Proibida Pra Mim

57 57º Capítulo – “Precisamos falar sobre seu pai, Alice.”


— Você só pode tá de brincadeira.

Embora tudo agora faça um certo sentido, não sei se isso piora ou melhora nossa situação. Por que mesmo que ele já esteja morto, provavelmente deixou um legado que as meninas não fazem ideia. O Barão foi, e ainda é, o maior nome que o narcotráfico mundial já teve. Ele chefiou os maiores carteis que já existiram no mundo e praticamente inseriu o Brasil como um dos líderes em esfera global.

— Não estou. __ ele parece nervoso. — Consegui o processo com um amigo da federal e ele disse que depois da morte do Barão os documentos e provas do processo sumiram.

Estou voltando para a casa e mente não para. Preciso encaixar as peças desse quebra-cabeça para conseguir entender onde as meninas entram nisso tudo e saber, principalmente, se elas sabem disso tudo.

— David __ subo as escadas e paro em frente a porta. — Vou ver o que consigo descobrir com elas. Vasculha o passado desse cara e descobre tudo que puder.

— Vou fazer isso. __ ouço o barulho das teclas do computador. — Outra coisa.

— Fala.

— Eles, seja lá quem eles forem, estão tentando te rastrear.

— O que? Mas como eles...

— Eles invadiram o sistema da Citros. __ ele responde antes que eu pergunte. — Sabem exatamente quem você é.

— Mas que merda. __ passo a mão pelo cabelo e respiro fundo.

— Estou atrasando eles. Mas não vai demorar para que eles te liguem a fazenda, Gustavo.

— Certo. __ atravesso a porta e entro na sala. — Vou ver o que consigo aqui.

— Vou esperar.

Dito isso ele desliga. Ando de um lado a outro e me sento na poltrona. Boto minha mente para trabalhar e consigo ligar uns pontos que pouco antes não faziam o mínimo sentido para mim. Ai vai alguns deles:

O primeiro acontecimento foi no supermercado e me lembro claramente de não conseguir entender como eles chegaram até mim, mesmo eu tendo tomado todo o cuidado antes e depois da missão. Depois disso, lembro de não entender o porquê de um deles ter ido embora sem tentar me matar, já que supostamente eu era o alvo e um assassino nunca desiste. Então vi as imagens da câmera, dele saindo com a Alice nos braços e mesmo tendo toda a oportunidade de matá-la, não o fez. De novo, quando a encontrei na usina, outro cara teve a oportunidade de enfiar uma bala na minha cabeça, mas só estava interessado em encontrá-la e levá-la de volta. Depois disso vieram as fotos que o David encontrou naquele celular e ai, por fim, a invasão na casa delas.

Mesmo tendo muitos fios soltos, agora consigo finalmente entender o princípio básico de tudo isso. Por que sempre que monto uma missão preciso entender meu alvo. Entender como pensa e como vive. E é desse princípio que estou partindo agora. Por que, se tudo isso tem a ver com o Barão, vamos ter um grande problema.

—Você descobriu alguma coisa, não foi?

Quando levanto meu rosto vejo o Felipe do outro lado da sala.

— Onde elas estão?

— A Paloma tá dormindo. __ ele parece aliviado com isso — Acho que a Alice tá tomando banho.

— Acorda a Pirralha e trás as duas aqui. __ sinto uma dor forte explodir em cima do meu olho direito.

—Isso não pode esperar? Ela tá exausta.

— Tem a ver com a morte da família delas, Felipe. __ ele arregala os olhos. — A merda toda é maior do que imaginei.

Ele parece entender e desaparece pelo corredor. Enquanto espero sinto o cansaço das últimas horas se apossarem de cada músculo do meu corpo e sei que se não descansar, não vou conseguir dar conta de tudo que está por vir.

ALICE

Não consigo entender. Tem muita coisas que não se encaixa e eu não sei nem por onde começar a pensar. Resolvo tomar um banho e assim que entro embaixo do chuveiro o Felipe bate na porta. Pede para que eu saia, me vista e vá até a sala.

Enquanto me troco para fazer o que ele pediu, não consigo evitar pensar na minha última discussão com o Gustavo. Odeio tudo isso e odeio mais ainda sentir o que estou sentindo. Por que é demais para mim pensar que ele seja o culpado por tudo isso estar acontecendo. Pior ainda, é sentir que ele é um estranho. Um estranho perigoso e que não pensa duas vezes antes matar alguém. E apesar de estar lutando contra essa comparação, é quase impossível não enxergar nele os homens que mataram minha família.

Passo a escova pelo cabelo e quando encontro meus olhos no espelho lembro dos dele. Negros e frios enquanto atirava aquele homem. Sinto meus olhos arderem e as lágrimas acumularem.

Saio do banheiro antes de cair uma única lágrima e encontro todos na sala, me esperando. Tento a todo custo não olhar para ele mas é impossível. Ele está sentado na poltrona onde eu estava mais cedo, de cabeça baixa.

— Estamos aqui, Gustavo. __ ouço o Felipe dizer.

Ele levanta o rosto e vejo o quanto parece cansado. Lembro que ele sequer dormiu nos últimos dois dias e tenho vontade de abraçá-lo. De levar ele para um dos quartos e fazer com que durma um pouco.

— Precisamos falar sobre seu pai, Alice.