Procura-se Bichento
1 Capítulo Único
Eu tinha um plano.
Cheguei ao apartamento de Mione exatamente às 18:38, encontrando-a estirada no sofá ainda com as roupas do dia no corpo. Não consegui conter o sorriso que surgiu em meus lábios: eu simplesmente amo essa garota, não importa o que ela faça.
Bichento logo apareceu na sala querendo saber quem invadira seu território. Eu o acariciei atrás da orelha, – naquele ponto sensível dos gatos – mas fiz questão de manter distância. Mesmo após quase quatro anos nosso relacionamento ainda é bastante delicado.
Não quero abusar de sua boa vontade.
Corri para me juntar a minha namorada. Deitei a cabeça em seu colo, pedindo carinho, como costumava fazer.
Hermione não demorou para embrenhar uma de suas mãos em meu cabelo, seu toque sempre inebriante. A outra mão deslizou pelo meu rosto e ao passear pela minha orelha me senti como Bichento: aquele também era um ponto sensível para mim. Mas antes que eu pudesse desfrutar um pouco mais desse contato, Mione desferiu alguns tapas em minha bochecha.
Levantei-me desnorteado – tenho certeza de que vi Bichento rir (gato sabem rir, não é?) – e me recuperei quando ela disse:
— Vou tomar banho.
Aquela era a deixa para que eu a acompanhasse e juntos economizássemos água.
Não moramos juntos, embora quase tenhamos uma vida a dois. Nossos trabalhos não permitem que nos vejamos com tanta frequência no decorrer da semana, por isso sempre arranjamos alguns minutos para almoçarmos juntos e dar escapadinhas durante a noite.
Às sextas-feiras aproveitamos a liberdade do final de semana para passarmos horas a fio juntos.
De banho tomado, – do qual tenho minhas dúvidas se realmente economizamos água – cozinho o prato preferido de Hermione: strogonoff de camarão. Dizem que sou comilão, porém tenho meus dotes culinários. É impossível ser filho de Molly Weasley e não saber, ao menos, fritar um ovo.
Assistimos ao seu filme preferido – e todos os outros que ela quis, nos perdendo nas centenas de opções dos aplicativos de streaming instalados na TV.
Além, claro, de nos enchermos de guloseimas que eu trouxe da loja da esquina – e nos esquivarmos de Bichento, doido para dar uma beliscada.
Seus pés macios repousam sobre minhas pernas. Eu os massageio lentamente, fingindo nenhum interesse, apesar de tocar em pontos que eu sei que vão tirar o foco de Hermione.
Eventualmente paramos de prestar atenção nos personagens da tela para nos concentrarmos em nossas bocas, liberando toda a saudade acumulada durante a semana.
E, em algum momento, nossos corpos descansam em cima dos sedosos lençóis de Mione... ou pelo menos um dos corpos...
Porque eu mal durmo a noite toda.
A ansiedade de levantar antes de Hermione me mantem acordado por boa parte das horas que se passam.
Eu nunca acordo antes dela.
Às 08:00 do sábado – após rolar algumas vezes na cama – eu decido me levantar, muito cuidadosamente para não desperta-la. Seu corpo quente e os cachos espalhados pelo travesseiro são um baita de um convite para me enfiar novamente debaixo do cobertor.
Me visto rapidamente, dou bom dia para Bichento, – que obviamente finge que eu não existo – pego minha carteira e saio do apartamento, me assegurando de que a porta não está fechada. Não estou com as chaves e caso a porta se feche só é possível abri-la por dentro.
A realidade do que estou prestes a fazer me atinge. Uma mistura de aflição e, ao mesmo tempo, certeza.
Mione nunca gostou de grandes gestos românticos, as pequenas coisas sempre foram mais importantes para ela.
Eu, apaixonado como estou, sempre quero deixar claro para todo o mundo o quanto a amo e estou feliz por tê-la ao meu lado.
Precisei achar um meio termo para esses sentimentos conflitantes.
Ela detesta aqueles vídeos de pedidos de namoro ou casamento em partidas de basquete ou qualquer outro esporte, diz que pressiona e acua a pessoa – geralmente mulheres – a aceitar em frente a uma gigante plateia.
Não posso argumentar contra. Não sei como eu reagiria diante de uma situação dessas, mas posso garantir que jamais a colocaria nessa posição.
Não me demoro no mercadinho. Ainda estou cheio das besteiras que comemos na noite anterior. No caminho de volta, meu olhar é atraído até a floricultura do bairro. Não considero flores como presente, mas não posso deixar de comprar as suas favoritas: azaleias amarelas.
Encosto a porta do apartamento produzindo um ruído mínimo.
Pouco tempo depois, Hermione surge na cozinha de roupão.
Eu quero isso para nós. Chega de me desdobrar entre o apartamento que divido com Ginny – e, de certa forma, Harry – e onde eu realmente quero estar.
Quero que todas as noites sejam como ontem.
Quero acordar todos os dias nos braços do meu amor.
Quero até mesmo lidar com o ódio de Bichento por mim diariamente.
Quero nossas discussões por bobagem.
Quero Hermione por completo, não apenas por algumas noites na semana.
Ela vem em minha direção e eu a tomo em meus braços, meu mundo inteiro bem nas minhas mãos.
Quando foi que ela conquistou tanto poder sobre mim?
Ah sim, claro, foi no momento em que pus meus olhos nela pela primeira vez.
— Bom dia. – ela sussurra contra meus lábios. — Adoro quando você cozinha para mim, é bem sensual.
Estranhamente, fazer as coisas para Hermione me dá uma sensação de poder, não de uma forma possessiva e sim de estar cuidando de alguém importante para mim, de deixa-la feliz com algo simples e trivial.
— Bom saber. – a solto relutantemente para que os ovos mexidos não fritem demais.
Enquanto termino de preparar a comida, ela chama por Bichento. Geralmente o gato nunca demora mais do que cinco segundos para responder ao seu chamado, mas, estranhamente, ele não aparece.
— Você viu Bichento?
— Um pouco mais cedo antes de sair.
Arrumo a mesa – colocando as flores bem no centro – e Bichento ainda não apareceu, me deixando aflito também. Não me dou bem com a criatura, mas não é como se eu não me importasse com ele. Temos respeito um pelo outro. Preciso entender que há um ruivo na vida de Mione e que conquistou seu coração antes de mim.
Olhamos em todos os cômodos e lugares em que o gato costuma se esconder, sem sucesso. Hermione começa a se desesperar.
— Eu não entendo, ele fugiu? – seus olhos se enchem de água e eu a abraço forte.
— Claro que não, ele deve estar por aí. Com certeza não procuramos direito. – tento animá-la.
— Ele nunca teve interesse em conhecer o mundo fora de casa. – ela se senta na bancada da cozinha. — Você disse que o viu mais cedo, né?
— Sim, por volta de 08:20, antes de ir ao mercado. Deixei a porta encostada por causa da tranca e...
— Você deixou a porta aberta? – ela se põe de pé em um pulo, nada amigável.
— Não aberta, apenas encostada. – repito. – Não estou com as chaves e você sabe que...
— É claro que ele fugiu, meu Deus, Ronald! – ela corre em direção a janela da sala, quem sabe tentando ter uma boa visão da rua.
De repente, imagens de Bichento possivelmente atropelado invadem minha cabeça.
Não, não tem como ele ter cruzado aquela porta.
— Eu não deixei a porta aberta. – tenho certeza de que Bichento seria incapaz de puxar a porta para sair. Ele é muito preguiçoso para viver no mundo lá fora sem a supervisão exclusiva da dona. — Não levei as chaves para não te deixar presa dentro de casa.
— E que diferença faz? Você nunca gostou de Bichento mesmo. – suas palavras me atingem em cheio, cheias de acusação.
Ah, pronto, estávamos brigando. E, sendo honesto, não era a primeira vez que brigávamos por conta da criatura. Ele adorava se enfiar entre mim e Mione, tentando impedir que nos tocássemos ou nos sentássemos mais intimamente, exatamente como um pai conservador faria.
Hermione ria, eu resmungava.
Ele fazia de propósito. Gatos são criaturas muito espertas, o bichano sabe o que está fazendo.
— Talvez você devesse namorar alguém que ame seu gato então, não apenas o tolere como você vive dizendo que eu faço! – digo antes que possa me segurar.
— Quer saber, talvez eu devesse mesmo. – ela rebate, o peito subindo e descendo de raiva.
Nos encaramos por longos segundos, um desafiando o outro a dizer algo a mais.
Eu me arrependo das palavras que saíram da minha boca, mas não é como se não fossem verdade.
Hermione corre para o cabideiro próximo à porta, veste o sobretudo rapidamente e quando está prestes a sair, assim, sem mais nem menos, Bichento surge de dentro do sofá.
Ele se espreguiça e dá um salto magistral até o chão.
— Não vai me dizer que você estava escondido aí esse tempo todo! – ela corre até o animal.
Meus olhos se reviram com tanta força que quase não retornam à posição original.
— Acho que alguém me deve um pedido de desculpas. – e saio do apartamento para tomar ar puro.
Estou furioso!
Me sento na calçada em frente ao prédio, não posso ir muito longe pois deixei todos os meus documentos lá em cima.
Me arrependi do que disse assim que o disse, mas ver que Hermione de certa forma concordava me machucou muito mais.
Não é verdade, eu gosto de Bichento, amo animais de estimação, não tenho nada contra. Desde o primeiro dia tento ser amigo do gato, afinal, ele tem o coração de Hermione, contudo, desde o primeiro dia, ele me lança olhares assassinos de arrepiar qualquer um. Por isso, me mantenho o mais distante possível.
Felizmente a desaprovação do bichano não impediu que Hermione me permitisse em sua vida, embora fosse o pivô de muitas de nossas desavenças.
Tiro o peso do meu bolso e encaro a aliança que comprei há quase três meses. A joia tem sido minha fiel escudeira nas últimas semanas, esperando que eu decida qual o melhor momento para mostra-la a Mione.
E agora me pergunto se realmente deveria fazer o pedido. Seria assim para sempre? Hermione, eu e... Bichento no meio?
É... ao levar a garota também levo o gato.
Amo Hermione como nunca amei ninguém, mais do que a minha própria vida, mas nesses momentos eu só queria sacudi-la por não me escutar e entender o que digo.
Eu tinha um plano e ele consistia em pedi-la em casamento hoje, durante o café da manhã que eu preparei, muito provavelmente agora frio em sua mesa.
— O que é isso? – me viro rapidamente e me deparo com Hermione e Bichento em seus braços.
— Não é nada. – fecho a caixa aveludada rapidamente e a seguro fortemente entre os dedos.
— Você ia me pedir em casamento? – ela se senta ao meu lado, seus olhos cheios de água.
— É de... um amigo. – minto descaradamente.
Hermione segura meu braço e encosta a cabeça em meu ombro, não me dando outra alternativa a não ser me recostar nela também.
— Desculpa. – sua voz é apenas um fio em meio ao barulho da cidade. Eu adoraria fingir que não ouvi e pedir que ela repita, mas não faço.
— Eu não tenho absolutamente nada contra Bichento, trato igual gente. – ela ri. — Ele que não gosta de mim.
— Estava acostumado a ser o único homem da casa.
Eu rio, pois sei que é verdade. Eles estão juntos há séculos.
O gato me lança mais um de seus olhares mortais o qual eu sustento, uma pequena guerra de testosterona.
— Desculpa, não desiste de me pedir em casamento só por isso.
Roubo um beijo rápido e digo, abrindo meu coração:
— Eu te amo, Hermione Granger, mas às vezes você é insuportável. Só que eu não consigo ficar longe de você. – a abraço pelos ombros.
— Então não fica. – ela sela nossos lábios. Temos todos os transeuntes e o trânsito na pista de testemunhas do nosso amor.
Acontece que o beijo era apenas uma desculpa para ela tentar roubar a caixinha das minhas mãos.
— Mas nem pensar, vou esperar mais uns dois anos até você esquecer desse anel.
— Pelo amor de Deus, Ronald, deixa eu ver!
— Culpe Bichento. – me levanto em direção ao prédio.
E faz sentido, vejam só: em seu plano de dominação global, Bichento descobriu que eu planejava propor casamento a sua dona, logo causou essa briga entre nós tentando adiar meus planos. Esse gato é astuto!
De volta ao apartamento, esquento novamente o café da manhã sob protesto de Hermione e suas tentativas quase eficientes de me adular.
Por diversos fatores meu plano foi por água abaixo naquele dia, apesar de eu querer fazer sua vontade e torna-la minha noiva ali mesmo.
Eu realmente quis esperar um bom tempo até que ela esquecesse da aliança, mas não consegui – e, de qualquer forma, ela nunca esqueceu.
Bons meses depois, durante as festas de fim de ano, eu fiz o pedido e chorei de emoção – principalmente de alívio – quando ela disse sim.
Desculpa, JC: podemos comemorar o Natal todos os anos, eu só tinha uma chance de tornar meu noivado um dia especial.

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