximo e sentamos. É, clichê, eu sei. Mas era por isso mesmo que estávamos lá, para julgar o quão clichê as pessoas eram enquanto fazíamos especulações absurdas de suas vidas:

—treze?

—Mais.

—Mais do que treze gatos?

—Olha pra cara dessa velha, Max! –Lena apontou, super discretamente, para a senhora sentada no canto mais isolado da cafeteria, tomando o segundo copo de café desde que chegamos ali. – Ela está usando uns três chalés, luvas, inúmeros cordões e, oopsie doopsie, eu não vejo nenhuma aliança em seu dedo! Estamos em pleno verão, Maxwell!

—Talvez... Ela só esteja com uma febre? –tentei defender a pobre senhoria das maldades que saíam e continuariam saindo da boca da Lena.

—Ela já tomou dois copos de café. –disse, simplesmente, como se fosse razão suficiente. Finalmente, eu me calei, convencido. Ela riu, vitoriosa, enquanto tomava um bom gole do Café que tinha pedido. –Cara... Como eu odeio café!

—Você é doida de pedir esse troço amargo. –Disse, provocando-a com uma bela de uma estalada de lábios, após um bom gole do meu chocolate quente. Em resposta, Lena me deu um de seus olhares mortais e levantou seu dedo mais feio. Odiava quando ela fazia isso, odeio seu dedo.

—Não me culpe, isso era pra ter gosto de chocolate. –defendeu-se a garota, mexendo inutilmente no que era pra ser um café com gosto de chocolate, na esperança de que o gosto amargo fosse embora. — Mas só tem gosto de amargo. E eu preciso ficar acordada durante o filme: Esses ingressos custaram meu rim!

—Muito bem, mas a culpa foi sua de ter esquecido sua carteirinha de estudante!

—Quem carrega uma carteirinha de estudante por aí? Exceto você, Maxwell! —Lena me interrompeu, provocando em mim um sorriso.

—Okay, okay... Mas que eu pensei que estivéssemos aqui para julgar, não beber...

—E estamos!

—Então eu suponho que o café seja um desejo espontâneo e não planejado?

—Isso.

—Então você não trouxe grana pra pagar essa merda. –concluí, encarando-a, com raiva do que eu tinha CERTEZA do que ela ia me pedir agora. –Como você espera que a gente saia?!

E, adivinhem, crianças! Maxwell Standwell é um vidente:

—A gente sai correndo bem rápido. –normal.

—Não!

— Ah, é, você é um porco sedentário...

—Isso é ilegal, Lena!

—Eu sei que você sempre carrega dinheiro contigo, podia pagar pela gente! –ela falou, sem paciência na voz, como se fosse algo obvio que eu já devia ter feito. – Ah, vamos lá, Luke!

—Queria pedir que você e seu café fossem tomar no cu, mas sou muito educado pra isso. E NÃO VENHA COM “LUKE” PRA CIMA DE MIM, MOCINHA, VOCÊ MAGOOU MEU KOKORO. —Eu fui pegando a “carteira HH”, como eu gostava de chama-la; a carteira para Hora H! (Lena odiava o nome, mas essa era a parte mais legal).

—Primeiro, para de falar em códigos ou ninguém vai prestar atenção no que você fala. Eu acabei de tomar café e já me deu um sono do caramba. –ela disse, e eu bufei – Ah, não fica com raiva de mim!

Eu bati a carteira na mesa, falando pra ela contar o dinheiro e pagar; nem ferrando que eu ia pagar a conta e fazer mais contas de matemática. Lena me encarou por alguns segundos, nos quais eu bebia meu chocolate quente, até que...

—Esse filho de uma puta está com raiva de mim porque pagou a conta –ela falou para câmera que puxara, começando a me gravar – Não fica com raiva de mim, Luke! Pense no café ruim! Nas tragédias que podiam acontecer comigo se eu não o tivesse tomado e dormido no filme!

—Podia ter sido possuída por um demônio, e minha vida seria mais fácil pra mim! –eu segurava o riso muito forte nessa hora.

—Photo bomb! –ela tirou uma foto, no meio do vídeo, e eu FUI CEGADO PELO FLASH, mas o que importa é que eu ri no copo, derrubando tudo em mim e me sujando todo. –Agora você não fede mais a meia suja, Mr.Skywalker. –Ela finalizou, passando chantilly no meu nariz.

—Você travou uma guerra contra o que não pode vencer, Leia! –avisei, lambendo meu nariz, antes de abrir uns três pacotinhos de açúcar e jogar no cabelo de guaxinim dela.

—MAXWELL, SEU FILHO DE UMA...

—Desculpa, eu estava somente alimentando os bichos que vivem aí dentro em segredo... –Ataquei, e ela me olhou surpresa, como se não esperasse que eu fosse fazer aquilo. Me senti ótimo, mas depois comecei a sentir culpa e... –Ok, Leia, você está bem? Eu acho que posso ter exagerado um pouquinho... Precisa de ajuda pra limpar, ou...

E ela começou a rir, gargalhar, até desarrumar meu cabelo, e aí eu percebi: Ela esperava isso! Enquanto eu ficava revoltado cada vez mais, o garçom chegou e Lena pagou a conta, com o meu dinheiro, enquanto ria. Quando o homem foi embora, eu a fuzilei com o olhar, esperando que ele fosse venenoso e ela fosse só morrer, ali mesmo.

—Maxwell, você é muito doce pra esse mundo! Eu não te mereço. –Ela dizia, enquanto levantávamos e nos dirigíamos para a saída.

E, quando eu ia falar alguma coisa, uma voz baixinha começou a bradar, desesperada. Olhamos para trás, eu e Lena, e vimos a velhinha que estávamos julgando há uns dez minutinhos atrás.

A primeira coisa que me veio à mente foi “nós vamos ser presos”. A velhinha se aproximava, enquanto Lena sussurrava “Corre quando eu falar pra correr”. Quando ela chegou perto, e Lena ia bradar um “AGORA” bem alto, a velhinha falou, numa voz doce, depois de puxar ar por correr atrás de nós.

—Vocês jovens vão acabar com a coluna desta pobre velhinha... Haha, como a juventude é linda!

—Agradecemos a admiração, senhora, mas posso perguntar se precisa de algo? –Disse, tentando ser educado, enquanto Lena prendia o riso e eu tive que contê-la, evitando que a senhorinha ouvisse os diversos “Cala a boca”, que eu dirigia a ela.

—Ah, sim. Esqueceram sua carteira, enquanto saiam, tão apressados... –E, com as mãos tremulas e cheias de rugas, ela me entregou a carteira HH, e eu olhei pra Lena com ódio.

Ela esqueceu nosso filho na mesa... MEU filho, e eu não ia deixa-la tocar nele nunca mais.

—Nossa! Valeu, tia! –Disse Lena, preocupada, enquanto olhava pra mim.

—Sabe, amanhã começa o ano letivo de vocês, não é? -Ela perguntou, e afirmamos – ótimo! Sejam legais com minha netinha, tudo bem? Ele se transferiu a pouco tempo, e está muito ansiosa.

—Podeixá, dona! Somos nós quem mandamos na escola!

—Faremos como pediu, como um agradecimento. –Interrompi Lena, tentando ser educado pela falta de educação dela.

Satisfeita, a velhinha se foi, sorrindo.

—Ela não nos disse o nome dela. –Comentou Lena, referindo-se à neta, assim que a senhora saiu do nosso campo de visão.

—É... –concordei, e ficamos calados por um tempo – Quantos gatos você acha que ela tem?

—Mais de treze.

—Muuuuito mais de treze! –concordei, e fomos para o cinema, ver nosso filmezinho...

Depois da sessão de filme – que foi horrível – voltamos para a praça de alimentação, desta vez, para comer mesmo. Sentamos juntos no sofá, enquanto nossas mãe conversavam em nossa frente, e nossos pais tinham ido pedir a comida.

—Não podiam nem chamar aquele fiasco de filme de terror... –reclamava Lena, desde que saímos do cinema.

—Deviam chama-lo de “O fiasco: um fiasco de filme!” –Concordei com ela, esperando sua aprovação, mas ela me olhou como se eu fosse um deficiente que dava pena.

Nossos pais chegaram com as nossas comidas e, depois de três segundos de mastigação, Lena não se aguentou e pôs-se a reclamar, como ela fazia de tudo, quando tinha a oportunidade.

—Você ta numa dieta permanente ou o que? –Ele reclamou, olhando pro meu prato colorido.

—Você sabe que eu gosto disso e só, porquinha! E essa merda que você come...Desculpe, mãe. – Disse, encarando o olhar mortal que minha mãe me deu – Essa coisa que você come tem gosto de lixo... Papelão! –Encarei o hambúrguer que ela comia feliz com nojo.

—Sua comida não tem gosto de nada, com uma pitada de azedo! –Ela franziu o nariz – Você não reconhece a mágica do Ronald Mcdonald, meu amigo, e eu sinto pena de você!

—O alface é um pouco amargo, mas é crocante! E o tomate quebra isso, é doce... É fruta!

—Por que tomate é fruta? –Continuei.

—Porque ele desenvolve de uma semente, sendo um fruto. Fruta! – Explicou minha mãe, e eu e Lena sorrimos um para o outro.

—Obrigada pelo fato científico, Sra.Standwell! – Lena agradeceu, com ironia, e minha mãe fez uma pequena reverência com a cabeça.

—E aí –comecei a falar, quando todos tinham terminado a comida e nós nos levantamos. – Dorme lá em casa?

—Sempre – respondeu Lena, dando um leve soco no meu ombro.

—Só porque eu não aguento ficar mais de três segundos naquele seu quarto fedorento.

—Justo. Vai ter que me emprestar roupa.

—Você sabe que tem uma parte no emprestar que diz que você vai devolver, né?

—Eu adoraria pedir que você se dirigisse para o meio de uma rua muito bela, onde uma mulher denominada sua mãe vendeu serviços sexuais por dinheiro e acabou dando a luz à você, monte de esperma misturado! –Sussurrou ela, e eu comecei a rir descontroladamente.

Gostava de saber que meu ponto de amizade com a Lena era tão alto que não precisávamos de permissão para dormir um na casa do outro, fosse das mães – que eram bem próximas – ou... De mim, porque eu nunca dormia na casa dela, por algum motivo.

Depois de avisarmos (Não pedir, avisar) para a mãe da Lena que ela ficaria na minha casa, subimos, e Lena imediatamente colocou um moletom meu e tirou a calça, jogando-a na cama. Eu, que era o responsável da relação, dobrei-a e coloquei encima da mesa de vidro que tinha no canto nerd (Como Lena chamava minha mesa de computador, onde, ao lado, havia uma estante cheia de objetos de colecionador de diversos fandoms), avisando-a para não esquecer. Ela apenas respondeu que era uma boa desculpa para voltar ali depois, e eu tive que concordar.

Juntei os colchões (o da minha cama e o de “visita”-Lena-) e nós nos deitamos, do lado contrario um do outro, e eu achei que ia sufocar com o cheiro daquela arma química que estava ao meu lado, discretamente coberto por meias listradas.

—Você devia ter ido pegar seu material para amanhã –falei, depois de um tempo encarando o meu teto falsamente estrelado com adesivos (“quantos anos você têm, cinco?” Lena costumava dizer, sempre que o olhava, escondendo o fato de, secretamente, gostar do teto que brilhava no escuro).

—Nah. No primeiro dia de aula, nunca tem aula mesmo... –respondeu ela, ainda olhando para o teto – Eles não nos dão nem a agenda de matérias... Eu copio no seu caderno. Haha, se minha mãe descobrir, ela pode me matar...

...

—Leia... –chamei, atordoado por algo, e ela me olhou, ao ouvir o apelido (só assim ela prestava atenção em mim, pobre Max. Um comentário = um braço) –Já pensou na vida após a morte?

—O que é isso, assim, de repente? –ela estranhou, levantando o tórax e deitando de lado, apoiando a cabeça na mão em um ângulo agudo (eu sei matemática) e me olhando como se eu tivesse uma doença contagiosa que fazia você ficar cheio de espinhas nojentas no rosto.

—Sei lá... –Eu disse, mesmo só querendo dizer “Responde a porra da pergunta”. O que foi exatamente o que eu disse em seguida!

—Já, quem nunca? –Ela riu, voltando a deitar-se e olhar para o teto. –Nada é o que há lá. Tudo tem que acabar... Uma ideia... um filme... menos eu. Eu viverei para sempre, eu sou imortal.

—Eu tava falando sério.

—Eu falando muito sério, Luke. Eu vou ser a última pessoa da Terra, e rir enquanto eu piso nos seus ossos! –E ela riu, uma risada maligna muito mal feita. Calou-se logo após e me olhou. –Agora é sério, para de pensar nessas coisas. Vai demorar ainda pra esse dia chegar. Vamos pensar nisso quando estiver mais perto da morte, fazer o dever de casa na véspera, sabe? –Eu, seriamente, pensei sobre aquilo, concordando.

O silêncio reinou por um bom tempo.

—Desencana, cara. –Ela jogou o travesseiro na minha cara, e eu, depressivo e emocional como estava, apenas o abracei e deitei em posição fetal, fechando os olhos lentamente... –NÃO! Merda. Max, devolve! –ela começou a me chutar –MAXWELL, ME ENTREGA A PORRA DO TRAVESSEIRO!

—IIIH TU É CHATA! –Eu joguei o travesseiro de volta pra ela –desgraça...

—Luke. Hey, Luke. Hey. Luke! LUKE! –Ela gritava, depois de menos de CINCO MINUTOS FALANDO COMIGO.

—QUEQUIÉ? –Eu gritei de volta.

—Pega um copo d’agua pra mim. –Ela demandou, e depois de eu pedir as palavras mágicas, ela respondeu : IMPERIO! Com uma movimentação com as mãos e um bico absurdamente fofo pra alguém feio como a Lena.

E eu sorri, satisfeito com a resposta.

Por muito pouco tempo.

Notas finais
capitulo feliz né? haha, spoiler: ele morre.