Projeto CALIPSO
4 I feel hopelessly weighed down by your eyes of steel
Notas iniciais
Ryuu ainda ficou parado por uns bons instantes na porta da cozinha pensando em nada em particular, quando subitamente foi jogado ao chão. Um garoto baixinho e franzino, de cabelos castanho-claros bagunçados e olhos escuros exprimiu bem claramente o mesmo que o barista sentia:
— Merda!
E talvez aquela pudesse não ser a melhor forma de ser apresentado a alguém, mas já que um desconhecido resolveu trombar consigo, por que não interagir com ele?
— Olá — cumprimentou Ryuu, com um sorriso educado. — Meu nome é Ryuu-
— Foda-se o teu nome — o garotinho disse, num grunhido meio esganiçado e tremido, e levantou-se do chão.
O barista demorou a se tocar do que acontecia. Aquele moleque era louco? Não era coisa que se fazia com uma pessoa que acabou de se conhecer. Porém, controlou todos os seus impulsos de grosseria e tentou novamente tentar falar com o rapaz.
— Ei, espera! — Ryuu levantou-se também, indo atrás do garotinho. Suas pernas mais compridas logo alcançaram o mais baixo, ainda que ele andasse a passos rápidos. O barista segurou no braço magricela, parando o outro. — Qual é o seu nome?
— Isso não é da sua conta, me larga! — O garoto, com os olhos raivosos, empurrou Ryuu novamente no chão e saiu correndo para dentro do castelo.
Que garoto estranho, pensou, esfregando o curativo que Ishida tinha feito em seu braço. Estranhamente, não doía, mesmo que tivesse caído em cima de onde estava cortado. Talvez fosse somente esperado de um SHSL Doctor.
De qualquer maneira, não tinha muito a fazer. Era só levantar e sacudir a poeira. Ou aceitar a mão que apareceu ali do nada. Era uma opção válida também.
— Eu peço desculpas pelo Yamato-kun. — A voz do rapaz que lhe estendera a mão era macia e educada, e ele deveria ser bastante forte para conseguir puxá-lo sem dificuldade alguma. — Às vezes ele tem dessas coisas.
— Você o conhece? — Quis saber Ryuu, encarando o rapaz com mais atenção.
Os cabelos claros dele eram razoavelmente longos e estavam presos de alguma forma estranha, híbrida entre um rabo de cavalo e um coque. Era bastante alto, sendo poucos centímetros mais baixo que o barista, e tinha traços faciais meio andróginos, mesmo que mostrasse ser claramente um rapaz.
— É um primo distante meu — contou, os olhos verde-musgo olhando distraidamente para cima. — Não temos muito contato, contudo, desde que meus pais se mudaram da casa de nossos avós. Talvez ele nem se lembre de mim. Sei somente desde que Koro Yamato perdeu os pais e fugiu do orfanato, ele tem sido procurado pela polícia. E, depois de pego, fugiu novamente. Ele tem vivido assim desde então e foi isso que atraiu a atenção de Hope's Peak. Super High School Level Runaway. Não sei ao certo se isso é um talento de verdade, mas ao menos ele agora tem uma chance de arrumar a vida, não é?
KORO YAMATO — SUPER HIGH SCHOOL LEVEL RUNAWAY
— Claro. E você é?
— Oh, desculpe. Meu nome é Ren Tsukino.
REN TSUKINO — SUPER HIGH SCHOOL LEVEL LINGUIST
Pelo que ouvira, Tsukino era um rapaz que conhecia tantos idiomas que poderia falar com praticamente qualquer pessoa no globo. Conseguia se comunicar mesmo em dialetos locais, e ficara particularmente famoso depois de conseguir registrar por escrito o dialeto falado num vilarejo japonês isolado dentro de uma montanha.
— Meu nome é Fujiwara. Ryuu Fujiwara. É um prazer conhecê-lo. — Apertou a mão estendida pelo linguista, um sorriso plástico no rosto porque aquele fugitivo louco destruira seu humor.
— Sinceramente, podemos até estar presos, mas ao menos temos luxo aqui. — Tsukino comentou, mudando totalmente de assunto. — Quer dizer, temos até fontes termais.
— Fontes termais?
— Sim, vi no mapa e vim conferir — confirmou o linguista. — Se quiser, eu te levo lá.
Durante o curto caminho até as termas, dado por uma estradinha de tijolos amarelos, os dois conversaram sobre trivialidades e, mesmo que o humor de Ryuu não estivesse dos melhores, os dois conseguiram manter a conversa bem. Algo nos modos educados de Tsukino criavam um sentimento de identificação dentro de Ryuu.
— É aqui? — Ryuu arqueou a sobrancelha para a construção de pedras escuras com um ar soturno que, segundo o mapa, era onde ficavam as fontes termais. Não parecia o melhor lugar para se relaxar.
Tsukino apenas deu de ombros e abriu a pequena porta de madeira escura. Uma neblina quente e úmida escapou, irritando os olhos de Ryuu. Após acostumar-se, o barista conseguiu ver uma ampla piscina envolta de pedras charmosamente dispostas, sob uma bela iluminação dourada.
Ali, imerso na água quente, se encontrava um garoto louro, quase dormindo de tão relaxado, e com óculos cheios de vapor. Porém, ao ouvir os passos dos rapazes no assoalho de madeira, ele subitamente se ajeitou, limpou as lentes e sorriu educadamente para os dois.
— Olá. Desculpe, não esperava ter companhia. — Ele usou alguns tons mais alto do que deveria, mas Ryuu supôs que ele temia não ser ouvido por conta do constante barulho de água caindo algures. — Sou Shizuru Kayano, mas vocês podem me tratar por Shizuru, se quiserem. É um prazer conhecê-los.
SHIZURU KAYANO — SUPER HIGH SCHOOL LEVEL PSYCHOLOGIST
Pelo que Chiasa tinha lhe contado, Shizuru estava entre os mais renomados psicólogos de todo o Japão, tendo escrito mais livros do que sua irmã poderia ler para argumentar que eram incríveis. O que começara como um pequeno grupo de apoio em sua vizinhança se tornou um dos maiores consultórios de Psicologia do país. Aquele moleque magricela não era pouca merda e pessoas vinham de longe para poder conversar com ele, que atendia a todos indiscriminadamente.
— Eu sou Ryuu Fujiwara e esse é Ren Tsukino — o barista contou, indicando a si mesmo e ao rapaz a seu lado em seguida.
— Oh, você é o garoto do bar, não é? — Aparentemente, Ryuu seria eternamente conhecido por esse apelido. — Imagino o estresse que deva ser administrar tudo…
— Não é nada demais, na verdade — minimizou o barista, mas antes que pudesse fazer qualquer comentário genérico, um barulho de porta se fechando bruscamente fez-se ouvir, interrompendo os garotos.
— O que foi isso? — Foi Ren quem primeiro se manifestou, procurando a origem do ruído.
— Talvez tenha sido o vento batendo a porta do banheiro — sugeriu Shizuru. Um pequeno tique em sua sobrancelha direita ainda externava seu susto, tal qual o constante ajeitar de seu cabelo úmido para trás da orelha.
— Não tem vento aqui — observou Tsukino, com ar sensato. — Acho que seria uma boa ideia darmos uma olhada.
— Claro. — Já livre do constrangimento, o psicólogo sorriu com educação e guiou os outros rapazes para um canto das termas, onde leitores eletrônicos similares ao do depósito destoavam das portas e divisórias de bambu.
Quando Shizuru se levantou, Ryuu percebeu que seus braços e suas pernas eram cobertas de cicatrizes e não pode evitar se perguntar o que deixara tais marcas em sua pele. Estava curioso com aquilo, mas o senso não lhe permitia a indiscrição de perguntar.
— O vestiário masculino é aqui e o feminino é ali do lado. Só colocar o cartão de estudante aqui, mas não estou com o meu agora — informou o psicólogo, sorrindo apologeticamente.
Tsukino tomou a frente e puxou seu cartão do bolso, aproximando-o da máquina, que não se demorou em correr com a porta de bambu, revelando um ambiente diferente do esperado pela fachada. Os azulejos eram brancos e cobriam todo o assoalho. As paredes ainda eram de bambu, mas pareciam fora do lugar junto às duchas de última geração e os armários de metal.
— Parece tudo tão novo — Ryuu murmurou, procurando qualquer coisa que pudesse fazer um barulho tão alto.
— Nada aqui parece ter sido a causa do barulho — Tsukino atestou o pensamento comum, e os três saíram do vestiário, uma vez que nada mais tinha de interessante ali.
Decepcionado com não ter descoberto nada ali, Ryuu seguiu para fora do vestiário. Ficou de frente para o outro vestiário, pensando no quão indelicado seria ver o que tinha lá dentro.
— Talvez o barulho tenha vindo daqui — Ryuu teorizou. — É o único lugar que falta vermos.
— É o vestiário feminino — Shizuru argumentou, as bochechas coradas. — É errado.
— O que os olhos não veem, o coração não sente. — Sob aquela frase feita, o barista puxou seu cartão do bolso e colocou-o em frente ao leitor.
A pequena máquina fez um barulhinho baixo de reconhecimento, antes de piscar em carmim e acionar uma estridente sirene. Ryuu voltou um passo instintivamente, e uma quantidade ridiculamente grande de armas pareceu ter surgido do nada, apontando para ele.
— Entrada proibida — disse uma voz robótica feminina. — Procedimento de segurança sendo ativado em cinco, quatro, três…
— Cuidado! — Antes mesmo que Ryuu pudesse pensar no que acontecia, Tsukino jogou-se no barista, fazendo ambos rolarem e caírem alguns metros adiante, enquanto o lugar outrora ocupado foi atingido por uma saraivada de tiros após o fim da contagem regressiva.
Ryuu respirava pesadamente com o peso do linguista sobre si. A posição na qual se encontraram era ligeiramente constrangedora, com a mão de Tsukino espalmada sobre seu peito. E pareceram já ter ficado por mais tempo do que o necessário daquela forma.
— Ei, Tsukino — chamou Ryuu, as bochechas ligeiramente coradas —, você se importa…?
Com uma risada nervosa e constrangida, o linguista levantou-se e deu espaço para o outro.
— Você é rápido no gatilho, não? — Ryuu comentou, um meio sorriso abrindo-se num tom jocoso.
— Quisera eu — Tsukino riu educadamente, antes de voltar a sua típica inexpressão. Sua voz, porém, ainda guardava uma nota bem-humorada. — Sinta-se sortudo por isso.
— E eu me sinto. Se não fosse por você, eu seria um queijo suíço agora.
Tsukino tentou minimizar seu feito e Ryuu provavelmente iria continuar a puxar assunto com o linguista, mas surgiu um Monokuma no meio do caminho.
— Ryuu-kun, seu safadinho! — O urso saltitou para a frente dos rapazes, cobrindo a boca com as patas, fingindo abafar sua risada escandalosa. — Tava louquinho pra espiar o vestiário das meninas, né? Tsc, tsc. Esperava muito mais de você.
— Ninguém te chamou aqui. — O barista foi curto e grosso, claramente sem paciência para lidar com aquele ser irritante. — Só diga o que quer e vá embora.
— Ai, credo, quanto drama. Parece até não me ama. Quer dizer, todo o mundo me ama, né? — E, com uma piscadela marota, Monokuma voltou ao assunto: — Eu só queria deixar bem claro que essas putarias aí de ficar entrando nos vestiários dos outros é feio e não pode. Eu sei que os hormônios estão a flor da pele, meninos, mas isso não é motivo pra ser tarado. Beijinhos, podem ficar aí de boas agora.
E tão subitamente quanto surgiu, ele foi embora. Quando Ryuu olhou para o lugar onde anteriormente estava, sentiu um ligeiro arrepio na coluna com a visão das várias marcas de bala no chão. Ele sequer ousava pensar na possibilidade de Tsukino não salvá-lo.
A presença de Monokuma era exaustiva e drenava a energia do corpo do barista. Ao mesmo tempo que Ryuu queria enchê-lo de porradas, tinha medo do que o animatrônico poderia fazer com seu poder quase absoluto naquele castelo. Seria interessante conversar um pouco com Shizuru e Tsukino — o certo ar de mistério que os dois emanavam atiçava sua curiosidade —, mas ele já não tinha saco para tal. Sendo assim, despediu-se dos rapazes e seguiu um rumo qualquer depois das portas das termas.
Ryuu não poderia dizer com precisão que horas eram, principalmente com toda a camada de bruma ocultando quase toda a luz que o sol poderia trazer. A impressão daquele lugar era de ser sempre noite. Porém, Ryuu estava com fome e precisava comer alguma coisa. Rumou novamente para a cozinha, buscando qualquer coisa ali que lhe interessasse. No fim, como sempre, acabou fazendo um café e tomando. Poderia não ser o que seu corpo precisava, mas era o que ele gostava.
O barista iria embora dali depois de lavar a louça — dava agonia ver uma cozinha suja —, não fosse um pequeno caco de vidro colorido jogado no chão. Pegando o item cortante mas mãos, não pôde evitar o sorriso feliz no rosto. Só conhecia uma pessoa que deixava aquelas coisinhas jogadas por qualquer lugar.
Com passos largos e rápidos, Ryuu atravessou vários corredores procurando alguém em especial. Não demorou muito para encontrá-la, numa sala que ele ainda não tinha visitado. Era, na verdade, um grande espaço vazio exceptuando-se algumas colunas elegantes, com meia dúzia de plataformas mais altas espalhadas e uma janela enorme, que dava vista para um estupendo jardim. Algumas cortinas carmesins também adornavam o espaço, dando esquentando ainda mais o ambiente dourado dos candelabros e castiçais.
Aquela quem ele procurava estava gesticulando loucamente e, como esperado, acompanhada por uma outra menina que casualmente ria e sorria para os truques.
— Kronnata, quanto tempo! — Ryuu não se demorou em se aproximar da garota-napolitano. Napolitano, porque tudo nela era rosa, creme ou marrom, como o sorvete. — Não sabia que estava aqui também.
Em resposta, ela sorriu ainda mais largamente, acenando o braço que segurava seu inseparável guarda-chuva. O guarda-chuva acabou acertando a cabeça da menina ao seu lado, que xingou baixinho enquanto massageava a cabeça. Ryuu tomou isso como um entusiástico “olá à Kronnata” e não se deu o trabalho de conter o riso.
KRONNATA — SUPER HIGH SCHOOL LEVEL MIMIC
Ryuu conheceu Kronnata quando ela caiu de paraquedas em seu bar, fazendo seu show de mímica ali dentro sem sequer se importar com permissão. O barista estava pronto para enxotá-la dali até perceber que, atrás dela, uma multidão de fãs entrara em seu estabelecimento, resultando em mais clientes. Ryuu pagou-a pelo serviço prestado com um drink nas cores de sua roupa ao momento, e volta e meia a garota aparecia por lá para fazer seus truques. Ryuu ainda tentou contratá-la para ser uma figurinha carimbada de seu bar, mas logo percebeu que Kronnata era como um pássaro, nunca presa a lugar algum.
— Me desculpe, não pude não rir — o barista dirigiu-se, dessa vez, a garota atingida pelo guarda-chuva. — Eu sou Ryuu Fujiwara. Você é…?
— Está tudo bem. Nem doeu, na verdade. — A menina mostrou um sorriso animado, parecendo não se importar com o golpe. — Meu nome é Ryoko Nori, mas pode me chamar de Ryoko, se quiser!
RYOKO NORI — SUPER HIGH SCHOOL LEVEL BLOGGER
Ryoko era conhecida por seu blog, “The average girl daily life”, onde falava um pouco sobre tudo o que acontecia em sua vida e no mundo. Ryuu tinha ouvido falar dele várias vezes, mas nunca parou para ler nada, então tudo que sabia sobre a menina tinha sido informação de sua irmã. Segundo Chiasa, os anunciantes brigavam loucamente por alguns pixels em sua página, assinando sem hesitar preços exorbitantes para manter suas propagandas nos cantos escuros.
— Kronnata me mostrava como é horrível estar presa em algum lugar. Eu era claustrofóbica e nem sabia — Ryoko contou, encolhendo os ombros com um sorriso culpado.
— A caixa invisível? — Ryuu olhou para Kronnata com um falso semblante de decepção. — Eu já não te falei que é feio traumatizar os outros?
Kronnata encolheu os ombros, mas não evitou um sorriso bem-humorado. Claramente não estava nem um pouco arrependida.
— Certo, campeã. — Ryuu sorriu de lado para a mímica, cruzando os braços como se realmente estivesse sério. — Ao menos sabe o que está fazendo aqui?
— Nah to the ah to the, no, no, no — dublou Kronnata, após apertar um dos botões de sua blusa, fazendo mais gestos para ilustrar a mensagem. Suspirou com a efusiva resposta, ainda que estivesse esperando-a.
— Certo, certo. E você, bonitinha? — Dirigiu-se à blogueira, que pareceu surpresa com o súbito elogio. — Também está na mesma?
— Acordar num lugar desconhecido, quando eu deveria estar na minha escola? — Ryoko suspirou afetada. — Pois é, acontece. Essa história vai aparecer no meu blog, com certeza.
— Imagino — murmurou o barista, um tanto desconfortável porque nunca leu de fato o blog da colega. — Ao menos de fome não morreremos. A dispensa está cheia e tem café.
— Oh, tem café? — Os olhos da blogueira pareceram brilhar com a informação. — Que bom! Não conseguiria viver sem minha dose de cafeína, sabia? De todos os alunos de Hope’s Peak desse ano, você é o que eu mais queria conhecer, à propósito. Sempre que estou estressada, é o seu expresso que me salva.
— Fico lisonjeado — Ryuu disse, sinceramente. — Mas não esperava que uma menina tão doce tivesse gosto por expresso.
— Doce, hm? — Com uma risada suave e irônica na medida certa, Ryoko deu as costas, parecendo pensativa por um instante. Contudo, logo tornou a encará-lo por cima do ombro, sorrindo sacana. — Bem, não posso correr o risco de pegar diabetes, não é?
“Resposta inteligente”, pensou Ryuu, abrindo um meio-sorriso.
O barista e a blogueira conversaram sobre amenidades por um tempo, com o primeiro descobrindo que a outra tinha um humor perspicaz, ainda que sua áurea de menina doce o incomodasse um pouco. Porém, a conversa foi interrompida por Kronnata, que estava realmente entediada com aquele papo furado. A mímica resolveu realizar vários truques, para expulsar o tédio. Entre uma explosão de papel picado e a vênia da artista, porém, uma irritante voz irrompeu nos autofalantes do salão:
— Queridos alunos, o vosso lindo e magnífico diretor Monokuma vos chama para fazer um anúncio! Encontrem-me todos no salão de baile AGORA ou serão punidos! Beijinhos de luz!
Os três adolescentes trocaram olhares suspeitos, mas não era como se pudessem mudar alguma coisa.
— Ao menos já estamos aqui, não? — Ryuu procurou ver o lado positivo, tentando controlar a ligeira dor de cabeça que lhe acometera subitamente. Aquela voz realmente era irritante, e como se premeditado para piorar a situação do barista, o dono dela surgiu ali.
— Oh, vocês já chegaram? — Monokuma saltou detrás da cortina rubra, e completou em tom de troça: — Mas que alunos dedicados eu tenho!
— Já estávamos aqui desde antes, não foi por sua causa — Ryuu respondeu, revirando os olhos.
— Que malvadoooooo! — Monokuma jogou-se no chão e balançou os braços, fingindo-se de magoado. Porém, levantou-se logo em seguida, ainda que continuasse com a atuação ruim. — Não é para fazer isso comigo, eu sou sensível!
— Que porra, hein — soou uma voz enojada ao longe. Ryuu não precisou se virar para saber que era Aaron. — Que escândalo é esse aqui? Tsc. Estar preso é ruim, mas estar preso por um cara que sequer sabe se portar é foda.
— Bem, não deixa de ser bonitinho, né — Hanna disse, também entrando no salão.
— Pra mim é só um urso balofo rolando no chão — Aaron rebateu, encarando o autoproclamado diretor no chão com desprezo. — Por favor, me prive dessa visão do inferno.
— Grosso! Eu não sou balofo, eu sou lindo. — Monokuma levantou-se num salto. Pelas portas dos salões, mais alguns alunos entraram. Kayano e Ishida tentaram convencer um assustado Yuuki a voltar para o salão, mas o caçador parecia extremamente aterrorizado, murmurando “urso” sem parar. Hatsu, por outro lado, saltitou alegremente na direção de Ryuu, parecendo feliz por reencontrá-lo.
— Oi de novo, Ryuu-kun — cumprimentou ela, com um sorriso brilhante. Contudo, a expressão dela pareceu ficar um pouco mais séria em seguida. — Fiquei P-R-E-O-C-U-P-A-D-A com você depois que você foi embora tão de repente, parecendo nervoso. Está T-U-D-O B-E-M?
O barista surpreendeu-se. Não estava acostumado a ter gente se preocupando com ele, mas gostou da sensação. Talvez não fosse tão sozinho no mundo como pensava.
— Está tudo bem, Hatsu. — Para despreocupá-la, Ryuu abriu um sorriso e deu dois tapinhas em seu ombro. A líder de torcida retribuiu ambos os gestos, ligeiramente corada. A preocupação toda esvaiu-se e deu lugar à usual animação.
— Que bom! Mas, agora, pode me chamar de Michiko — pediu ela, fingindo uma expressão sisuda por uns dois segundos antes de sorrir de novo. — Quer dizer, eu estou toda “Ryuu-kun”, e você me chamando de Hatsu é…
— Claro, Michiko — concordou o barista, apenas para a outra se aquietar um pouco. Contudo, sequer precisava disso, visto que a atenção de todas foi atraída para o pigarro impaciente de Monokuma.
— Licença, dá pra vocês prestarem atenção em mim? Eu sou a estrela aqui, ok? Quero fazer meu anúncio logo, já chegaram todos? Hmmm... — O urso contou os alunos no salão. — Treze, catorze, quinze… Falta um! Cadê o tampinha? — Um grunhido irritado pode ser ouvido e Monokuma parecia estar prestes a explodir de raiva. Ryuu começou a se preocupar com o que viria dali em diante. Tirando um megafone de sabe-se lá onde, completou: — Koro Yamato, apareça aqui agora ou você será PUNIDO. Tá me ouvindo bem? PUNIDO!
Até então, os alunos estavam presos em suas próprias conversas paralelas, mas todas cessaram quando o diretor acertou com seu punho metálico uma coluna próxima. Aproximando-se da janela, o urso distinguiu alguém caminhando pelo jardim e pareceu ainda mais possesso. Abrindo a janelas com violência, gritou:
— Eu avisei! Você será punido AGORA!
Ryuu estava longe do fugitivo, mas pode ver claramente o quão tenso ele pareceu com as palavras do urso. Como esperado de alguém com o seu talento, Yamato saiu correndo. Rangendo os dentes, Monokuma tirou uma espécie de controle de lugar algum e carregou o botão que ali estava. E, então, algo próximo do menino franzino explodiu.
Todos no salão já assistiam a cena da janela, horrorizados. O corpo magricela do garoto sairia voando pelos ares, mas de alguma forma ele conseguiu esconder-se atrás de uma árvore, que lhe serviu de escudo. Então, Yamato pôs-se a correr outra vez. Monokuma, irritado, premiu o botão em sou controle várias outras vezes. Várias coisas voaram em direção do fugitivo, que todas as vezes conseguia de alguma forma esgueirar-se para escapar. Algumas das facas atingiram-no, sim, mas ele ainda conseguia de alguma forma caminhar para fugir da morte iminente.
Ryuu queria gritar e fazer alguma coisa e aparentemente não era o único no grupo a querer tomar uma atitude. Contudo, todos pareciam paralisados com a situação. A cena era tão absurda que ninguém parecia de fato entender o que se passava. A brincadeira de gato e rato continuou até que o urso finalmente conseguiu que uma lança atingisse o menino na coxa, forçando-o a ficar de joelhos no chão. Um riso macabro emanou das entranhas do animal e ele preparou-se para dar o último derradeiro comando do controle que tinha em mãos. Contudo, nada aconteceu.
— Merda! — Após tentar outras vezes, Monokuma enfezou-se e tacou o controle longe. — Tsc. Parece que o tampinha teve sorte hoje. Bem, tanto faz. — E, como se nada tivesse acontecido, o urso sorriu para eles. — Quer dizer, vocês sequer OLHARAM PARA AS CARAS DE ASSUSTADOS QUE VOCÊS TINHAM ATÉ AGORA? E estão com elas até agora, olha aí. Upupupu…! Tão engraçado!
— O que…? — Ryuu conseguiu pronunciar, depois de alguns segundos de silêncio.
— Bem — Tsukino começou, soando calmo e pouco impressionado com a cena a sua frente. — Acho que temos que fazer alguma coisa por Koro. Se deixarmos ele assim, ele pode morrer por perda de sangue.
— De fato — concordou Ishida, com um ar profissional. — Irei buscar os devidos equipamentos na enfermaria para tratá-lo.
O médico, então deu as costas e saiu a passos apressados do salão. Quase que imediatamente depois, a bolha de choque estourou e todos pareceram tentar lidar, cada um a sua maneira, com o que aconteceu. Alguns, como Ichimaki e Sasaki, limitaram-se a encarar um ponto fixo, parecendo perder-se em pensamentos. Outros, como Michiko e Hanna, pareciam demasiado ocupados em surtar, murmurando palavras incompreensíveis para si mesmos. E tinham aqueles que resolveram forçar aquele urso louco a dar respostas que justificassem o que acabara de acontecer.
— O que caralhos foi isso? — Hayumi foi a primeira a tomar a frente, cruzando os braços sobre os seios. — Você simplesmente tentou matar aquele garoto por não aparecer. Você é doente?
— Bem, de fato parece ser doença falar com uma coisa dessas como se fosse gente — Lyo ironizou, mas também encarou o urso com desprezo.
— Não acho que isso seja doença, até porque nos comunicarmos com coisas que nem você — Aaron comentou, lançando à estilista um enviesado sorriso trocista.
— O que você disse?
— Dizia que–
— Calados, os dois — sibilou Ryuu para a estilista e o hacker. Aquilo não era hora para discussões inúteis.
— Então? — Kamukura abriu um sorriso educado, usando um tom pacífico que não cabia àquela situação. Eles tinham acabado de assistir a uma cena horrível. Nunca Ryuu teria metade da paciência para manter a cara de diplomata compreensivo.
— Aí, não me olhem tanto assim que eu fico tímido! — Encolheu os ombros como se realmente estivesse e a única vontade de Ryuu agora era esganar o maldito. — Não é como se eu quisesse realmente fazer mal ao anãozinho, ok? Era só uma brincadeirinha. Eu... — O urso interrompeu-se por alguns segundos, parecendo pela primeira vez incerto no que fazer. Porém, sua insegurança não durou muito, visto que logo em seguida ele já mudou totalmente sua postura. — O que eu estou falando? Não sou obrigado a dar satisfações para pirralhos que nem vocês! — E, pegando o megafone esquecido no chão, gritou: — Eeeeeeei, dá pra vir logo aqui? Eu tenho coisas importantes para falaaaaaaar!
Um pouco depois do anúncio, os dois alunos faltantes chegaram. Kazuo trazia nos braços um inconsciente Koro e depositou-o no chão com cuidado. Yuuki foi o primeiro a se aproximar, cheirando desconfiadamente o fugitivo, mas não demorou para que todos os outros fizessem uma pequena roda em volta deles.
— Está tudo bem com ele? — Michiko perguntou, preocupada.
— A lança atingiu-o na porção antero-inferior da coxa, por isso ele não vai conseguir fazer movimentos de flexão por lesão do quadricípete crural. Decidi administrar um analgésico geral para evitar problemas. Felizmente não acertou o tendão nem nenhuma artéria importante. Ele se recuperará em breve, a hemorragia foi extensa mas não grave — disse Ishida, fazendo uma pausa para encarar as caras confusas. — Realizarei futuras avaliações para verificar a recuperação da mobilidade do membro afetado, mas não creio que haverão grandes contrapartidas.
— Perdão? — Ryuu conseguiu escutar o questionamento da líder de torcida.
— Está tudo bem e ele vai melhorar — traduziu-se o médico.
— Mas quem se importa esse moleque, de qualquer forma? A estrela aqui sou eu, EUZINHO — queixou-se Monokuma, cruzando os bracinhos. O bico insatisfeito que fez só se desfez quando todos ali deram a devida atenção. — Bem, como dizia antes dessa zona toda acontecer, tenho um importante comunicado para dar para vocês!
— Então diga logo, tenho muitas roupas para desenhar — Lyo apressou-o, cruzando os braços.
— Credo, que mal-humorada — comentou o urso. — De qualquer maneira, como já devo ter mencionado antes, vocês estão aqui para protegê-los do mundo lá fora. Vocês não têm ideia de quantas pessoas mal-intencionadas estão por aí para fazer-lhes mal! Por isso, trouxemos vocês para essas amáveis ilhas, onde estão seguros! Não temos previsão de volta, contudo. Ficaremos aqui até o fim de nossos dias, não é lindo?
— Você não pode estar falando sério — Ryuu interrompeu-o, sem acreditar. O que aconteceria com seu bar? Duvidava que Chiasa conseguisse mantê-lo sem ele. Tudo o que construíra até então seria destruído caso ficasse preso ali. — Não posso ficar preso, tenho muito o que fazer lá fora, ainda.
— Isso o que você está fazendo aqui é sequestro — acusou Hayumi, irritada. — Isso é absurdo, pode me tirando daqui!
— Bem, será uma situação engraçada — opinou Sasaki, acariciando as orelhas da gata em seu colo. — Imagine, Marisa Cristina, ficar presa com um bando de gente que não conhece? Parece divertido.
A gata da domadora miou baixinho, apaticamente. Mesmo que alguns seguissem o exemplo da garota de cabelos verdes e não parecesse se importar tanto com a situação, a opinião da crítica e do barista parecia ser a mesma da maioria do grupo. Eles começaram a falar ao mesmo tempo, debatendo o quão absurda eram as circunstâncias, gerando um burburinho irritante. Porém, com um pigarro do urso, todos se calaram.
— Como eu dizia — reiterou Monokuma —, vocês estão presos aqui. Porém, eu sou um ursinho muito bom e darei a vocês a oportunidade de lutar por sua liberdade! Para saírem daqui, tudo que precisam fazer é… — Fez uma pausa dramática absolutamente ridícula e desnecessária, na mente de Ryuu. — ...matar alguém!
Assim, o silêncio tenso outra vez instalou-se no salão. Ryuu ficou com medo do que aquelas palavras causariam na convivência entre eles. A ideia era absurda. Matar alguém para sair dali? Quem faria aquilo? Era muito drástico! Contudo, para ser sincero, mesmo o barista duvidava da própria sanidade ali. Quer dizer, ele queria sair dali e voltar para o seu bar. Será que chegaria ao ponto de cometer homicídio para tal? Sem falar que ele não era o único a querer sair. Os outros também deveriam ter suas razões. A questão era: seriam suficientes para causar um crime? Ryuu não sabia, e acreditava que os outros tinham as mesmas dúvidas.
Monokuma ainda falou algumas coisas, algo relacionado a “mas não pode ser descoberto!” ou “matar é feio, então precisamos julgar o culpado por isso!”, mas o barista não deu a devida importância. Após o urso terminar seu discurso regado a estranhos “upupu” e sair dali como se nada tivesse acontecido, Ishida pediu ajuda para levar Koro o fugitivo adormecido para a enfermaria, onde o médico julgava ser um lugar melhor para deixá-lo descansar e para tratá-lo futuramente. Ryuu prontificou-se e, após cumprir a tarefa, voltou para seu quarto e trancou instintivamente a porta. Estava seguro, por agora. Esperava somente que estivesse depois, também.
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