Não posso parar agora.

Desde o início aquele não era meu estilo, porém dei o meu melhor pelo ouro. E o conquistei por muito pouco...

Após a apresentação de gala, fui capaz de destruir parte daquela imagem inocente que tinham de mim.

Agora quero continuar a cometer minhas loucuras. Levar para as próximas apresentações a verdadeira essência de Yuri Plisetsky. Mas como libertar o que está trancado dentro de mim?

— Yuri? Ainda treinando? – não esperava que ninguém aparecesse por aqui nesse horário.

— Otabek. – sorri tímido. – Na verdade estava tentando ter novas ideias para outro programa.

— Mas acabamos agora essa temporada. – indagou com certo ar de surpresa. – Não é errado querer descansar.

— Mas ainda não estou satisfeito, entende? Claro que adorei a repercussão da nossa apresentação. Quero apresenta-la novamente, claro... Terei que mudar o final...

— Sabe que só participei da sua apresentação de gala porque você decidiu isso de última hora. Mesmo que tenha sido divertido, o programa original não me inclui.

— Eu sei. E foi incrível. É por esse motivo que não quero que pensem que aquilo é tudo que tenho a oferecer.

— E o que te deixaria mais a vontade?

Demorei a pensar em uma resposta. – Eu não sei... Talvez uma loucura maior ainda?

— É uma resposta bem vaga. – sorriu. – Mas consigo ver como está comprometido. Mesmo imerso em pensamentos, não deixa te repassar seus exercícios.

— Hm?

— Você nem percebe, não é? O pouco que fiquei aqui pude te observar realizando um Arabesque Penchée perfeito. E faz parecer tão fácil.

— A quanto tempo está parado ai?! – me senti pego de surpresa.

— Alguns minutos. – respondeu. – Na verdade estava me perguntando quem estaria no ringue enquanto todos, de alguma forma, estão aproveitando o fim da temporada.

— Hoje é nosso último dia em Barcelona... – não pude evitar um semblante triste. – Quanto tempo até nos vermos de novo? Terei que esperar até a próxima competição? E que nós dois nos classifiquemos?

— Isso não quer dizer que deixaremos de ser amigo.

— Eu sei. Mas... Vou sentir falta desse tempo... Conversar só por telefone não será a mesma coisa.

— Já que estamos aqui, vamos patinar. – ele pareceu ignorar como eu me sentia quanto a tudo. – Você não quer? – indagou sentando-se em um banco para trocar os sapatos. – Não sabemos quando poderemos fazer isso de novo. Queria lhe ver patinando mais uma vez. – então percebi que ele também se sentiria solitário.

— Mas não temos música agora.

— E você precisa de música? – sorriu e eu apenas neguei com a cabeça.

Não era um treino para se levar a sério, era apenas um momento de descontração só nosso. Valendo risos, improvisos e, talvez, até tombos.

Otabek entrou no rinque primeiro enquanto eu fiquei apenas o observando.

Como se estivesse acompanhando alguma música conseguia manter um ritmo em seus movimentos. Chegando a realizar alguns saltos básicos como Salchow e Axel seguido de um Toe Loop. Sem a pressão de um público e preocupação com a nota final tudo parece tão mais simples. Ele estava a vontade e eu hipnotizado.

— Yuri. – chamou rindo pelo meu breve susto ao despertar. – Vai ficar só me olhando? Pensei que seria o contrário.

— Algum problema em ser observado por mim? – indaguei querendo provoca-lo e ele não retornou uma resposta, ficando completamente sem jeito. – Repetir a atração de gala então? – busquei mudar de assunto e ele assentiu.

Enquanto Otabek se dirigia para a beira do ringue, eu me concentrava ao centro, ainda tinha a música ressoando em minha cabeça. Não seria difícil repetir os passos que ensaiamos juntos horas antes da apresentação de gala.

Então por que estava tão nervoso agora?

Não estou com a mesma roupa usada durante a apresentação, mas não acho que esse seja o motivo desse nervosismo. Durante os ensaios também utilizei outras roupas.

E não pode ser pela presença de Otabek... Ele foi meu confidente desde o inicio. Desde a escolha da música.

Talvez seja porque não sei quando poderei fazer isso de novo... Com ele tão perto torcendo por mim... Quando será a próxima vez que teremos esse tempo só nosso.

Isso tudo porque ele foi meu primeiro amigo de verdade?

Lembrando agora, ainda estou com a blusa de frio que ele me emprestou na noite que o segui até aquela boate... Tanta coisa aconteceu nesse curto tempo que me esqueci de devolver...

Decidi não me prender a esses pequenos detalhes e começar a patinar.

Como se a música estive ali tocando e apenas eu pudesse ouvir, acompanhei.

Sentia o olhar de Otabek sobre mim. A cada passo. Cada movimento. E eu queria provoca-lo.

A música que escolhemos para minha apresentação de gala trazia a ideia de loucuras. Fazer qualquer coisa que fosse contra as regras do mundo era uma loucura. Eu decidir mudar todos os planos na véspera da apresentação foi meu ato de rebeldia. Não me arrependo de nada. Nunca me senti tão a vontade encenando algo que decidi fazer.

E agora quero puxar Otabek para patinar esse final comigo.

Ao estender meu braço em sua direção, na intenção de trazê-lo para o meio do ringue, eu fui puxado para muito perto dele. Sem conseguir desviar nossos olhares. Naquele curto momento me senti completamente dominado.

— Be...ka... – o chamei receoso, porém não deu atenção. Sentia que seu rosto se aproximava devagar e eu seguia paralisado, não controlando o rubor de minhas bochechas.

Já podia sentir sua respiração tão próxima quando decidiu me afastar bruscamente. Deixando-me completamente desnorteado.

— Desculpe... – é sério que isso é tudo o que tem a dizer?

— O... O que você estava fazendo?! – acabei me alterando assim que comecei a digerir a situação.

— Não era nada...

— Nada?! E precisava criar todo aquele clima pra nada?! – por que, exatamente, eu estava tão irritado? – Não tem graça criar expectativas para nada. Otabek abriu a boca para argumentar, porém preferiu optar pelo silêncio. – Você ia me... Beijar, nã... Não é? – acabei falhando a voz ao tentar constatar. ­— Esquece.

— Você realmente ficou bravo por não ter te beijado?

— Claro que fiquei! – respondi no impulso. Sem pensar. – Já... Já disse pra esquecer isso.

— Ok...

— Não é para você concordar!

— Então não diga que é para eu esquecer. – rebateu e eu me calei.

— Por que tentou me beijar?

— Parecia uma boa ideia.

— E por que parou?

—... Não sei. Pensei que isso fosse irritá-lo.

— Eu quero que me beije!

— Sempre espontâneo. – sorriu. – Teimoso e persistente. É por isso que gosto das fases do Yuri.

Fiquei completamente sem graça ao ouvir isso. Mas é verdade... Apenas com ele fico tão a vontade e me revelo de tantas formas.

—... Beka... – dessa vez ele me calou como já deveria ter feito. Finalmente havia quebrado a distância que ainda existia entre nós.

Não recusei o beijo, porém fiquei desajeitado no começo e ele percebeu. Permiti-lhe o controle e aos poucos fui relaxando. Que tudo acontecesse a sua velocidade.

Otabek se mostrava totalmente possessivo, porém, de alguma forma, cauteloso. Talvez ainda temesse alguma recusa de minha parte.

Quando se pareceu necessário o contato foi cessado e eu ainda permaneci por alguns instantes digerindo todas as emoções despertadas.

— Yuri? Está tudo bem? – perguntou receoso ao ver minha falta de reação.

— Sim... Acho que sim.

— Foi ruim pra você?

— Eu não sei. Talvez precise repetir isso outras vezes pra poder responder. – disse e ele riu mais relaxado.

— Parece que ficou ainda mais difícil suportar a ideia de que ficaremos um bom tempo mantendo contato só por mensagem e telefone.

— Sim... – sorri meio amargo. Sentindo uma pontada no peito. – Ah! O seu casaco. – lembrei. – Ainda estou com ele... No hotel.

Otabek pareceu surpreso com minha mudança de assunto repentina, mas logo sorriu.

— Pode ficar com ele. Use como desculpa para nos vermos o quanto antes. – respondeu e eu concordei.

— Beka... Pode me beijar de novo? – pedi não evitando o avermelhar de meu rosto.

Ele apenas sorriu antes de atender meu pedido. E eu busquei aproveitar nossos últimos momentos juntos antes de nos despedirmos completamente de Barcelona...

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!