Prisão de Gelo

5 Capítulo 5


Que você foi entregue a Khartyw. O Deus da Morte.

A frase da garota de franja ficou na minha cabeça muito tempo depois que ela se retirou do quarto. Não sabia muito sobre deuses ou religião, mas sabia que ser entregada a um Deus da Morte não era nada bom e pior ainda eu sentia que tinha coisa por de trás de tudo isso. A rapidez que meu pai quis me mandar pra cá, as últimas palavras de Victor e é claro a maneira como Sawuell me tratou. Se esse ritual era um tipo de “oferenda” a um deus, com certeza um pedido viria a seguir. Um pedido de Sawuell ao Deus da Morte? O que seria? Se fosse a volta da guerra e pegar o reino de Tripólis para si ele não falararia com Quetmetl? Isso tudo era muito estranho.
Sai da cama, chegará já o momento de conhecer o terreno do inimigo. Teria que tomar cuidado já que havia olhos por todo palácio. O primeiro lugar que eu devia ir pra encontrar as respostas seria a velha igreja daquele Sacerdote tinha notado a ponta dela quando chegávamos ao riacho, talvez ele tenha informações que eu preciso. Só que é claro não posso ir como Anastácia ele pode ser muito bem mais um dos vigias de Sawuell.
Eu tinha pouquíssimas pessoas de confiança, praticamente só duas a garota de franja que não se importava mesmo com as informações que passava , o que era estranho e eu sabia que o pagamento viria em um certo momento e Roz que foi meu cocheiro. Ia precisar da ajuda dele se quisesse sair do palácio.
Desci as escadarias que levavam ao meu quarto. Chegando ao salão principal vi algumas pessoas, nobres, pelas finas vestimentas. Os casacos típicos do clima, mantos e gorros. Os vestidos das mulheres eram de tecidos grossos, quentes e confortáveis. Eles comentavam alguma coisa com um funcionário que anotava, reconheci ser funcionário pelas suas vestes.Olhares se dirigiram a mim assim que cheguei.
— você deve ser a princesa de Tripólis, futura esposa de nosso amado príncipe... – respondeu um homem baixinho e ronchonchudo, com um grande bigode -.... sou Ernest um grande nobre responsável pelo abastecimento do castelo e da cidade... – vi o funcionário revirar os olhos -... estou encantado em conhecer a futura rainha... – beijou a minha mão junto a uma reverencia -.... essa é minha esposa Soraiah.
Não sei o que Ghropol tinha, todas as pessoas que conheci até hoje tinham a mesma expressão. Frieza. Talvez o clima cooperasse com isso.
— o prazer é todo meu de conhecer pessoas muito necessárias ao vosso reino. Um rei não vive sem seu povo. – disse os reverenciando. O olhar de Soraiah se aqueceu.
— “nosso” reino – completou Ernest – que Visnasau contemple seu caminho. Até mais ver Vossa Alteza.
Ao sair o casal, o funcionário se aproximou de mim:
— se me der permissão... – ao ver nenhuma resposta continuou -... Ernest é um dos nobres pequenos, faz parte do abastecimento do castelo, sim, mas só uma pequena parte. É um caloteiro, isso sim! Deve tomar cuidado com pessoas como ele, dizem que ele estava entre o atentado ao princi...
Ao ver o que estava pronto a dizer tapou a própria boca.
— que atentado?
— nada não, Vossa Alteza.
— fale, eu ordeno.
— a poucos anos atrás... – começou com uma voz baixa -... no festival de verão, tentaram contra a vida do príncipe Sawuell. Alguém tentou envenenar sua comida, Ernest era suspeito. Mas, pro favor, não fale ao príncipe que comentei isso.
— é claro não irei falar, obrigada ,pode ir.
Então alguém queria o fim de Sawuell. O povo não está tão contente com o príncipe de gelo existiam pessoas por ai querendo seu fim, possíveis aliadas? Quem sabe.
Acabei indo por um corredor que não conhecia encontrei alguns poucos criados enquanto passava. Cheguei no que seria os jardins já tudo no maior branco. Encontrei Roz mais ao longe cortando lenha.
— o que está fazendo? – perguntei me aproximando.
— estou ajudando os funcionários que estão lotados de serviço. A quantidade de neve esse ano está atrapalhado a vida de muitos – respondeu enquanto descia o machado – então não vejo porque não ajudá-los...
Olhei para ambos os lados vendo se havia alguém, estava só nós.
— Roz eu posso confiar em você?
— Aãn? É claro princesa – respondeu confuso. – eu prestei um juramento assim que fui acolhido por seu reino.
— quero que faça uma coisa pra mim. – aproximei-me de seu rosto.
— que horas princesa? – perguntou
— no entardecer.
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O ar estava pesado, o clima estava sufocante, alguma coisa estava errada. Um sacrifício, uma divida paga mais que traria severas consequências. A balança se desequilibrara.
— Ron meu filho, por favor, coloque a água para esquentar preciso de um chá de valeriana – sim, valeriana me faria ficar mais calmo. Pensaria melhor e tentaria entender o que foi que desequilibrou o universo.
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A forma que eu consegui me livrar das criadas e dos olhos de Loureis foi ao dizer que sendo hoje a décima terceira lua do mês eu precisava ficar sozinha com minhas orações, ela estranhou, mas logo concordou. Pelo jeito ambos os reinos não sabiam de suas culturas, foi uma mentira deslavada, concordo, mas se fizer eu conseguir sair agradeceria a qualquer divindade. A garota de franja logo viu minha mentira, ao passar por mim sussurrou:
— ala leste do corredor principal.
Então foi como eu descobri uma das saídas não vigiadas do castelo pra minha “segurança”. Coloquei roupas claras não muito chamativas, prendi meu cabelo e coloquei uma capa por cima. Consegui descer as escadas sorrateiramente não encontrei nenhuma pessoa, ao chegar no salão me dirigi escondidas pelas sombras pelo corredor leste. Seguindo reto cheguei a umas escadas, desci elas e só encontrei uma porta e notei que estava trancada. Já estava acostumada com isso graças minhas fugas do castelo. Retirei o grampo que prendia meu cabelo e o coloquei na fechadura, em questões de segundo escutei o satisfatório clique. A porta estava aberta ao passar fechei ela por dentro, precaução. Segui o corredor muito pouco iluminado, parecia uma saída de emergência a muito tempo usada, pois dava pra ver a sujeira e teias de aranha avistei em certo ponto escadas de metal que levava pra cima, subi e ao sair percebi que estava longe das muralhas que o circundavam. Encontrava-me afastada de algumas casas então ninguém percebeu uma mulher saindo do chão, fechei a passagem.
O ponto de encontro com Roz era na saída que se dava ao castelo e as casas dos nobres, eu estava um pouco longe. Caminhei até lá evitando qualquer contato com outras pessoas, mas ninguém mostrou interesse. Encontrei Roz encostado na muralha, um cavalo mastigava algo atrás dele.
— demorou em – comentou assim que me reconheceu – onde você foi parar? Achei quem nem viria.
— encontrei uma saída do castelo, mas me levou um pouco longe do que eu imaginava. Trouxe as coisas?
— sim, estão aqui – jogou uma trouxa em mim
— onde eu poderei me trocar?
— não trouxe carruagem pra não levantar pistas...
— Onde eu vou me trocar? – recitei cada palavra.
—err... bom, eu e a Leia... – falou dando um tapinha carinhosa na égua – podemos fazer parede.
— você está propondo que eu vá me despir no meio da rua, como uma qualquer?? – disse incrédula.
— é o que temos princesa. Não da pra ir a algum lugar, as pessoas podem não te reconhecer mais vão estranhar e estranhamentos geram boatos/fofocas e isso tudo cai aos ouvidos de Sawuell.... e eu sei bem que não é isso que você quer. – completou me olhando.
— tudo bem. Faça seu trabalho
Peguei a trouxa de roupa, era um vestido marrom simples, sem detalhes exóticos havia também um manto escuro e com alguns furos de traças, retirei meu próprio e o vesti. O tecido era bem mais fino que o meu, o que era de se esperar, sentia mais facilmente o frio.
Entreguei minhas roupas e ele guardou em uma bolsa que estava pendurada na égua. De repente Roz começa esfregar algo em meu rosto.
— o que você está fazendo? – perguntei me afastando.
— você agora é uma pobre camponesa. Os moradores mais pobres de Ghropol vivem perto das fábricas, sempre repletos de fuligem e também você está bonita demais pra uma simples camponesa.
Enrubesci. Provavelmente pelo frio.
— acho que já está bom – resmunguei.
Ele parou, ficou me olhando vendo se faltava algo, limpou as mãos na própria capa e montou na égua. Graças às aulas de equitação que eu fizera quando pequena não tive problemas pra montar, mesmo de vestido.
Seguimos em direção ao norte em um trote rápido.
— agora que eu já estou nesses teus planos, poderia me dizer o que quer falar com aquele velho sacerdote? – perguntou Roz por cima dos barulhos de cascos.
— só retirar algumas dúvidas....
— “só retirar algumas dúvidas”... e que dúvidas são essas que a princesa de Tripólis tem se vestir de camponesa pra tirá-las?
— nada que interesse a um simples cocheiro – disse irritada.
Senti ele se contrair, realmente burrice da minha parte esconder informações de umas das únicas pessoas que me ajudava, mas ainda não era momento.
Adentrávamos já a parte cobertas de árvores, muitas destas baixas, e seus galhos batiam em nós se não abaixássemos a tempo. Dava pra avistar a pequena igreja, tinha uma pintura descascada e uma parte do muro que a protegia já faltava um pedaço, tinha caído. Parecia uma igreja abandonada, não parecia que pessoas iriam lá pra prestar suas orações.
— acho melhor descer por aqui.... vou ficar esperando – disse rispidamente Roz.
Realmente o chateei, mas era só mais um problema. Desci e fui até a igrja, o caminho era péssimo e sujo, grama alto e capim. O meu vestido já estava cheio destes. Então eu aprendi uma lição pra vida toda “nunca julgue um livro pela capa”, a igreja em estado tão precário por foram era realmente linda por dentro, sua simplicidade era elegante.
Até o altar estava depositado vários bancos de madeira, direita e esquerda fazendo o centro como uma passagem. Chegando ao altar com alguns degraus havia uma grande estátua em seu centro, um homem com grande barba e cabelo apontando um dedo pra cima, deveria ser Tsukyom o Pai de Todos mais ao fundo se apresentava outras quatro estátuas fazendo uma meia lua. Os quatro deuses. As duas mulheres na ponta e os homens no centro, porém eram menores que a de Tsukyom. Ao chegar mais perto das estátuas vi que havia oferendas em seus pés, aproximei-me de Amestisah onde lindas flores estavam depostas no chão, queria ter trazido algo, mas não adiantaria nada.... principalmente se a Garota de Franja estivesse correta. Com esse pensamento olhei para estátua de Khartyw, não havia nada em seus pés, quem iria cultuar o Deus da Morte? O material branco onde foi entalhado devia combinar como ele era realmente eu podia jurar que sentia o gelo daqueles olhos semicerrados na estátua.
— olá minha filha, está perdida? – perguntou o Sacerdote se aproximando.
— não meu senhor, resolvi passar aqui e fazer umas orações....
— para Khartyw? – perguntou curioso.
— não, não.... – respondi afobada -.... eu só acabei percebendo que é o único que não tem oferendas, mas entendo
— entende mesmo? Acho que a fama de Deus da Morte não é muito benéfica – retrucou o senhor, ajoelhando-se e acendendo uma vela aos pés de Khartyw – antigamente havia muitas velas por aqui, um pedido pela iluminação dos entes querido.... era um Deus “misericordioso”, de fato.
— e o que aconteceu?
— distorceram sua imagem, o irritaram. E este inverno é a sua respostas
— não entendo
— nem tente, oremos que o sacrifício seja o suficiente para seus ânimos.... – respondeu voltando por onde saiu – o sacrifício da princesa de Tripólis.

Notas finais
Ps. As coisas vão esquentar nos próximos capítulos hihi