Projeto Princesa

2 POV Evlyn Schreave


“Menina?” Uma voz doce soava em meus ouvidos, puxando-me para a realidade, me afastando do maravilhoso rapaz de braços fortes que estava prestes a me beijar.

“Hum?” Abri os olhos, protegendo-os com as mãos da luz do sol, que cobria o quarto em um cobertor dourado e quentinho.

“Seus pais estão à sua espera no escritório. É importante!” Um sorriso largo estava estampado nos lábios de Maélina. Ela era a criada mais velha do castelo, de modo que sempre sabia tudo o que acontecia e até o que ainda não havia acontecido aqui dentro. Tudo o que ela falava era relevante, e sempre tudo me interessava, menos hoje. Hoje, tudo o que eu queria era ficar no quarto, fingindo para mim mesma de que não existia.

“Diga a eles para irem ao inferno” Resmunguei no travesseiro, abafando minha voz irritada.

“Pare de ser teimosa, menina! Você sabe que isto é para o seu bem. Não está curiosa para saber a decisão de seus pais?” Ela revirou meu guarda-roupa atrás de algum vestido, tomando o cuidado de escolher um bem confortável como sabe que eu gosto.

“Não. Agora, se não se importa, irei voltar para meu delicioso sonho onde eu estava prestes a ser beijada por um maravilhoso príncipe, e não por um sem-classe qualquer”, afundei a cabeça entre os cobertores sedosos, negando-me a sair da cama.

Maélina não pareceu querer brincar de me fazer sair da cama, fazendo cócegas, arrancando-me do colchão ou me subordinando com doces, como sempre tinha feito desde que eu era pequena. Mas talvez fosse melhor assim.

Ouvi a porta sendo fechada, e então, depois de esperar alguns segundos para ter certeza que ninguém me pegaria no flagra, eu pulei da cama e fiz tudo o que tinha direito. Um banho de espumas? Atacar os doces da cabeceira? E que tal dançar um pouco? Eu precisava gastar toda a energia de meu corpo, forçá-lo a não pensar em nada que não fosse ficar no quarto, entupindo-me de guloseimas e imaginando mais uma vez o encontro perfeito com um cara superelegante e lindo. Olhos azuis, por favor. E, ah! Ele teria que ser forte, e cabelos negros não seriam nada mau.

Deitei-me na cama de novo, as molas do colchão balançando meu corpo para frente e para trás. Encarei o teto cor de creme sem graça, me imaginando muito pior, como a cara daquelas pessoas importantes que sempre visitam o escritório de papai. Totalmente sem graça. No mesmo momento, a porta se abriu tão silenciosa que eu quase não a ouvi, observei um emaranhado de cabelos castanhos espiar o lado de dentro do quarto.

“Evlyn,” ele agora estava no lado da minha cama, os olhos escuros me encarando sérios. “Será que terei que te carregar para cada coisa que você simplesmente decidir não querer fazer? Isto não se trata mais apenas de você, Evy. Nós estamos juntos nesta.”

Bufei alto, me sentando.

“Eu sei, okay? Só que isto não melhora nada,” pulei da cama, voltando a andar de um lado pro outro, sentindo aquela energia subir em mim de novo. “Assim, não podia ser apenas uma seleção? Por que ser duas? Eu estou bem sozinha!”

“Olhe pelo lado bom,” ele se afundou na minha cama, me puxando para sentar ao seu lado, nossos braços encostando um no outro. “Você irá ter vários rapazes lutando pelo seu pescoço, como gostas,” um sorriso debochado, porém enorme, iluminava seu rosto, o entusiasmo quase passando para mim.

“Isto era pra ser o lado bom? Vinte caras sujos e mal educados brigando por mim, a princesa?” Levei as mãos ao peito, enfatizando minha fala. Vi um último sorriso passar pelos lábios de Kaylon antes de ser arrastada do quarto, nossas mãos entrelaçadas, correndo nos corredores enfeitados de quadros famosos.

A porta do escritório estava aberta quando chegamos gargalhando com dificuldade.

“Evlyn!” Papai exclamou detrás da mesa, a cara se fechando e rugas surgindo por todo o seu rosto. “Não tens mais vestidos para usar?” Franzi a testa. Olhei para mim própria, vendo que ainda vestia meu pijama estampado de desenhinhos animados que cabiam duas de mim de tão grande. Eu nunca tinha gostado das camisolas que as costureiras faziam. Eram normais demais, simples demais, princesa demais.

Dei de ombros, me jogando na ultima cadeira, bem afastada do olhar de desaprovação deles.

“Bob esponja é estiloso, sabia? Devias usar algo dele,” falei.

Ele chacoalhou a cabeça, parecendo cansado. Observei sua boca abrir e fechar, os seus olhos perdidos no nada.

“Filha, isto é importante.”

Importante, importante, importante. Já ouvi esta palavra vezes demais hoje, pensei.

“Eu e sua mãe conversamos bastante sobre isto e pensamos muito, mas,” ele virou para ela, seus olhares se encontrando por um breve momento, como se consolassem um ao outro, “tememos que os rebeldes voltem a atacar. Ainda estamos tratando da eliminação da oitava casta, e muitos estão insatisfeitos com a lentidão e também...”

“Não! Chega! Não quero ouvir mais sobre isto. Eu não farei droga de seleção alguma!” Bradei, me levantando em um pulo.

Eu não esperava que eles acabassem fazendo o meu grado. Não imaginava que cancelariam aquela droga de entrevista, muito menos a seleção. Mas, o que eu esperava, era que eles temessem meus modos. Que temessem que eu estragasse tudo, que falaria besteiras na entrevista e que brincassem com os selecionados, e eles realmente estavam com medo, todos os três de olhos arregalados e bocas escancaradas.

No fundo, fiquei orgulhosa de mim mesma. Eu tinha uma capacidade sem igual para amedrontar a todos, e cada um tinha motivos de sobra para ficarem com medo de mim, principalmente agora. Eu acabarei com aquela seleção, custe o que custar.