Privacidade
1 Unique
Notas iniciais
– Rapunzel! – gritou Jack, Jack Frost, enquanto a loira entrava a passos duros pelo salão, que era uma área de lazer utilizada por todos os alunos de Edgar Phoenix, a escola onde os dois – Rapunzel e Jack — estudavam.
Todos viraram a cabeça para acompanhar mais uma das milhares de discussões do casal-que-não-era-casal. Elas eram repetitivas, de fato – “Você sabe que eu te amo, Punz” “Você é um galinha mimado. E eu te odeio Frost” – mas era sempre bom estar a par das discussões, pois elas seriam comentadas na hora seguinte.
E, bom, essa discussão, em especial, era esperada.
Uma garota morena resmungou e passou duas notas de cinco reais para uma garota loira. O caso é, Rapunzel finalmente havia aceitado sair com Jack – por isso a discussão era tão aguardada – e, a garota loira (uma desconhecida chamada Jane Lorasttes) havia apostado com a morena (outra desconhecida chamada Jeanine Bell) que Jack estragaria o encontro. Pelo jeito, Jane havia ganhado.
– Punz! – repetiu o moreno, se atrapalhando e tropeçando ao entrar pela porta. Ele continuou a andar, mesmo assim. Rapunzel se jogou no sofá do Salão, virando da cabeça para baixo (a cabeça no assento e as pernas para cima, encostadas nas costas do sofá) – Rapunzel, o que foi?
A loira não respondeu. Em seu rosto tinha uma horrível expressão de choro e ela cruzou os braços sobre o peito, como fazia quando ficava confusa.
– Punz, o que foi? – repetiu mais uma vez, levemente desesperado – Por que saiu daquele jeito?
Eles não pareciam se importar de que todos estavam ouvindo. Já haviam gritado tanto da intimidade dos mesmos nos corredores daquela escola em suas discussões que não tinham vergonha mais.
– Por que meu cérebro está em off – respondeu ela com a voz fraquinha, franzindo a testa, agora se abraçando como se estivesse com frio – E por que Rapunzel Corona odeia Jack Frost, não anda com ele, não olha para ele.
Ele estancou no lugar como se tivesse levado um soco na cara. Agora, com a voz tão fraca com que Rapunzel falou, ele voltou a perguntar:
– E então, por que Rapunzel Corona aceitou sair com Jack Frost?
Ouve um momento de silencio, em que nenhum dos dois parecia respirar. Instantaneamente, todos na sala não respiraram também, como se fosse uma falta de privacidade eles respirarem naquele momento.
Privacidade Pensou Rapunzel, emburrada, fazendo um bico irritado. Naquela confusão que estava consigo mesma, tudo estava a irritando a níveis extremos Como se o povo dessa escola soubesse o que é isso.
Por que quando ela aceitara sair com Jack Frost, em parte ela aceitara por que eles estavam sozinhos. Privacidade, uma vez na vida! – ...mero engano, em menos de dois minutos, Maxwell, um garoto extremamente fofoqueiro, havia espalhado pelos quatro cantos daquela escola em que os alunos não tinham nada o que fazer a não ser comentar sobre a vida pessoal dela que ela iria sair com ele.
Privacidade.
Essa palavra deveria ser um mantra para o pessoal da Edgar Phoenix. Privacidade. Ela mesma tinha seus mantras:
Ignore. Ignore. Ignore. Ignore. Ignore. Ignore.
Esse era um dos principais. Ignorar Jack Frost. Ignorar os comentários maliciosos de Merida, sua melhor amiga. Ignorar o jeito convicto com que Soluço, melhor amigo de Frost, dizia que ela deveria dar uma chance a Jack. Ignorar.
Eu dei uma chance a seu amiguinho, Soluço! gritou ela consigo mesma E olhe como eu estou agora, idiota!
Ela, definitivamente, não deveria ter aceitado o convite.
Ódio. Ódio. Ódio. Ódio. Ódio. Ódio. Ódio.
Esse era outro de seus mantras, que ela havia adquirido recentemente. Por que o que ela sentia para com Frost era ódio. Definitivamente era ódio. Aquele idiota, gravitando ao redor dela desde que ela pisara no colégio, a três anos atrás. Gritando que a amava, chamando para sair, pedindo uma misera chance.
Tinha que ser ódio.
Com todos aqueles pensamentos e memórias sendo despejados juntos em cima dela, Rapunzel gritou. Tão inesperadamente e tão forte que todos deram um pulo de surpresa. Menos Jack.
Menos ele.
Ah, mas como ela queria que ele tivesse levando um susto. Um susto grande como o de Chip Manchester tinha levado, por que Manchester caiu da cadeira.
Talvez, Jack tivesse caído no chão. Se ele caísse com muita força, talvez a cabeça batesse no chão e ele desmaiasse. Daí, ela teria ao menos duas horas para organizar os pensamentos, e achar alguma resposta coerente para tudo aquilo.
– Punz. – voltou a tentar o albino, a voz ainda fraquejando – Por que saiu daquele jeito?
Por quê? Por que? Ora, ela ia dizer-lhe o porquê! Por que ela havia aceitado aquele encontro com a expectativa que você fosse ser um babaca, um idiota por completo. E ela poderia voltar a ter certeza que o odiava, por que estava tendo duvidas sobre isso nos últimos dias. Mas você se comprovou mais babaca do que ela imaginava ao frustrar todas as expectativas e ser um cara divertido, legal, carismático e cavalheiro! Por que você simplesmente não a deixou esperando no restaurante, e não foi o idiota que ela sempre achou que você era? Por que você fez ela rir, por que raios ela havia se divertido naquele encontro?
Você é um completo babaca, Jack Frost!
Por que você a fizera perceber. Aquela revirada no estômago não era repulsa. Aquela vontade louca de gritar e mantê-lo longe não era ódio.
Amor reprimido.
Era isso que era, e ela já não era mais tão burra a ponto de negar para si mesma. Não naquela altura do campeonato.
Mas, frustrado por Rapunzel não dizer nada, Jack cansou. Cansou de esperar, e ele não estava só dizendo de agora, naquele momento. Por que ela não acreditava que naqueles dois anos em que ele dizia que estava apaixonado que ele estava dizendo a verdade?
Aquilo era frustrante.
E Jack teria desistido. Finalmente desistido. Ele estava dando meia-volta, lágrimas nos olhos, postura caída, mas ele estava desistindo. Ele aceitaria sair com Sophie Macmilan, uma morena bonita que vivia se jogando em cima dele, e esqueceria Punz.
Mas ela começou a responder.
– Por que – ele não se virou para ela, e nem ela se mexeu da posição em que estava. Todos estavam pendurados nas palavras dela, ansiosos. Jack tremia levemente – por que, hipoteticamente, uma garota aceita sair com um cara. Por que, esse cara é simplesmente o ser que ela mais odeia no universo, por que ele é um maldito irritante. Por que, hipoteticamente, se ela saísse com esse cara, ele seria um idiota que a decepcionaria e ela poderia ter provas e motivos para dizer que o odiava. Mas, hipoteticamente, o cara é um babaca perfeito, daqueles que você vê em filmes românticos açucarados que faz você rir, gosta das mesmas coisas que você, e quando não gosta discutem de uma forma amigável e divertida sobre isso. Ele te dá um presente e não força a barra. Então, mais hipoteticamente ainda, a garota descobre que a porcaria do ódio era só uma droga de amor reprimido, socado e colado nas pálpebras dela, mas que a garota não consegue ver. – ela respira profundamente. Tinha que terminar antes que perdesse a coragem – E então, imagina só a confusão que era para a garota, uma loucura, principalmente depois de tanto tempo gritando para quem quisesse e não quisesse ouvir que o odiava. Então a garota resolve fugir, por que simplesmente aquilo era demais para ela, tanto que ela endoideceu e está contando isso tudo para o garoto.
Rapunzel respira fundo mais uma vez, e, dando um impulso, ela se joga para a frente e senta nas costas do sofá. O que ela não esperava é que Jack estivesse ali, agora o rosto albino dele a centímetros de distancia do corado dela, um sorriso de canto nos lábios rosados dele.
– Tudo isso muito hipotético, é claro – afirmou ela, a voz quase em um sussurro. Ela podia ver, refletido nos olhos azuis cristalinos dele, que os olhos verde puro dela estavam arregalados.
– Hipoteticamente? – sussurrou a pergunta, se aproximando cada vez mais, os narizes se encostando.
Todos prenderam a respiração. Privacidade.
– Hipoteticamente. – ela respondeu.
E os dois se beijaram.
Gritos e aplausos de aprovação foram ouvidos, Merida e Soluço eram os que gritavam mais alto.
Era o primeiro beijo deles.
E todos já sabiam.
Privacidade?
Huh, que se dane. Rapunzel queria mesmo era que todos soubessem.
Ela amava Jack Frost.
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