Projeto Princesa
8 Kaylon Schreave
Olhos fechados. Travesseiro já checado pela décima vez. Chá de maracujá. Remédio para insônia. Repassei na cabeça o que mais eu poderia fazer para conseguir dormir. Contar carneirinhos?
As selecionadas e selecionados já haviam chegado no final desta tarde. Agora, quase onze horas da noite, todos deviam estar em seus quartos, descansando, enquanto eu tentava fazer com que meus pensamentos se calassem. O que certamente não era fácil. Bastava eu trocar de posição, e algo novo invadia minha mente, impedindo meu corpo de adormecer. Levantei novamente de minha cama e entrei novamente no banheiro, encarando o reflexo no espelho, exausto. O que antes tudo o que possuía de mais escuro em mim, de mais cor, era as íris e os cabelos, agora havia anéis roxeados em volta dos olhos, devolvendo um olhar cansado para mim.Eu precisava dormir, eu realmente precisava. Mas eu não podia! Minha futura esposa estava aqui, no castelo, fazendo sei-lá-o que. E eu não podia simplesmente me deitar e esperar que o sono viesse à tona de vez. Imaginei o que meu pai fez nesse dia. As histórias que meus pais contam sempre é a mesma, um encontro antecipado com uma selecionada completamente maluca. Mas nenhum dos dois disse o porquê de estar fora da cama naquele dia, naquela hora, naquele lugar. O jardim. Deixei de fitar meu rosto e olhei para minha roupa, a camiseta branca do pijama cobrindo parte de meu corpo. Eu havia vestido ele há horas, tendo como pensamento uma noite boa e tranquila de sono. Nunca me iludi tanto. Do espelho, pude enxergar a porta do quarto, e me imaginei indo até lá, saindo. Dormir, pensei. Você precisa dormir! Mas minhas pernas eram mais rápidas que meus pensamentos, e quando me dei conta, estava no corredor, uma das mãos apertando firme o casaco. Ao menos era o que imaginei ser quando vi a mão voar até o guarda-roupa, mas quando o vesti, agora descendo as escadas, percebi ser a minha roupa de cavalaria, as ombreiras e detalhes dourados estampando o tecido azul escuro. Perfeito. Um príncipe lunático vestindo roupas de cavalaria no meio da noite. Eu estava realmente ótimo para encontrar a garota, caso acontecesse comigo o mesmo que aconteceu com meu pai. Agora, tudo o que me restava era torcer para que ela não se assustasse e saísse correndo.Ei, Kaylon!, pensei. Você é o príncipe, certo? Ela está aqui por você. Procure-a!Respire fundo, ande. Respire fundo, ande. Só deves fazer isto. Mas espera! E se ela não estiver aqui exatamente por mim? E se ela se decepcionar com o que ver? E se ela se decepcionar de mim? Eu ainda deveria procura-la? Parei no corredor, o braço apoiado em uma porta. Eu deveria? As perguntas insistiam em invadir minha mente. Talvez ela não me queira. Afinal, quem iria me querer agora? Não com roupa de cavalaria, aposto! Eu estava enlouquecendo. Não a procure. Não a faça se decepcionar. Inclinei-me para frente e encostei a cabeça na parede, batendo a testa contra a madeira, tentando fazer com que tudo se calasse dentro de mim. E funcionou, de certa forma, já que comecei a prestar atenção no ritmo alegre de uma música. Música! Havia uma canção tocando na sala de dança, a porta em que eu me apoiava impedindo que o som viesse para o corredor com mais intensidade. De repente, senti meu coração bater mais forte, como se ele precisasse bombear mais sangue para me manter em pé, e eu não discordava disto. Meus braços fraquejaram, me fazendo arquear a coluna, ainda encarando a porta. E então, eu a abri, de uma só vez. Tinha como plano fazer com que, seja lá quem estivesse lá dentro, parasse imediatamente o que tivesse fazendo para me encarar. Mas, apesar de eu ter causado um bom barulho, nada parou. A música continuava a tocar, alta e contagiante, e uma garota tentava acompanhar o ritmo, girando com um vestido longo na mão, como se ela estivesse participando de uma dança com uma princesa, ou se ela mesma fosse uma, o uniforme cinza que usava revelando ser uma criada. Uma criada, pensei. Ela é apenas uma criada. E embora que ela não fosse uma selecionada, ainda assim queria me aproximar mais dela, poder vê-la melhor, mas temia que ela me visse e parasse assim de dançar. Então, eu apenas a observei de onde estava, apoiado no batente da porta. Ela tinha um jeito bem engraçado de se divertir, precisava admitir. Seus braços se mexiam freneticamente, erguidos para o alto, e seu rosto era tampado pelos cabelos ruivos que mexiam de um lado para o outro como faíscas pulsantes. Foi então que a vi, apenas o brilho dos olhos, refletidos através do espelho. No mesmo segundo, ela parou de dançar, deixando que o vestido que antes estava segurando caísse no chão, tropeçando no tecido. Não parei nem pra pensar antes de correr em sua direção, ajudando-a a se levantar. "Me desculpe," comecei, nervoso. "eu não queria assusta-la. Só-" A encarei por um momento. Ela não parava de balançar a cabeça positivamente, incapaz de falar uma sequer palavra pela falta de ar. "Só me diga que estais bem."
"Sim." Ela disse, ainda arfando. "Sim, eu estou bem," e acrescentou rapidamente "alteza." "Mesmo? Você pode ter machucado o pé, ou talvez o braço. Ou pior!" Passei os dedos entre meus cabelos, inconformado. "Deus, eu devia ter ficado no meu quarto." "Não se preocupe alteza, eu estou bem. Veja," ela esticou os braços, como se dissesse Eu ainda estou inteira, viu? "não foi nada. Podes ficar tranquilo.""Ótimo." Deixei um suspiro escapar, aliviado. "Qual é seu nome?" Ela franziu a testa, parecendo confusa com minha pergunta. "Celina, senhor." "É um nome muito bonito, Celina." Sorri para ela, observando ela me retribuir com um sorriso fraco. "Obrigada," ela apertou os olhos. "alteza". "Você é nova por aqui, não é?" Ela concordou com a cabeça. "Pode me chamar de Kaylon, se preferir. Ou do que for mais fácil de lembrar. Não me importarei se me chamar de guri, também." Ela riu, sem se importar em colocar a mão na boca, agindo naturalmente. "Kaylon me parece bom, senhor. Mas Sarah não-"A interrompi, erguendo o braço. Sarah conseguia ser mais implicante que sua mãe, Silvia, e isto eu sabia bem. "Me chame como preferir, esta é a minha ordem." Ela concordou, ainda que estivesse um pouco relutante. "Agora, se não for um incomodo, poderia me fazer companhia? Estou com um problema enorme para conseguir dormir."
Fale com o autor