Prisão de Gato

41 Periódico do Komainu, Cais (Casa de Banho)


“(...) Talvez não sejas mistério,

todo o mundo sabe de ti e pertences

ao habitante menos misterioso,

talvez todos o acreditem,

todos se acreditem donos,

proprietários, tios

de gatos, companheiros,

colegas,

discípulos ou amigos

do seu gato.

Eu não.

Eu não subscrevo.

Eu não conheço ao gato. (...)”

— Ode ao Gato, de Pablo Neruda

Por muito tempo Morgan fingira ter nascido adulto, ao passo que só agora percebia o quanto não havia amadurecido de seus onze anos para cá. Sua mãe, quem mais prezava, era a culpada por seu mau crescimento, visto que nunca estivera presente o suficiente para criá-lo como um filho e, nos poucos momentos em que assumia suas obrigações como mãe, apenas mimava-o com livros e presentes que adquiriu em suas viagens, distraindo-o com contos e histórias fantásticas que, é claro, ele fingia não se importar. Era um adulto, afinal — ela dizia que era o “homenzinho da casa” e, por pouco que fosse, parecia o bastante para que continuasse com seu bom trabalho. Se ela desejava um adulto, ele seria o melhor que poderia ser.

Mas não foi. Tampouco chegou próximo de tornar-se um homem, muito pelo contrário, a distância e a solidão não permitiram que atingisse a maturidade maior do que a de um rato. Pobre, pobre rato. Morgan cresceu sozinho, mas nunca roubou para sobreviver como fizeram seus confrades e portanto nunca reconheceu a si mesmo como o lixo que era: vivia nas ruas, buscando nos móveis velhos da casa e tralhas jogadas fora um pedaço de história que o tornasse mais próximo dos humanos, ao mesmo tempo que levantou o nariz, fingindo importar-se com a posição social que fora lhe cedida; com os privilégios de um nobre, tentou encontrar um pouco de sentido em sua própria miséria e acreditou que a medicina seria sua salvação. Agarrou-se aos livros e as teorias como sua nova fonte de sobrevivência, não demorando mais de um ano para que toda a extensa biblioteca de sua mãe já estivesse sido estudada por completo, entretanto, como se a vida já não tivesse tirado-lhe demais, Morgan descobriu com a prática que não era um bom médico. Ainda que obtivesse conhecimento teórico e soubesse o que estava fazendo, não havia nenhum paciente que o aceitasse como seu doutor e, aos poucos que aceitavam seus cuidados, restava outro problema: a falta de prática o colocava em uma posição delicada, tanto que apenas desistiu de tentar em certo momento e procurou nos cadáveres dos cemitérios o conhecimento que lhe faltava.

Não funcionou. O olho que futuramente arrancaria de Bertruska era a prova viva de que havia falhado em suas técnicas, pois estava certo de que sua mãe seria capaz de salvá-la, de alguma forma. Teve sorte em não matá-la — durante todo o procedimento e principalmente nas longas horas que tentou em vão lidar com a febre que não dava trégua — e um médico nunca poderia contar com a sorte, tampouco estar constantemente dependendo do acaso, como ele o fazia. E ele sabia disso porque Yun e Franz sabiam, não porque constatara por si próprio. A capacidade deles o fizeram entender que não estavam no mesmo nível e, destarte, não poderia mais ser o que era sem colocar em risco a vida daqueles que amava.

“Amor”. De todos os sentimentos adultos que conhecia, esse era o único que nunca esteve em seu conhecimento, isto porque nunca lhe pareceu certo dedicar parte de sua vida para compreender algo tão irracional e inútil. Quer dizer, decerto leu o amor dos livros, mas Morgan nunca gostou de ficções, porque sentimentos retratados em romances lhe eram abstratos e impalpáveis demais, de maneira que preferia acreditar que nunca os conheceu, até, sem querer, esbarrar com Merin, que era a antítese de tudo, tudo que já havia estudado.

Morgan não poderia dizer que a amava, ao menos não da maneira que ela o ama, era certo que jamais conseguiria retribuir tal sentimento, tampouco sua intensidade, mas após tanto tempo a rejeitando — certo que, se o fizesse, não apenas seus conhecimentos, mas sua vida manteria-se sem alterações —, a convivência com o bando tornou-a um ser humano, tal qual qualquer outro que já tenha visto e, não apenas isso, mas ela se fez importante para si. Eram companheiros de embarcação, comiam juntos todos os dias e, ainda que os horários não batessem por vezes, estavam mais próximos do que jamais ficariam se não fosse aquele fatídico dia na praia, em que Merin tentou assassinar Flint.

O mero sibilo de seu nome lhe trazia um ar triste. Talvez Merin não o perdoasse se descobrisse a farsa que era, mas Flint sim. Flint perdoaria tudo.

Talvez como uma forma de punir-se pelo que era, tentou acreditar na leviandade desse perdão, entretanto havia passado noites em claro o suficiente conversando com o cozinheiro para reconhecer que, de fato, a indulgência fazia parte de seu caráter. Não que ele fosse o tipo de pessoa que aceitaria ser pisado — não era mais, pelo menos —, porém ele também não tinha nada contra aqueles que resolviam mudar e, principalmente, não martirizaria alguém que, por fim, decidira ser a versão mais autêntica de si próprio. Isso era quem Flint era e, por mais que o assustasse, sabia que nada iria mudar. Ele o perdoaria, não porque era um coitado, ou porque sentia pena, não; ele o perdoaria pelo simples fato de que eram amigos.

Nunca imaginou que encontraria alguém que poderia chamar de amigo, tampouco confiar em alguém e não esperar nada em troca; estava tão acostumado com os nobres de sua ilha natal e nas relações de fachada, mantidas por alguns favores e sempre com muita política envolvida, que jamais imaginaria que ganharia seu primeiro amigo depois de um cigarro amassado e outra tentativa de suicídio falha. Naquele início de noite, a vida sorriu para si pela primeira vez, tanto quanto Poyo sorriu para si quando trouxe aqueles coelhos para o terrível barco de Bertruska e, mais tarde, em outro dia, permitiu-lhe desbravar os mares junto à sua tripulação. Morgan nunca quis ser pirata, não antes daquilo é claro, mas depois de tanto tempo observando as pessoas de fora de seu casulo, ele não poderia mais negar que sua capitã era a pessoa mais fascinante que conhecera em toda sua vida.

Ela era má. Indubitavelmente má, de uma maneira que criança alguma deveria ser mesmo em sete vidas, mas isso não a tornava menos fascinante, muito pelo contrário e, se pudesse voltar atrás, diria a si mesmo para segui-la outras dez vezes se possível, porque ainda não vivera o suficiente com ela para desistir antes de tentar. Mesmo sem saber coisa alguma a respeito de liderança, tampouco conhecer os mares e os grandes desafios piratas, Poyo era a melhor no que fazia, era a grande capitã que os guiava para lugar algum; não havia pressão para que fossem bons ou para que fossem qualquer coisa, na verdade; quanto menos se apressassem, melhor. O sonho nunca foi a grandeza — ao menos era o que todos acreditavam piamente —, para os Gatos, a jornada era mais importante que a linha de chegada. Afinal, com o “não” já tinham saído da linha de partida; eram perdedores, sim, mas uma família.

“Família”. Até dizer era um pouco estranho — porque percebia agora que nunca tivera algo sequer parecido com o que tinha agora. Desde o princípio, era presunçoso assumir tudo que vivera como culpa de sua mãe, pois nem isso era sua. Talvez tivesse o parido um dia, talvez tivesse o sangue de um pirata qualquer correndo por suas veias agora, mas isso pouquíssimo importava, pois havia encontrado um caminho que podia chamar de “seu” e neste caminho já não havia mais nada que pudesse o remeter a ela. Havia deixado as certezas guardadas dentro de um baú qualquer da mansão Guinevere e agora, talvez um pouco mais adulto do que antes, preferia encarar as incertezas de ser um gato a retornar ao que um dia fora, um rato.

Decerto que sua força não era muita — algo que Bertruska costumava salientar com frequência — e, por um momento, chegou a arrepender-se de nunca ter levantado alguns pesos, mas depois de jogar tudo fora, a realidade lhe caiu sobre os ombros e, ao passo que Morgan finalmente se levantava do canto escuso do barco, ele finalmente compreendia que não poderia mais sobreviver às custas de seus companheiros: ele precisava da própria força para proteger quem mais prezava e, se para isso precisasse tomar no colo todos do barco e levá-los para onde quer que fosse seguro, ele faria sem pestanejar, pois precisava de cada um deles para, de fato, viver.

≈≈≈

Horas mais tarde, antes de Yun encontrar-se com Hanzo no corredor, enquanto seus companheiros de viagem conheciam a casa de banho e seu capitão dormia calmamente na mesa de chá do quarto designado, quando o notou distraído, Chris convocou o imediato a comparecer ao píer naquele exato minuto, onde um estranho pirata, que não sabia quem era, o esperava.

— Ele o chamou nominalmente, senhor — disse o mensageiro do hotel, a faceta despreocupada quase caindo do rosto ao ver as sobrancelhas do imediato se franzirem em total incerteza.

De pronto, Yun não soube recusar; apenas foi, caminhando sobre as maiores pernas de pau e, confirmando todos os seus maus pressentimentos, quando chegou no local estipulado, deparou-se com uma das piores visões que poderia imaginar: tratava-se de Morgan, o médico da tripulação dos Gatos, encharcado dos pés a cabeça de sangue e, com lágrimas nos olhos, ele implorava para que os ajudassem a entrar no hotel, pois a Carniça estava aos pedaços.

Não foi preciso muito para que Yun concordasse em ajudá-los. Com alguma conversa — e, principalmente, todas as joias de Morgan —, convenceu os funcionários a não só admiti-los, como também comprou seu silêncio, e então, envolvendo-se de vez naquela situação caótica, caminhou a passos apressados em direção a Carniça, arregaçando as mangas e tentando planejar o que viria a fazer, já que não poderia perder tempo e tampouco dar chance ao inimigo de encontrá-los. À seu comando, Sherikan e Nicholas estavam em seu encalço, escolhidos para ajudar com o que fosse necessário e, embora parecessem agir contrariados, visto que estavam cientes das barbáries que os gatos cometeram com outros piratas, toda e qualquer relutância foi vencida ao verem o estado da embarcação e seus tripulantes.

Os Gatos estavam arrasados. Ver Merin apoiada na carcaça do navio não foi algo fácil, mesmo que sua face mostrasse dor, ela não movia um músculo, respirando lento e fraco, como um animal selvagem. Morgan havia feito o possível e o impossível com as feridas para que ela pudesse navegar, mas ainda assim havia sido cortada do umbigo ao peito, assim como Flint, que Yun descobriria em alguns instantes jogado sobre o sofá da cozinha, ainda aberto, mas com uma imensa bandagem lhe cobrindo o tronco. Não teve tempo de transferi-lo de local; apenas deu a ordem para que Morgan, Sherikan e Nicholas carregassem aqueles que estavam em melhor estado para dentro da estalagem e, enquanto isso, com os equipamentos emprestados, tratou de iniciar os primeiros socorros do cozinheiro, que seguia estendido sobre o sofá, ainda desmaiado.

Yun já havia tratado muita coisa em sua vida, afinal convivera com Hanzo, que nunca se importara muito com a própria saúde — principalmente depois que Lennard se fora —, entretanto não poderia deixar de se sentir nauseado com o caso, afinal nunca havia tratado tantos pacientes de uma única vez e, sobretudo porque jamais deixaria de reconhecer o corte da espada que os atingiram. Era de uma katana de Wano — não tinha dúvidas. Um ferimento tão limpo quanto aquele não poderia ter sido causado por outra lâmina senão pelo fio preciso de uma arma tal qual a de seu capitão, uma das únicas pessoas que conhecia com aquele tipo de espada. Os outros dois eram Sherikan e… E, bem, a servente de Apricot, Izumi, que parecia a maior suspeita daquele caso. Isto é, nunca fora uma dúvida para o imediato que o contra-almirante trabalhava para si próprio e por isso jamais acendera de posição, mas enquanto Hanzo fechasse os olhos para o que quer que Apricot estava fazendo na Marinha, Yun também não poderia fazer nada para sair de seu caminho e, dessarte, continuavam volte e meia se encontrando e a suspeitas aumentando.

Da última vez em que se viram, ele já sabia sobre seu nome real. Isto por si só deveria ser um aviso de que, por debaixo dos panos, ele pesquisava sobre si como se soubesse que a recíproca também era verdadeira, mas Yun jamais havia se preocupado com isso, talvez porque a água nunca passara de seu tornozelo — até agora.

Apricot agia de maneira sorrateira, embora seus ataques não fossem nada bonitos e graças a isso era difícil calcular qual seria seu próximo passo. Ainda que seu desinteresse por Hanzo era bastante óbvio, não deixava de ser curioso que mantinha-se interessado na tripulação, sobretudo em seu imediato. A última reunião com a Marinha parecia ter sido suficientemente esclarecedora, mas somente agora Yun começara a enxergar o que estava diante de seus olhos: Apricot premeditou tudo. Talvez não soubesse a respeito dos gatos, mas certamente sabia que se voltariam contra Hanzo, por isso falou diretamente consigo tantas vezes, ele já imaginava quem seria o novo capitão.

Capitão… Pensar nesse título lhe causava ainda mais náuseas, por isso preferia concentrar-se em costurar. Nunca sonhara em ser corsário, como Hanzo insistia em mantê-los, mas capitão do próprio bando era algo que nunca lhe passara por sua cabeça, ao menos até poucos dias atrás, quando começara a flertar com a liderança devido as desavenças de seus companheiros com o capitão. Nisso, Yun e Apricot de muito se pareciam: sabiam de tudo que se passava pela embarcação antes mesmo que eles o fizessem.

Ele não sabe sobre os gatos, repetia a si mesmo como um mantra, ao mesmo tempo que as imagens junto dos pierrôs saltavam em sua mente, ele havia visto todas. Precisou de um segundo antes de retornar a costurar a ferida do cozinheiro, estava quase terminando e, mais do que nunca, encontrava-se apavorado. Se não eles, seriam os pierrôs os próximos? Não havia como saber e estava longe demais para que pudesse fazer algo por eles — isto é, mais do que já havia feito, entregando-os à Marinha —, sequer tinha o direito de preocupar-se. Apenas torcia para que estivessem vivos.

Suspirou alto.

— Espero que não seja eu o culpado dessa tristeza toda — a voz baixa o despertou, mesmo pálido e deitado sobre a maca, Flint o olhava com gentileza, oferecendo-lhe alento como se não fosse ele o paciente.

Um bolo formou-se em sua garganta e, ainda que tentasse evitar, lágrimas grossas insistiam em cair de seus olhos. — Desculpe, eu…

— Tudo bem — respondeu o cozinheiro, sorrindo pequeno. — Não é a primeira vez que um médico chora comigo na maca. Embora… — Ele tossiu, apoiando-se sobre os cotovelos — … esse não seja o consultório e…

— Por favor, fique deitado! — Yun pediu desesperadamente, secando as lágrimas com o indicador. — Eu… Ainda não terminei. — completou.

Sem outra escolha, Flint concordou com a cabeça, retornando à posição que estava anteriormente; preferiu obedecer ao médico, ainda que fosse ele o coitado sendo costurado, era Yun quem parecia estar precisando de uma vitória.

— Está tudo bem com você? — atreveu-se a perguntar, mas como recebeu um olhar enviesado em resposta, compreendeu de prontidão que ele não gostaria de ser incomodado.

Ficou ali, por ora, parado e observando, mesmo com a visão turva, os hábeis movimentos do médico, que fazia cada ponto com uma precisão assombrosa. Era notável que não estava nada bem e principalmente que não ficaria tão cedo, mas nenhuma palavra foi dita pelo outro, como era o esperado. Em vez disso, ficaram em silêncio mútuo, interrompido apenas pela respiração do cozinheiro, que quase suspirou em frustração ao perceber que, de fato, ele não lhe diria nada. Não que não se importasse com Yun, geralmente também escolheria o silêncio em situações como a que estava, entretanto aquele garoto parecia desesperado por uma abertura que Flint simplesmente não conseguia deixar passar.

Faltavam apenas dois pontos e poderiam ir, mas…

— Sabe, fomos companheiros de tripulação por menos de um dia e eu me sinto mais próximo a você do que meu próprio capitão — confessou Yun, de repente, um sorriso ladino escapando de seus lábios ao finalizar seu trabalho. — Acho que não estaríamos tão mal, se você tivesse nos acompanhado, afinal. — E riu com a expressão melancólica, como se o peso do mundo estivesse sobre suas costas.

Flint não soube como responder. Não havia convivido o suficiente com Hanzo, mas o pouco que vira havia o desagradado bastante, por isso não conseguia imaginar alguém como Yun — que, além de parecer honesto, era uma companhia agradável —, suportar viver sob a vigilância constante de alguém que não merecia o título de mestre. Sentia-se nauseado.

— Obrigado — disse ao se recuperar, fechando os olhos por um momento por conta da tontura. — Onde estão os outros? — perguntou.

— Escondidos — Yun respondeu. — Morgan os levou para onde é seguro. Onde você também deverá ir, aliás.

— E onde estamos agora?

— Shanchá. É um retiro da Marinha.

Num sobressalto, Flint ergueu-se, arregalando os olhos. Quis perguntar se haviam sido apanhados, perguntar o que havia acontecido depois que a subordinada de Apricot havia o derrubado, mas como se pressentisse suas perguntas, Yun acabou por tomar a dianteira antes que pudesse dizer qualquer coisa.

— Fique deitado — repetiu o comando. — Eles estão bem. Foram transportados em segurança e agora estão escondidos, como eu disse. Acalme-se.

Dizer para se acalmar era meramente uma gentileza, uma vez que não haviam motivos para que nenhum deles ficassem calmos, contudo Yun não ganharia nada por transtornar os pensamentos do cozinheiro, muito pelo contrário, talvez não sobrasse tempo para costurá-lo uma segunda vez.

— Desculpe pelo transtorno — respondeu Flint, com a respiração voltando a velocidade normal. Parecia pensativo.

— Está tudo bem — disse Yun, mais para si mesmo do que para o cozinheiro. — Isto é, vai ficar tudo bem. Você só precisa se recuperar.

— Eu posso ir sozinho até os outros.

— Não, descanse aqui até que alguém possa vir ajudá-lo. Pedirei para que Fang lhe busque o quanto antes e, enquanto isso, tratarei dos demais.

Flint não pôde negar que sentia-se contrariado com aquele comando, mas não disse e, em vez disso, apenas concordou com a cabeça, analisando o semblante lívido do médico ao retornar ao trabalho. Quando ele estava indo embora, contudo, ele não conseguiu se segurar e chamou:

— Yun.

O médico congelou.

— Eu… Eu não me importaria de tê-lo seguido, se as circunstâncias fossem outras. — Deixou sair um longo suspiro. — Ter você como capitão seria um refresco para o que vivo, não tenha dúvidas disso. Mas eu nunca deixaria de seguir Poyo. Nem por você, e nem por ninguém.

O tempo parou por um instante e... Yun riu. Riu, porque não havia outra coisa a ser feita naquela hora senão rir. Rir da desgraça.

— Obrigado — disse. — Eu precisava ouvir isso.

E foi-se.

≈≈≈

A pressa é inimiga da perfeição, mas Yun não poderia se dar o luxo de se atrasar nem por um segundo e, sabendo que Morgan estava vigiando Merin — a maior enferma depois de Flint — e a estranha garotinha de cabelos ruivos que o seguia, não pensou duas vezes antes de tomar o elevador para o último andar da estalagem, onde haviam se hospedado e também escondido Belka, Bertruska e Poyo. Era fato que havia muito a ser feito, principalmente no que dizia respeito a capitã e a ex-marinheira, entretanto Yun não poderia imaginar que, ao abrir a porta, encontraria-se com sua última preocupação do momento: Hanzo, agora devidamente acordado, estava esperando-o com o semblante sério.

— Kaze — ele o cumprimentou, aceno este que jamais seria retribuído, pois naquele instante o sangue de Yun havia ido aos pés. Sua primeira reação foi tentar sair dali.

Mas Hanzo não permitiu que andasse. — Isso é sangue em suas mãos? — perguntou, inquisitivo e de olhos sagazes como os de uma ave.

Yun tentou desconversar, e por partes até conseguiu, porque não muitas palavras depois, seu capitão já estava partindo rumo ao acesso do elevador, mas junto de si, ele bem sabia, Hanzo levava a desconfiança de que algo bem abaixo de seu nariz estava errado. E ele iria investigar. Yun sabia que ele iria investigar. Mas tudo bem, disse a si mesmo. Por ora, precisava correr o risco.

Dentre todos os gatos que havia sido incubido de tratar, Belka era quem parecia mais derrotada. Sem qualquer machucado, não conseguia compreender o que havia desencadeado aquela reação, ou a falta dela: a imediata, que lembrava ter uma personalidade ácida e sempre algum comentário a ser feito, parecia completamente alheia ao estado da própria tripulação — ou apenas não estava dando a mínima — e tamanha era sua apatia que a delicada situação da capitã não parecia comovê-la de forma alguma. Poyo era a segunda pior entre as três, embora não tenha sido atingida pela arma. Ainda desacordada, seu rosto, antes tão redondinho e jovial, agora parecia um saco de pancadas, certamente vítima do sadismo de Apricot, que nunca escondera o fato de gostar de torturas psicológicas e, aparentemente, de físicas também. O que Yun não esperava, contudo, era que a capitãzinha não estava completamente avulsa ao que acontecia em seus arredores e, quando se aproximou, ela abriu os olhos com dificuldade, as orbes pulsando em vermelho vívido e se umedecendo ao vê-lo se aproximar.

E-eu… — ela gaguejou, e isso foi o bastante para que Belka, inerte, olhasse-os de soslaio. — Foi minha culpa… — gemeu. — Eu perdi o guardanapo…

Yun sentiu o estômago apertar. Seja lá o que Poyo estava falando, certamente não era justo que uma criança tivesse tanta culpa em seus olhos, não conseguia esquecer quem ela era, contudo isso não parecia o bastante para que desejasse seu sofrimento. No mesmo instante, sua mente lhe trouxe Pieri, lutando contra Hanzo desarmada, disposta a salvar a capitã dos gatos sem receber nada em troca.

Onde estão os outros? — murmurou. Como Flint, aquela parecia a única pergunta que importava de alguma forma.

E foi aí que compreendeu: aquela era a pirataria. Sobretudo para as almas corrompidas, haveriam aliados dispostos a lhes estender a mão. Fariam guerra e pilhagem, matariam quem fosse necessário, mas não desbravariam o oceano sozinhos.

— Estão mortos, pirralha — disse Belka, ácida. Então Poyo olhou-o chorosa.

— Estão vivos — Yun corrigiu de pronto, franzindo a sobrancelha para a imediata enquanto a medicava. A última coisa que Poyo precisava era mais culpa sobre seus ombros.

Os gatos haviam dado sorte, os medicamentos que haviam sido salvos do último surto de Hanzo pareciam o suficiente. Por outro lado, sua consciência não lhe deixava tranquilo, ainda mais sabendo que poderia fazer muito melhor se tivesse o equipamento adequado em mãos, ou alguma ajuda adequada.

Aliados. Precisava de aliados e a situação em que eles estavam só evidenciava o fato, hoje era o doutor, mas as mudanças estavam por vir — muito mais rápidas do que jamais desejara — e não poderia arriscar seus companheiros dessa maneira. Não como aquelas crianças faziam, ao menos.

— Não se preocupe com isso agora — disse Yun, abrindo um sorriso pequeno. — Você precisa se concentrar em ficar boa para voltar ao mar.

Em resposta, a gata riu, audível. — Pare de mimar a garota, ela tem que saber o que fez! Ela que trouxe aquele psicopata ao nosso encalço!

Foi sem querer… — resmungou. — A mamãe me disse que Apricot estava morto, muito antes de eu fugir.

— Pois então o diabo voltou da tumba, pirralha. E fodeu a gente. Fodeu com todos nós.

Mais uma vez, Poyo pareceu que iria começar a chorar. — Me desculpa… — pediu, sem coragem de olhá-la nos olhos. Belka, por sua vez, pareceu que diria algo, mas antes que o fizesse, Bertruska, que sequer parecia acordada, intrometeu-se com um grito alto:

— Cala a boca, Belka! Deixa o doutor trabalhar em paz!

A gata rosnou baixinho, como um animal selvagem, revirando os olhos e parecendo formular o próximo comentário desagradável.

— E o que pretende fazer contra mim? — indagou pretensiosamente. — Está toda enfaixada. Aposto que continua com a bala na sua coxa.

Yun falhou em não arregalar os olhos, de tudo que havia visto até então, a reação da imediata não era nada semelhante a de nenhum de seus companheiros. Não era humana. Suspirou baixo, aproximando-se de Bertruska e iniciando a medicação, não poderia permitir que ela se levantasse daquele sofá, independente do quanto a gatuna merecesse.

— Se está tão desesperada, vá embora.

— E para onde eu iria? Vocês foderam tudo. Fomos encontrados. Tem noção de onde estamos agora? Sabe quem está tratando vocês?

Yun não ousou se meter na conversa, mas tamanho era o incômodo que sentia, que permitiu-se apertar a palma de sua mão com as unhas, segurando-se a força para não dizer nada.

— Preferia ficar à deriva com nossos corpos no oceano? — questionou, por mais que todos ali já soubessem a resposta. — E lave a boca antes de falar do Yun, nós sequer merecemos que ele se arriscasse por nós. Está traindo o próprio bando para nos ajudar.

Yun já havia ponderado sobre traição por mais vezes do que se orgulhava, mas ouvir dos outros era a primeira vez. Sentiu o peito apertar e um enjôo tomar seu estômago. Hanzo merecia isso?, perguntou-se, e a única resposta que encontrou em seu coração era que não, não merecia — mas faria o que precisava fazer.

— Vocês acham que esse almofadinha se importa conosco? — As palavras de Belka pareciam conter veneno.

E de fato não haveria vergonha em dizer que não se importava, afinal não passavam de estranhos-conhecidos ou, na pior das hipóteses, rivais: cães e gatos, inimigos naturais mais uma vez postos um contra o outro, mas Yun não soube lidar com a culpa. Nunca se considerou um herói, então por que, em dado momento, deveria simplesmente aceitar entregar seus próprios aliados em troca do reconhecimento do governo? Havia traído os pierrôs e com essa culpa não sabia lidar. Talvez por isso abraçou os gatos, ou apenas desejou ir contra as ordens de Hanzo, não saberia dizer. Porém, aos gatos ainda não chegara ao conhecimento o que haviam feito: eles ainda não sabiam que haviam sido entregues à Marinha.

Rebeldia ou culpa, de nada adiantava definir. As linhas do destino mudavam-se a cada instante e não havia nenhuma delas em que teria feito diferente.

— Mais que você, com toda certeza — Bertruska a respondeu, ríspida. — Estamos bem o bastante sem você.

— Então me mate agora — Sua feição era severa. — Vagabunda.

Se estivessem em uma outra situação, talvez em uma realidade onde nunca tivessem se conhecido, a ex-marinheira não pensaria duas vezes em livrar o mundo de alguém como aquela Belka, entretanto as coisas não eram tão simples e jamais poderia apagar o que viveram, tampouco o que ela própria havia se tornado.

Nada fez. Apenas continuou ali, parada, sentindo os olhos marejarem e a dor no peito crescer, afinal sabia que nada daquilo poderia se resolver mais. Belka estava quebrada — todos sabiam e ninguém poderia consertá-la, mas, mesmo assim, havia alguém que não conseguia acreditar.

Por favor… — De repente, a garotinha gemeu. — Não briguem mais.

Poyo.

Yun — chamou a garota, baixinho.

O médico engoliu em seco: até então, mesmo que citado na conversa, em nenhum momento haviam dirigido-se diretamente a si e, como se não estivesse no quarto, permanecera calado até dado momento, quando Poyo direcionava-se apenas a si.

Salve elas — pediu, a voz fraca e quase sem som de uma criança; sem a maldade que havia outrora.

Ela estava sendo sincera com aquele pedido, Yun pensou. E, aturdido, não soube o que fazer senão anuir sutilmente, firmando uma promessa que não sabia se poderia cumprir, mas que agora custava-lhe a vida.

Faria de tudo para ajudá-las, não importava o que lhe custasse.

≈≈≈

Hanzo desceu o elevador como se o peso do mundo estivesse sobre suas costas. Não costumava dormir, principalmente no meio do dia — considerava um péssimo hábito e, sobretudo, uma perda de tempo — contudo, após todos os acontecimentos dos últimos dias, lhe pareceu justo permitir-se descansar no instante que seu corpo desejou.

E que grande erro foi esse. Decerto que não poderia imaginar que algumas horas de sono seriam o bastante para desestruturar completamente o que a meses vinha construindo, todavia era o que havia acontecido e o sabor da traição era tão amargo que parecia lhe corroer o estômago.

KazeO que faria com esse garoto?

Não importava mais. Não quando estava defronte à pequena caravela dos Gatos, aportada diretamente embaixo de seu nariz.

Não foi preciso genialidade para ligar os pontos e, ao ver Flint desembarcar ferido ao lado de Morgan e mais uma garotinha, Hanzo soube imediatamente a quem pertencia todo o sangue que estampava as vestes de Kaze e já havia formado toda a narrativa em sua cabeça, sentindo as veias pulsarem. O desespero era tamanho que sentia as mãos tremerem de raiva, precisava encontrar o caracol comunicador que o conectaria com Apricot.

Correu sem ser visto, partindo em direção ao Sol Nascente e depois para sua cabine, onde se trancou e tomou o telefone. Logo, a voz de Apricot soou entediada em seu ouvido.

“Por que está me ligando tão cedo? Ainda estou cansado da sua cara”, disse ele.

— Os gatos, eles estão aqui! — afirmou, sem qualquer rodeio. Já sabia como eram as coisas com o jovem capitão.

O silêncio se fez; talvez, do outro lado, Apricot tivesse se afogado com o próprio veneno, contudo não havia ninguém que pudesse confirmar.

“Se isso for uma mentira…”, ele disse.

— O navio está atracado, não deixarei que fujam. — Novamente, não deu espaço para questionamentos, afinal já havia os visto e mesmo assim não fizera nada quanto a isso.

“Faça isso. Aparecemos, ainda hoje”, anunciou, antes tão jocoso, agora parecia sombrio, o que Hanzo imaginou se tratar da vontade de findar a jornada dos gatos com a justiça.

Entretanto, a situação do outro lado do oceano era completamente diferente. O marinheiro, após desligar a ligação, cerrava os punhos e tencionava a mandíbula como um animal raivoso, aquilo definitivamente não estava em seus planos; a princípio, apenas imaginou que morreriam no oceano, como presas fáceis que eram, porém o que verdadeiramente desejava, era que retornassem.

Vingativos.

Após anos de fuga e com o único objetivo de derrotá-lo. Não era um marinheiro dos mais fortes, tampouco seria promovido em algum momento, logo poderia se dar ao luxo de criar seus próprios inimigos, não é mesmo? Um bando de piratas carniceiros pareceu-lhe um ótimo brinquedinho e a situação tornou-se ainda mais instigante quando descobriu, nada mais, nada menos, que sua irmãzinha respondia como capitã daquela pocilga.

Poderiam se divertir tanto! Protagonizar uma imensa caçada do qual as grandes mídias jamais ficariam sabendo, pois ninguém se importava com o lado do oceano que ele cuidava. Mas agora, graças a Hanzo, nos próximos dias haveriam jornais e curiosos o procurando, querendo descobrir “Como o capitão Apricot prendeu os gatos arruaceiros?" e a resposta: ele não fez porque quis.

Contudo, Hanzo jamais saberia disso. Tampouco a ideia ousaria passar por sua mente, pois, ainda que não concordasse com os métodos de Apricot, mesmo em seus momentos mais sombrios, nunca duvidou da justiça e aspirava a seus subordinados que seguissem o mesmo caminho do estimado marinheiro quando não estivesse mais presente para orientá-los. Isto posto, quando o silêncio mórbido quebrou a ligação, para o corsário, aquilo representava apenas uma coisa: que havia realizado seu trabalho.

E, no entanto, a constatação que a busca pelos inimigos de fato chegara ao fim não teve o impacto esperado pelo capitão (se é que poderia continuar se chamando assim por muito tempo). Assim como no dia em que Pieri destruiu seus objetivos, ao ouvir os bips do telefone, agora o encarava com um olhar perdido e um bolo se formando na garganta. Desejava gritar. Tão forte e alto que seus pulmões poderiam explodir, ao passo que após os gritos, desejaria gargalhar por horas e mais horas.

Conquistar seus objetivos não era mais o suficiente. Não havia nenhuma alegria em seu coração, sequer um pedaço de orgulho restante por mais uma captura realizada sem intercorrências; se pensasse bem, estava aos poucos retornando ao que havia sido. Pouco a pouco retornando as origens e deixando para trás o homem que se tornara na Grand Line.

Estava cada vez mais próximo do bushido, contudo mais distante de si próprio.

A vida mundana, os bares, as noites observando as estrelas e todos os beijos que trocara com Lennard, tudo aquilo que o tornava fraco, agora parecia exatamente o que precisava para voltar a viver. Não. Poderia viver sem todas essas coisas, contudo mesmo que tentasse se enganar por mil anos, continuaria mentindo para si mesmo, pois precisava disso para sentir-se vivo.

De nada adiantava caminhar como um saco de carne, sem sequer uma emoção que valesse a pena. A vida não tinha sabor há muito tempo, mas agora aquele sentimento tão podre — e estupidamente delicioso — de vingança lhe acordava do transe, trazendo-lhe de volta o que só poderia definir como “amor”.

Talvez, após entregar os gatos, voltasse a sentir algo. Acreditaria até o último instante que aquele seria o caminho para encontrar-se novamente, fosse pelo bushido, ou por aqueles que deixou em seu passado. Seria sólido, como uma rocha. Por si e por quem estivesse ao seu lado, se é que restava alguém disposto a segui-lo.

O Sol nascia todas as manhãs e, se fosse necessário, Hanzo renasceria também.

≈≈≈

Embora tivesse terminado seus afazeres e estabilizado a situação de todos os gatos, algo não parecia certo. Isto é, tirando o fato de estar ajudando os inimigos declarados de sua tripulação, Yun sentia um arrepio estranho em sua nuca e, sobretudo, uma inquietação insuportável. O pior já havia acontecido, Hanzo estava ciente da presença dos gatos e não restava maneiras de escondê-los, porém ele não fez nada. O conhecia a muito tempo para simplesmente acreditar que ele esperaria de braços cruzados até que cada um dos piratas estivesse saudável para, somente então, fazer a justiça com as próprias mãos; já havia dado fim a inimigos infinitamente mais miseráveis que os gatos.

Misericórdia não era uma opção. Logo, restava apenas a mais óbvia (e mais assustadora), a Marinha estava chegando.

Sabia da existência do caracol guardado por ele em meio a suas poucas coisas e, ainda que sob o olhar preocupado de Sherikan — que a pouco retornara dos aposentos do homem, sequer sendo notado por ele —, cabia Yun a desagradável missão de informar aos gatos que eles estavam mortos.

Era isso. De médico a coveiro em poucos instantes, pois aos gatos não lhes fora dado o direito de lutar. Estavam mortos. Respiravam em frente a si, cabisbaixos, mas tudo que Yun conseguia enxergar eram suas covas e a responsabilidade por suas vidas caindo diretamente em suas costas.

Não queria falhar. Era sua primeira empreitada como algo além de um simples médico, contudo sentia-se tão perdido quanto um recém-nascido.

— O que faremos? — Sherikan sussurrou em seu ouvido. Dentre todos os cães, permitiu apenas que ele o acompanhasse nessa missão; os outros estavam ao seu lado, certamente, porém não poderia expor mais do que um deles em sua própria revolta.

Quando a cobrança chegasse em sua porta, diria a todos que ameaçou o espadachim e receberia a punição de amotinado sozinho.

— Junte suas coisas e tire-as daqui — respondeu, sem o tom de incerteza que normalmente lhe caberia, ainda que seu coração não estivesse no lugar.

Yun não tinha um plano, mas sabia que não poderiam ficar parados. O primeiro passo precisava ser dado e, se isso significava que precisaria ficar para trás com os feridos enquanto seus tripulantes fugiam, faria-o sem medo.

Foi quando, por mais absurda que fosse, percebeu que tivera uma ideia.

— Para onde? — perguntou novamente Sherikan, já que da primeira vez, Yun não parecera ouvir.

Por sua vez, o médico respirou fundo, sentindo sua cabeça inteira doer.

— Pegue suas coisas e suma com elas — repetiu. — E traga Fang até mim antes disso.

Os custos seriam ainda maiores do que o esperado.

≈≈≈

Não demorou para que o circo estivesse montado e, como prometido, os trabalhadores do hotel passeavam como fantasmas diante deles, ignorando por completo as movimentações que se formavam. Yun sabia que precisaria tirá-los dali o quanto antes, porém pensaria nisso quando chegasse a hora; por enquanto, ainda dentro da pousada, confiava em Nicholas e Hide como seus informantes, sorrateiros e atentos para qualquer movimentação estranha, ao mesmo tempo que comandava Sherikan para mover os gatos em direção ao cais leste, aguardando que Fang finalizasse a primeira parte de seu plano: movimentar a carniça de lugar — ter um homem-peixe em seu bando nunca lhe pareceu tão útil quanto naquele momento. Afinal, se não fosse por ele, jamais poderiam movimentar aquele navio em um dia sem a presença de sequer uma brisa.

Sua intuição gritava que a fuga seria possível apenas pela outra passagem e na situação onde estava, não havia nada além de sua intuição em que pudesse confiar. A embarcação dos gatos permaneceria intacta, não em seu melhor estado, mas velejaria sem problemas até que chegassem em uma ilha e desaparecessem do mapa.

Eles desapareceriam após a ajuda, certo?, questionou-se em silêncio, assustado com a ideia de alguns deles retornarem aos mares. Ainda que fracos, seriam extremamente perigosos no dia que descobrissem o próprio potencial; Yun nunca soube de uma tripulação que sobrevivera a um ataque direto de Apricot. Eles foram os primeiros.

Apricot nunca foi misericordioso e muito menos era fraco o bastante para tê-los apenas machucados. Quer dizer, era um contra-almirante, afinal. Um respeitável marinheiro que, quando ataca, mata em nome da bandeira branca, manchando de sangue as vestes para que os civis não tenham de se sujar. Não haviam sobreviventes de seus ataques e ninguém ousaria contestar suas ações.

Em sua juventude, conquistou a primeira parte da Grand Line, silenciosamente e, em meios aos próprios silêncios, construiu um império de medo que se estendia por muitas e muitas léguas marítimas. Era admirável, um ninguém saído do longínquo East Blue crescer sem o auxílio de degraus de família ou contatos, eventualmente chegando ao topo da cadeia alimentar sozinho, mas as vitórias de Apricot só eram possíveis pois não havia sequer um indivíduo relevante no governo que se importasse com aquelas pessoas; fossem civis, piratas ou marinheiros. Nada daquilo era relevante. Haviam peixes grandes demais nos mares para serem caçados e, sobretudo, controlados, permitindo assim que seus fantoches de pequenos cargos sentirem-se donos de seus próprios feudos, criando regras e determinando por onde poderiam caminhar.

Yun não demorou a perceber como funcionava esse mundo e ainda era adolescente quando as regras do jogo foram postas à mesa e silenciosamente observava Hanzo acatá-las, sem nunca questionar. Por muito tempo acreditou que o mundo permaneceria assim para sempre, pois era seu dever continuar ao lado de Hanzo, seguindo a promessa de que permaneceria ali até que sua dívida fosse paga independente de quanto tempo lhe custasse, mas agora que havia rompido o trato, exatamente no momento em que cortara seus cabelos e se livrara dos fios de ignorância que cobriam seus olhos, não compreendia mais como suportou em silêncio por tanto tempo.

A hipocrisia cortava-lhe a garganta, todavia não havia nada mais sufocante que a iminência da presença de Apricot; embora desejasse redimir-se pelo tempo em que cobriu os próprios olhos e cortar seu pescoço com a mesma cimitarra que por tantas vezes ele lhe apontara, sabia que agora não era o momento para lutar contra o governo. Havia muito a ser perdido e, sobretudo, não havia nada mais importante que a segurança dos seus.

Estava disposto a salvar os gatos, de fato estava, contanto que nenhuma cabeça além da sua sofresse qualquer consequência.

Ao observar o serviço finalizado de Fang, não demorou alguns minutos para que coordenasse todos os cães a retornarem ao hotel e, até as próximas ordens, não deixassem seus quartos. Alertou que todas as malas deveriam estar prontas e, ao chamar, iriam embora, com ou sem Hanzo.

Então partiu em direção ao cais leste, encontrando-se com os gatos, tão perdidos quanto recém-nascidos e, ainda que lesionados, forçando-se a mostrar-se forte diante da aura mal agouro que os encobria. Yun percebeu que já não havia muito o que pudesse fazer por aqueles indivíduos, por mais que desejasse ser forte o suficiente para salvá-los apenas por mais um dia.

O destino era incerto, por mais que sua mente caminhasse por planos mirabolantes e ideias tão absurdas que mal podia reconhecer a si mesmo naquele momento. Seriam estes os delírios de um capitão?, perguntava-se. Porém, já não restava brechas para a insegurança e torceria para que no fim daquela jornada, pudesse mandar uma longa carta a Franz contando ao médico sobre o dia onde os cães salvaram um punhado de gatos de rua. Era hora de comunicar-lhes o seu plano.

— A partir de agora, vocês estão mortos — ditou, irredutível. — No momento em que deixarem essa ilha, morreram.

Ninguém o respondeu.

— Mudem seus nomes, rostos e tudo que conhecem sobre si mesmos. Fujam para o canto mais distante desses mares e abandonem o que tinham por aqui — O que não era muito, mas não seria Yun a apontar esse fato.

Novamente, o silêncio os acompanhava, fazendo o cão acreditar que suas palavras seriam seguidas.

— Se eu souber de vocês, já estão errados. Sumam para sempre. — De preferência, da minha vida, Yun completou para si próprio. — Ninguém devera lembrar que existiram. Nem mesmo vocês.

E Yun estava correto, em cada palavra que era dita, entretanto para alguns dos gatos o sabor do esquecimento era amargo demais para que pudessem admitir a derrota, sobretudo para a capitã, que mesmo agora soluçava baixinho, segurando o cabo de sua arma.

Se não fosse capitã, o que lhe restava? Não haveria mais nada no mundo que a separasse da menina que vivia na roça.

— Não posso pedir que se separem, isso não é da minha conta, apesar de ser o caminho mais seguro — suspirou baixinho. — Apenas usem essa oportunidade para permanecerem vivos. Continuar nos mares seria suícidio.

O silêncio sepulcral continuou por mais alguns instantes, Poyo encarando os demais piratas, que não pareciam mover um músculo ao ouvir as palavras do capitão. Foi quando ela deu um passo a frente.

— Tó, para você — resmungou Poyo, caminhando em passos lentos em direção a Yun e oferecendo-lhe sua pistola, aquela que havia ganhado de Flint na primeira ilha em que exploraram na Grand Line. — De capitã para capitão.

O médico segurou a arma entre as mãos, sentindo uma estranha sensação ao tê-la ali; não estava habituado a usar armas de fogo e sequer sabia como manusear uma corretamente, entretanto não poderia negar aquele presente, não quando os olhos chorosos de Poyo o encaravam com tanto vigor.

— Muito obrigado — respondeu simples, guardando o objeto entre suas vestes.

— Joguem as armas no chão — mandou Poyo, dando um alto soluço e encarando os seus tripulantes pela última vez.

Os gatos se entreolharam por um momento, porém não titubearam em seguir o que havia sido dito pela garotinha e assim, uma a uma, foram deixadas aos chão; todas as armas conquistadas em suas poucas (porém não menos intensas) batalhas, até que não restasse mais nada em seus bolsos e cintos. Havia chegado ao fim.

Yun permaneceu em silêncio, não cabia a ele interferir no momento em que uma capitã dirige suas últimas ordens.