Projeto genesis
2 A fuga
Notas iniciais
Os faróis corriam loucamente pelas ruas tentando localizar e desvendar a posição de Lucas e Luana, os tiros e explosões haviam parado. Os soldados devem ter percebido que já haviam explodido e transformado o suficiente de prédios e casas em escombros. Luana sentia dificuldade para se locomover e ajudar Lucas a andar, ele se arrastava guiado pela irmã, sua testa agora cortada pelo tiro de raspão que o errou por poucos milímetros estava agora cheia de sangue, encharcando assim os fios loiros de seu cabelo que agora grudavam em sua testa.
Os irmãos se esconderam atrás de uma pilha de destroços que a pouco eram alguns caixas eletrônicos enquanto algumas luzes passaram onde segundos antes os gêmeos estavam.
—Preciso que aguente mais um pouco Lucas, só mais um pouco. — Suplicava a garota ofegante.
— Lua — Ele resmungava com dificuldade enquanto o sangue escorria em seu rosto — vá, me deixe aqui e eles irão me prender, no momento estou valendo mais vivo que morto.
— Ei, nem pense nisso. — “Abandonar meu irmão” pensou a garota, “nem na ultima das hipóteses.” — Já esta delirando. Pare de falar e concentre-se em andar.
Eles não podiam perder mais tempo que o necessário, viaturas já estavam a caminho. Luana ajudou Lucas a se erguer, o corpo do garoto pesava sobre o ombro cansado da garota que resistia bravamente.
— Eu... Carl... — Lucas não conseguiu resistir por mais tempo e desmaiou após ver que o amigo os alcançara.
Lucas desmaiou deixando todo seu peso cair sobre a irmã que sentiu seus joelhos tremeram com o peso extra jogado em seus ombros, ela estava a ponto de cair quando Carlos segurou o peso de Lucas e eles continuaram a descer a rua. Luana sentiu-se aliviada ao ver a silhueta conhecida da van descendo a rua. George estava dirigindo a van, deixando o pé sobre o acelerador, pronto para fugir caso algo desse errado. Aline saiu do veiculo e ajudou os três a subir, após acomodar Lucas e ajudar Aline a cuidar do ferimento do irmão Luana se jogou sobre um dos bancos e poucos segundos depois estava dormindo.
A garota acordou horas depois em uma das camas do mais recente abrigo, ficou deitada alguns segundos lembrando-se dos acontecimentos da noite, haviam invadido uma base militar para pegar mantimentos para os próximos meses. A garota levantou e foi até a janela, olhou cuidadosamente pela brecha da cortina, estavam em uma chácara no interior, era cercada por altas arvores que faziam do lugar mais seguro. Viu um caminho que levava até uma piscina e pouco mais a frente uma quadra poliesportiva, ao olhar para céu percebeu que não passava de quatro da manhã, dormira pouco como sempre. Era essa a nova rotina da vida atual que levavam.
Saiu do quarto e avistou o banheiro no fundo do corredor, a garota jogou água no rosto e se permitiu olhar o reflexo no espelho, estava magra devido a correria dos últimos meses, o cabelo loiro a muito brilhoso e bem hidratado estava opaco e seco, o olhos verdes estavam fundo e sem brilho, tentou sorrir levemente lembrando-se do sorriso que a muito era fixo em seu rosto, mas foi em vão, sequer lembrava-se de como sorrir espontaneamente. Sentiu-se frustrada ao perceber que seu rosto agora sequer demonstrava a pouca idade que tinha, “tenho mesmo só vinte e dois anos?” se perguntou. Olhou as mãos colocadas sobre a pia e saiu, sentia-se sufocada lá dentro.
Foi para fora, Carlos aparentemente teve a mesma ideia. Estava sentado no degrau da varanda, uma brisa corria levemente, estavam próximo ao litoral paulista. Carlos refletia sobre a noite e permitia-se sorrir levemente, vestia uma bermuda Jeans e uma camiseta branca, em meio aos seus vinte e cinco anos, pensava e agia como um veterano e experiente general de guerra, fitava atentamente o céu, seu rosto normalmente tomado pela insegurança parecia calmo e sereno.
— Não consegue dormir? — Perguntou ao perceber que a garota o fitava silenciosamente.
— Já dormi o suficiente — Ela responde de prontidão, ele sorri. — e você, porque não esta dormindo? — Pergunta Luana enquanto senta ao seu lado no degrau da varanda.
— Estou feliz demais para dormir, finalmente ganhamos uma. Conseguimos suprimentos para três meses sem nenhuma baixa.
Ela olhou para o céu e pensou na noite agitada que tiveram, nos últimos dias planejando este ataque, algumas das crianças do abrigo já estavam sofrendo com a escassez de alimentos e agora eles haviam contornado o problema mesmo que por pouco tempo, era realmente uma noite para se comemorar.
— Sabe, na verdade tivemos uma baixa hoje. — Comenta a garota.
— Se você esta se referindo ao novo corte de cabelo do Lucas você tem razão. — Ele se permite dar uma gargalhada, tiveram de raspar um pouco do cabelo de Lucas para conseguir dar os devidos pontos no rastro deixado pela bala errante.
— Ele vai ficar uma fera, disso eu não tenho duvidas, mas me referia ao nosso medo. Hoje provamos que não somos alvos fáceis, e que não fugiremos da briga. – Diz a garota se sentindo tomada por um pouco de coragem e esperança. – Acho que conseguiremos fazer isso afinal.
Carlos deixa o silencio tomar conta por alguns minutos.
— Era bem mais fácil quando você era só uma adolescente comum não? — A pergunta à pega de surpresa. Quase não falavam de como viviam antes, só tinham tempo para pensar em sobreviver, fugir dos militares que agora tomavam a cidade e caçavam pessoas ordinárias e as assim como a maioria do grupo deles eram, pessoas extraordinárias. — Sem nenhuma habilidade especial não era?
— Era. — Ela deixa o silencio tomar conta novamente.
Por alguns minutos ficaram olhando o céu, ela tentando evitar que tudo viesse à cabeça, novamente, era difícil lembrar-se dos dias que a tanto passaram, ela tenta desviar os pensamentos sem sucesso, uma lagrima escorre pelo rosto da garota e lembranças de outrora a preenchem.
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