Proibida Pra Mim
67 67º Capítulo – “Buraco negro.”
Notas iniciais
O Gustavo sumiu de novo.
Depois de tudo que aconteceu naquela cidadezinha e de ter sofrido tanto nas mãos do Marcel achei que ele aprenderia. Mas ele não aprende, nunca. Quando soube que ele tinha pego uma nova missão para aquele fim de mundo ainda depositei um fio de esperança na sua sanidade, mas mais uma vez ele fez jus a si mesmo.
Consegui informações com um conhecido que trabalha na distribuição das missões e ele me disse que o Gustavo tinha enviado o relatório da missão concluída e que junto a ela um e-mail informando que tiraria uns dias de folga, segundo ele com a permissão do Alex.
Mas isso fez uma pulguinha morder atrás da minha orelha. Por que desde que chegamos aqui, eu e o Gustavo fomos colocados na mesma equipe e ele nunca foi o tipo de cara que gosta de regras. Mas ainda assim, sempre seguiu todas elas à risca, sem titubear. Mas parece que quando se trata daquele fim de mundo e daquela ninfetinha desgraçada, ele perde a cabeça.
Lembro que sempre tive uma curiosidade velada sobre aquela ponta de flecha negra que ele carrega no pescoço, mas nunca disse nada. Um dia, vi aquilo em cima do criado mudo do quarto dele e quando o peguei para olhar mais de perto, ele me disse para nunca mais tocar naquilo.
Pisco meus olhos com força e me concentro na estrada a frente, mas lembrar daquele pingente trás a minha mente a imagem da ninfeta nos braços dele, na cama. Meu sangue ferve quando lembro que ele nunca dormiu ao meu lado, nem mesmo depois das diversas vezes que transamos. Mas ainda assim, com ela ele dormiu. Ainda pior, é lembrar de como ele ficou quando jurou acabar comigo para protege-la.
Me sinto ainda mais idiota. Por que apesar de tudo isso, estou aqui. Dirigindo a horas sem parar, só para chegar nessa maldita nova base da Citros, onde o David está. Por que se tem alguém que sabe sobre o que está acontecendo, é ele.
Paro o carro ao lado do galpão e quando me aproximo mais vejo um painel embutido ao lado da porta. Digito nele meu código e ouço a trava da porta ser liberada. Saco minha arma, respiro fundo e entro. O silêncio aqui dentro é tenso e o escuro diminui consideravelmente o alcance da minha visão. Atravesso o primeiro cômodo e quando estou prestes a passar pela porta sinto o cano da arma encostar na minha nuca.
— Quietinha. __ paro e sinto ele tirar a arma da minha mão. — Quem é você?
— Qual é David. __ sorrio. — Você sabe muito bem quem sou.
— Pilar?
Sorriu ainda mais e me viro, com as mãos espalmadas para cima.
— Quanto tempo, gatinho.
— O que você tá fazendo aqui? __ ele parece nervoso.
Sinto meu sorriso morrer enquanto o observo. Ele está com a barba para fazer, seus ombros estão tentos e sua mão segura a arma como se sua vida dependesse disso.
— David, o que tá acontecendo?
Ele me analisa por um tempo e baixa a arma.
— Vem comigo.
O sigo enquanto ele atravessa alguns cômodos e paramos em uma sala equipada com diversos computadores e telas. Ele coloca nossas armas em cima do balcão e eu observo a sujeira que o lugar está. Tem embalagens de biscoitos e macarrão instantâneo por todos os lados, além das latas de refrigerante. Olho mais uma vez para ele e sua expressão me faz ter certeza de que alguma coisa está errada.
— Pegaram o Gustavo. __ ele diz de imediato.
— O que? __ sinto meu coração saltar dentro do peito.
— Eu vou te contar tudo. __ ele passa as mãos nervosamente pelo cabelo. — Mas a Citros não pode saber de nada ou estamos mortos.
ALICE
Não consigo respirar.
Meu peito queima pela faltar de ar, mas sou incapaz de inspirar. As lágrimas embaçam a imagem do homem a minha frente, mas ainda assim sei exatamente quem ele é.
Uma lufada de ar entrecortada pelos soluços é tragada por mim e sinto o corpo do Gustavo chocar ao meu quando recuo de forma inconsciente. Sem conseguir parar de olhá-lo, o vejo abrir um sorriso e dizer algo que, meus ouvidos são incapazes de escutar. Olho paro o lado e vejo a Paloma olhando para ele da mesma forma que eu, sem reação.
Minhas mãos espalmam no chão quando meu corpo pende para frente e quando baixo minha cabeça vejo as lágrimas pingarem no barro vermelho. Fragmentos de lembranças e pesadelos se misturam ao meu redor e eu me sinto jogada dentro de um buraco negro.
Lembro dos infinitos pesadelos e de como todos eram tão reais e iguais. Nunca consegui entender por que o corpo dele nunca estava lá, nunca. Fragmentos de lembranças perdidas queimam na minha mente e de alguma forma agora tudo parece ser um pouco de sentido.
— Estavam todos lá __ sinto as palavras escaparem de mim. — todos, menos você.
Os soluços se tornam ainda mais fortes e meu peito dói como se meu coração fosse parar a qualquer momento. Ouço tantas vozes ao meu redor, mas é como se fosse eu não fosse capaz de entender o que elas dizem. Minha cabeça lateja junto com os soluços e quando acho que meu coração vai parar sinto duas mãos alcançarem meus braços. Quando olho para cima vejo o Gustavo me olhando, com uma expressão que eu nunca vi em seu rosto. Vejo sua boca abrir e sei que ele está dizendo alguma coisa, mas ainda não consigo ouvir. Minha respiração fica ainda mais difícil e eu observo inerte enquanto ele me abraça forte.
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