Prisão de Gato

31 Grand Line, Píer de Woo Pululu (Jogos Piráticos)


Notas iniciais
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Antes certo de que estava com toda a situação sob seu controle, Hanzo não pôde evitar de sentir seu coração disparar ao notar nos olhos de Poyo uma perversidade que não cabia em seu diminuto tamanho. Agora, com o chapéu novo em sua cabeça, a garotinha ergueu o nariz como um passarinho empinando o bico, e por fim saiu saltitante em direção aos seus tripulantes mais próximos, Morgan e Merin, esnobando-se por ser, finalmente, a capitã que sempre sonhara. Pieri olhou para Shari com desagrado, colocando a mão sobre a testa e balançando a cabeça negativamente.

Como eu ia dizendo, eu não terminei ainda — ela murmurou a si mesma, sem receber qualquer atenção da capitãzinha, que continuava mostrando a peça para o médico e navegadora. A pierrô sentiu um dos olhos tilintar em desagrado: a ofendia pessoalmente ter uma de suas obras de arte expostas antes de estarem em seu melhor estado, era como se exibissem sua criança antes mesmo dela nascer.

— Acho que a Capitã-palhaça quer te dizer algo, Poyo — disse Morgan, apontando para Pieri, que batia o pé como um coelho impaciente.

Deixe ela, hya. Posso terminar depois — contraviu, e o médico pôde jurar que o olho pulsante da pierrô estava prestes a explodir para fora, de tanto que ela forçou a pálpebra quando viu Poyo sair correndo para fora da tenda. Afinal, não queria que fosse embora, pensou ele. — De qualquer forma, — Pieri respirou fundo. — Eu fico feliz que vocês dois tenham se resolvido. Nenhum de vocês parecia muito bem quando os encontrei na Montanha Reversa, e espero que tenham avançado em seu progresso.

A capitã se referia a situação que presenciara há algumas semanas, quando ofereceu o Log Pose a tripulação aliada com a promessa de que Morgan levaria Merin às suas origens e, por conta disso, olhava diretamente para a mulher azul. Isto é, não se importava especialmente com ela, mas considerando que a navegadora fora o estopim para fazê-la abdicar de sua tão preciosa reserva de bústola, considerou que seria de bom tom perguntar como andavam as buscas de sua família. Não obstante, em contraponto disso, Merin não parecia se lembrar do que ela estava falando e olhava seu morceguinho com olhos pidões, como se pedisse ajuda para dar a resposta. Os dois pareciam mais perdidos que Hanzo — e ele sequer estava presente no dia em que chegaram a Grand Line. Ele, inclusive, naquele instante tinha suas sobrancelhas tão juntas que poderiam ser descritas como uma só. Por que diabos aqueles três estavam conversando como se nada estivesse acontecendo?, se perguntava. Ninguém se importava com aquela criança reverenciando suas próprias chacinas? A resposta era simples e clara: não, não se importavam, e não porque eram impassíveis, embora fossem até certo ponto; mas sim porque ele era o único dali a não saber. Todos conheciam os gatos, menos ele. E Hanzo odiava ser deixado para trás.

— Estamos conseguindo nos virar, eu suponho — Morgan iniciou, não sabendo até que ponto poderia abrir a boca. Ele não tinha qualquer problema com Pieri e, pelo andar da carruagem, a capitã parecia deveras confiável, mas o mesmo não poderia ser dito sobre Hanzo. — Merin aprendeu muito e é bem confiável com a navegação e, sobretudo, nos apoiamos como podemos. Estamos avançando mais do que imaginávamos.

— Entendi... — Pieri disse, olhando por cima de seu ombro, um pouco desinteressada (a verdade é que ela gostaria de ouvir Merin falar). — E o esquisitinho, quem é? Adotaram um amiguinho para a Poyo?

Nesse instante, Morgan, que estava posicionado de costas para a saída da tenda, se virou para trás, apenas para notar Hiroshi sendo prontamente coagido pela capitãzinha, que esfregava o chapéu em sua cara. Flint, ao seu lado, tentava impedir outra briga de estourar.

— Bom, eu também não sei quem é esse cara... — respondeu Morgan, com uma sobrancelha arqueada.

— Mas saiu do barco de vocês... — Pieri pontuou, e o médico a olhou feio. — Quero dizer, não é da ilha-hya! Não estou acusando nada, céus!

— Bom, nós... — Merin tomou a palavra, mas foi interrompida antes que pudesse terminar de falar, o que fez o capitão dos cães, mais uma vez, sentir uma pulga atrás da orelha.

— Poyo sumiu durante umas horas na ilha anterior e voltou com o garoto. Ao que parece, ela perdeu uma aposta e, como prêmio, ele exigiu viajar conosco — o médico pontuou, coçando a cabeça com uma das mãos. — Mas não acho que vá durar, ele não gostou muito da gente.

— Não gostou—hya... — a capitã repetiu para si mesma, observando o garoto do lado de fora, que parecia pálido como uma folha de papel. — Não que seja da minha conta, veja bem... Mas a Poyozinha deu um susto nele?

— O maior que já vimos! Bertruska apostou que ele ia desistir e ir embora nadando! — a navegadora pontuou, soltando uma risadinha contida e cutucando o médico com o cotovelo. Morgan apenas anuiu com a cabeça, não se sentia confortável de dizer mais que isso sobre a situação. — Eu mesma estava disposta à... — fez um sinal com o polegar em cima da garganta, deslizando. — caso ele...

— Com licença, preciso procurar meus tripulantes — avisou Hanzo, sem firulas, e em seguida saiu da tenda pisando firme.

Como podiam tratar uma vida com tanto desprezo?, perguntou a si mesmo enquanto saía da barraca, embora não quisesse realmente saber a resposta. Nem mesmo Pieri, alguém a que sentia pouquíssimo apreço, teria tão pouco caráter, sobretudo ao falar de alguém de sua própria tripulação. Um gosto azedo invadiu seu palato. Estava se sentindo completamente enjoado e temia que a situação saísse do controle caso passasse mais alguns segundos ouvindo tamanha visceralidade. Por fim do lado de fora, observou, mesmo que com os olhos latejando, a inescrupulosa garotinha pulando sobre os ombros do loiro, exigindo que o homem lhe desse qualquer atenção enquanto exibia com orgulho a figura maligna do gato em sua cabeça. As pernas ficaram fracas ao imaginar os horrores que aquele belo homem fora exposto e a ideia dele compactuar com a capitã lhe ardeu na boca do estômago; porém, talvez pela graça divina, o homem não reagiu. Não consentiu e, em vez disso, meneou com a cabeça de maneira sutil, retornando ao seu cigarro, alheio a todos.

— Poyo! Tira a merda desse chapéu agora! Está querendo nos matar, garota burra do caralho?

Finalmente, seus pensamentos foram interrompidos pela voz apurada de uma mulher, que, ao virar-se, compreendeu que pertencia a gata. Hanzo contraiu os lábios.

— M-mas, Belka... — Poyo tentou argumentar, fazendo um bico com os lábios.

— Sem "mas"! Joga isso fora!

Como sempre, Belka estava olhando para a capitã como se tivesse o dobro, senão o triplo, de sua altura. Suas sobrancelhas quase desapareciam na maquiagem branca de palhaço, mas inegavelmente franzia o cenho em total desaprovação — e o que dizia isso não era só sua entonação, como também suas patinhas dianteiras na cintura e a esquerda-traseira batendo contra o chão. Poyo, que por um segundo encarava o chão, levantou a cabeça, observando a imediata diretamente nos olhos: além da zanga habitual para a felina, ela tinha uma genuína preocupação, somada ao mais puro terror. Por fim, vendo nisso uma oportunidade, a menina decidiu aproveitar-se de sua fraqueza.

— Não vou. E, se por acaso eu ouvir alguma palavra contra isso, vou atirar sem pensar duas vezes — afirmou, cheia de teimosia e, de rabo de olho, olhou para Hiroshi com um sorriso orgulhoso nos lábios: nessa altura, o tinha totalmente em suas mãos.

— Pare de brincadeira, pirralha!

— Eu não estou brincando — respondeu, com os olhos arregalados e as pálpebras pulsando em irritação — Eu já cansei dessa porra de termos que nos esconder desse jeito! Só tem piratas aqui, e ninguém se importa! Não quero ouvir mais um "a" sobre este assunto! Ou prefere que eu faça uma baguncinha?

A gatuna se calou. Havia perdido e, mesmo que fosse somente um espectador, Hanzo sentia-se mais perdedor que ela.

— Ei, vamos acalmar os ânimos, as provas já irão começar. Temos que guardar nossas forças — o loiro interrompeu e o capitão cão sentiu como se a própria alma retornasse ao corpo. Aquelas palavras não eram destinadas a si, mas foram elas que o lembraram dos verdadeiros objetivos daquele local; até então, sentia-se na obrigação de vencer Pieri para que pudesse retomar sua honra, mas agora, mais do que nunca, sabia que sua missão era outra.

Era hora de erguer sua espada para destruir aqueles gatos.

Hanzo retornou ao seu próprio acampamento como se estivesse prestes a desfalecer. A gana de vencê-los, é claro, continuava intacta, mas depois de digerir sobre o que presenciara há alguns poucos minutos, cada vez mais se sentia indisposto e com vontade de voltar ao seu navio. Como seria bom se os pierrôs nunca tivessem cruzado seu caminho, disse a si mesmo, mesmo sabendo que aquilo não era verdade. Finalmente, quando pisou na própria tenda e notou Fang, Yun, Franz, Nicholas e Sherikan jogando cartas sobre a mesa principal, um sentimento de impotência caiu sobre seus ombros.

— Bem-vindo de volta — disse Fang, meneando com a cabeça para o capitão, desolado.

— Tire eles daqui — ele respondeu, sério.

O homem peixe arregalou os olhos por um instante, antes de encarar os convidados com a face um tanto envergonhada e sussurrando aos amigos que depois conversariam com mais calma. Em seguida, quando todos estavam fora, Fang tratou de fechar as cortinas, oferecendo aos cães mais privacidade.

— Qual o problema, capitão? — Sherikan questionou, enquanto organizava as cartas deixadas sobre a mesa.

— Se não se importam, eu vou... — Yun se levantou, mas seja lá o que fosse fazer, não conseguiu completar nem a frase de introdução, pois foi prontamente interrompido por Hanzo:

— Você, senta, Kaze — repreendeu. — Não temos tempo para brincadeiras, tampouco para alianças inúteis. Temos um embate para vencer.

— Você fala como se fosse algo de vida ou morte — brincou Sherikan.

— Podemos perder tripulantes, se nos descuidarmos. Somos poucos, não podemos nos dar o direito de perder — explicou Fang, dando uma colher de chá ao comportamento do capitão, que parecia prestes a espumar. — Vamos dar o nosso melhor, certo?

Sherikan sorriu animado, soltando um sonoro sim, enquanto Yun apenas meneou com a cabeça.

— Não podemos ser derrotados por aqueles piratas — Hanzo afirmou enfático e o homem-peixe sorriu tenso, tentando não se deixar levar pelo tom hostil do capitão.

— Nós vamos vencer! Somos muito fortes, capitão — o espadachim levantou ambos os punhos de forma paralela na altura do rosto, sorrindo confiante — A Pieri tem bons subordinados, mas certamente nós somos mais determinados. Osu!

O capitão apertou os olhos e franziu as sobrancelhas, contendo-se.

— E os outros parecem fracos, de qualquer forma. Quero dizer, nunca ouvimos falar deles até então, não é? Não acho que vão dar trabalho — continuou Sherikan.

Nesse momento, Hanzo sentiu uma veia saltar em sua testa, e por alguns segundos ponderou se deveria ou não expor seus sentimentos em relação aos gatos demoníacos e a real faceta daquela tripulação, no entanto, um pequeno temor o impediu que prosseguisse: e se um dos seus não se chocasse com crimes tão hediondos? Os conhecia por tempo suficiente para saber que não eram más pessoas; especialmente Sherikan, cujo passado permeou pela Marinha e a personalidade gentil não deixava esconder suas boas intenções. Contudo, as vivências de Fang (com exceção da busca infindável por seu amigo) eram um verdadeiro mistério para si e, ainda que tivesse salvo Kaze de um futuro pior, não sabia dizer o quão longe ele iria para contrariá-lo. Por fim, como medida de proteção, decidiu que era melhor vedá-los de influências externas durante as competições e, como recado geral, disse a eles que não deveriam se encontrar com os bandos rivais mais do que o necessário, pois não poderiam ter dó de inimigos numa hora dessas.

— Além disso, nós não podemos desconsiderar os outros só porque são desconhecidos. São perigosos, ou não teriam chegado até aqui — continuou, olhando especialmente para Sherikan, que parecia certo de que era mais forte. — Não estamos mais no início da Grand Line. Todos aqui são plenamente capazes.

Em resposta, o espadachim abaixou a cabeça, assentindo humildemente e anotando em sua cabeça as informações que seu capitão lhe passara. Ainda tinha muito que aprender, pensou consigo mesmo — mas não iria desistir de se tornar a melhor versão de si mesmo. A adversidade o motivava porque sabia que essa era a melhor forma de evoluir.

— Você está certo, capitão — interpelou Fang, mesmo que não fosse de seu feitio falar quando não requisitado — Mas não é motivo para nos estressarmos. Como o Sherikan disse, iremos dar nosso máximo.

— Estamos entendidos — o capitão ditou, de certa forma até um pouco grosso, e em seguida meneou para o navegador e espadachim. — Vocês estão liberados.

Com uma ordem direta daquelas, nenhum dos dois demorou a deixar a tenda; saíram de cabeça erguida, segurando seus equipamentos e dispostos a se exercitar, afinal, ainda que não estivessem com os mesmos temores que o capitão, pareciam dispostos a não perder os jogos por suas próprias razões e, no fim das contas, não queriam decepcioná-lo também. Entretanto, quando o médico permaneceu sentado, com a face fechada em uma carranca mau humorada e os braços cruzados em frente ao peito, Hanzo não se sentiu acolhido por ter seu pedido silencioso de que ele ficasse atendido, muito pelo contrário.

— Hanzo, preste atenção no que irei dizer — Yun chamou a atenção, descruzando os braços e apoiando os punhos nos próprios joelhos, olhando-o impassível — Lennard está morto.

No mesmo instante, o capitão sentiu sua respiração congelar, ajeitando a postura na cadeira de forma involuntária, como se algo naquele tom de voz despertasse uma memória muscular primordial, da época em que ainda estava sendo treinado como samurai. Obediente, não disse nada e apenas ouviu o monólogo prosseguir atentamente.

— Você sabe exatamente do que estou falando e, veja bem, não vejo motivo algum para que tente se defender. — pontuou, seco. Suas palavras eram mais frias que o de costume, e isso fez Hanzo franzir o cenho. — Pode fazer o que bem entender, isso não é da minha conta, mas espero que não esteja em uma alucinação, porque dessa forma levará todos nós à ruína — Yun se levantou, partindo para a saída da tenda — Não importa o quanto você olhe, aquele homem é um pirata e, mesmo que você induza sua aparência em outra pessoa, Lennard continuará sendo só cinzas e pó. — olhou-o severamente uma última vez — Os mortos não voltam, Hanzo. Foi você quem me disse isso.

E então, Yun saiu, sem dar quaisquer chances de réplica ou reparar nos olhos apertados do homem que, cabisbaixo, não conseguiu pedir para que ele ficasse. Estava rendido demais para reagir.

≈≈≈

No momento em que deixou a barraca, a luz embranqueceu os olhos de Yun por alguns segundos, que apenas cobriu a própria face com uma das mãos, esperando aos poucos acostumar-se novamente com tamanha luminosidade. Woo Pululu era uma ilha bastante ensolarada e agradável, e embora se sentisse mal pelo que fizera na tenda — não era de seu feitio estar desse lado das discussões —, não poderia fazer nada senão seguir em frente e ir atrás de seus aliados, já que ainda tinham um jogo para ganhar.

— Está tudo bem, Yun?

A voz de Fang surgiu de maneira sutil e então o médico percebeu que ele o aguardava ali, pacientemente, com um sorriso terno no rosto. Ele com certeza havia escutado a conversa, isto é, a sua postura e os olhos tensos entregavam que havia dado um jeito de escutar o restante da discussão dentro da barraca, mas a este ponto, realmente não importava. Tinha confiança o suficiente nele para justificar sua curiosidade.

— Achei que deveríamos estar treinando — ironizou, dando um risote nasalado e observando o rosto azul se comprimir em um sorriso constrangido.

— Eu iria treinar. Mas não pude evitar de ver como estava — justificou-se, começando a caminhar ao lado do médico em direção à Sherikan que, naquele momento, estava repetindo mecanicamente alguns movimentos com suas espadas no ar. — Eu achei que você não sairia, para ser sincero.

Em resposta, Yun apenas riu fraco outra vez, e em seguida deu um soquinho no ombro do navegador: ainda que não enxergasse necessidade na preocupação, não poderia negar que era reconfortante saber que seu companheiro de tripulação era, sem sombra de dúvidas, um cara legal. Não estava habituado com preocupações e tampouco com o sentimento confuso de companheirismo, mas por hora saber que ele se importava fora o suficiente para recuperar seu humor.

— Yunzinho, venha ver nosso show de mágica! — a alguns metros de distância, Franz carregava Nicholas pelo braço, que não parecia ter uma expressão muito boa, certamente porque detestava ter de atuar como assistente de mágico. Ambos utilizavam roupas de apresentação, sendo as do médico um traje formal completo, desde sapatos bem engraxados até a cartola e, o outro, utilizava um gritante macacão assimétrico verde com vermelho, feito para chamar toda atenção que pudesse. — Estamos treinando alguns truques, o público nos adora! — O mágico termina.

É óbvio que vão gostar. Você está dando linguiça aos cães — rebateu Nicholas, em baixo tom e entredentes, enquanto sentia seu rosto esquentar por conta daquela atenção exacerbada. Ele odiava aquele trabalho. Se sentia uma grande melancia.

O homem-peixe deu um sorriso de canto, olhando para Yun de rabo de olho para ver o que ele estava pensando sobre aquela situação. Apesar de compreender o que Hanzo queria dizer com suas preocupações sobre não se envolver com os outros bandos, ele não denunciaria o médico caso quisesse se juntar aos colegas pierrôs: era a escolha dele no fim das contas, e eram adultos o bastante para ter firmeza em suas escolhas. No entanto, para sua surpresa, em vez de se direcionar ao amigo-rival, como normalmente faria, o médico apenas acenou de maneira sutil a ele como quem diz que ficaria para a próxima, e então se juntou a Sherikan aos treinamentos sem dizer mais nenhuma palavra. Franz murchou o lábio, amuado, mas não insistiu, aproximando-se de Fang com Nicholas ao seu lado (na verdade, um pouco atrás: ele estava sendo puxado pelo braço).

— Ele levou uma puxada de orelha? — perguntou o mágico ao homem-peixe, descabido como sempre.

— Não. Foi ele quem puxou a orelha dessa vez — Fang responde, dando uma risada de boca bem aberta. — E você, Nicholas, não gosta de entreter? — perguntou ao espadachim, após notar seus olhos revirando e rosto se contorcendo.

— Nem um pouco.

— Ainda não encontramos a vocação circense do nosso Nicholas e, como você deve imaginar, é uma exigência de nossa capitã! — o médico interrompeu. — Estão treinando para os jogos?

— Vocês estão? — o homem peixe perguntou, surpreso.

— Ordens da capitã, estamos tentando ganhar alguns pontos por carisma!

— Como se isso fosse ser um critério — Nicholas rebateu, desgostoso. — Preferia mil vezes estar treinando com minha espada, que é algo que realmente podemos usar.

— Você não sabe quais serão as provas! — Franz disse, dando de ombros — Além de que não adianta de nada vencer sem ter um público para nos apoiar. Para quem você mostraria que ganhou?

— Por que você precisaria mostrar para alguém?! — o espadachim se exaltou, mas, em resposta, Franz estava rindo alto, com a mão na barriga e um dedo apontado para sua cara. Era uma piada, ele só não percebeu.

Sentindo-se imediatamente constrangido, Nicholas desviou o olhar rápido, querendo evitar ser debochado ainda mais, porém, antes mesmo que a discussão continuasse, todo o chão do plaza começou a tremer e os três se encararam, sobressaltados. Por fim, das extremidades da grande espiral (e possivelmente em mais lugares da ilha), alguns enormes alto-falantes em formato de tromba ergueram-se lentamente de dentro do chão e, quando todos estavam em sua altura máxima, um alto bramido de elefante soou como um alarme. Todos que estavam por perto trocaram um breve olhar de confusão; mesmo aqueles que estavam dentro das tendas, como Hanzo e Pieri, saíram para ver o que diabos estava acontecendo. E então, exatamente quando todos estavam prestando atenção nas caixas de som, o já-conhecido elefante-apresentador começou a dizer:

— Respeitável povo woopulululense, faltam dez minutos para o início da primeira prova! Para todos aqueles que desejam torcer, a arquibancada principal da Praia dos Bramidos já está aberta e, aos campeões que irão competir, dirijam-se todos ao píer leste. Desligando!

E assim, tão de repente quanto apareceram, os alto-falantes retornaram à terra, deixando os piratas com uma mútua expressão de perplexidade. Não sabiam o que dizer sobre aquilo; muito menos quando a multidão colorida e em polvorosa saiu de suas casas para se juntar em uma muvuca alegre, cantando e dançando enquanto iam em fila pelo caminho de pedras. O barulho foi diminuindo à medida que eles se afastaram. Finalmente, e já sem escolha do que fazer — afinal, como é que haveriam de saber onde era o píer leste? —, os piratas resolveram segui-los no que supunham se tratar da direção à praia.

A procissão dançante não durou muito porque, pouco menos de um quilômetro de distância dali, depararam-se com um pequeno palco montado e um grande elefante vermelho os aguardando, que logo ergueu sua mão para calar o público que se aproximava. Sorrindo de orelha a orelha, ele abriu os braços horizontalmente para convidá-los a subir e expandiu orgulhoso o peito em sua roupa colada que, ao contrário da de Baru, era consideravelmente menos social e se assemelhava a de um trapezista: justas, reveladoras e bastante brilhantes. Poyo pensou que parecia uma enorme (e gorda) bengala doce.

— FE-FE-FOM! Aproximem-se campeões — o elefante ordenou, soltando uma grande risada e deixando o caminho livre para que, uma a uma, as tripulações se acomodassem no palco. Contou em suas patas se todos estavam lá e, após uma breve olhada, determinou que já haviam competidores o suficiente (estava empolgado e o show não poderia esperar). — Eu me chamo Shake, o Elefante de Polainas. Serei o anfitrião dessa prova. Vocês têm alguma pergunta?

— Por que "de polainas" está no seu nome? — perguntou Poyo, cruzando os braços e franzindo as sobrancelhas ao notar as grandes meias felpudas nas patas traseiras do animal: ele já não tinha pés grandes o bastante? Pieri colocou a mão sobre seu ombro, como se indicasse que deveria ficar quieta.

— Não temos. Qual é a prova-hya? — interrompeu Pieri. — Temos que escolher os competidores, afinal.

— Você me lembrou de algo, palhacinha-fe-fom! — explicou o elefante, com um sorriso ladino — Nós, irmãos elefantes e organizadores deste jogo, deliberamos sobre as regras e decidimos que não podemos dar uma colher de chá a todos os competidores. Isto é, qual seria a graça, dessa forma?

— O que você quer dizer com isso? — Belka interpelou, tentando se aproximar de Shake, mas um dos guardas-palhaços a barrou.

Nananinanão, gatinha. Só os capitães falam com o apresentador — ele disse, dando a mesma risada escandalosa. Belka, em resposta, soltou um pequeno rosnado. — Mas, antes que surjam dúvidas-fe-fom, decidimos que somente o competidor Hanzo irá obter vantagem, visto que é ele o capitão da menor tripulação.

— Hya-e isso é justo? — Pieri perguntou, cruzando os braços em frente ao corpo.

— Fe-fe-fom! Não é! Mas não se pode ganhar sempre, palhacinha! — o elefante pontuou, com um tom divertido — Contudo, não se preocupem, as regras se adaptaram à competição, logo, joguem com sabedoria!

Um burburinho se formou no palco, porém antes que pudessem tomar dianteira, o elefante os silenciou colocando a pata sobre a boca, soltando um sonoro "shh". Todos se calaram.

— Agora, capitãs! Preparem-se e escolham dois dos seus competidores.

O barulho do gongo do palco foi induzido, e Pieri e Poyo se juntaram com suas tripulações, respectivamente. Eles tinham até o segundo clangor para decidir.

Vamos, Poyo. Qualquer um, menos eu e a Merin. É certamente uma prova de água — sussurrou Belka, olhando para a capitãzinha.

Quem disse que vai ser aquática? Estamos na praia — censurou Morgan, que, na verdade, só queria ser desclassificado da escolha também.

Se fosse na areia, eles não teriam dito para irmos ao píer — Flint interpelou.

Mas pode ser pescaria — afirmou Bertruska.

Então o Flint é a melhor escolha em ambas as situações! — Belka bate o pé.

São dois, Belka — o cozinheiro pontuou.

O elefante gritou. — Dez segundos!

— Já decidi! — a capitãzinha berrou, levantando um de seus braços, a fim de chamar a atenção do elefante.

Alguns segundos depois, Pieri também se pronunciou: — Hya-Nós também!

— Muito bem! — Shake deu uma só palma. — Anunciem.

— Shari e Yolanda.

— Flint e Morgan! — Poyo gritou.

O público aplaudiu quando Shari e Yolanda avançaram e, como esperado, eles fizeram mesuras artísticas ao ouvir o deleite da plateia. Eram feitos para isso, pensou o cozinheiro, que, um pouco amuado, tentou atender as expectativas abrindo um sorriso torto e dando um passo à frente enquanto seu parceiro, com um olho tilintando, olhava para Poyo como se fosse matá-la.

Seria um longo jogo, Flint pensou.

≈≈≈

Quando a Zebra Palhaço pulou no píer para dizer que somente ele e Flint estariam em dupla (já que Yolanda e Sherikan não poderiam entrar na água), Poyo logo pensou que estariam em vantagem, mas o que ela não estava considerando era que, desde o princípio, sempre estaria no time perdedor.

Morgan não desejava participar daquele jogo de forma alguma, haviam sete deles e apenas cinco jogos, logo sua capitã não precisaria de sua presença para se divertir, contudo, lá estava, parado e usando um traje humilhante de mergulho e aguardando o tiro que daria início a prova. Parados no cais, o médico sentia seus joelhos baterem um contra o outro e os lábios secarem: já havia passado da hora da decisão, estavam vestidos afinal, mas, se Deus permitisse pensar em um milagre, ainda torcia para que todos de seu bando desistissem daquela insanidade. Não era difícil o bastante ter de nadar sendo sedentário? Então por que raios tudo tinha de piorar, colocando-o contra um macaco-robô e um homem peixe? Era humilhante e, para piorar sua situação, o companheiro de prova não parecia minimamente afetado pela injustiça, tampouco pelo traje peculiar e chamativo: Flint apenas se alongava, ignorando completamente o calção com estampa de palhaços e a inegável derrota que os aguardava.

— Morgan, eu irei primeiro — afirmou, estralando o pescoço e, por um breve segundo, o médico invejou a postura relaxada de Flint.

— Certo... — soltou um suspiro cansado, mas não pôde deixar de se sentir um pouco mais relaxado: com sorte eles mal teriam tempo de completar a primeira volta — Boa sorte, Flint!

O cozinheiro soltou um riso cansado e estendeu a mão em direção ao outro, puxando-o para um comprimento e batendo levemente os ombros: — Dois fumantes na natação. Apenas um milagre nos salvaria.

— O SHARI TAMBÉM FUMA! QUEBRA ELE, FLINT! — gritou Bertruska, a voz arregaçando pelo desespero da situação em que estavam. Ao seu lado, Belka cobria os olhos com as duas patas, sentindo sua pressão baixar e Merin, embaixo do guarda-sol de babados, apertava os lábios por ter de usar uma roupa tão estranha pela primeira vez em sua vida (ela não se importava muito com a prova, sabia que Morgan era imbatível).

— VOCÊS CONSEGUEM! — Poyo gritou, levantando Fionnula pelas asas para que ela também pudesse torcer.

O burburinho da torcida era cada vez mais alto e, em meio aos gritos de vendedores de comida e apostadores desesperados, um chiado irritante é reproduzido pelo som, junto de uma interferência de microfones: estava prestes a começar.

— Olá, olá? Estou ao vivo? — a voz ressoou pela praia e Morgan de imediato reconheceu-a. Não bastava ser arauto de más notícias, a maldita Zebra também seria aquele a narrar sua derrota aos milhares de transeuntes? — No"ooo"bre público, — ele repetindo muitas vezes o "ó" da primeira palavra — amados amigos, elefantes espectadores e, por último, mas não menos importantes, competidores fervorosos! Me chamo Artúlio e, nesta tarde, serei seu apresentador.

A multidão urrou em resposta. Artúlio era um homem zebra de quase dois metros e meio, roupas de repórter em uma paleta extremamente conflitante e um par de óculos quase maior do que sua cara, mas por algum motivo conseguia ser menos chamativo que os cinco elefantes que, detrás de si e também no palco, pulavam com pompons nas mãos. O caracol transmissor passou por cada um de seus rostos.

— Nosso emocionante desafio irá começar dentro de alguns instantes e, lembrem-se, o vencedor deve obrigatoriamente coletar as duas bandeiras de sua bateria para que a vitória seja contabilizada! Aos participantes únicos, o trajeto de cem metros deverá ser percorrido duas vezes para que ambas as bandeiras sejam contadas — afirmou, sorrindo com todos os dentes. — Iremos iniciar, mas antes, uma palavra dos nossos patrocinadores!

Ao encarar o horizonte e perceber o quão distantes estavam as bandeiras, o estômago de Morgan embrulhou por completo. O barulho estonteante das ondas lhe causava uma dor de barriga inconcebível, ao ponto que a voz da zebra anunciando sobre qualquer alimento circense havia simplesmente desaparecido. Aquilo era mesmo justo?, se perguntava e, bem no fundo, ele sabia que isso não importava realmente. Não era injusto só para eles, afinal — e fora Poyo quem os colocara naquela enrascada. Da praia, seus companheiros pulavam e torciam, como se gritar o nome de Flint fosse magicamente oferecer forças sobrenaturais a ele, porém, nada mudava o fato de que ele tinha que ajudá-lo a vencer. Preocupado, o médico desviou o olhar para o cozinheiro, buscando algum alento, mas ao não encontrá-lo ao seu lado, a pontada em seu estômago pareceu se tornar um sólido bloco de cagaço. Onde caralhos ele estava? Não era ele quem iria primeiro?, se perguntou.

— Caros piratas, aos seus postos! — Artúlio indicou.

Numa fração de segundos, Morgan olhou para todos os lados, procurando por Flint que, detrás de si, surgiu com as sobrancelhas juntas em consternação. Estranhando o comportamento do cozinheiro, apenas deu-lhe um tapinha no ombro, incentivando-o a seguir em direção a linha de partida. Flint, por sua vez, apenas suspirou pesado. Talvez ele estivesse com medo, o médico pensou por um momento, mas logo deixou a ideia sair de sua mente: um homem que não titubeava em ter seu nariz posto no lugar não teria medo de nadar.

O tiro soou seco e os homens caíram na água. Uma turba ensurdecedora da torcida gritava para que nadassem mais rápido, e em meio aos ganidos, a voz de Poyo e Bertruska podiam ser ouvidas claramente, gritando para que Flint fosse mais rápido. A prova havia começado e a zebra observava atentamente com seus binóculos a colocação.

— E DEMOS A LARGADA! — berrou, segurando o microfone com força — O competidor Fang abre a bateria com grande vantagem, contudo Flint e Shari estão disputando fervorosamente o segundo lugar!

Flint estava avançando rápido como um peixe, e a cada braçada que dava, Morgan se sentia cada vez mais nervoso, enlaçando os dedos enquanto sentia o suor frio escorrer por sua nuca. A narração parecia muda.

— FANG CAPTURA A PRIMEIRA BANDEIRA E RETORNA PARA FINALIZAR A PRIMEIRA BATERIA! Minha nossa, como ele é rápido! Será difícil para os outros se recuperarem, não é mesmo?

— Com certeza, Artúlio! — disse o elefante Shake, sorrindo largo e soltando uma alta gargalhada.

— MEU DEUS! — gritou a elefanta amarela. — Tem uma mulher-azul caída na praia! Ajudem-na!

O médico, entretanto, não desviou os olhos do mar. Sabia exatamente do que se tratava, e tinha completa noção do porquê também, mas mesmo que anjos e querubins lhe pedissem pessoalmente para socorrer Merin naquele momento, não haveria nada que o fizesse olhar para trás. Estava completamente vidrado na água, mentalizando os movimentos que teria de fazer para se manter na superfície. A mão teria de ficar em concha ou aberta? Qual era o ritmo de cada batida de perna? Direita, esquerda; direita, esquerda, era assim que Flint fazia. Se tudo desse errado, deveria afundar e tentar puxar a água do mar, mas como conseguiria enxergar para onde estava indo, se o fizesse?

— Não se preocupem, caros espectadores! Os médicos das tripulações adversárias estão socorrendo, que espírito esportivo maravilhoso! — Artúrlio pontuou, com seu tom empostado e radiante — MAS NÃO PODEMOS DESGRUDAR NOSSOS OLHOS DOS COMPETIDORES! Fang acaba de finalizar a primeira bateria e, nossos competidores Flint e Shari já conquistaram suas bandeiras, quanta energia!

Morgan sentiu sua cabeça girar, Flint não poderia estar indo tão rápido. Quase desejou que ele tivesse uma câimbra no meio do caminho e afundasse lá mesmo.

— Shari abre vantagem contra Flint e dispara! Falta pouco para que complete a primeira bateria! Não podemos desligar! — gritava, enquanto dava grandes goladas em uma garrafa de água. — ALGUÉM MEÇA MINHA TEMPERATURA, porque o competidor Fang acaba de conquistar a segunda bandeira e Shari acaba de finalizar a primeira bateria!

O narrador gritava e o mundo de Morgan voltava a ganhar alguma cor; o peixe estava cumprindo seu papel natural e Flint, como um bom fumante, fora deixado na mão por seus pulmões fracos e desde o momento que tocara sua bandeira já não tinha a velocidade de antes. Estava a salvo, não seria naquele dia que o mar teria o prazer de engoli-lo vivo: poderia viver por mais um dia e simplesmente ignorar a vergonha de sequer ter avisado aos companheiros de sua limitação. Seu crime não tinha vítimas e tampouco suspeitos. Morgan era um homem inocente (e um bom nadador) até que se provasse o contrário.

— E CHEGA AO FIM A BATALHA! — a zebra avisou e, por um segundo, Morgan pensou que poderia chorar de alívio. — Empatados com uma bandeira, Flint e Shari lutaram bravamente, mas não puderam derrotar as guelras de um homem-peixe! Uma salva de palmas ao Komainu Fang!

A multidão urrou e os apostadores gritavam de emoção, felizes pelos trocados que adquiriram em uma partida tão óbvia e, ao mesmo tempo, ansiavam pelas próximas.

— Me ajude aqui, cacete! — o transe fora interrompido pela voz exasperada de Flint, que tentava subir o palanque com alguma dificuldade. Não parecia fraco, mas sua face estava completamente pálida e os lábios um pouco roxos, enquanto sua respiração era completamente pesada e com alguns chiados. — Talvez não seja uma boa hora, mas preciso de um cigarro. Você consegue buscar um para mim? — pediu.

— Aqui está.

E então, para a surpresa de Flint — que fechou o expressão no mesmo instante — o médico tirou do bolso interno de seu calção uma caixa de cigarros e um isqueiro e, com toda a cara de pau, questionou:

— Quer que eu acenda?

Flint apenas meneou com a cabeça, observando o outro colocar o cigarro na boca e dando o primeiro trago. Poderia xingá-lo, ou dar um merecido murro em sua cara pela ousadia de vir para uma competição aquática com aquela merda e ainda mostrar a ele, mas não fez nada, concentrando-se apenas em respirar enquanto via seu amigo dar uma intensa lufada para o ar.

— Você está tenso, né? — perguntou, irônico, sabendo exatamente que crimes ele queria esconder. Morgan deu um sorriso maquiavélico, e por fim entregou o cigarro.

Próximos de si, agora finalmente saindo d'água, Shari se aproximou dos dois e, depois de colocar sua prótese mecânica, deu um forte tapa nas costas do cozinheiro, congratulando-o pela competição. — Vamos dar um trago mais tarde, chefe. Comemorar essa nossa vitória esmagadora — riu alto.

Flint o cumprimentou com um meio sorriso, um aceno de cabeça e, por fim, um aperto de mão que fora insistido pelo macaco. Ao menos ele sabia como levar a vida, pensou consigo mesmo, rindo internamente de toda aquela situação.

— Vamos, campeão! — ironizou Flint, logo desferindo um tapa nas costas de Morgan que o fez se desequilibrar. — Espero que o capitão almofadinha roube nossa bandeira horrorosa.

Morgan pareceu pensar por um segundo. Não tinha nada contra aquela bandeira, mas também não poderia negar: somente Poyo se sentiria mal por ter uma tatuagem que não significaria mais nada. Mas isso era um dano completamente insignificante e contornável, no fim das contas.

— Podemos fazer outra — riu.

Flint o acompanhou, lhe oferecendo uma tragada: — Com sorte, nem seremos lembrados. Quanto menos dor de cabeça, melhor.

Morgan concordou, soltando a fumaça pelo nariz e o seguindo a alguns passos de distância. Olhando para o céu, pensou consigo mesmo que tinha sorte de seus músculos não doerem, além de não ter qualquer medo sobre a escolha que viria mais tarde: eram um bando de fracassados que não tinham merda nenhuma a oferecer senão uma gata rabugenta, uma fedelha e uma porção de recompensas. Do jeito que estava, seria mais jogo levar deles a galinha.

Mais uma vez, sentiu uma incontestável gratidão pelo fracasso. A inutilidade nunca teve um sabor tão doce.

≈≈≈

Um pouco mais tarde, quando o céu começava a tomar uma coloração alaranjada e os participantes já haviam se banhado e se trocado, Shake e seus irmãos convocaram todos os piratas para o palco da praia, anunciando uma segunda vez as normas das escolhas: ou uma bandeira, ou um tripulante; e duas tripulações não poderiam ser afetadas em uma só vitória. Depois disso, o elefante vermelho ainda permitiu um minuto e meio para que os vencedores discutissem sobre a melhor escolha para o bando, porém, Hanzo não aceitou essa proposta pois disse que já tinha uma escolha em mente. Pieri mordeu os lábios, batendo o pé na madeira de maneira ansiosa.

— Caro, Shake! — Hanzo iniciou e, alguns passos atrás, a capitã revirou os olhos, passando a apertar com ainda mais força o braço de Kristian, que sussurrou baixo para que ela não o arrancasse na frente daquela multidão (eles não entenderiam). O cão continua: — Escolherei um tripulante.

— Fe-fe-fom! Pois bem. Mas, espero que saiba que, no momento em que adquirir um novo tripulante, você e seu bando perderão o benefício para as próximas provas — o elefante explicou e o capitão concordou com a cabeça. — Então, diga-nos, quem é o escolhido?

Pieri poderia roer as próprias unhas e até mesmo arrancar um por um os pelos do bigodes de Yolanda, de tão estressada que estava. Hanzo era sem sombra de dúvidas uma víbora e não faria um movimento burro, exatamente por isso, sentia-se completamente desesperada em imaginar na possibilidade de ter Kristian ou Shari arrancados de seus braços. Isto é, todos seus tripulantes eram importantes em seu coração: não saberia como poderia viver sem as comidas tenebrosas de Apollo, as doçuras de Yolanda, as mágicas de Franz e, se pensasse bem, até mesmo Nicholas — o último tripulante e o mais avesso a vida circense — lhe faria falta, não obstante, em comparação ao papel primordial que os dois primeiros exerciam em sua tripulação, os outros não a desestabilizariam tanto e pareciam mais fáceis de se recuperar. Além disso, temia que estivesse subestimando a inteligência (ou experiência) do capitão mendigo, que poderia muito bem atingi-la com a tática do amendoim, roubando-a na primeira prova para que seus tripulantes não soubessem o que fazer, no entanto, como confiava sua vida ao estimado Christopher, mesmo que este fosse o caso, as outras opções ainda pareciam mais aterrorizantes. Não tinha jeito, Hanzo não podia tirar seu imediato de jeito nenhum. O mataria dormindo. Desonraria o jogo na sua tão sonhada ilha de palhaços e pagaria o pato, porque de todas as opções...

— Irei puxar para minha tripulação Flint, da tripulação da capitã Poyo.

As palavras de Hanzo atingiram Pieri como um soco em sua face, assim como praticamente todos os demais piratas que acompanhavam atentos a decisão. Pieri não acreditava em seus ouvidos. Como aquele imbecil conseguira, de todas as opções horríveis, escolher a mais terrível de todas elas? Nem sequer cogitara que o mendigo era tão burro assim. Quer dizer, o bando de Poyo primordialmente sequer participaria da competição e, sobretudo, eles nunca nem estiveram juntos antes daquela ocasião; por que diabos ele iria preferir desestabilizar o bando daqueles coitados, quando seu alvo era ela?

Não havia a menor lógica. Com exceção de Poyo, todos lutavam pela sobrevivência, não pela glória, e não precisaria de muita inteligência para notar isto. Por um breve momento, a inconsistente ideia de que Hanzo havia o escolhido por razões pessoais passou pela mente da capitã, mas fora apagada em uma fração de segundos, porque ele não poderia ser tão estúpido assim... ou poderia? Não, certamente aquilo era um plano para que, ao desestabilizar Poyo, a derrubaria junto, já que a colocaria num cenário onde não haveria outra escolha senão protegê-la.

Ele tinha de ter percebido que Flint era o membro mais importante do bando; tinha. Ele não poderia ser tão burro.

— FLINNY! — a pequena capitã uivou, jogando-se no chão no mesmo instante, completamente incrédula. Sua face estava coberta de lágrimas e os punhos bateram no chão em protesto.

Pieri observava a cena com o coração na mão e não pôde ficar mais indignada ao observar um pequeno, porém perceptível, sorriso na face de Hanzo. Olha só, que filho da puta!, amaldiçoou internamente, rangendo os dentes e cerrando o punho enquanto observava o bando dos gatos irromper em lágrimas e o cozinheiro, muito atencioso, consolar Poyo em seus braços, apertando-a com as sobrancelhas caídas em preocupação. Belka se segurava na cintura dele, o impedindo de caminhar, junto do novo garotinho, que surpreendentemente já parecia apegado ao cozinheiro. Céus, até mesmo a galinha parecia triste! Como aquele monstro pôde?, perguntou a si mesma, olhando o capitão com um olho tilintando de raiva. Queria matá-lo naquele segundo.

— Não, não, não! — disse o elefante chefe, Baru, desgrudando o cozinheiro da capitãzinha e outros, puxando-o pela gola de sua camisa. — A partir de agora, você é do outro bando. Nada de consolar os perdedores.

— Flint! — o médico dos gatos fungava alto, chorando copiosamente. Entre seu balbuciar incompreensível, ele parecia querer dizer algo, mas era impossível discernir as palavras em meio aos soluços. Talvez estivesse se sentindo culpado.

O cozinheiro apenas cumprimentou todos com a cabeça e se curvou, como um pequeno ato de agradecimento que calou todos do bando. Em seguida, ele caminhou em direção ao seu novo capitão, de cabeça erguida, mas olhos caídos e uma expressão de pura tristeza.Ao observá-lo com clareza, Pieri pode ver o exato momento onde Bertruska ameaçou avançar em direção ao capitão-cão, mas fora brecada por Flint, que acenou com a mãos e sibilou friamente um calmo e sem som "Ainda não".

Ela o obedeceu, secando as lágrimas. Pieri sentiu seu sangue gelar.

Um ar cortante pairou pela praia, e a maresia não parecia atingi-los mais. Hanzo não pareceu ter notado, mas Pieri soube naquele exato momento que algo daria muito errado, caso não agisse para impedir. Sem outra escola, ela sabia: tinha de ser ela a resgatá-lo.