...E lá estava eu marchando junto com os outros, dentro dos padrões do clã. Todos nós tínhamos a marca da flecha e estávamos nos aproximando de nosso mestre. Nós éramos o clã dos babas, ó sim, dos babas. A flecha era nossa marca. Paramos bem em frente ao nosso mestre, estávamos pronto para sacrificar uma fenai, da tribo das fenais. Ela se agonizava, enquanto estava amordaçada. Dois homens do nosso clã a trouxe presa numa chapa de madeira e ali a colocamos na frente de nosso mestre. Ao sinal do mestre, um dos nossos se aproximou da fenai com tinta preta nos dedos e ao vê-lo se aproximar, aquela pobre e jovem fenai voltou a se agonizar em desespero. Logo, aquele baba pintou uma flecha preta cobrindo o símbolo das fenais: um x vermelho que se localizava no braço direito da fenai. Ela se agonizou por muito tempo e nós começamos a cantar nosso rito, enquanto batiamos nossos cetros no chão. Quando ela parou e fechou os olhos, paramos de cantar e depois de alguns segundos a vimos acordar e se juntar a nós. Ela agora era um de nós e se juntou ao clã. Sua forma feminina foi perdida e se tornou agora, uma forma masculina. Eu, assustado, saí de perto dos meus e fui para o meio do picadeiro em frente ao mestre. Questionei-o. Sempre me senti diferente dos outros, não concordava com aquilo, eu queria me juntar às fenais. O mestre me fitou por muito tempo e levantou seu braço esquerdo segurando uma bolinha de papel. Os outros do clã, fizeram o mesmo e quando o mestre tacou a bolinha em mim, todos os outros fizeram o mesmo. Naquele momento, tentei me proteger cobrindo minha cabeça com as mãos e enquanto eu sentia a chuva de bolinhas de papel sendo jogadas na minha cabeça, fui correndo em direção à saída do circo.
Ao sair, continuei a correr naquele campo gramado enorme, cheio de árvores ao redor. A tribo das fenais ficava depois da floresta. Continuei a correr até depois da floresta e cheguei do outro lado e avistei uma pequena tenda de circo listrada. Decidi adentrar o local onde estava tudo escuro. De repente, um canhão se acende revelando uma fenai em cima do palco. Ela tinha cabelos ruivos como o fogo ardente e usava uma coroa de flores na cabeça. Seu rosto era pintado com urucum e suas sardas era como canela no leite branco. Levantei minha mão direita e ela fez o mesmo. Virei o rosto para a esquerda e ela fez o mesmo. Virei o rosto para a direita e ela fez o mesmo. Comecei a sapatear e ela fez o mesmo. E ao perceber que tinhamos coisas em comum, fui me aproximando devagar e ela fez o mesmo, até que nos encontramos no meio do picadeiro e começamos a dançar. Eu estava feliz, pois eu havia encontrado alguém que dançava com a mesma fluidez que eu. Eu nunca tive tanto prazer numa dança como tive com aquela fenai naquela noite! Nós dois sorriamos e dançavamos felizes. Era uma dança que só nós dois entendiamos, havia reciprocidade e quem visse de fora, iria nos achar loucos! Loucos! Felizes e loucos a dançar! Era isso que nós éramos. Ninguém ia entender nada. Apenas nós e somente nós, entendiamos. Nos entendiamos! Era o ying e yang atuando em nossos corações. Quando paramos de dançar, ela me convidou para dormir naquele circo e aceitei. Fomos dormir.
No dia seguinte, de manhã, a vi abraçada numa árvore com um enorme tronco. Me aproximei e ela estava respirando profundamente de olhos fechados, como se estivesse sentindo o poder que emana da mãe natureza. Essa imagem ficou gravada na minha mente por anos, pois era bonito ver a maneira como aquela jovem fenai e a árvore, de repente se tornaram uma só. Agora uma fazia parte da outra e a fenai era árvore e a árvore era a fenai. As duas agora, eram uma só, nem fenai e nem árvore, apenas uma só, uma sentindo a pulsação da outra. Naquele momento, a fenai se soltou da árvore, colocou sua coroa de flores e começou a chover flores azuis. A fenai começou a dançar de olhos fechados, enquanto as flores azuladas caíam do céu. Era a coisa mais linda que eu já tinha visto!
De repente, ouvi tocar tambores e ela, começou a dançar no ritmo dos tambores. A chuva de flores continuava a cair. Ela tentava pegá-las de alguma maneira, mas não conseguia. Até que ela pegou uma, a cheirou e me deu. Peguei a flor azulada e a cheirei e senti seu perfume. Eu me sentia no paraíso. A fenai abriu os olhos e se aproximou bem perto de mim. A hora era agora. Mas algo aconteceu. Ela percebeu a marca da flecha estampada em meu braço e se assustou. "Eu sou diferente" — eu disse à ela. Mesmo assim, não se convenceu. Quando fui tocá-la, ela se afastou um pouco mais e continuava a me olhar assustadamente. Dei um passo e ela saiu correndo. "Você é como os outros!" — disse ela. E eu disse: "não, você se engana! Por favor, volte!"
Por que? Por que? Por que? Eu não quero ser como os outros e não sou como os outros! A maioria dos babas praticam maldades, mas eu sou diferente porque quero ser diferente e quero mostrar às fenais que não sou uma ameaça. Mas o problema é esta maldita marca permanente! Todas as fenais sabem que eu sou um baba e elas sabem que os babas são uma ameaça. Menos eu. Eu gostaria muito de provar para as fenais que eu não sou como os outros e fui expulso do meu clã por não pensar como eles. Eu também sofri nas mãos dos babas. Mas esta marca....! É esta maldita marca que faz mostrar para todos que sou um baba! A marca permanente de um baba! A marca da flecha!
Depois daquele dia, nunca mais a vi. Nunca mais a vi. Naquele dia, apenas fui para frente do espelho e chorei até minhas lágrimas secarem. Acendi uma vela na escuridão e pintei um quadro que expus para todos verem. Eu não sou como os outros. Não sou. Como pude eu perder a poesia em pessoa? Ainda sinto a dor em meu peito.
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