Proibida Pra Mim
64 64º Capítulo – “Eles vão nos matar.”
Notas iniciais
— É melhor você sair daí.
Sua voz é grave e eu me encolho ainda mais. Mesmo sabendo que ele está falando comigo, fecho meus olhos forte e rezo em silêncio para que ele simplesmente vá embora. As batidas frenéticas do meu coração ameaçam me deixar surda e nesse momento tenho certeza que ele também pode ouvi-las.
O ouço respirar fundo e abro olhos. Observo ele encostar o cano da arma no chão e um clique familiar invade meus ouvidos quando ele a destrava.
— Não estou aqui para machucar você. __ ele para e respira fundo de novo. — Mas se for preciso, eu vou.
Aperto firme o pingente e me obrigo a ser racional.
Ele com certeza não está junto dos caras que me trouxeram até aqui. E mesmo que eu não queira colaborar, não tenho escolha. Arrasto meu corpo até sair de baixo da cama e me levanto lentamente. Ergo meu rosto e vejo um homem jovem parado no meio do quarto. Ele tem os olhos claros e sorri fraco enquanto me olha firme.
— Vamos. __ ele se vira e eu imagino que espere que o acompanhe.
— Para onde a gente vai? __ não me movo.
Ele para e coloca a arma sobre o ombro.
— Logo você vai saber.
GUSTAVO
Sinto meu corpo chacoalhar e aos poucos ouço algumas vozes distante. Abro os olhos devagar, mas minha visão está totalmente desfocada e não consigo identificar nada. Fecho meus olhos e me mantenho inerte, para não chamar atenção. Os abro lentamente de novo e dessa vez minha visão entra em foco. Vejo o Felipe deitado ao meu lado, com os pés e mãos amarrados, e apagado. Mesmo sem mexer o pescoço, para olhar ao redor, sei que estamos em uma caminhonete. As vozes vêm dos bancos a frente e nós estamos atrás, na carroceria.
Respiro fundo e testo a corda que prende meus pulsos.
Bem apertado.
Arrisco olhar ao redor e vejo que não tem ninguém aqui, com a gente. O carro deixa um rastro de poeira vermelha por onda passa e isso quer dizer que a estrada é de terra batida. Não vejo nenhuma construção por onde passamos e uma inquietação agoniante toma conta de mim quando penso nas meninas.
— Gustavo.
A voz do Felipe chama minha atenção e o olho. Ele abre os olhos devagar e ameaça levar as mãos à cabeça.
— Não. __ digo o mais baixo que consigo. — Se mexa o mínimo possível. Quero que eles achem que ainda estamos apagados.
Ele faz que sim com a cabeça e olha ao redor.
— Onde estamos?
— Eu não sei.
Deixo minha cabeça cair de volta lataria e fecho os olhos com força.
— Eles vão nos matar.
Ele parece sugar meus pensamentos e diz exatamente o que estou imaginando. Respiro fundo enquanto tento pensar em uma saída e quando tento me concentrar, o barulho do motor de outro carro me chama atenção. Forço um pouco mais minha concentração e consigo distinguir o barulho de um terceiro veículo.
Isso não faz sentido.
Deixo minha mente trabalhar em busca de uma possível explicação e lembro do primeiro ataque na casa deles. Lá, eu tive certeza de que o grupo que entrou pela porta da frente era diferente do que invadiu pela varando do quarto da Alice – pelo menos, treinados de formas diferentes. Mas lembro de ter deduzido que eles estavam sim, trabalhando para a mesma pessoa. Mas agora, as peças parecem se encaixar de uma forma diferente.
O tatuado do galpão pareceu bem obstinado a conseguir alguma coisa e seja lá o que for, ele não me pareceu o tipo de cara que desiste fácil do que quer. Além do mais, das vozes que estou ouvindo, nenhuma é a dele. E graças ao sossega leão que ele me aplicou, não tenho nenhuma lembrança que sirva de conexão entre a conversa que tivemos e o agora.
O que me faz pensar que, os caras que invadiram meu sítio não são esses que estão nesse e nos outros carros. E isso quer dizer que....
— Felipe, presta atenção. __ me viro e o vejo me olhando. — Esses caras... eles não são os mesmos que nos pegaram na fazenda.
— Como assim?
— Não tenho certeza, mas acho... acho que tem mais de uma pessoa atrás das meninas.
— Mas o que....
Antes dele terminar a frase, o carro faz uma curva brusca a direita e para logo em seguida. Ele me olha e parece entender o que quero dizer. Fecho os olhos e algum tempo depois ouço a porta do bagageiro ser aberta. A carroceria sede quando alguém sobe sobre ela e vem em nossa direção. Sou arrastado pelos pés e largado no chão sem cerimônias. A queda faz meu ombro doer eu me esforço para não modificar minha expressão. Em seguida, algo pesado é jogado ao meu lado e eu imagino que seja o Felipe. Alguém volta a me arrastar por um percurso mais longo e sou deixado em um lugar úmido.
Não demora quase nada e o Felipe é largado ao meu lado. Me mantenho inerte e atento para tentar ouvir qualquer coisa que me dê alguma pista.
Nada.
Espero mais algum tempo e quando tenho quase certeza de que estamos sozinhos abro meus olhos e fito as telhas mal colocadas. Num impulso ergo o tronco até estar sentado e um leve dor se espalha pelo meu ombro, o mesmo que levei o tiro. Olho ao redor e tudo que vejo é um galpão de terra batida. Vazio. Alguns caixotes se amontoam no canto a minha frente e quando giro meu tronco vejo duas portas de madeira fechadas.
O Felipe senta também e antes que possamos voltar a fingir a porta se abre. Dois caras entram e nos olham firme.
— O chefe quer ver vocês.
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