Prison Magic

20 Capítulo 20


Parte 20

Cain e Yami dormiram dois dias inteiros. Guille já havia explicado para Veck que tal fato aconteceria, e que não era para se preocupar. Afinal, o efeito daquela poção era deveras forte, e o antídoto fazia a pessoa que o tomou entrar em um sono profundo, só acordando quando o efeito do afrodisíaco passasse.

Todavia, Veck estava inquieto, extremamente inquieto. Em sua mente as imagens daquele episódio lhe apareciam direto. Por mais que tentasse negar, fechar os olhos, cantarolar alguma musica. Não conseguia esquecer, de maneira alguma.

Das mãos; a caricia, a dor.

Das bocas; a ingenuidade, a lascívia.

Dos corpos; a brisa, o fogo.

Não aguentava mais aquilo, nem entendia como não acabou ficando com vontade de morder aqueles dois. Talvez a situação fosse tão crítica que se esquecera deste fato. Não entendia, e nem sabia se queria entender a tudo.

Por este fato, estava evitando aqueles dois. Havia desaparecido há horas, desde o momento em que estes acordaram. Não queria os ver, não por hora. E sabia que estes o estavam procurando, e mesmo assim continuava os despistando.

Por hora, estava escondido em uma enorme árvore, sentado em um tronco grosso e até confortável, bem no alto. Lá não teria como aqueles dois o acharem.

Respirava fundo, olhando fixamente em direção ao pôr-do-sol, apesar de mal notar este, apenas olhava, como se não tivesse mais o que se fazer. Sua mente continuava o castigando, o torturando com aquelas imagens.

Era como se para sentir-se mais culpado ainda, por ter ‘quase’ feito aquilo, sem entender o motivo, o porque de lhe doer tanto o peito.

Talvez pelo fato de ainda, misteriosamente, sentir sua pele queimando por onde uma mão, boca ou língua passou.

Respirou fundo novamente, encostando-se na árvore, fechando os olhos por um instante, deslizando sua mão pelo peito.

Sim; ainda sentia aqueles toques.

Sim; era isso que estava o culpando.

O estranho era que sempre, definitivamente, sempre odiou isto. Quando seu Mestre o obrigava, era sempre tão horrível, medonho. Sentia asco de si mesmo a cada instante, por seu corpo responder as torturas dele.

Era isso que, quem sabe, o estivesse torturando mais. Pois se o loirinho não tivesse aparecido naquela hora, não teria como impedir tudo aquilo, teria simplesmente levado tudo adiante, se rendendo a tantas sensações.

E se tivesse continuado com aquilo?

E se o loiro não tivesse aparecido?

Sabia muito bem que estaria se culpando eternamente, a culpa que sentia agora seria tão grande que não saberia se suportaria. Além, é claro, de ter negado o trono de Radiance ao jovem príncipe herdeiro.

Não poderia olhar para Cain novamente, como explicaria para este que simplesmente tinha se deixado ‘levar’ pela situação, e que agora o moreninho nunca mais seria rei.

Respirou fundo novamente, aquelas dúvidas e perguntas em sua cabeça o estavam trazendo uma enxaqueca horrível, era muita coisa a pensar, muitas possibilidades.

Não queria vê-lo agora, nem escutar sua voz, muito menos a de Yami que ainda parecia ecoar em sua mente.

“— Acho que ele não quer só suas mãos...”

“— Tire suas roupas por completo...”

“— Agora, ponha sua cabeça entre as pernas dele e lamba isso.”

Soltou um leve gemido, só de prestar a atenção na voz rouca do demônio que ecoava em sua cabeça. As instruções que este dava para o moreninho, tão próximo ao seu ouvido, sentindo aquele hálito quente, lhe causando mais sensações.

Engoliu seco, mordendo o lábio inferior, sentindo-o mais seco que sua garganta. Era estranho, chegava a doer por não entender.

“— Veeeeeck?!”

Este quase caiu da árvore, com o susto que levou ao escutar a voz do Cain ao longe, lhe procurando. Segurou-se melhor na árvore, meio congelado, fechando os olhos por um instante, escutando outra voz agora lhe procurando.

“— Vampiro, apareça...”

Abriu os olhos lentamente, focando aqueles dois morenos bem abaixo de sua árvore, olhou-os bem, agoniando-se mais ainda, porém, de certa forma, aliviado por estes não o terem notado.

Ficou quieto, imóvel, com o coração batendo em quase uma arritmia.

“— Espere hospedeiro...” – Yami segurou-o pelo pulso. “— Chega de procurar o vampiro, começo a suspeitar que ele não queira ser achado.”

“— O Veck?” – Sorriu doce para o outro. “— Ele só está andando pela vila, as elfas já falaram.”

“— Sei que quer agradecer a ele... Mas...” – Soltou-lhe o pulso, encostando-se na árvore, não notando o vampiro lá em cima desta. “— Acreditas mesmo na história que o loiro dos infernos falou?”

“— Porque não? Ele mesmo disse que é normal se ter insolação.”

“— ...” – Cruzou os braços. “— Já teve isto? Vivendo sobre aquele sol forte de Radiance?”

“— Agora notando... Nunca.”

“— ...”

“— Do que suspeita? Não existe mais nada.”

“— Sinto que o loiro está escondendo algo... E ainda fica mais estranho com o sumiço do vampiro...”

“— Por isso temos que achá-lo!” – Falou sorridente, sentando-se na grama macia para descansar um pouco. “— Ele nos ajudou, quando desmaiamos, nos carregou até a casa.” – Explicou-lhe o que o outro já sabia.

“— ...” – Deu de ombros, afinal, teria que seguir onde o seu hospedeiro fosse mesmo.

“— Príncipe Cain...” – Lune aparecera no lugar, sorrindo de modo educado, vendo o moreninho levantar para cumprimentá-la. “— A líder requer sua presença.”

“— O que a orelhuda quer?” – Resmungou Yami, entrando no meio da conversa, olhando para a elfa.

“— A Anciã chegou à vila, com isso, iniciaremos uma busca mais avançada sobre a maldição de vocês.” – Esclareceu-lhes. “— Vamos agora, se preferirem.”

“— Agora...?” – Indagou baixinho Cain, olhando em volta. “— Queria que o Veck estivesse junto...”

“— Vectorius...?” – A garota arqueou uma sobrancelha, olhando discretamente para cima, vendo o meio vampiro claramente.

“— ...!” – Veck se encolheu todo, fazendo um gesto como quem pedia silencio a ruiva.

“— Sim... Eu... Queria ele por perto...” – Avisou novamente baixo Cain, avermelhando-se um pouco, nem notando isso.

A garota voltou seu olhar para os morenos a sua frente, sorrindo cordial, acenando com a cabeça em seguida.

“— Eu entendo, você precisa de um amigo por perto...” – Comentou. “— Falarei com a líder, minha mãe entenderá já que é tarde.” – Olhou novamente para o que se escondia no alto. “— Amanhã Vectorius aparecerá, disto tenho certeza.”

“— Como sabe disso orelhuda? Sabe onde ele está?” – Chiou o demônio, desencostando-se da árvore.

“— Não. Não sei, é apenas... Instinto feminino.” – Sorriu-lhes.

“— ...”

“— Então, amanhã, à tarde, iniciaremos isso, fiquem preparados...” – Fez uma suave reverência. “— Até amanha, príncipe Cain e Yami.” – Mal falou isso, e deu as costas, saindo dali.

“— Ela parecia esconder algo... Acho que ela sabe onde o vampiro está...”

“— Que mania de achar que todos estão mentindo Yami...” – Chegou perto deste, passando o braço sobre seu ombro. “— As pessoas não mentem sempre. Só quando é necessário, para não se ferir alguém que gosta.”

“— És tão ingênuo que não sei se te bato ou se te faço carinho na cabeça...” – Acabou por dando um cascudo na cabeça do outro. “— Prefiro bater.”

“— Ai! Tudo bem...” – Afastou-se. “— Melhor voltarmos, o Guille deve estar preocupado... Ele tinha dito para descansarmos, que talvez ainda pudéssemos desmaiar pela insolação...”

“— E o vampiro?” – Fitou-o de canto de olho, estreitando o olhar.

“— Começo a achar que você que quer mais encontrar ele, e não eu.” – Riu baixo, de modo divertido.

“— Engano teu. Tudo o que quero, é apenas um reflexo não refreado do que queres.”

“— Então, o que eu quero?” – Emburrou-se.

“— ...” – Sorriu cínico, agora sendo sua vez de colocar o braço sobre os ombros deste. “— Torta de morango.”

“— Torta?” – Acabou por rir. “— De fato, acho que quero um pouco.”

“— Vamos voltar, o loiro dos infernos avisou que estava fazendo isto antes de ‘fugirmos’ de lá.”

“— Sim!” – Sorriu mais, afastando-se deste, indo alegre na frente.

—-X—X—X--

“— Isso... Não precisa ter pressa, senhorita Lucy... Comece lento” – Oroi falou de forma doce, transmitindo confiança a loira.

“— Não sei se consigo...” – Sua voz saiu baixa, meio dolorida.

“— Calma... Você se acostuma.”

“—Ahnn... Isso dói Oroi” – De seu delicado rosto começaram a verter pequenas lágrimas.

“— Dói no começo, mas você se acostuma... Não pare...”

“— Mas... Aiwnhm. ”

“— Agora que tenho mais tempo livre, posso fazer isto contigo. Vamos senhorita Lucy, mexa-se. ”

“— Estou tentando... Mnm... Mas não me lembrava que era tão duro assim...”

“— Claro que não vai se lembrar é a primeira vez que faz isso...”

“— Mas... É duro demais, acho que não quero continuar... Aiwn... E eu ainda tenho recordações da minha vida quando viva... E não era tão duro...”

“— Hahah.” – Riu baixinho. “— O chão sempre foi duro, vamos continue andando, temos que treinar isso mais.”

Naquele mesmo cômodo grande, no qual a garota vivia presa no cilindro, agora o vampirinho tentava acostumá-la a andar livremente. Teria que ensinar a esta como fazer isso, por este motivo ficava sempre ao lado dela, para qualquer amparo.

Olhava o empenho e dedicação que a loira tinha ao fazer uma tarefa simples como aquela, mas já que ficou desde que ‘nasceu’ no cilindro ainda não havia desenvolvido muito.

Entretanto só o fato de estar ‘viva’ era uma façanha, que só aquele puro sangue louco conseguiria fazer. Após é claro de varias tentativas erradas.

“— Não está mais doendo tanto meus pés e minhas pernas...” – Comentou ela, sorrindo alegremente, andando de um lado para o outro, meio desajeitado.

“— Eu lhe disse, não precisa ter pressa, eu ficarei contigo o dia todo...”

“— O dia todo?” – Parou de andar, olhando para o garoto que a ajudava, estranhando o que este tinha lhe dito. “—Mas, não deveria estar com o senhor Shisue? ”

“— Ele está se divertindo com Vitor...” – Respirou fundo, dando por encerrando o assunto ali mesmo. “— Apenas continue andando, que quando conseguir fazer isso normalmente, começarei a te ensinar a dançar.” – Avisou-lhe, andando sempre perto desta.

“— Mas eu sei dançar, todo tipo de musica...”

“— Você pode se lembrar, mas o corpo não acompanhará seus passos.. E acabará caindo.”

“— Entendi.” – Parou de andar, olhando para si. “— Isto é viver?”

“— Claro quer sim! Nunca duvide disto!”

“— Obrigada...” – Deu um suave beijo na bochecha deste. “— Oroi...” – Voltou a caminhar, ainda meio desengonçada. “— Você sabe magia?”

“— Meu Mestre está me ensinando... Mas... Como comecei agora, admito que não sei de muitas coisas.”

“— Entendi...”

“— Não compreendi o porquê da pergunta.” – Comentou, segurando a cintura da loira, que quase caiu por pisar em falso.

“— Siga Vitor.”

“— Como?” – Olhou-a com mais curiosidade, tentando entender o motivo disto.

“— Andei refletindo sobre o que falou da ultima vez... Realmente não é do feitio dele fazer essas coisas...”

“— Talvez queira apenas me atazanar.”

“— Um homem que prefere mulheres, não irá se deitar com outro homem só para ‘atazanar’ um garoto...” – Comentou, parando de andar, sentindo seus pés doerem mais.

Oroi ficou mudo, de olhos bem abertos, realmente achando lógica no que a amiga havia dito. Acabou por se preocupar mais, o loiro, definitivamente, só faria aquilo de bom grado se tivesse um plano por detrás.

Era tão lógico que não sabia como havia pensado nisso, talvez, quem sabe, a dor de ver aquela cena que sabia que se repetia o estivesse corroendo por dentro.

“— Oroi, eu temo pelo senhor Shisue.” – Falou pesarosa Lucy, apoiando-se no garoto e voltando a tentar andar.

“— Não entendo como pode ser tão bondosa ao ser que fez isto contigo...” – Murmurou baixinho, guiando-a de volta a sua ‘cela’.

“— Já disse, não possuo rancores... Por causa de ter sido revivida, pude conhecer você, e talvez tenha a chance de ver Vectorius.”

“— Ainda o quer para si...?”

“— Quero.” – Sorriu meio triste, sentando-se no chão, dentro do grande cilindro que sempre ficava. “— Mas, eu preciso apenas falar com ele... Eu sei que ele se culpa pela minha morte, sei que ainda também me ama, e fica preso a minha recordação... Eu não quero isso... Quero ele livre, para amar, para se sentir vivo.”

“— ...” – Aquietou-se, sentindo a dor dela. “— Eu entendo... Você o ama tanto que deseja apenas a felicidade dele...”

“— Oroi...” – Voltou a sorrir doce, acariciando o rosto do vampirinho. “— Eu tenho uma ideia...” – Olhou-o com alegria, lembrando-se de algo. “— Sabe cozinhar?”

“— Sei sim.”

“— Coisas doces?”

“— Sei, porque a pergunta? Infelizmente você não pode comer e-”

“— Não é para mim.” – Cortou o que o garoto falava, rindo docemente. “— É para o senhor Shisue... Ele ama doces...”

“— Doces?” – Parou para pensar um instante. “— Ele vive falando sobre sangue doce...”

“— Sim, ele gosta muito de doces, principalmente bolo de chocolate. Eu fazia para ele quando viva, antes de ficar doente.”

“— Então devo ir fazer algo doce para o meu Mestre comer? Isso não é um pouco feminino demais não? Além do mais, não deve possuir ingredientes neste lugar para fazer algo...”

“— Sim, faça bolo.” – Fez bico, de forma até fofa. “— Não é feminino demais...” – Riu baixinho. “— E não ter o os ingredientes é o motivo perfeito para você sair daqui... Assim você segue o Vitor e descobre se ele anda tramando algo contra o senhor Shisue... ”

“— Você realmente é uma boa amiga, obrigado Lucy.”

Com um sorriso esperançoso nos lábios o trançado correu pelo castelo, para ir fazer o que a loira tinha sugerido, talvez procurando um objeto mágico que o tirasse dali. Afinal, não poderia deixar o Vitor tramando algo sobre seu Mestre. Tinha que fazer algo a respeito.

Era só esperar esse sair...

—-X—X—X--

A noite estava agitada como sempre para o loirinho, em contrapartida a de Veck que estava tediosa. Tinha voltado para a casa só quando percebeu que o Cain dormira. Poderia ter simplesmente ido dormir fora, mas não quis, preferiu voltar.

Andou lento e sorrateiro, sendo fácil de fazer isso por ser um vampiro, até seu quarto, entrando nele e jogando-se em sua cama.

“— Que!?” – Arrepiou-se até o ultimo fio de cabelo.

Na sua cama estava impregnado o cheiro dos dois morenos, só agora se lembrando que estes tinham ficado os dois dias em seu leito, em seu quarto.

Aquilo já era provocação demais. E pior conseguia distinguir com perfeição as fragrâncias , apesar de serem parecidos. Um lhe dava sede de sangue, e o outro fome por energias malignas.

Era uma tortura. Devia ter simplesmente ido ser acolhido em um leito de alguma elfa, saciando sua sede. Todavia, quem sabe, seu subconsciente queria que voltasse para aquele quarto. Para esta cama quente.

“— Cain...”

Abraçou-se ao travesseiro, sentindo o aroma suave deste, algo cândido em contrapartida ao cheiro varonil daquele demônio.

“— Yami...”

Fechou os olhos, aninhando-se mais naqueles lençóis, abraçando-se mais aquele travesseiro. Sentia-se estranho, desde dois dias atrás, seu corpo reagia por tão simples impulsos.

Por desejos carnais. Quase não se reconhecia por isso. Era algo tão estranho, tão atípico de sua pessoa, que não existia mais lógica.

Bem, sabia que talvez existisse, mas não queria acreditar nela. E não ia, definitivamente, dar razão a essa linha -por demais louca- de pensamento.

“— Lucy... Seu sorriso me confortaria tanto...”

Em meio a tudo aquilo, lembrou de sua amada. Amada esta que tinha matado, a condenado a um sofrimento quase eterno. Sabia que ela estava morta, mas de alguma forma sabia também que seu Mestre a usaria para atraí-lo.

E, de fato, não pensaria duas vezes em ir atrás dela. Faria de tudo para se redimir.

“ Maldição.... Não consigo dormir... ” – Resmungou em pensamentos, revirando-se na cama, com a mente tão lotada de pensamentos que nem escutava as batidas que davam em sua porta.

“— Veck...” – Chamou-o do lado de fora do quarto, era reconhecível a voz do moreninho. “— Precisamos falar contigo.” – E continuava a bater, de modo educado, na porta.

O meio vampiro sentou-se às pressas na cama, arregalando os olhos. Jurava que este estava dormindo. Mas pelo que pode notar, havia se enganado. Largou o travesseiro que ainda estava agarrado, rumando para a porta.

Sua mão parou quase ao tocar na maçaneta, sentiu um arrepio em sua coluna, uma ansiedade, uma estranha necessidade de fugir dali.

“— Pode entrar...” – Falou por final, abrindo a porta, dando passagem para os morenos.

“— Desculpe Veck, te acordei?” – Indagou Cain, já dentro do quarto, olhando meio culpado para o amigo.

“— Não... Eu estava... Eu... Esqueça...” – Fechou a porta, encostando-se nesta, tomando uma distância dos dois que o fitavam.

“— Porque está tão distante Veck?” – Incomodou-se com aquilo. Agora parecia que realmente o amigo o estava evitando.

“— Eu...” – Abaixou o rosto, fazendo sua franja cobrir sua face

“— Você está nos evitando, vampiro?” – Chiou Yami, que até agora estava calado, de braços cruzados como sempre.

“— Não é isso... Eu...” – Levou a mão a cabeça, sentindo uma suave dor nela, que aos poucos piorava. “—É apenas uma dor de cabeça...”

“— Bem...” – O moreninho entristeceu-se diante do amigo. “— Eu só queria agradecer-te por ter nos ajudado quando desmaiamos...” – Parou um pouco de falar, desviando seu olhar deste. “— Desculpe o incômodo que fizemos...” – Riu baixinho, meio magoado, abaixando o rosto também. “— Vivo causando problemas...”

“— Hospedeiro...” – Olhou bem para aqueles dois de rosto baixo, era algo patético os ver assim. “— Já disse para não abaixar tua cabeça a ninguém, mantenha seu orgulho.”

“— De que adianta ‘orgulho’ se eu não sei como ajudar um amigo? ” – Olhou bem para os olhos ametistas tão iguais aos seus.

“— ...”

Yami revirou os olhos, fazendo pouco caso daquilo. Não queria se meter no meio daqueles ‘amigos’, era um assunto que não lhe dizia respeito. Apesar de sentir seu peito doer, ao ver o vampiro naquele estado.

Mas era tudo um reflexo do que seu hospedeiro sentia. Não havia como afirmar que até um pensamento seu não seria algo que o outro havia pensado. Era um tanto complicado, que faria alguém normal enlouquecer.

Pensar que você não era real, que era apenas um corpo distorcido de outra pessoa...

Deu de ombros, bufando, sentia que seu hospedeiro queria sair daquele quarto, mas o Veck estava encostado na porta.

“— Cansei disto, saia da frente vampiro!” – Olhou feio para este.

Impacientou-se do fato do outro não se mover. Não aguentou mais, pegou o braço deste, puxando-o de forma bruta para si, machucando-o sem querer.

“— Ahn...” – Gemeu baixinho Veck.

Yami ficou estático, era impossível ter escutado um gemido sair dos lábios do outro. Fora então que notou algo, ainda segurando o braço deste, cravou suas unhas naquela pele, machucando-a mais.

“— Hmm... Yami, La-larga...” – Encolheu-se um pouco.

“— Yami, você está machucando o Veck.” – Observou Cain, indo para perto, para intervir.

“— Tem algo de muito errado aqui.” – O demônio recaiu seus olhos para o hospedeiro. “— Cain... Nós dois estávamos desmaiados juntos?” – Indagou, ainda segurando o braço do Veck.

“— Sim, não foi até você quem acordou primeiro...? Agora larga ele... Vai acabar machucando...”

“— Então porque sinto que posso fazer muito mais coisas...?” – Voltou seu olhar para o vampiro.

“— Não sei do que está falando...” – Reclamou Veck, já se recompondo, livrando seu braço da mão que o prendia. “— Apenas saia do meu quarto.”

“— Ora vampiro, não me engane... Sei que estais com uma vontade absurda de morder meu hospedeiro...” – Olhou feio para o Cain. “— Mas sinto que também me quer...”

“— Veck, você está com fome?” – Preocupou-se. “— Não está se alimentando direito?”

“— Eu estou bem.” – Avisou, tentando falsificar um sorriso.

“— Mentira.” – Falaram juntos, Yami e Cain.

“— Agora vão me acusar de mentiroso?”

“— ...” – Envergonhou-se o moreninho.

“— Eu te acuso sim.” – Não se deixou abalar o outro.

O demônio então puxou-o pelo cabelo prata, o fazendo desarmar por um instante. Tempo o suficiente para empurrá-lo de encontro à porta, prendendo os dois braços para trás, imobilizando-o.

“— Yami o que está fazendo com o Veck?” – Cain chegou perto, tentando tirar o outro de lá.

“— Espere Cain. Tem algo que preciso conferir...” – Olhou sério para este. “— Se importa de, por um instante, esperar no banheiro?”

“— O que quer fazer com ele?”

“— Só preciso de algumas respostas para minhas dúvidas...”

“— Yami... Me larga...” – Reclamou Veck, com raiva.

Cain olhou para aquilo, sabia, de uma certa forma, que o demônio não faria algo deste tipo se não tivesse algum sentido. Respirou fundo, rumando para o banheiro do quarto, parando antes de abrir a porta.

“— Veck...” – Não se virou, falava de costas. “— Depois, quero te pedir algo...” – Mal falou e entrou.

“— O que realmente aconteceu...?” – Perguntou baixinho, bem no ouvido do outro.

“— Do que está falando?”

“— Devo mesmo mostrar o motivo?”

Não esperou a resposta do outro, a mão que estava livre e que não segurava as do outro, deslizou pelo peito deste, alisando-o, descendo e parando sobre a calça, apertou com gosto a area sensível, escutando um gemido baixo de susto do vampiro.

“— O que!?”

“— Eu sinto que posso fazer várias coisas...” – Começou a acariciar a área. “— ‘Coisas’ de que não podia antes... Quero saber o motivo.”

“— E... O que-hnwm...” – Respirou fundo, se recuperando apesar de ainda sentir aquela provocação. “— Como posso saber?”

“— Não quer me dizer? ” – Largou-o, recuando um passo. “— Não me importa.”

“— Como?” – Piscou os olhos, aturdido, virando-se e olhando o outro.

“— Cedo ou tarde eu irei descobrir...” – Deu de ombros, bastante mal humorado. “— Cain.” – Chamou-o mais alto. “— Vamos dormir!” – Cruzou os braços.

Veck apenas andou até sua própria cama, sentando-se nela, vendo o moreninho sair de seu banheiro e lhe olhar com curiosidade. Sorriu para este, sendo a única coisa que pode fazer.

“— Veck... Antes de ir... Quero te pedir para que vá conosco na Jiyha...” – Falou, ficando de frente a este.

“— Eu sei...” – Calou-se um pouco. “— Lune me avisou... Eu irei sim, pode ficar tranquilo.”

“— Obrigado...” – Sorriu doce para o amigo.

Este abriu os olhos, diante daquele sorriso, não possuindo mais ações, apenas viu os dois saírem de seu quarto. Logo levou suas mãos a cabeça, segurando-a com força, implorando para aquela dor passar.

“— Não... Não... Não!... Impossível...” – Repetia várias e várias vezes, até que desistiu de tudo e jogou-se na cama, misteriosamente conseguindo dormir.

—-X—X—X--

A noite passara rapidamente e logo o sol raiava naquela vila, que cada vez mais ficava animada. A aproximação da festa aonde todos iriam se divertir por uma última vez, até voltarem aos seus respectivos lugares, fazia aquela vila toda ficar agitada.

O loirinho estava sorridente, guardando as fantasias que tinha feito para todos, para que usassem na noite da festa, esta que seria finalmente concretizada sua vingança.

Estava sorridente, o caso do Cain ter tomado aquele poção não parece que fez mal a esse, o Vitor estava dando um jeito na situação, Veck estava quieto. Tudo conforme o plano.

“— Bom dia, Cainzinho e Yaminho...” – Cumprimentou-lhes sorridente, levando o café que tinha feito para a mesa. “— Hoje será um dias longo para vocês, não?”

“— Sim Guille... Hoje talvez ponhamos um fim a isso tudo.”

“— ... ”

Yami estava mais quieto que o de costume, Cain notara isso, mas preferiu não indagar nada, talvez fosse por saber que o desfecho ou a causa da maldição deste estivesse perto.

“— E o Veck?” – Perguntou ao loirinho, tomando uma xícara de café.

“— O morcego acordou cedo... Não sei dele.”

“— Tudo bem, obrigado...”

O resto da manhã fora tranquila, apesar da agonia que o príncipe sentia por dentro. Queria ver o amigo, conversar com ele, ou então, pelo menos vê-lo. Mas parecia que era como o demônio falara, Veck o estava evitando por algum motivo que desconhecia.

Passou o tempo todo conversando com Guille e tentando extrair alguma fala do Yami, que mantinha-se mudo. Quando menos notam, elfa Lune aparece na casa os chamando para o ritual.

Apenas concordaram, despedindo-se do loirinho que voltou a fazer algum afazer na casa, colocando um aventalzinho rosa.

Seguiram a garota até uma grande arvore, a maior da vila, logo perceberam que era o mesmo lugar onde Veck ficou preso por algum tempo. Desceram as escadas, lentamente, dando de cara com a porta no final.

“— Desculpe, mas não tenho permissão se seguir adiante... Só os mais velhos a possuem...” – Avisou-lhes.

“— Tudo bem, muito obrigado senhorita Lune...” – Agradeceu-a de modo educado, olhando sorridente para esta. “— Qual seria o caminho a se seguir lá dentro?”

“— Siga reto, apenas. Encontrará uma grande porta, toda coberta de musgo.” – Explicou-lhes, curvando-se cordialmente, e começando a subir as escadas. “— Vectorius já os aguarda lá dentro...”

“— Veck?” – Sorriu, abrindo a porta, mas parando de súbito quando sente a mão do demônio segurando a sua.

“— Hospedeiro... Sinto-me estranho...” – Avisou-lhe, com a voz baixa, meio sofrida.

“— Yami... Quer desistir? Posso pedir para adiar isto, se preferir...”

“— Não. Esqueça, eu quero saber, preciso saber... ” – Respirou fundo. “— Qualquer informação que seja.”

“— Entendo...” – Levou suas mãos aquele rosto tão idêntico ao seu, segurando-o e mirando bem para si. “— Não importa o que seja, irei te ajudar...E tenho certeza que Veck também.”

“— ...”

Sorriu como um bobo, sabendo que mesmo calado este estava contende, de alguma forma sentia isso. Talvez a convivência o estivesse afetando também, ou algo do tipo, não tinha como saber.

Abriu a porta, andando por aqueles corredores, não mais se impressionando com a mistura da magia e tecnologia. Aqueles elfos, pareciam ser bem avançados com relação a este último, mas estava claro que preferiam viver usando magias, em paz com a floresta.

Parou por um instante, em frente a porta no qual o vampiro havia ficado daquela vez. Agora sabia quem fora o culpado e de certa forma, o salvador do outro. Olhou para Yami, que observava a porta com um pesar, como se sentir-se culpado por aquilo.

Respirou fundo, voltando a andar pelo corredor, finalmente achando a porta no qual a garota lhe descreveu. Deu algumas batidas nesta, escutando o sol seco ecoar por todo lugar. Logo que esta se abriu, deu de cara com Veck.

“— Cain... Yami... Entrem...” – Avisou-lhes, abrindo mais a porta e vendo estes entrarem, para em seguida fechar a mesma. “— A anciã está ali...”

Os dois morenos viraram suas cabeças para onde o outro havia apontado, observando uma mulher de aparentemente cinquenta anos, sentada em uma cadeira vermelha, de cabelos completamente brancos, entretanto tinha uma beleza ímpar.

Uma beleza delicada, um rosto jovem, e um sorriso cândido que os observava com olhos cinza, vestida com um vestido longo que se arrastava pelo chão.

“— Devo presumir, que querem uma tradução do que está escrito no corpo do rapaz...” – Falou com uma voz calma, suave. “—Jiyha criança, já observou-o?”

Só agora os dois rapazes notaram a líder da vila ali, do lado oposto da sala, sentada em outra cadeira vermelha.

“— Já sim, minha senhora, mas devo confessar que não pude entender muito do que se tratava...” – Respondeu-lhe.

“— Entendo... Vectorius, por favor, vá à outra sala e avise para todas se aprontarem, irei usar um método mais preciso...” – Sorriu para o vampiro, apontando com leveza para outra porta que tinha naquela sala. “— E quanto a vocês... Peço para que aguardem uns instantes...” – Pediu-lhes, fechando os olhos e ficando assim.

“— Senhora Jiyha...” – Cain a chamou baixinho, vendo Veck sair dali. “— Do que se trata deste método?”

“— Ela tentará ler a linha da vida de Yami, descobrir desde seu nascimento, tentando burlar os hospedeiros no qual ele parasitou.” – Soltou um suspiro. “— Infelizmente isso pode ser um pouco dolorido para quem tem sua vida dedilhada pelo poder da anciã. ”

“— Não me importo com dor...” – Falou o demônio de imediato, mas logo olhou para Cain, meio preocupado. “— Você aguenta, ‘principezinho’?” – Provocou-o.

“— Não me olhe com essa cara que sei que estás preocupado comigo...” – Riu baixinho.

“— Como...?” – Abriu os olhos, meio espantado. Pensava que só ele poderia sentir os desejos do outro.

“— Aprendi. Sou um bom aluno...”

“— Cain, Yami... Venham aqui...” – Falou Veck aparecendo novamente na sala.

Dois suspiros altos foram audíveis, o dos dois morenos. Estes andaram até onde o amigo estava, olhando assustados para a nova sala.

Uma sala ampla, as paredes eram de terra diferente das outras, mas afinal ali era o subsolo, nestas paredes pequenas plantas rastejavam, contendo minúsculas flores que brilhavam em um tom amarelado, dando aquele cômodo um clima mais mórbido.

Ao centro desta havia duas pedras grandes, quase como camas. O chão possuía varias escrituras arranhadas no piso, algumas tingidas de sangue fresco, possivelmente das três elfas encapuzadas que estavam em um canto da sala.

“— Vocês terão que tirar as roupas e deitarem-se ao centro...” – Explicou-lhes Veck, vendo a cara de curiosidade dos dois.

Não falaram nada, apenas fizeram o que fora pedido, tiraram peça por peça de roupa, entregando-as sempre para o amigo. Cain avermelhou-se bastante ao tirar a última, principalmente pelas garotas no canto da sala, mas estas mal ligaram, ficavam imóveis.

“— Podem se deitar...?” – Pediu, tentando não focar seus olhos verdes em nenhum daqueles corpos.

Voltara para a ante-sala, curvando-se a frente da anciã de maneira respeitosa, e logo esta abriu os olhos, o encarando amavelmente, como se lesse a mente deste. E de fato, era isto que estava a fazer.

“— Vejo que sua mente está bem bagunçada... ” – Comentou, vendo olhar assustado do vampiro em sua direção. “— Assim como a daqueles dois...” – Levantou-se. “— Mas ambas rumam para a mesma dúvida, cada um de uma força diferente.”

“— Não entendi, senhora...”

“— E não entenderá, até se livrar completamente de Lucy.”

“— Co-como?” – Ficou mais confuso ainda, mas preferiu não perguntar mais, já que a mulher andava em direção a porta.

“— Vectorius, eles precisam de você... Fique com eles...” – Chamou-os.

“— Senhora Jiyha, ficará aqui?” – Indagou, antes de sair da sala.

“— Sim, não serei de utilidade lá... Aguardarei aqui... Zelando para que tudo de certo...”

Veck logo entrou no lugar, olhando para o meio da sala, acabando por ir para lá, ao ver a elfa chamar-lhe com a mão. Ficou entre as duas pedras, olhando de um para o outro.

“— Crianças...” – Tocou nos cabelos dos morenos. “— Segurem a mão dele... Ele será seu ponto seguro...”

“— Como assim...?” – Indagou Cain, olhando para Veck ao seu lado.

“— De que isto nos adiantaria?” – Resmungou o outro

“— Crianças... Escutem os mais velhos... O futuro passa tão nítido pelas minhas pálpebras fechadas que contar-lhes poderia facilmente alterar este.”

“— Ce-certo...” – O moreninho estendeu a mão em direção ao amigo. “— Ficará conosco, não?”

“— ...” – O demônio fez o mesmo, olhando de seu hospedeiro para o vampiro. “— Te segurarei firme para que não fuja de nós...”

“— Ficarei aqui...” – Segurou a mão de Cain. “— E pode segurar firme, se sentir-se mais seguro...” – Segurou a mão de Yami.

“— Pois bem...” – A mulher falou, rondando os três repetidas vezes. “— Isso não é élfico, e sim a língua dos anjos...” – Avisou-lhes.

“— Dos anjos?” – Os três falaram juntos, até surpresos.

“— Impossível que eu seja um anjo, meu desejo é aniquilar a tudo... Infelizmente ele anda bem refreado, graças a meu hospedeiro... ” – Comentou Yami, completamente incrédulo, já desconfiando da elfa.

“— Não falei que eras um anjo... ” – Deu uma pausa, parando ao lado deste. “— Apenas falei-vos que não é élfico isto em teu corpo. ”

“— Então, não pode fazer nada sobre isso?” – Indagou Veck, olhando para esta.

“— O élfico é uma das primeiras línguas, possivelmente a etimologia, ela veio da língua angelical” – Explicou-lhes. “— Mas agora, silêncio, por favor.” – Pediu-lhes.

A mulher fechou seus olhos, apoiada na pedra que o demônio estava, vez ou outra sorria feliz, mas abriu os olhos mostrando-os marejados de lágrimas. Era triste ver a vida de todos, desde o presente até seu fim, por isso nunca revelava muito desta para seu dono.

“— Uma dica Yami... Cuidado com o pecado da cobiça...” – Avisou-lhe, olhando bem para este, analisando aquelas inscrições.

Seus dedos passavam sem pudor por qualquer parte que possuísse uma inscrição, tateando-o todo, como se tentasse ler o que aquilo se referia.

“— É tão confuso... Parece escrito por duas almas, que tentam lutar por algo... Como se fosse uma discussão... ” – Respirou fundo. “— ‘Na prisão onde jaz o demônio negro não há chances de fugas. Apesar de nas trevas querer voltar a andar, proíbo-te...’ ... ” – Calou-se não entendendo o resto. “— ‘Será preciso apenas um sacrifício, apenas uma jornada, mas vários desafios... Este é o carma que te passo...’” – Levou uma mão a sua cabeça, sentindo dor nesta, o poder daquelas palavras só poderia ser entendido por ela, era uma mistura de raiva e amor. “— ‘Da prisão a espada pode libertar, na prisão a espada pode punir. Lhe dou ao menos esta chance, é a única que consigo...’.”

Calou-se por um longo tempo, ainda tentando ler mais algo, porém aquela língua era extinta demais até para os milênios que possuía, só anjos poderiam lê-la facilmente. Respirou fundo, tirando suas mãos do demônio. Olhando para aqueles três, curiosos pelo que havia dito.

“— Estas palavras farão sentido mais adiante... Grave-as bem.”

Cain então lembrou-se de seu reino, onde a anciã de lá havia falado coisas parecidas, porém mais incompletas ainda. Apertou um pouco a mão de Veck, recebendo a atenção deste, junto com um sorriso reconfortante.

“— Estou aqui...” – Falou bem baixinho, mais para que este lesse em seus lábios tal frase.

“— Irei começar com a segunda etapa... Peço para ti, Vectorius, que não largue a mão deles, e de forma alguma tente ajudá-los diante da dor que sentirão.”

“— Sim, senhora.”

A elfa então aproximou-se mais de Yami, beijando seu peito, fazendo este soltar um urro desesperado de dor, apertando mais a mão do vampiro. Veck e Cain olharam assustado para o outro, que chega chorava de tanta dor que sentia, mas não falavam nada.

A mulher então se afastou do peito deste, contendo preso entre seus lábios uma linha meio grossa, que ligava ao lugar onde havia beijado. Endireitou-se ficando em pé, tirando de sua boca aquela linha, puxando-a com a mão, fazendo mais sair do outro.

A cada puxão que dava, o demônio gritava de dor, como se estivesse arrancando sua alma, sua vida, o que de fato não era tão longe da realidade. A linha que era tirada do outro possuía uma coloração cinza pairando entre o branco e o negro.

Logo, com mais alguns puxões, um ramo naquela linha apareceu, a mulher olhou meio preocupada para o humano, mas não parou de puxar a linha, logo, parecia do nada uma linha que aos poucos ia se aproximando de Cain, parando no peito deste.

“— Isso irá doer...” – Avisou-lhe, dando outro puxão.

Fora a vez de Cain gritar desesperado, com a linha que acabou indo em si também. Agora ambos, humano e demônio gritavam de dor a cada puxada que a elfa dava. Veck já estava agoniado, não aguentando ver aqueles rostos expressarem tanta dor.

Se pudesse parar o sofrimento destes, dar-lhes ao menos um pouco de conforto. Fora então que sentiu as mãos destes o segurando mais firme, a ponto de lhe machucar. Agradeceu internamente à anciã, por poder pelo menos ficar ali com eles. Sendo seu ponto seguro.

“— Que alma pura a deste garoto...” – Comentou feliz, vendo dois fios em sua mão, um cinza e o outro completamente branco.

Puxava calmamente ambos os fios, até que não conseguiu puxar mais o de Cain, notando este parar de gritar para simplesmente desmaiar. Aquele era o início, o começo da vida deste, mais alguns puxões e obliteraria do mundo, o corpo seria apenas um recipiente sem alma, sem vida, sem passado muito menos futuro.

Deixou aquela linha branca de lado, concentrando-se na cinza, que agora possuía um tom completamente negro. Era tão lógico que, o que estava fazendo a linha ficar de uma cor mais clara, era a pureza daquele humano.

Talvez o demônio estivesse sendo purificado pelo outro sem ao menos saber. Apenas sorriu, a cor negra mostrava uma vida sem ‘Cain’, mas não queria se gastar lendo algo que não lhe interessava. Voltou a repuxar, cada vez mais forte e rápido, notando o quanto a vida fora longa, e a linha mudava poucas vezes de cor, quase insignificantes.

Parou em uma parte, curiosa, completamente sem ações. Possuía um nó no fio, como se este estivesse sido cortado e juntado. Sorriu triste, achando a causa de tudo, e logo voltando ao que fazia, quando chegou ao fim desta, parou de puxar, vendo-o desmaiar em instantes.

“— Vectorius, isto realmente demorará... Não importa o que aconteça, não saia de perto deles...” – Pediu ao vampiro, mesmo já tendo visto que este não se afastaria mais.

“— Me importo com eles, não os deixarei sozinhos.”

“— Sim, eu sei... Ama-os por igual...” – Falou sorridente.

Veck arregalou os olhos, completamente chocado com o que esta havia lhe dito.

“— Como amigos, é claro...” – Falou em seguida dando um risinho bem baixo “ Certas coisas são mais divertidas descobrindo-se sozinho... ” – Pensou.

“— Claro...” – Envergonhou-se, olhando de um para outro. “— Amigos...”

A anciã então lambeu os lábios, olhando para o rosto do possuidor das inscrições, aproximou-se o beijando com fervor, segurando com uma mão a linha bem firme, sentindo esta querer voltar para dentro de seu dono. Mas não deixou, continuou a beijá-lo intensamente, sob o olhar curioso do vampiro.

Quando afastou-se, voltou a lamber os lábios, olhando com um risinho pervertido para aquele que lhe olhava tão fixamente.

“— A vida dele está comigo, não precisa fazer essa cara, fora isto que fiz.” – Sorriu-lhe.

“— Ah...” – Calou-se

Olhou bem para o rosto do outro que dormia, e deu um puxão mais forte, arrebentando do outro a linha. Este não morreria, em quanto segurasse a linha deste, a vida dele estava em suas mãos.

Chamou com a cabeça uma das assistentes paradas em um canto, que lhe trouxe uma bacia te tamanho médio, contendo dentro um liquido prateado, juntou todas aquelas linhas que saíram do demônio e colocou-as ali dentro, deixando de lado apenas a branca de Cain.

“— Antigamente... Este ato era um tabu... Por conseguir tirar completamente a vida de algo da terra, fazendo-a desaparecer, não dando permissão ao céu e nem ao inferno... Considerado a pior morte...” – Comentou, com as mãos dentro da bacia como se lavasse os fios no liquido. “— Por isso meu povo desaprendeu... Somente poucos no mundo têm este dom ainda...”

Por fim, tirou aqueles fios de lá, jogando-os todos sobre o peito do demônio, vendo que como uma serpente a ponta procurava onde estava o coração, já começando a entrar ali, de forma lenta.

“— Pois a vida que era retirada desta forma, ainda tentava ter um corpo, e possuía quem aparecesse... Porém a vida se tornava rebelde, caótica, querendo matar a quem possuía... Ou simplesmente tomar o controle deste.”

“— Então...” – A mente de Veck pareceu clarear, conseguindo entender a ‘maldição’ que o demônio possuía.

“— Sim... ” – De seus olhos cinzas lágrimas surgiram. “— A causa disto tudo é este mesmo método que utilizo... Porem o motivo é que queremos saber...”

Dito isto olhou a bacia, vendo o líquido ficar na cor dourada, abrindo a boca de Yami, derramou um pouco deste dentro, notando-o beber aquilo desesperado, mesmo inconsciente.

Era simplesmente o corpo querendo de volta seu passado.

Deu metade daquele liquido, e depois pegou a bacia, dando a volta, parando onde Cain estava deitado, tentou dar o mesmo liquido a este, que mesmo pela relutância que teve, acabou por tomar o restante.

“— Estarei com a Jiyha na outra sala... Estou um tanto exausta... Chame-me quando ambos acordarem...” – Comentou, já se retirando, levando consigo a bacia e sendo seguida pelas três elfas encapuzadas.

“— Entendi...” – Falou Veck, vendo-se sozinho naquele cômodo. “— Boa sorte a vocês...” – Sussurrou para ambos.

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.

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CONTINUA...

18/05/10

Nota da autora:

Neste capitulo teve revelações, não?

Teve dês de um Veck se escondendo e completamente confuso, a um Oroi achando um plano para livrar seu Mestre das garras dos maquiavélicos loiros.

Quem foi que pensou besteira na parte da Lucy com o Oroi, hein? O vampirinho combina bem mais com o Shisue, não é? *-*

Bem, voltando ao assunto... Sobre o Yami, no próximo cap será o passado deste, e talvez o começo de baile de mascaras da vila élfica...

AH! Não sei se será uma coisa ruim ou boa para vocês (para mim, fora ótimo), é que o PM vai durar mais um pouco ainda (*comemorando*).

Bem , isso é tudo, lamento novamente a demora ( facul me mata um dia... ) e até a próxima.

Comentário da beta:

SDFJKVBUSYEZFNFHSJFGKVNZCXLKUGJHGAZHFGHH

Mestra!!! Dá vontade de te dar uma pisa ás vezes…. ¬¬

Sabia?! Sabia!?!? TT

Eu pensei besteira sim da parte do Oroi e da Lucy, e você sabe muito bem disso…. e_e

Fiquei surtando por dias… COMO VOCÊ PARA UMA PARTE TÃÃÃO CRUCIAAAAL?! Eu quero ver o resultado do bolo, e vocês? *----*

Atenciosamente –e segurando um chicote para fazer minha mestra escrever logo-

~♥

P.S. Perdoem-me qualquer erro que deixei passar… É que esse povo me mata um dia. *Olhando desconfiado para os personagens do PM* e_e

Extra:

—Oroi-

—Shisue x Oroi—

—Shisue- (Tentei fazer no Manga Studio)

By: Toynako

Notas finais
Peço perdão pelo CAP anterior estar daquele jeito... Realmente eu tentei de tudo, mas o Nyah não ajudou, se alguem souber como arrumar, me avise por favor