Promessa
1 Capítulo único
— Kurapika?
O garoto desviou os olhos das páginas amareladas e sorriu para aquele rosto que o espiava pela janela. Pairo fez um sinal com o braço, chamando-o para a brincadeira do dia. Kurapika escondeu o livro sob a cama e seguiu seu amigo, rindo e gritando suas alegrias.
— O último a chegar na campina é um bobão! — exclamou, apertando o passo para se afastar de Pairo.
— Então, você será o maior bobão do mundo! — rebateu o outro, apertando o passo também.
Eles chegaram à campina quase juntos. Pairo tropeçou na raiz de uma árvore e caiu sobre Kurapika. Os dois rolaram pela grama como filhotinhos de raposa. Riam sem fôlego enquanto se levantavam, apoiando-se um no outro, o que só os fez cair outra vez.
— Kurapika, quando você passar no teste — disse Pairo, sentando-se —, não vá se esquecer de mim, hein?
O outro se sentou também e esfregou o rosto para limpar a terra em suas bochechas.
— Se eu passar no teste.
— Quando — insistiu Pairo. — Você tem estudado muito. Vai passar.
E ele passou. Foi bastante difícil, e ele quase perdeu completamente o controle, mas passou. Seus pais ficaram imensamente orgulhosos. A mãe, então, chorava de alegria e dizia a todos no clã que lhe dispensassem os mais breves segundos de atenção que seu filhinho querido estava se tornando um homem.
— Mãe! — resmungava Kurapika, envergonhado.
O pai só balançava a cabeça e puxava a esposa pelo ombro. Ela respondia com um olhar zombeteiro.
— Você não muda mesmo, não é? — dizia o pai, mal escondendo o riso em sua voz. — Até parece que a criança aqui é você.
Pairo era um pouco mais discreto. Só mostrava sua agitação quando estava a sós com Kurapika. Ele ria e saltava de um lado para o outro, simulando lutas, armadilhas, explorações. Seu melhor amigo estava prestes a encarar o mundo, e Pairo estava fascinado.
— Eu também quero ir! — exclamava sem parar.
— Então, estude — respondia Kurapika, abrindo o mesmo sorriso zombeteiro de sua mãe.
— Eu vou estudar. Vou estudar muitão! E, quando você menos esperar, eu irei alcançá-lo!
Kurapika balançava a cabeça, rindo, e voltava para casa para arrumar suas coisas. Levou dias para preparar tudo. Quando seu destino é o desconhecido, nunca se sabe o que se deve colocar na mochila.
Mais cedo do que ele esperava, o dia da partida chegou.
— Cuide-se, Pairo — disse a seu amigo.
— Você também, Kurapika.
O Kuruta viajante estava prestes a montar a enorme ave quando Pairo chamou-o de novo.
— Eu vou estudar muito para passar no teste e conseguir o direito de sair daqui — repetiu pela enésima vez. — Até lá, divirta-se por nós dois.
Os olhos de Kurapika faiscaram. Aquela era a promessa mais importante de sua vida.
— Eu estarei esperando.
Ele se virou outra vez para a ave, mas foi arrebatado por um forte abraço de sua mãe. Ela enterrou o rosto em seus cabelos, meio chorosa, meio feliz.
— Cuide-se, meu querido.
— Mãe... — resmungou Kurapika, afastando-se. — Eu vou me cuidar. Amo vocês.
— Também te amamos, querido — respondeu o pai enquanto a mãe secava as lágrimas.
Kurapika partiu. Acenou para todos os seus familiares e amigos até eles desaparecem com a curva na trilha. Depois disso, voltou-se para frente. E não desviou mais o olhar.
O copo de vidro espatifou-se no chão, assustando o jovem loiro. Ele piscou os olhos sonolentos e olhou a seu redor. O piso estava coberto de caquinhos cintilantes. Kurapika mordeu o lábio, irritado. Deixara o maldito copo cair e quebrar. Com um suspiro, pôs-se de pé e foi buscar a vassoura e a pazinha.
A gata intrometida tentou se aproximar, mas ele a afastou com a perna. Limpou toda a sujeira, tomando o cuidado de varrer sob o sofá em que estivera dormindo e de recolher o tapete e colocá-lo na varanda. Então, trancou-se em seu quarto e se atirou na cama que ainda não fora arrumada.
Eu vou estudar muito para passar no teste e conseguir o direito de sair daqui.
Kurapika esfregou os olhos cansados. Tivera aquele sonho de novo. Fazia meses que não sonhava com aquilo. Seu método de ficar acordado até a exaustão para cair apagado na cama funcionara bastante bem durante muito tempo. Por que então aquele breve cochilo após o almoço desencadeara aquelas lembranças indesejáveis?
Ele ficou de pé outra vez. Pegou as chaves da casa, colocou ração na tigela da gata e rabiscou um bilhete para Arrietty, dizendo que saíra para uma caminhada. Quando fechou a porta da frente, sentiu a brisa do outono cumprimentá-lo.
Sorriu. Aquela era sua estação favorita. Os dias eram frescos e agradáveis. Sem muita chuva, sem muito frio, sem muito calor. Ele e Arrietty costumavam passear juntos, às vezes de mãos dadas, não porque fossem amantes ou algo do gênero, mas porque ela gostava de andar sobre a mureta que contornava a estrada à beira da praia. Kurapika quase se sentia um cavalheiro quando conduzia Arrietty assim, e a risada infantil dela apenas reforçava aquele sentimento de carinho que ele há muito julgara perdido.
Às vezes, porém, ele preferia andar sozinho. Andar sozinho permitia que ele pensasse. E ele queria pensar. Queria pensar no sonho incômodo que tivera, nas lembranças que ele carregava. Depois de alguns passos, tirou os sapatos para caminhar na areia da praia. A sensação em seus pés descalços era sempre boa. Quase relaxante. Ele caminhou assim até encontrar algumas pedras perto da água e se sentou em uma delas.
Fechou os olhos, pensando em Pairo.
Até lá, divirta-se por nós dois.
Ele sorriu sem humor. A vida após sua partida do clã fora tudo, menos divertida. Quando soube do massacre, começou a treinar. Treinava todos os dias. Sob a chuva, sob o sol. Não havia adversidade que o detivesse. Esfolava os dedos das mãos e dos pés, cortava os braços e pernas, machucava o rosto de tanto cair. Às vezes, começava a chorar de dor, não a dor física, mas essa dor que aperta o peito quando ficamos tristes.
Kurapika encolhia-se todo, chorando. As árvores eram suas únicas testemunhas. Ninguém viria perguntar se ele estava bem ou oferecer um lenço. Ninguém viria cantar para ele ficar mais calmo, ou contar uma piada para tentar fazê-lo rir.
Ele esfregou o rosto outra vez. Aquela brisa salgada comichava seus olhos. Fazia com que eles ardessem até ficarem marejados. E as lembranças corriam, corriam livres dentro dele. Já não estavam mais em Pairo, em seus pais, ou no clã. Estavam naquele pequeno trio estranho que o destino, como diria Arrietty, unira por pura zoeira.
Um não tinha absolutamente nada em comum com o outro. Gon era a criança mais pura e inocente do mundo e cativava qualquer um com sua teimosia, sua criatividade e sua eterna vontade de fazer a coisa certa. Killua era um assassino frio e calculista que nunca prestava muita atenção nas pessoas a seu redor, a não ser que fosse para avaliar sua força. E Leorio era o idiota do grupo.
Kurapika riu baixinho. Sentia saudades deles. Arrietty repreendia-o, dizendo-lhe que fosse logo atrás dos amigos, que admitir que quer rever as pessoas que ama não é fraqueza nenhuma! Ele apenas assentia sem responder, mal escondendo o sorriso nostálgico no canto de seus lábios.
A vida não fora divertida? O Exame Hunter não fora emocionante? Ele não dera inúmeras risadas com as travessuras de Gon e Killua e com as trapalhadas de Leorio? Não apreciara a companhia de Senritsu e Basho quando eles o levaram para uma noitada após todos aqueles incidentes em Yorkshin? Não se sentira mais vivo com o espírito eternamente selvagem de Arrietty e seu dom de sempre arrancá-lo da monotonia em que ele insistia em mergulhar?
Sim, tudo isso era verdade. Ele sentia saudades de seus amigos. Saudades tão fortes que faziam seu peito doer e lhe arrancavam suspiros naquelas noites geladas em que ele se percebia sozinho.
Mas as saudades que ele sentia de seu clã doíam mais.
Era impossível pensar em Pairo ou em seus pais sem sentir aquela vontade desesperadora de chorar. Até mesmo Sheila, a Hunter que o inspirara a explorar o mundo, não escapava dessa onda de saudade que o preenchia. Às vezes, tudo o que ele mais queria era se encolher no chão, como se isso pudesse aplacar aquela dor, aquela dor tremenda, colossal, inconcebível.
Kurapika esfregou os olhos, impaciente. Maldita maresia. Seus olhos ardiam demais, a ponto de despertar uma sensação confusa em seu peito. Ou talvez fosse aquela sensação que deixava seus olhos marejados. Ele não sabia dizer. Apenas balançou a cabeça, tentando se livrar de todo e qualquer pensamento.
As barras de suas calças estavam completamente encharcadas quando Arrietty apareceu. Ela trazia os costumeiros headphones e os colocou sobre os ombros antes de cumprimentar Kurapika com um sorriso fraco:
— E aí?
— E aí? — Ele respondeu.
A maré havia subido e agora lambia seus pés. Arrietty permitiu-se ficar ao seu lado por alguns minutos, sentindo o toque das águas. Ela também estava descalça — os tênis azuis estavam presos pelos cadarços no passador de cinto da bermuda. Ficou algum tempo movendo as pernas e ajeitando o cabelo que a brisa insistia em desarrumar. Quando se cansou, olhou Kurapika outra vez.
— O que está fazendo?
Ele não respondeu de imediato. Ficou remoendo aquela pergunta. Tudo o que tentara ocultar sob o tapete de sua tristeza reaparecia aos poucos, expressivo e real. Ele via sua mãe secando as lágrimas enquanto sorria de orgulho do filho. Via seu pai colocando a mão sobre o ombro da esposa, parecendo um pouco triste por perder seu querido companheiro. Via Pairo acenando para ele, jurando com todas as suas forças que passaria no teste e reencontraria Kurapika em breve. Quando ele menos esperasse.
Arrietty provavelmente havia se esquecido do que perguntara, pois tomou um susto quando Kurapika respondeu. Ele não olhou para ela, nem aumentou a voz para superar o ruído das águas que golpeavam a areia. Por isso, ele mesmo não teve muita certeza do que disse. Mas ela o ouviu.
— Estou esperando.
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