— O que está fazendo? — Colocou as chaves sobre a mesa enquanto depositava as sacolas do mercadinho ao lado. Não era um dia de sol, logo cortinas e janelas estavam abertas permitindo a brisa natural e refrescante entrar. — Comprei tudo o que pediu.

— Obrigada. — Ouviu do outro cômodo. Seguiu a voz até chegar no quarto de Hinata. — Não sei o que faria sem você.

Sorriu, sentindo-se agraciada pelo elogio. — Ora, não é nada, sempre é bom ajudar uma amiga.

Tirou as pantufas que calçara na entrada, pulando em seguida em cima das cobertas da cama da garota, aspirando o cheiro de lavanda que impregnava o tecido. — Gostaria que minhas cobertas ficassem com esse cheiro sem ter que gastar meio litro de amaciante.

Hinata olhou para trás da cadeira onde estava sentada, o colírio recém colocado causando uma sensação de ardência a fazia espremer os olhos para, com todo custo, conseguir enxergar a figura em sua cama, notavelmente balançando os pés enquanto afunda em seus lençóis. — Sinto muito por ter que fazer vir até aqui, mas não esperava uma marcha para Hashirama e Madara logo hoje! — Riu, constrangida. — Sério, Saky! Uma marcha para políticos?!

Certo, se sentia culpada, mas nem tanto. Era bom ter ela ali, consigo. Uma companhia faz mal a ninguém. Mas ás vezes se sentia mal.

Há alguns anos, em sua adolescência, começara a sentir-se incomodada ao sair na rua, zonza, dores de cabeça e seus olhos coçavam como o inferno. Seu pai, Hiashi, junto a Neji, seu primo e irmão de coração, a levaram menos de uma semana depois para consultar um oftalmo, para em seguida ir ao neuro, para logo depois fazer vários exames que Hiashi Hyuuga, temeroso pela sua primogênita, insistiu em pagar em um dos hospitais mais caros da Zona Sul.

“Que droga, nós nem tínhamos tanto dinheiro assim.” Apenas ter ficado trinta minutos em uma cabine da ressonância magnética deve ter custado três salário seu do Jovem Aprendiz na época! Isso porque ela fora proibida de tirar um tustão do bolso. Exames e mais exames para no final não dar em nada. Não havia nada errado com ela mesma. “Talvez seja uma enxaqueca, vamos encaminhar para o neurologista novamente.”

Nunca em sua vida passou pela sua mente que faria seu pai gastar oitocentos reais em apenas uma consulta! Era o quê? O próprio Jesus Cristo a diagnosticando? Sabia que se fosse, ele seria um bom homem e não cobraria por aquilo. Passou quatro dias inteiros com as bochechas vermelhas, envergonhada por tudo aquilo que estava passando: Tirar roupa para colocar um avental gelado, sentir olhares sobre si, encarar seu pai enquanto o médico perguntava sobre o que sentia e no último dia sentir constrangimento por Hanabi, sua doce irmãzinha, perguntar se o motivo do médico estar com uma máscara no queixo fosse por ter um nariz tão grande que impedia o uso adequado.

No fim, o neuro apenas disse que possuía fotofobia, uma sensibilidade a luz e que não era para se preocupar.

— Meu Político Favorito! O que acha desse nome? Daria um bom filme, não? — A Haruno perguntou, engajada em sua piada. Tudo bem que, escolhendo a pessoa certa para governar, o país irá progredir, mas fazer da política um jogo de futebol era algo que estava no limite das duas. — Ou... Meu Político de Estimação? Há... odeio esses caras.

Riu, uma risada muda sendo apenas possível ser notada pelo balançar dos ombros e as mãos escondendo o sorriso nos lábios. Não achara a mínima graça, mas sentia leveza e diversão no falar da garota que era impossível não rir. — Ok, preciso te contar uma coisa.

— O quê?! — Pulou da cama, os dentes a mostra, animada. Amava quando Hina parava do nada e lançava um um “Quero te falar algo.”. Sentia-se esperançosa por algum motivo.

— Enfim, não ‘tá sol hoje. Não teria motivo para pedir vir aqui se um óculos de sol e chapéu resolvesse o problema.

Oh, sim, gostava do rumo dessa conversa. Sakura balançava os pés e apertava os dedos contra a palma da mão. — Então, porque mandou?

— Então... eu meio que... também sou sensível ao som...?

— Puta merda, Hinata!

Hinata deu um pulo. Os olhos totalmente arregalados sendo mostrados com clareza e sua pupila negra, que raramente aparecia desde seus dezessete anos, sendo movidos de um lado para o outro se perguntando ‘’Meu Deus! O quê aconteceu?” — O que foi?!

A mulher sentada a cama colocou uma das mãos sobre a boca. — Desculpe, não quis dizer isso. Como assim também?

Mordendo os lábios, mirava o tapete felpudo que Sakura esfregava os dedos dos pés, não gostava de esconder nada, por isso, decidiu dar um fim naquilo tudo.

— Eu, Neji, Hanabi e meu pai também somos. E a nossa fotofobia piorou. — Jogou tudo para cima de Sakura, fechando os olhos, como se uma bomba estivesse prestes a explodir e seu apartamento desabaria em mil pedacinhos. Não ouviu nada. Nem uma palavra. Não sentiu nada, nem um toque. Abriu os olhos, Sakura estava estática. — V-você está bem?

— Eu não entendi. Explique-se melhor. Por favor.

— Você sabe que qualquer mísero raio de luz faz minhas pupilas se contraírem, não sabe? Esse era um problema que minha mãe desenvolveu e em menos de uma semana depois faleceu sem laudo algum. Minha família ficou preocupada que eu apenas tivesse mais uma semana de vida, mas aqui estou eu, vinte e um anos e vivíssima da silva!

— Hm...

— É, então — Lambeu os lábios, gostava de falar. Seu namoradinho que teve no fim do ensino médio possibilitou uma desenvoltura em sua dicção que até hoje agradecia, apesar de terem terminado na formatura do terceiro. Os dedos tamborilavam a cadeira onde estava. — Faz alguns meses que os três também tiveram os mesmos sintomas e o mesmo diagnóstico que o meu. Mas, faz três semanas que nós, ao mesmo tempo, desenvolvemos uma sensibilidade ao som que qualquer ruído mais alto dói ou faz latejar, passamos em vários otorrinolaringologistas porém não deu em nada, apenas uma possível labirintite.

— Oh, devemos chamar o Doutor House? Ou Meredith Grey?

— Ei, é um assulto sério! Para com isso.

— Desculpe, desculpe. — Sakura levantou as mãos em rendição. — É o Mark Sloan que devemos chamar. Ai!

Hinata jogou seu casaco no rosto alheio, rindo. — Para de graça. Estou preocupada que algo possa acontecer. — O tom suave decaiu para um tom mais sério. — Os três, ao mesmo tempo, e nós quatro, com os mesmos sintomas. O que pode ser?

— Não tem alguma relação daquele boato que a família Hyuuga foi formada a partir de um grave sistema incestuoso para manter o sangue azul da família?

Não estava crendo no que estava ouvindo. — V-você a-acredita nisso?!

— Calma, não é por mal! Mas sabe, essas coisas de família rica que antes era clã desde a época feudal e pipipi, popopo, são alvos de boatos, e alguns tendem a serem verdadeiros. Se estivéssemos em uma série médica, essa seria uma das principais teorias sobre o caso.

— Meu Deus, será que eu sou fruto do incesto?! — Sentiu o coração disparar.

— Espere, incesto é uma construção social. Não leve tão a sério.

— Que faz as pessoas nascerem deformadas, estranhas, com problemas esquisitos e um olho na testa! Só olhar os quadros de família na minha casa, cara de um, focinho de outro! Minha mãe está em quase todos eles e não é por causa de uma história fofa de meus pais se conhecerem na infância, vai que eles são irmãos e meus tios são meus pais?

Hinata estava tremendo, as mãos em frente ao rosto tremelicando enquanto a boca se formando em ‘’O’’, em claro choque, medo, desespero, o fim do mundo na terra. — Mas que... piada suja.

— Hein? — Espremeu os olhos, aguardava um palavrão vindo da boca de Hina, mas algumas coisas nunca mudam. — Escute — Sem momento para rir, Sakura, foco! — Estava brincando, é claro que não acredito nisso. Se fosse verdade, antes de mil e oitocentos sua linhagem teria se desintegrado pelo pouco de crossing-over que haveria ou teriam os matado pelos quatro braços e doze olhos que teriam!

A boca estava cerrada, algumas lagrimas escorriam soltas e livres pelo rosto. Sentiu Sakura abraçá-la pelo lado enquanto deslizava um dos dedos pelas lágrimas, secando-as. Fungou em divertimento. — Realmente. Mas não é certo matar pessoas pelos quatro braços e doze olhos. Que culpa têm?

— Há, há! Sim, realmente. — Virou-se de frente para a Hyuuga, usando suas duas mãos e espremendo as bochechas, analisando o nariz vermelho contrastando com a tez pálida, o biquinho sendo formado de forma adorável. — Sinto muito, queria ajudá-la. — Deu um beijo na testa alheia. — Talvez seja apenas uma coincidência que todos vocês tiveram o mesmo sintoma ao mesmo tempo, não perca seu dia com isso e apenas foque em tentar amenizar a situação, ok? Conte comigo para isso.

— Pode ser... tudo bem, agradeço.

Abraçou-a novamente. Era bom. Sentiu-se nervosa por ter feito Hinata chorar e a feito pensar que um olho nasceria em suas costas para compensar a visão complicada não só sua, mas agora de toda a família. Os olhos cerrados pareciam causar uma sensação melhor do abraço retribuído pela outra mulher. Era um abraço quentinho e gostoso. Nada poderia acabar com sua felicidade no momento.

Abriu os olhos incomodada com uma claridão antes despercebida. Analisou o notebook aberto e uma pesquisa ainda sendo feita: "Meu namorado está escondendo algo de mim? Como descobrir"

— Hinata, você está namorando? — Afastou-se, colocando ambas as mãos sobre cada um dos ombros pequenos. — Por que não me disse? Esquece isso, está preocupada que ele esteja escondendo algo? Não, esquece isso também. Você realmente está namorando?! — Atropelava-se entre as palavras, ela teria contado para si se estivesse com alguém, não é? O peito subindo para cima e para baixo rapidamente combinava com a língua seca em sensação de desgosto e medo. Muito medo.

Medo por perder alguém que amava também romanticamente para uma pessoa que sequer conhecia.

— Não, não estou! Isso é... — A Hyuuga olhou para o monitor retangular, pensando nas palavras que usaria. Fora ingênua de deixar a tela aberta na certeza que ela apagaria depois de dois minutos sem uso, mas havia esquecido que o USB do mouse sem fio estava plugado e o mouse, em cima da cama, abaixo das cobertas, onde Sakura remexia incansavelmente. — Uma pesquisa para as atividades disciplinares desse semestre. De vez em quando, perguntas bestas assim são necessárias...

Estava mentindo, era óbvio. Sakura sabia quando isso acontecia. Hinata não a olhava nos olhos e fingia que era uma conversa cotidiana em uma rua qualquer, olhando para os lados em busca de qualquer coisa.

— Mentirosa! — Dois passos para trás. — Nossa, Hina! Eu sou sua amiga. — Sentia-se... magoada, pois dizer traída lembrava que, algo entre as duas, nunca rolaria e mesmo que traição ocorria em amizades não era a palavra adequada ao momento, com tudo que aflorava em seu coração. Não era um namoro recente, se fosse, não chegaria tão rápido ao nível de "Oh! Senhor Google, me ajude! Meu namorado está escondendo o quê? Ele irá me trair? Me trocar por outra? É um traficante fugindo para outro país? ". A aspirante á psicologa não era ela, mas ainda sim sabia analisar o que ocorria ao redor. — E... se está com problemas, pode me perguntar... eu, ajudo, né?

No momento, sua vontade era de gritar. Gritar que estava apaixonada. Por Hinata. Pela mulher tímida e adorável em sua frente que estava se sentindo insegura por um cara qualquer aleatório que nunca vira na vida. Poderia beijá-la, claro, contra a vontade da outra, levar um tapa e ouvir ''Você não pode beijar outros sem permissão, sabia?!". Estava emburrada como seus quinze anos quando descobriu que Rock Lee, que tanto declarava seu amor por ela, havia arranjado um novo namorico com uma garota da turma mais velha.

Mesmo que na época não gostasse de ninguém exceto o professor bonito que vivia doente e atrasado da aula de português e literatura.

— Está triste? — Perguntou Hinata, alternando seu olhar para a parede lilás atrás de Sakura, a raíz de cabelo castanha de Sakura, os olhos vermelhos e... toda a Sakura, que não sabia se ia ou ficava para ouvir o resto.

— Estou mais triste por você estar desconfiando dele. Se isso não faz bem, termina. Não vou continuar parada aqui enquanto você anda beijando um cara que esconde coisas de você. É um relacionamento abus-

— Não! — Interrompeu. — Não é! Eu estou... colocando em prática minhas habilidades de psicóloga.

— Falta três meses para você se formar ainda. E é antiético, eu acho.

— Por favor. — Deslizou as mãos sobre os dedos longos da Haruno, antes de apertar com firmeza. — Eu estou bem, mas... estou testando algo e a pessoa envolvida concordou com isso, ok? — Um selinho foi depositado nos dedos, fazendo a dona deles arfar em surpresa. — Não posso te contar sobre isso, por enquanto."

Em poucos minutos, a lembrança retornou aos poucos, sendo reprisada como um teaser de filme.

Seis meses se passaram e Hinata estava namorando a sei lá, um ano? E ainda sim não sabia quem era o cara. Vivia sorrindo para o celular abobada trocando mensagens e parecia mais feliz, alegre, contente. Mas os livros que andava lendo eram suspeitos demais para concordar que seja um relacionamento saudável.

— É... não sou uma pessoa ruim Hinata, mas a confiança é a base de tudo e você não me oferece o suficiente para garantir que está bem.

Uma gritaria começou fazendo os ouvidos doerem. O trio de amigos ainda continuava ali, zorreando e bagunçando. Imaginou que depois do esporro de Sakura os três sairiam logo dalí. Se a Haruno estivesse prestando atenção igual ela, talvez começasse a gritar mais alto que eles, talvez.

— Não vou mais te encher, vamos logo, não quero ter de almoçar rápido e ter risco de indigestão.

No entanto, havia algo que Hinata não sabia. Quem quer que seja, faria pagar por a estar colocando nesta situação.

~ ** ~

Shadza, 23H47min. — Terremoto local ocorrido há um dia atrás.

— Obrigado, Uchiha. O senhor não sabe o quão bem-vinda sua ajuda é nesta situação. — Ashitaba segurava com ambas as mãos a direita — e única de carne e osso — de Sasuke. Os olhos escuros refletindo a luz da lanterna que insistia em falhar encaravam o jovem em sua frente. — É bom sempre vê-lo em situações assim.

— Hm. — Observou o local. Desde que chegou trazendo ajuda, outras duzentas pessoas foram encontradas e oitenta e nove continuam desaparecidas. Nenhum morto. Os entulhos dos prédios e casas continuam sendo retirados rapidamente, com o maior cuidado possível para que caso haja alguém, não tenha feridos.

Era assim desde o momento que completou seus dezoito anos e conquistou a legalidade de sair para onde quiser, quatorze anos atrás. Desde dezoito anos que Itachi fora acusado de homicídio culposo pela morte de seus pais e Terrorismo de Estado, mesmo que nunca tenha sido provado. Seu sobrenome manchado pela desgraça causada e tentava, a todo custo, limpar com suas ações beneficentes e humanitárias, viajando a qualquer lugar do mundo para realizar o mínimo que poderia fazer: ajudar e salvar.

— É, não agradeça. Onde está seu irmão, Komichi?

— Oh, já está á caminho do hospital. Não se preocupe. — Ashitaba sorriu, aliviado pela certeza de que a única pessoa de sua família ainda continuava vivo.

Um zumbido foi escutado. Sasuke olhou para o visor do celular e deu um mísero sorriso ao ler o nome que aparecia: "Hinata H." — Com licença, parece que esqueci de dar notícias hoje para alguém. — E saiu para uma área reservada.

Suspirou e atendeu o telefonema. — Oi, meu bem, como está?

Notas finais
a mimir, estoy cansadito
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.