Procurados

1 Capítulo 1


Eu havia trancado toda casa antes de deitar para dormir, temendo que eles voltassem. Fazia frio lá fora, mas debaixo dos meus lençóis a sensação era de estar sendo assado. A cada batida na porta eu sentia o meu peito apertar, me proporcionando uma sensação de sufoco. Meu corpo, que boiava em suor, tremia de medo. Eu mantive os olhos fechados na esperança deles irem embora. Mas eles não foram e eu me senti cada vez mais encurralado. Eu queria fugir daquela casa, mas eu não tinha para onde ir. Pensei em negociar com os homens que estavam atrás do meu pai, mas eu não sabia como fazer isso e o que eu encontraria caso eu abrisse a porta, então o que me restava era permanecer escondido até eles se darem conta de que não tinha ninguém para atendê-los.

A casa era grande, o meu pai e eu vivíamos sozinhos nela. Eu passava grande parte do tempo em minha própria companhia, já que ele sempre estava gastando o dinheiro em bebidas e tentando recuperá-lo apostando-o em jogos de azar. Há dois anos viemos perdendo tudo, a começar por nossa dignidade. Boatos haviam se espalhados pela cidade e vizinhos comentavam sobre o fato de meu pai estar sempre bêbado. O que nos restara foi a casa, alguns móveis e um acúmulo de ecos. Tudo era usado em troca da redução das dívidas que o meu pai acumulava. A TV, a torradeira, o sofá. A sala só tinha um tapete na porta e mais nada. Eu ainda prezava por minha cama, o meu armário e as minhas roupas. Sobrevivíamos com o mínimo que podíamos. Algo me perturbava e eu tentava não pensar sobre, mas eu tinha medo de levarem o teto que nos abrigava. Medo de acordar e o meu pai ter me entregado em troca da sua dívida ser sanada, me obrigando a trabalhar de graça para os seus cobradores.

Eles haviam sessado as batidas na porta, talvez por achar que não tinha ninguém em casa. Eu me descobri do lençol e deixei que o vento frio que adentrava as brechas da janela lambesse o meu corpo, deixando-me mais aliviado, me fazendo voltar a respirar tranquilo. Eu estava tão cansado que dormiria daquele jeito, molhado de suor e cheirando mal. Mas decidi aproveitar que ainda tínhamos um chuveiro e me levantei para tomar banho.

Ao me levantar, abri a janela do quarto e caminhei até o banheiro. Antes de entrar no box pude me ver no espelho e desejei não ter me visto. Eu estava magro, cheio de olheiras e de olhos cabisbaixos. Meus cabelos negros já chegavam até o pescoço e eu não fazia a mínima questão de cortá-los e melhorar a minha aparência. Eu não me alimentava direito, minhas noites de sono eram cheias de pesadelos e eu sempre acordava achando que alguém estava nos pondo para fora. Os últimos meses estavam sendo cada vez mais difíceis e ás vezes eu pensava que morrer era a única solução. O meu pai em casa não me passava segurança alguma, mas a sua ausência era ainda pior, fazia eu me sentir mais vulnerável a coisas ruins que ele estava causando. Ele não dizia, mas eu sabia o quão ele era covarde e me deixava sozinho por medo de ser pego caso ficasse em casa por muito tempo. Se escondia bem longe de mim, deixando-me de isca para que pudesse escapar quando fosse necessário.

Fechei os olhos debaixo do chuveiro e me senti em paz por alguns instantes. Era uma mistura de alívio e frescor, mas com prazo de validade. As minhas unhas estavam todas ruídas e eu tentei escondê-las do meu campo de visão. Eu as comia a ponto de fazê-las sangrar sempre que eu passava por um momento de tensão. Em poucos passos eu estava no quarto outra vez, enxugando o meu corpo e vestindo o pijama. Eu sempre fazia tudo como se fosse a última vez, por medo de acordar e ter tudo o que era meu sendo levado. Virei o colchão, deixando a parte molhada de suor pra baixo e arrumei a cama. Troquei o travesseiro e a fronha e no instante que me deitei pude sentir que ficaria ali para sempre, vivendo numa eterna paz ainda que momentânea.

Desci para preparar o que comer. Tinha ovos e leite na geladeira. É algo que não posso esquecer, que não consigo. Eu estava quase subindo as escadas de volta para o quarto. Lembro exatamente de ter deixado o copo se partir ao cair no chão após a segunda golada que me fez engasgar com o susto, quando a porta da minha casa foi arrombada num chute certeiro. "Cadê aquele filho-da-puta?", perguntou um homem alto e magro, que se vestia como um cowboy bêbado e alterado. Seus olhos corriam por toda sala, a sua mente parecia inquieta. Ele era loiro e barbudo, seus dentes do meio eram separados e amarelos, sua aparência bagunçada o fazia parecer sujo e tão intimidador quanto o seu comportamento demoníaco. Parecia ter vindo atrás de algo e não sairia sem. Ele nunca havia estado lá antes, o que me fez pensar que ele chefiava os homens que costumam procurar por meu pai. E se ele estava lá para cobrar o meu pai pessoalmente, era porque havia perdido a paciência.

Eu não tinha por onde correr e nem conseguiria. Só pude imaginar aquela arma sendo disparada contra a minha cabeça. Eu sequei toda minha saliva ao engoli-la quando ele se aproximou, fazendo-me travar de costas para a escada em meio ao chão cheio de cacos. "Eu não sei onde o meu pai está", eu disse rapidamente, mas tudo parecia acontecer em câmera lenta. "Então você é o filho daquele merda?", ele baixou a arma ao se dirigir a mim e eu pensei que talvez ele não me mataria. Eu não consegui respondê-lo com palavras, apenas assenti com a cabeça e ele sorriu de forma assustadora, fazendo o seu bafo quente e fedorento se espalhar pelo ambiente. Sua posição ameaçadora foi o que me impulsionou a dizer algo, pois eu me tornei ainda mais exposto ao me identificar como filho do homem que devia a ele. "O meu pai não tem aparecido em casa há três dias, senhor, eu sei que ele deve ao senhor, mas pode levar o que o senhor quiser, senhor", eu não sabia o que estava fazendo, mas eu me arrependi de ter aberto a boca. A minha frase soara ridícula, o fazendo gargalhar aos quatro cantos da casa, como se tivesse mais alguém ali compartilhando de sua diversão.

Todo o meu rosto começou a tremer, mas o meu corpo continuou paralisado, como um robô esperando um comando para sair de sua inércia. Ele me olhou de cima a baixo, passou a língua nos dentes e esteve tão próximo de mim que pude ouvir sua respiração. Ele me cheirou ao redor do pescoço, mas não tocou a minha pele, e por algum motivo que não sei explicar, prendi a respiração e forcei-me a tapar a boca sem encostar nela. As minhas mãos começaram a tremer em sincronia ao meu rosto, e a minha urina vazou por entre minhas pernas sem que eu fizesse algum esforço. "Você é tão patético quanto o seu pai", ele disse ao ver o mijo chegar ao chão. Eu emiti um choro entalado e as lágrimas nunca saíram com tanta fluidez. Eu estava pronto para começar a implorar. "Por favor, o senhor pode levar o que quiser, mas não me mate".

Eu esperei que o meu pai entrasse por aquela porta e fosse o alvo daquele homem, mas isso não aconteceria, não aconteceu. Eu quem estava ali para pagar por uma dívida que não era minha. "O que mais eu ia querer dessa espelunca?", ele começara a andar em círculos pela sala, seu corpo curvado como se as suas costas carregassem um grande peso. Se tivesse algo naquele vão ele provavelmente quebraria por pura raiva. Ele voltou para perto de mim, a mão que segurava a arma estava inquieta e tive medo de um disparo repentino me atingir. O cano da arma dançou entre os meus cabelos como um pente sem dentes e eu mantive o meu corpo parado enquanto o seguia com o olhar.

"Você cheira a leite", seu riso era doentio e perverso, tornando-me um rato frente a uma cobra que estava prestes a atacar. "Seu pai me deve e eu vim matá-lo por isso", ele disse, e eu cheguei à conclusão que morreria no lugar do meu pai por ele não estar lá. "Mas matá-lo me traria prejuízo, então eu deixarei para ele um aviso", o ar que saiu do meu peito ao ouvir aquelas palavras me fez arfar de alívio e eu pude ver uma linha de esperança faiscar, ainda que aquela arma estivesse rondando a minha cabeça. "Sim, senhor, eu o darei o aviso", eu estava tentando fazer tudo correr mais rápido para que ele pudesse ir embora. "Sim, você dará", ele falava devagar e isso me deixava ainda mais apreensivo e preso naquele pesadelo. "Você será o aviso", entendi que eu tinha acabado de receber a sentença de morte, então fechei os olhos e esperei a bala perfurar a minha cabeça como uma faca rasgando uma carne.

Mais uma vez eu não havia o entendido. Passei alguns segundos esperando o silêncio ser cortado pelo barulho da arma sendo disparada e quando isso não aconteceu voltei a abrir os olhos. "Bostinha", ele havia dito, ao me olhar com nojo e desprezo. "Se eu soubesse que ele tinha alguém, você já estaria morto e o meu dinheiro já teria sido pago". Ele cuspiu no chão e ao voltar sua atenção para mim foi direto em meu cabelo, puxando-o enquanto subia a escada. Eu segurei o seu braço pedindo que ele me soltasse e ameacei chamar atenção dos vizinhos. "Se abrir a boca leva um tiro na perna, vai doer, mas você vai continuar vivo sentindo outras dores", ele disse, ao me por contra a parede com a mão firme em meu pescoço.

"Vamos para o quarto daquele filho-da-puta", ele começou a me puxar e eu o pedi que me deixasse ir, não conseguia tirar os olhos da porta por um instante sequer, mentalizando que alguém apareceria. "Por favor, não faça isso comigo, eu tenho algumas economias guardadas...", eu implorava, mas ele continuava me fazendo andar enquanto apontava a arma para minha cabeça segurando os meus cabelos e esboçando aquele sorriso doentio que me fazia estremecer.

"É aqui que aquele verme dorme, não é?", ele perguntou e eu permaneci calado, o olhando com medo. Estávamos no primeiro quarto do corredor, o do meu pai. "Eu estou falando com você, seu merda", o meu silêncio me provocou uma série de chutes e pontapés. Aquele homem estava furioso e a sua raiva estava sendo externalizada em meu corpo. Ele me fez cair com uma cotovelada nas costas e me amaciou com suas botas pesadas que pareciam querer invadir o meu estômago. Eu conseguia sentir o sangue escorrendo eu meus lábios quando sua arma foi de encontro ao meu rosto, o meu nariz estava anestesiado e eu tentava encontrar um pouco de ar, mas estava sendo impossível achá-lo.

Fui esticado pela blusa como um peso morto, um saco de lixo que escorria sangue e que ele mal conseguia carregar. "Levanta, seu bosta", eu estava tonto e no geral não pude ouvir muito bem, mas o meu ouvido captava alguns sons específicos. Mal conseguia enxergar e me levantar daquele chão estava me causando uma dor ainda maior. Eu me sentia um verdadeiro lixo. Eu sentia mais raiva do meu pai do que daquele homem que eu nunca havia visto, era ele quem deveria estar ali, não eu. Ele me levantou de uma só vez e eu mal pude ficar de pé. Fui arremessado como um saco de grãos e minha barriga colidiu com a quina da cama, fazendo-me gemer de dor. Continuei na posição em que fui condicionado, sendo obrigado a ver no espelho o reflexo do meu rosto desfigurado pelos socos que ele me deu.

O meu short e a minha cueca foram arrancados de uma só vez. Ouvi o seu cinto sendo tirado da calça e sua braguilha abrir. "Qualquer gracinha e você leva um tiro", ele declarou, ameaçando me matar caso eu reagisse. Eu analisei a sua proposta e decidi que preferia estar morto ao ter que participar de sua prestação de contas nojenta. "Socorro", eu gritei, mas eu quase não pude ouvir a minha própria voz. "Alguém me ajuda", mais uma tentativa falha e o meu corpo foi invadido como um pedaço de carne que sangrava numa tábua velha. "Por favor, alguém...", ele gargalhou em meio ao ato, senti o cano da sua arma se chocar com o meu pescoço e em seguida tudo escureceu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.