Proibida Pra Mim
48 41. Liberdade
Kellen Brice
Eu não conseguia abrir os olhos. Estavam pesados, meu corpo doía nas partes que eu conseguia sentir, outras não tinha nem consciência.
— Por favor, Kellen... Doutora, ela está viva?
— Você pôde nos acompanhar, mas deve nos deixar fazer nosso trabalho sem interrupções!
A discussão começou a me ser audível juntamente com a sensação de estar sendo sacolejada.
— Ai meu Deus, nunca senti tanto medo na vida... — a voz conhecida me sussurrou bem próximo, eu podia sentir o ar quente e então ele segurou minha mão, delicadamente. As pontas de seus dedos nos meus me fez ter certeza de que era Thomas quem me acompanhava. — Não nos deixe. Não me deixe.
Foi a última coisa que ouvi antes de apagar por completo.
As imagens se misturavam em minha cabeça. As palavras das lembranças se embaralhavam e eu conseguia apenas sentir o medo. Embora o medo tenha sido substituído por uma feroz proteção no momento que fitei Scott Hayes, o Montanha do colégio, aquele que foi expulso do mesmo. Além, óbvio, de ser o inimigo número 1 do meu melhor amigo.
Eu não havia nem conseguido enfrentar a fila para comprar o tal caderno de desenho pelo qual me apaixonei, pois notei aquele grande idiota indo pelo caminho que a turma tinha feito.
Não pensei duas vezes em segui-lo porque certamente ele estava todo determinado para encontrar com Scorpius, ou Rose, eu não sabia quem, mas não seria nada de bom.
Minha mente virou um redemoinho de agressões. Eu tinha certeza que iniciei no soco direito por um motivo e foi por vê-lo dizer que se vingaria de Scorpius pela aposta e ainda, "vou levar aquela ruivinha como prêmio".
Ele era um idiota e merecia algo. Sei que parecia imprudente eu me arriscar em batê-lo, mas não resisti vê-lo destrinchar tudo que faria com Scorpius, depois denegrir Rose a condição de objeto e humilhação apenas porque era mulher e ainda assumir aquela expressão que eu aprendi a fugir de meus pesadelos: de louco, de quem se acha superior a todo mundo e que vai ter o quer principalmente na base da agressão. Ele tinha a cara do meu violentador e ao insinuar fazer o mesmo com Rose, levando em conta até mesmo o motivo de sua expulsão, eu não pude deixá-lo ir embora.
Foi quase como se eu voltasse no tempo e pudesse ter me defendido da mesma forma. Como se o Universo estivesse me dando a chance de viver, por fim, o ponto alto da minha recuperação.
Então foi como se as comportas tivessem sido abertas. Ele revidou, eu bem que me defendi, estava tudo para eu derrubá-lo até o grito me tomar a atenção.
Os dois caras que mais preenchiam o meu dia a dia, Scorpius e Thomas, corriam em desespero e foi como se minha consciência no momento voltasse e, por descuido, fui atingida em cheio por Scott.
— Kellen? Você está acordada? — minha confusão mental foi interrompida. — Kellen, estou aqui, não fica nervosa... Esse aparelho tá apitando muito, meu Deus, vou chamar a enfermeira.
Eu não conseguia ainda abrir os olhos, mas um calor foi tomando meu corpo ao ponto de me deixar nervosa a tentar balbuciar qualquer coisa e sair daquela letargia.
— Calma, senhorita, calma! Segurem ela!
— Kellen, calma! Sou eu, Thomas, relaxa, por favor...
— Senhor, se afaste, vamos monitorar e...
— Shiiu! Ela está se acalmando. — a mão de Thomas voltou a pousar sobre mim e tentei voltar a normalizar minha respiração e dar conta que estava dominando, lentamente, meus sentidos. — Calma, meu amor, estou aqui, está protegida, nada de mal vai acontecer com você, temos também uma equipe de enfermeiras muito capacitadas para te ajudar.
— Senhor, é melhor se afastar, ela precisa de espaço e...
— T-thomas. — forcei as palavras, mas saiu como um suspiro, servindo ao menos para avisar a quem quer que estivesse no quarto que eu não queria que Thomas fosse embora. Apertei sua mão com a força que tinha.
— Ah, Kellen, Deus do céu, você está aqui! Moça, ela acabou de apertar minha mão, viu? Ela vai ficar bem, está tudo bem.
— Agora que os sinais vitais se estabilizaram, vou procurar o médico para dar uma olhada nela. Já volto.
— Pensei que chamando elas poderia me acalmar, mas só me fazem passar raiva, nossa, você nem imagina, Kellen... — sua voz ia me guiando pelo retorno da consciência. Senti a cama afundar ao meu lado e então minha cabeça sendo içada. — Desde a ambulância todo esse nervoso e então esses dois dias aqui, graças a Deus você voltou.
— T-tho-thomas. — tentei novamente algum contato e já conseguia piscar mais vezes.
— Estou aqui, Kellen, estou bem aqui. — seu rosto entrou em meu campo de visão. Seus cabelos pretos desalinhados, um curativo no supercílio, os olhos azuis estavam fundos, mas não perdiam sua beleza. Thomas me sorriu e acho que fiz uma careta em resposta para respondê-lo porque uma ruga de preocupação surgiu em seu cenho. — Ei, moça. Morri de preocupação com você. Não faça mais isso, não tenho coração.
— D-desculpa.
— Não precisa se desculpar, na verdade nem precisa tentar falar, vamos só aproveitar que meu Avatar favorito está consciente me olhando e me deixando falar feito um idiota sem parar.
Meu gesto automático era revirar os olhos pelo apelido ridículo que ele usava para pegar no meu pé durante anos antes de confessar seus sentimentos por mim e agora parecer inofensivo, porém provavelmente outra careta foi feita e Thomas sorriu.
— Estou tão feliz que você nem acredita, babe.
— Eu... Também. — consegui falar e vi que escutar minha voz foi como tirar um peso dos ombros de Thomas, porque ele suspirou longamente e depois tentou me abraçar como dava em uma cama de hospital.
— Sério, você nem acredita no medo que senti quando vi você do lado daquele idiota e depois sendo arremessada na rua, Kellen, você não brinca com meu coração, mulher!
Tentei sorrir e passar confiança de que tudo ficaria bem porque já tinha passado, mas meu corpo deu sinal de dor.
— O que foi, Kellen, algo doeu? Você fez uma careta.
— Não, não... Não muito. Dor. O que houve? — eu não conseguia me expressar direito, ainda um pouco atordoada, mas Thomas captou minha mensagem.
— Você se machucou um pouco com o carro. Do imbecil do Hayes foi só um soco, estava bem pior o seu rosto, inchado, me deixava até com medo, mas agora está mais bonita como sempre.
Tive que rir de sua infantilidade junto dele e, apesar das pontadas de dor, eu não queria outro momento a não ser o cuidado com o qual ele me tratava como nunca antes na minha vida.
— Sério, está bem melhor. Quebrou duas costelas e a tíbia, ou seria fíbula? Bem não sei, babe, o médico pode explicar melhor, mas você está viva e inteira e nem acredito nisso porque fiquei achando toda madrugada que se eu dormisse você poderia desaparecer. — sua confissão em tom de brincadeira me tocou e o deixou envergonhado pela facilidade com que saiu, de forma que baixou o olhar que fiz questão de tentar levantar para mim.
— Ei. Olha pra mim. — meu som parecia um fiapo de voz, mas era o que tinha. — Obrigada. Obrigada pelo... Carinho.
— Eu faria tudo de novo. — seus olhos se endureceram e percebi a veracidade neles. O quanto ele tinha feito que eu ainda nem sabia?
— Obrigada.
Thomas deu de ombros e então segurou meu queixo com a mão para depositar um beijo em minha boca.
— Vou esperar o médico te liberar para que me fale o que aconteceu.
— Depois falo. — consegui suspirar e achar uma posição que não me doesse as costas. — Com Scorpius. Aqui. Eu falo aos dois.
— Ceeerto. — Thomas prolongou o som da palavra de forma estranha e o fitei questionadora. — Bom, talvez esse seja o momento em que te digo que eu meio que contei a ele que estamos juntos.
— Estamos juntos? — foi o que consegui captar de seu relato.
— Babe, eu morri por você esses dois, três dias aqui e ainda quer uma prova de amor maior do que essa??! Não vou sair do seu pé, sinto muito.
Continuei com o cenho franzido e Thomas bufou.
— Ok, falamos disso outra hora. Mas ele ficou meio revoltadinho, achei melhor você saber logo porque ele vai vir. Como sempre faz toda seis da noite pra te ver.
— Bom... Vamos lidar com isso. Nós dois.
Tentei ser positiva e Thomas apertou minha mão.
.
.
.
Fale com o autor