Progenitor

2 Capítulo I - Horizonte Distante


Notas iniciais
Opa, alguém acompanhando? Se sim, aqui está mais um capítulo para vocês! Demorou um pouco, mas tinha que revisar algumas coisas dessa parte. Com esse capítulo, eu abro o segundo ponto de vista da história - que possui dois protagonistas - para partir rumo ao início real do enredo. Música que me inspirou: youtu.be/N1rnWHh2BY0

Não foi com um suspiro que o mundo que eu conhecia desabou.

Nem com uma explosão.

Foi com um simples roçar de peles.

Um sistema nervoso implodindo.

Um leve e triste beijo.

***

15h13min, ilha de Hiva Oa, Polinésia Francesa.

Não seria estranho alguém se surpreender com a solitária figura de cabelos curtos e negros, meio escondidos por um chapéu, caminhando placidamente pela orla.

Com as sandálias entre os dedos e o enorme chapéu praiano sobre a cabeça, vestindo uma longa e transparente pantalona branca, adornada de flores, que continuamente se prendia entre seus pés, ela se movia tranquilamente, descalça, naquelas areias escuras da ilha, em direção a cadeira mais próxima dali.

Seus olhos, longos e estreitos, se incomodavam vagamente com o sol forte que vinha em sua direção.

Retirando o chapéu e a longa vestimenta floral, ela se deitou na cadeira de madeira, pintada de branco, retirou um livro da bolsa que trazia pendurada no antebraço, além de uma garrafa úmida de água de côco, e se pôs a apreciar o vento forte e refrescante da praia, que agitava o mar escuro e remexia seus cabelos sem leveza.

O dia estava tão quente...

Tudo que ela queria era que o sol da Polinésia Francesa derretesse seu cérebro, para que por um momento ela parasse de pensar.

Mas depois ela inspirou levemente, sussurrando mentalmente para, por um momento, parar de ser rabugenta e aproveitar, da melhor maneira que podia, suas férias, tão duramente conquistadas.

Depois de meses e meses e meses de trabalho contínuo e excruciante, tinha um momento em que ela precisava parar.

Aquele era um de seus refúgios.

E, indefinidamente, um de seus favoritos.

Ela tinha que admitir, ter uma praia particular parecia exagero na época, mas se mostrou um dos melhores investimentos que ela já havia feito.

Nada para se aborrecer, ou para se preocupar ou assustar, sendo ela a única viva alma em toda a extensão de seu território e, o melhor de tudo, um lugar com um péssimo sinal de celular e internet pior ainda.

Nem que a porra do mundo estivesse acabando ela sairia dali.

Ah, a maravilha do isolamento.

Ela bebeu um gole do líquido gelado que trouxe, enquanto observava as águas escuras se agitarem e se quebrarem em ondas delicadas.

Tudo era tão lindo... Naquela ilha de cores quentes e atrativos tranquilos, ela se encontrava.

O sol naquele horário ainda estava de matar, mas percebendo que o céu estava escurecendo e que não iria demorar muito para chover, ela saiu da casa. Já que havia passado o dia inteiro trancada naquele gigantesco quarto, dormindo até parecer ter se fundido à cama, ela decidiu aproveitar um pouco da luz antes que tudo virasse um circo de relâmpagos e chuva.

Ela nunca se sentiu tão disposta a não fazer nada na vida.

Tudo estava tão pacífico...

Há quanto tempo, ela pensava, que não se sentia tão bem assim? Como... Como... Se tivesse uma vida ordinária e normal?

Seus ombros estavam leves, nada de dores ou tensão, nada de mentiras ou verdades, apenas... Nada para ninguém. Apenas para si mesma.

Egoísmo, individualismo? Talvez. Ela não se importava nem um pouquinho com isso.

Não que ela odiasse o que fazia. Não, até gostava. A adrenalina e emoção que seu trabalho lhe proporcionava eram viciantes. No entanto, era um entorpecente que ela precisava evitar de vez em quando. Por muito tempo, seu trabalho definiu o que ela era, mas de uns anos para cá ela procurou se desvencilhar disso, e seguir suas próprias vontades.

Ah, mas não pense que algum desses pensamentos é uma lamentação. Não, ela odiava se lamentar, pois tudo o que fazia eram frutos de suas próprias escolhas. Ainda que desgostosa com algumas de suas ações, ela nunca foi realmente obrigada a fazer o que não queria. Ela tinha certa habilidade em distorcer o que deveria fazer, era uma boba, mas sempre seguia suas vontades. Ela decidia o que era melhor para o momento, ainda que não fosse o melhor para ela, ou melhor, ainda que não fosse o que queria.

Era uma mulher independente. Ainda que se arrependesse, ela era a única responsável. Ela gostava de sentir essa autonomia em suas ações.

Ela se levantou, sentando sobre as pernas, olhando para o horizonte.

Ah... Por um momento, ela queria parar de pensar besteiras. Tudo o que ela queria é nenhuma voz em sua cabeça. Mas claro, esse era um brinde da solidão, ficar a sós consigo mesmo. No entanto, ela simplesmente odiava a existência de coisas como... Monólogos existenciais, ou.. Consciência, ou... Algo assim.

Ela inspirou lentamente.

Não, isso era mentira. Ela não odiava isso. Pelo menos não totalmente.

Seu crânio latejou.

"Eu realmente preciso arrancar minha cabeça" Ela pensou, enquanto abria o livro.

De dentro, um cartão caiu em seu colo. Era uma mensagem da caseira – uma mulher cuidadosa, porém um pouco incômoda, na opinião dela.

Na frente, em uma letra apertada e cheia de arabescos, um desejo de boas férias e que ela realmente apreciasse o cuidado que teve com a casa.

Mas foi o verso da folha que a fez voar um pouco, para outra dimensão, que ela bem conhecia.

"Para a senhorita Ada Wong"

Ada Wong.

Era um nome que a trazia tantas, tantas lembranças. Na época que comprou a casa e a praia, ainda era Ada.

Na verdade, naquele momento era Ada.

E ela não lembrava de um dia desde 1998 em que não tivesse sido Ada, não importa quantos nomes usasse, ou quantas facetas encarnasse, não importava o quanto quisesse esquecer aquela mentira que virou sua verdade, nenhum esforço fazia sentido, tudo parecia ser em vão.

Ela não nasceu com aquele nome. Mas se tornou Ada, mesmo que de uma forma extremamente desconfortável.

Ela não gostava de pensar nisso.

Mas, ela nem percebeu quando, de pouco em pouco, começou a usar Ada para tudo.

Até que a bela chinesa americana de olhos claros finalmente percebeu aquilo não era um papel. Ela sabia o momento em que tudo deixou de ser. E depois de muita luta, ela aceitou aquele nome, como se ele fosse seu coração e pulmões e o oxigênio que alimentava seu corpo.

Ada suspirou, olhando para o livro em suas mãos, e depois para o mar azul escuro, agitado pelo vento.

Definitivamente, aquele não era um bom dia para ler.

Mas ela até poderia escrever um livro, de tantas loucuras que não paravam de sondar sua cabeça. Um caso a se pensar – Se ela não tivesse plena certeza de que estaria morta antes da primeira palavra tomar forma.

Ela observou as nuvens negras começarem a se aproximar, e apesar da agitação do mar e de todos definitivamente afirmarem que aquele não era um lugar propício para o mergulho, ela apenas se levantou da cadeira, alongou-se, e com uma rapidez desmedida, se jogou naquelas águas gélidas e profundas.

Ela sentiu o corpo magro ser tomado pela água gelada e extremamente azul, sendo engolfada por ondas e mais ondas e mais ondas.

Ela se sentiu parte daquilo, como se sua vida tivesse começado ali.

E ela nadou e nadou e nadou o máximo que podia. Para longe, para perto, longe novamente. Ela queria sentir seus pulmões ardendo, seus músculos ao máximo, o barulho da água em seus ouvidos e o ardor do sal incomodando sua vista.

Ada queria sentir tudo.

Recentemente, ela havia percebido que esteve tão preocupada em não sentir, para não se machucar, que havia esquecido do quão prazeroso era a sensação de se sentir humana.

Um prazer extremamente masoquista.

E ela nadava e nadava e nadava, até sentir todo o seu corpo queimar. Então, longe da orla, ela parou. Com o oxigênio atravessando sua bela boca coral, ela se deixou boiar, fitando o céu, que estava metade azul acima dela, metade cinza nos cantos, a água repleta de faíscas brancas, reflexões momentâneas dos raios solares daquela tarde.

Ficando naquele estado de dormência, seu corpo acompanhando o vai-e-vem da maresia, ela quase não percebeu um estranho objeto rasgar o ar, indo em direção à sua casa.

Ela estreitou os olhos, e depois os fechou, aproveitando a sensação do mar e do sol quente em seu rosto mais um pouco.

E pensou, com pesar, se suas férias acabariam tão rápido quanto haviam começado. Ela deixou o corpo afundar, permanecendo apenas com a cabeça para fora da água.

E então voltou a nadar, os bíceps torneados brilhando a cada contração sob o sol. Ela fazia um esforço contínuo, em direção a sua bolsa, onde uma 9mm a esperava.

***

Com apenas a pantalona lhe cobrindo as pernas, ela subiu silenciosamente os degraus de madeira, o cabelo úmido e salgado atrás da orelha, enquanto as mãos apertavam com firmeza e segurança o pequeno revólver negro.

Até chegar à casa demorou uns quinze minutos, tempo suficiente para que o céu escurecesse completamente, para que o vento ficasse mais violento, e para o que quer que tenha sido aquilo tenha se escondido, ou ido embora.

Sempre atenta, ela deixou o ambiente tomar conta de seu corpo, concentrando-se na enorme casa de veraneio, com as cortinas brancas voando para a fora das janelas abertas, que exibiam somente silêncio e escuridão.

Ela aguçou a audição, para qualquer coisa anormal que estivesse lá. Já na porta de madeira e vidro, ela a abriu vagarosamente, com um ranger suave e abafado anunciando sua entrada. Os pés nus e polvilhados de areia se arrastaram pelo chão de carvalho polido e lustrado, e aqueles olhos claros e afiados varreram o ambiente meticulosamente, nenhum detalhe lhe escapando.

Pelo menos naquela sala, nada fora do normal.

Ela vasculhou toda a casa, mas não havia nada. Seja lá o que tenha sido aquilo, definitivamente não invadiu nenhum lugar.

Ela ainda estava sozinha, naquele lugar agora sombrio e de silêncio ensurdecedor.

Quando já estava baixando a guarda, no entanto, ela ouviu um bip suave, que vinha da área de serviço. Um bip bip contínuo, que não havia notado quando chegou, talvez porque estivesse muito longe da origem do som.

Com calma, ela se dirigiu para a porta de trás, que conectava a cozinha com a área de serviço. Olhando pela janela de vidro, ela observou todos os lençóis brancos que haviam sido lavados no início do dia ondulando freneticamente sob o poder daquele vento forte.

Um relâmpago brilhou pela janela, enquanto ela se afastava calmamente.

O cheiro forte de amaciante tomou conta de suas narinas, quando ela decidiu abrir a porta e ver o que exista ali.

Outro ranger anunciou sua entrada. No entanto, ela era um fantasma, seus passos não eram ouvidos. Passeando sorrateiramente por entre os lençóis, os braços de músculos definidos acariciando os tecidos que se remexiam, Ada procurava se manter atenta, passando inúmeras formas de fuga em sua cabeça para caso aquele barulho fosse um projétil explosivo, ou algo pior.

Ela já estava se estressando com aquele labirinto de lençóis – Para que tantos lençóis, droga? – Quando parou abruptamente.

Um relâmpago brilhou sobre sua cabeça quando ela finalmente achou o que procurava.

Ela analisou de longe o objeto, enquanto, meio interrogativa, se abaixava para pega-lo. Era um celular. Um conhecido celular que se assemelhava muito àquelas bombas enormes do início dos anos 90. Era bem pesado. Ela o retirou do pequeno paraquedas a que estava preso, observando que o bip agora nada suave provinha de uma piscante luz vermelha, anunciando uma mensagem para se verificar. Com uma antena enorme e da grossura de seu dedo, Ada suspirou, sabendo o que significava.

“Adeus praia, adeus paraíso, tchau péssimo sinal de celular.”

Com aquele tijolo, ainda que ela estivesse com o rabo no inferno poderiam falar com ela.

A porcaria da tecnologia.

Observando a ordem de botões da parte superior do celular, ela apertou o da esquerda com o polegar, aproximando o aparelho da orelha enquanto puxava os lençóis com um braço, estressada, caminhando de volta para a casa, sentindo as primeiras gotas da chuva tocarem seu corpo.

“Ada Wong, ligue para o número...” Ela ouviu atentamente a mensagem de voz, enquanto jogava os lençóis totalmente embolados em um canto qualquer da cozinha, pensando que a secretária – que vinha apenas pela manhã, enquanto Ada estava totalmente adormecida – mais tarde os dobraria.

Ela afastou o aparelho do rosto, interrogativa novamente, enquanto discava os números que lhe fora indicado, abandonando a arma em cima de uma pequena mesa de vidro. Ela foi ligando as luzes de toda a casa e fechando as janelas abertas, devido à chuva que caia forte contra os vidros dos cômodos, e às nuvens que escureceram toda aquela tarde antes ensolarada da ilha.

Ela voltou à sala, se sentando no sofá branco de couro, ignorando que estava suja de areia e sal, cruzando as duas pernas em posição de índio.

O número chamou umas duas vezes, antes de atenderem.

Ela esperou começarem.

“Ada.” Uma voz feminina e grave a chamou. Ela imediatamente reconheceu. Sentiu a barriga dar uma cambalhota durante meio segundo.

“Irina.” Ela falou, também firme.

“Finalmente. Faz dias que tento falar com você. Custa levar um celular? Você tem ideia do quanto foi trabalhoso mandar te achar e conseguir falar contigo? Puta que pariu.”

Ada sorriu.

“O problema é seu, amor. Estou de férias. E você está atrapalhando elas, só para constar. Ficou com saudades? Pois, afinal, o que é tão importante que você não pôde esperar alguns dias para me falar?”

“Você que me diga se não é importante. Afinal, não foi o que você tão encarecidamente me pediu, para te manter atualizada sobre Leon Scott Kennedy?”

Ada procurou não esboçar nenhuma reação, mas sentiu seu pulso acelerar. Irina era um incômodo lembrete do quão falha ela era de se manter longe do que deveria. Mas o momento de negação já havia passado. Era aquela notícia que parecia ruim.

Irina só ligava quando algo grave acontecia.

“O que houve?” Ela foi direta.

Ela podia sentir um sorriso presunçoso ir se formando no rosto de Irina.

“Ele sumiu. Desapareceu, como vapor, há três dias.”

Ada piscou, lentamente.

Ela sentiu o músculo da mandíbula tremer um pouco. Em circunstâncias normais, três dias não eram muito tempo, nada para se preocupar. No entanto, na situação de Leon, três dias eram cruciais.

Isso não estava acontecendo.

“Quais... Como isso aconteceu?” Ela mordeu a bochecha.

“Ele descobriu a existência de uma cura, e foi atrás dela.”

A cabeça de Ada começou a trabalhar.

“O que? Isso é verdade?”

“Ao que parece, sim. Eu não sei onde ele conseguiu essa informação, mas pesquisando sobre os arquivos do laboratório onde essa suposta cura se encontra, parece que ela não é apenas o sonho de um homem louco.”

“Por que você nunca me falou sobre isso?”

“Ah, queridinha, não era um segredo. Foi apenas com a fuga do seu namoradinho que descobri isso, juro. Parece que ela fica em um laboratório austríaco, e eu realmente não sabia da existência de tal coisa nessa filial. Ou melhor, não posso nem chamar de filial. Está mais para o lugar onde o Conde Drácula se sentiria em casa. Essa porra louca fica em um castelo.”

Ada ficou pensativa

“O vírus de Leon tem uma capacidade mutagênica impressionante, e se modificou desde que ele foi infectado. É por isso que o medicamento que ele toma não está mais surtindo efeito.” Ada mirou as paredes. “A probabilidade dessa cura ser efetiva é muita baixa.”

“Você até estaria certa, se essa droga não passasse por cima dessas limitações. Pelo que andei pesquisando, ela não ataca um tipo especial de vírus, mas sim as células que foram infectadas, deixando as saudáveis intactas. Isso é totalmente incrível. Porém, Leon já está com esse parasita há muito tempo no corpo. Não sei quais seriam os efeitos dessa droga nele. Mas parece que ele tem ciência dos riscos, e decidiu investir. O problema, é que acho que ele não conseguiu. Sinto muito, lindinha.”

Ada teve vontade de desligar o telefone. Mas não conseguiu, ficando muda por um tempo. Irina respeitou seu silêncio, enquanto a chinesa processava as informações.

Não, não podia ser verdade.

Ela procurou controlar a respiração, enquanto seus os olhos ficaram desfocados. Ela sentiu uma coisa se agitar, tensa, em seu peito. Estúpida. Era ainda estranho se sentir assim.

Ada odiava seu coração. Odiava tudo que queria se ligar a Leon Scott Kennedy. E ainda era apaixonada por ele, como a tola que não deveria se dar ao luxo de ser, como a mulher que não deveria existir dentro dela.

Ela se sentia mal. Muito mal. Se tivesse juízo, se tivesse tentado com mais afinco, talvez pudesse ter esquecido Leon. E provavelmente não se sentiria tão ruim quanto agora.

Quando se separaram em Raccoon, Ada fez o melhor que pôde para seguir em frente, tentando deixar o que sentia para trás. Era apenas um homem, foi somente um dia. Não era tão difícil assim, ela pensava.

No entanto, ela não conseguiu mais seguir com isso ao saber em primeira mão do desastroso episódio no cruzeiro Starlight. Ela desistiu de ser racional, naquele momento, seguindo uma espécie de instinto singular de cuidado e proteção para com ele. Ela havia desenvolvido esses sentimentos em relação àquele homem obstinado e teimoso e altruísta, e nem havia percebido direito como isso havia acontecido. Ela só sabe que, desde então, passou a ajuda-lo secretamente, fazendo de tudo para mantê-lo vivo e não ser descoberta.

Foram apenas algumas horas após o incidente que Ada soube de tudo que ocorreu. As coisas aconteceram muito rápido. Um agente qualquer foi enviado para tomar posse de uma amostra do parasita que estava sendo transportado na embarcação, mas acabou morrendo durante o percurso, devido ao fato da Umbrella ter tido a mesma ideia. Ada foi enviada para recuperar o relatório que ele havia feito, em tempo real, sobre os eventos que antecederam seu óbito. Foi assim que ela descobriu que Leon estava no navio.

E principalmente, foi então que ela soube da existência de uma segunda arma viral na embarcação. Era um retrovírus, que estava sendo transportado no corpo de uma criança*. Aparentemente, Leon tentou ajuda-la, mas ela morreu, e ele acabou contaminado pelo que ela carregava.

Ada costumava sentir um gelo estranho atravessar sua espinha quando pensava que, se não tivesse agido em tempo, ele poderia ser comida de peixe agora.

Ela aguardou confirmarem se ele estava vivo e, em posse de vários arquivos e contatos da Umbrella, ela conseguiu contatar Laure, uma ex-cientista da empresa, a mandando para auxiliar Leon.

Foi desse modo também que chegou em Irina De Lafontaine. A não mais executiva de uma filial francesa do guarda-chuva era uma antiga cliente, que acabou se tornando sua melhor informante sobre o vírus que tinha contaminado Leon, além de possuir olhos e ouvidos em todo o lugar.

Eram poucas as coisas que Ada sabia sobre aquele organismo, apenas que ele era uma das inúmeras variações do Progenitor, e que ele era violento demais e brutal demais na hora em que acordava em um corpo.

Leon tinha pouco tempo.

E Ada sempre fez o melhor que pôde para ajudá-lo.

Sozinha naquela casa imensa e asséptica, ela sentiu os olhos arderem de desgosto, sentindo o globo ocular queimar com as lágrimas que ela se recusava a deixar cair. Nenhuma gota sequer mancharia seu rosto, ela pensava, enquanto os dedos se enrolavam fortemente naquele celular feio e grosseiro.

Mas então, ela se recompôs, voltando o contato com Irina.

“Qual foi a última vez em que ele foi visto?”

Ela sentiu a mulher pensar um pouco antes de responder.

“Se não me engano, o último lugar em que ele apareceu foi no Canadá. Provavelmente ele estava indo falar com Barry Burton sobre sua ideia de invadir esse laboratório. Não seria surpresa se ele estivesse indo pedir ajuda.”

“É, faz sentido.”

“E então, o que você vai fazer agora, querida?”

Ada olhou para a chuva intensa que caia lá fora “Eu não sei. Vou desligar agora, preciso pensar. Mas mantenha o celular ao seu lado, não quero ter que ficar esperando você atender quando eu ligar.”

“Você é quem manda.” E encerrou a chamada.

Ada suspirou, e se jogou no sofá, apertando uma almofada bem grande contra o peito. Sua cabeça começou a latejar.

Ela queria tanto, tanto evitar uma ação imprudente.

Mas ela estava preocupada. E odiava admitir, mesmo, que estava... Estava assustada. Ela tinha plena certeza de que Leon era capaz de se virar sozinho, mas... Ela não conseguia não se preocupar. Talvez se estivesse em alguma missão, com a mente ocupada, não estaria se martirizando com pensamentos inconsequentes tanto quanto agora.

Mas, deitada naquele sofá e ouvindo o barulho da chuva pesada caindo lá fora, com o corpo suando em função do ambiente abafado da casa, ela percebeu que talvez essa fosse a sua chance de esclarecer tudo para si mesma.

Ela já estava atormentada há muito tempo pelo que sentia, e percebeu que se não se apressasse em deixar tudo claro para si, eventualmente seus sentimentos realmente virariam um empecilho em sua vida.

E ela torcia para que Leon estivesse vivo. Para que ele, em qualquer lugar que se encontrasse, que estivesse bem. Talvez, com ela o ajudando a sair definitivamente daquele pesadelo, seu coração ficasse em paz. E perceberia que, na verdade, tudo aquilo que sentia era apenas uma culpa remanescente das coisas que havia feito, e não algo a mais, como concluíra.

E ela abafou a vozinha incômoda dentro de seu peito, que gritava que ela realmente só não queria que ele morresse, que ela queria rever o rosto dele e arrastar seus dedos por sua pele de novo, que tinha medo de já ter esquecido a sensação de seu calor, em um momento tão curto, mas tão apreciado.

Ela abafou, sufocou, todos esses incômodos. Ela não soube dizer por quanto tempo ficou naquele estado letárgico, até que alcançou o celular e discou o número de Irina.

Dessa vez não teve nem meia chamada de espera.

“E então, docinho, qual vai ser?”

“Você vai me enviar tudo o que sabe sobre esse lugar, e todas as informações sobre essa droga. Eu quero ter acesso às plantas do lugar, ao nome dos principais envolvidos, qualquer coisa que for relevante, o mais rápido possível.”

“Então vai ser isso? Você vai dar uma de príncipe encantado e resgatar sua donzela do perigo?”

Ada sorriu.

“Algo assim.”

“Tudo bem.” Irina ficou calada por um instante. Ela parecia estar concentrada em algo, decidindo algo. Até que voltou a se comunicar. “Docinho, preciso confessar, eu já esperava que você fosse atrás do garoto. Eu quero propor uma troca à você.”

“O que você quer dizer?”

“Existe algo nesse castelo que eu quero. Eu dou a informação que você precisa e, como peso justo, você me traz o que desejo.”

Ada sentiu um relâmpago brilhar através das janelas.

“Esse é o pagamento que você citou no nosso primeiro encontro, em troca de todas as informações que você me dava?”

“Exatamente.”

A mulher estreitou os olhos, tentando enxergar algum sentido naquela história.

“Você não estava falando a verdade quando disse que não sabia da cura nesse laboratório austríaco, não é? Por que escondeu isso? O que está tramando, Irina?”

“Nada demais. Você não vai se prejudicar se fizer tudo direitinho.” Ada podia imaginá-la admirando as próprias unhas. “E então, temos um negócio?”

Ela não queria ter que pensar muito naquele momento.

“Fechado.”

*

Ada desligou o celular assim que Irina pronunciou sua última palavra.

Ela se levantou do sofá e retirou um prato do lava-louças, colocando uma grande fatia de bolo sobre ele e se encostando em um balcão próximo. Ela então mexeu um pouco naquilo com um garfo, até deixar as mãos caírem para o lado, enquanto suspirava pesadamente, a cabeça pendendo molemente para trás. Ela então fitou a luz branca e forte no cômodo alvo, deixando-se levar por aquela claridade estranha, enquanto um trovão quebrava o silêncio daquela casa.

Ela sentia o peito subir e descer vagarosamente, expirando o ar pela boca, o nó do biquíni vermelho incomodando suas costas. Foi quando se lembrou, com tristeza, que havia esquecido sua bolsa e seu livro na praia.

Que ótimo.

Tudo deveria estar um mingau agora. Ah, para o inferno com aquilo.

Ela abandonou o bolo na geladeira, e esticou os braços, sabendo do que precisava. Uma boa e longa ducha, o melhor remédio para suas preocupações.

***

Ada se secou com uma pequena e felpuda toalha azul, se cobrindo logo após com um longo roupão branco, amarrando frouxamente uma faixa na cintura.

Secando o cabelo com a curta toalha, ela se dirigiu até a sacada do quarto, encarando aquela tarde pós chuva. Ouvindo o relógio dar um leve alarme de que já eram seis horas da tarde, ela observou o cenário, como se estivesse observando uma pintura única, que brevemente nunca mais poderia ser admirada.

Ela viu as nuvens brancas e brilhantes surgirem timidamente por detrás das outras escuras, o céu azul voltando. Era uma visão quase que onírica, aquele céu confuso e o mar escuro e as gotas de água pingando de toda parte, do céu, do telhado, de seus cabelos...

Ada leu, em algum lugar que não se lembrava, que o momento do despertar era a parte mais perigosa do dia. Ela se perguntou o porquê de ter demorado tanto para perceber que estava acordada.

E sentindo o vento frio começar a lhe amolecer, ela voltou para o quarto, sentou na cama e ligou seu notebook, esperando que a qualquer momento Irina lhe aparecesse com o que queria.

Notas finais
✖ Em RE Gaiden, o principal inimigo do jogo era uma B.O.W. parasita que tinha a capacidade de se metamorfosear, adquirindo a aparência de quem quisesse. ✖ Ainda em REG, Lucia possuía esse parasita em seu corpo desde que era uma criança pequena, e que foi retirado, sob a ordem de Barry, por um cirurgião de um submarino da Umbrella, que havia transportado outra arma biológica para recuperar a amostra. E é isso galera! Espero que tenham apreciado a leitura por hoje. Esse capítulo foi bem complicado de fazer, eu escrevi muito mais do que gostaria, e mesmo cortando e refazendo várias coisas, ainda sinto que é como se ele tivesse ficado "inchado", mas não conseguia tirar algumas partes que considerava importantes para compreender como está a mente de Ada nesse momento. Não sei como ficou a opinião de vocês sobre isso. De qualquer modo, tentarei não me demorar tanto nesse aspecto nos próximos capítulos. Só que adoro fazer isso, não sei como vou me arrumar XD Qualquer erro no texto, me avisem que corrijo. Talvez eu poste o próximo capítulo na semana que vem. Até a próxima, amores!