Prison Magic

2 Capítulo 2


Já depois de muito tempo após terem zarpado, Cain estava a observar o mar, deslumbrado com tamanha beleza. Estava uma tarde muito agradável, apesar de não estar se sentindo muito bem.

Do outro lado do navio estava Luna dando algumas ordens para seus homens, mas parou de fazer tal tarefa, ao assustar-se quando olhou de relance para o príncipe e avistou este desmaiando.

“— Cain!?” – Correu para ajudá-lo, mas não conseguiu chegar a tempo deste cair no convés. “— Seja firme. Se recomponha príncipe!” – Pediu-lhe, segurando-o em seus braços, tentando acordá-lo.

“— O que ouve?” – Veck não estava muito longe, e quando notou o que acontecia correu para perto, parando ao lado.

“— Vectorius... Ele está ardendo em febre!” – Avisou-lhe preocupada.

“— Eu... Estou bem...” – Murmurou o moreno, sentindo uma dificuldade absurda ao falar isso. “— Não é nada... Deve ser por que eu não sou acostumado a andar de navio.”

“— Eu não nasci ontem!” – Exaltou sua voz, odiava ver alto sacrifício alheio. “—Se sente-se mal, avise!” – Deu um suspiro. “—Não fique aguentando tudo sozinho...”

“— Cain...” – Veck ajoelhou-se ao seu lado.“— Desde quando se sente mal?” – Tocou de leve em seu rosto, medindo sua febre. De fato, estava queimando.

“— Eu... ” – Parou para conseguir fôlego. “— Desde a noite em que eu fui atacado... Eu levei uma flechada envenenada nas costas...” – Contorceu-se um pouco de dor. “— Mas... Como já está fazendo tantas coisas por mim... Decidi não atrapalhar...”

“— Cain... Seu tolo, assim você me deixa preocupado... Talvez aqui no navio não tenha algo para lhe curar...” – Comentou tristemente. “— Deveria ter avisado antes...” – Não estava gostando de ver este sofrer por algum motivo.

“— Calma Vectorius, não subestime minha tripulação... Eu tenho a bordo um bom medico. Talvez ele possa dar um jeito.” – Acalmou-o, encarando aquele olhar esmeraldabrilhando em preocupação. “— Por hora vamos levá-lo para o quarto para que descanse um pouco.”

“—Desculpe estar atrapalhando senhorita Lu-...” – De tão fraco, o príncipe nem conseguiu terminar sua frase.

“— Vectorius, leve Cain para o quarto.” – Pediu-lhe, olhando para o céu, notando algo de estranho neste. “— Maldição, não poderia ser pior!” – Reclamou.

“— O que foi Luna?” – Indagou-lhe, pegando o moreno nos braços e ficando de pé.

“— O ar está seco demais... E tem umas nuvens vindo do oeste” – Apontou para o que tinha mencionado. “— Infelizmente... Vamos ter uma tempestade.” – Avisou-o, levantando-se e indo para o meio de seu navio, subindo em um barril. “— Atenção tripulação!” – Todos pararam o que estavam fazendo para prestar a atenção. “— Vai haver uma tempestade hoje à noite, preparem tudo!” – Deu sua ordem.

“— Sim, Capitã!” – Falaram todos da tripulação em coro. Todos ali eram minuciosamente escolhidos, e de extrema confiança.

A garota ficou atenta, vendo seu amado levar o outro nos braços como se fosse algo extremamente delicado. Respirou fundo, não era hora para ciúmes sem lógica, pois logo sua atenção fora tomada por um falcão branco que pousou em seu ombro.

“— Bem vindo, Falon.” – Acariciou a cabeça da ave. “— Alguma notícia para mim?”

“— Crráááaaá!” – A ave escandalizou, batendo as assas desesperadamente, como se estivesse com medo de algo.

“— ...!” – Ficou séria ao notar tal comportamento, ainda mais pelo que tinha lhe dito. Sim, ela entendia o que aquele falcão falava. “— Que maré de azar!” – Ajoelhou-se no chão, completamente pasma. “— Vectorius... Seu AZARADO!” – Gritou, fazendo a ave voar de seu ombro, e a tripulação lhe encarar. “— Voltem ao Trabalho! E agora façam tudo com mais atenção!” – Advertiu-lhes.

Respirou fundo, levantando-se ainda pasma com a notícia que a ave tinha lhe trazido. Mordeu de leve o lábio inferior, partindo em direção ao quarto cujo tinha mandado o príncipe ficar. Chegando neste, parou ao escutar vozes.

“—Cain... seu tolo...” – A garota escutou a voz de Veck por detrás da porta, e acabou se aproximando para saber mais. “— O que eu vou fazer... Você não deveria ter feito isso comigo...” – Respirou fundo ela, decidindo que era melhor entrar.

A elfa bateu na porta, entrando em seguida. Avistou o príncipe deitado na cama, com um lençol branco o cobrindo e uma toalha da mesma cor em sua cabeça. Provavelmente Veck teria umidecido esta, para amenizar a febre.

Olhou então para este, vendo-o sentado em uma cadeira ao lado do outro, observando-o com uma preocupação cujo pensou que ele só teria pela garota que amou um dia.

“— Vectorius, como ele está?” – Perguntou-lhe, aproximando-se mais deste.

“— Eu não sei... Parece pior. ”

“— Irei chamar o médico.” – Avisou, saindo do quarto.

Veck levou uma mão aos seus cabelos, jogando-os para trás enquanto observava o outro dormindo ali.

“ Se ele não se recuperar de onde vou tirar a energia que preciso?” – Ponderou, olhando-o apenas como ‘alimento’. “ Não!... Não é hora para ficar pensando em algo assim... Cain está muito mal...” – Ajuizou em pensamentos depois.

O moreno começou a se remexer na cama, lentamente abrindo seus olhos belamente ametistas, notando o amigo olhá-lo de forma preocupada. Sorriu, fazendo um esforço para erguer um pouco sua mão, sorrindo mais ainda quando sentiu este segurar ela.

“— Cain... Não se esforce, descanse.” – Encarou aquele olhar cansado, em contrapartida com aquele sorriso feliz.

“— Veck, me desculpe... Eu só lhe dou trabalho.”

“— Idiota... Se estava mal, deveria ter avisado antes...” – Soltou um suspiro cansado. “— Fiquei preocupado...” – Murmurou baixamente.

“— Eu... Não queria lhe preocupar... Eu-...” – Acabou por desmaiar novamente.

“— Eu não quero perder mais ninguém nessa vida... Resista Cain.”

Após algum tempo Luna regressa com o médico, este pede para ambos saírem do quarto. Estes apenas concordam se retirando do cômodo e ficando os dois sentados no chão do lado de fora.

“—Vectorius, por que se preocupa tanto com esse humano?”

“— Não sei...”

“— Você deve gostar mesmo da energia dele...” – Olhou bem para este. “— Ou tem mais alguma coisa além disso?” – Quis saber.

“—Além disso?” – Desviou o olhar. “— Nada...”

“— Vectorius eu te conheço, você não estaria andando por aí com um humano por nada.” – Levou sua mão a face ao lado, sorrindo ao notar um leve arrepio da parte dele ao ter feito isso. “— Viu, ainda é só um pirralho, e sempre vai ser para mim... Agora me conte o porquê de ajudá-lo.”

“— ...” – Ficou mudo por um tempo, como se ponderasse o que iria falar. “— Eu... Realmente não sei, é tudo tão estranho... Cain tem um demônio dentro dele, quase uma dupla personalidade, e eu prometi que em troca da saborosa energia dele eu o ajudaria a acabar com uma maldição...”

“— Vectorius, você sempre gostou de confusão... Mas mexer com maldições é proibido. Você sabe muito bem disso.”

“— Sim, eu sei. Mas nada posso fazer, já que aceitei, vou fazer de tudo para livrá-lo dela.” – Sorriu-lhe confiante.

“—Mas se você não conseguir... Vai pedir ajuda ao seu... Mestre?”

“— Nunca! Aquele desgraçado matou o que eu tinha de mais sagrado nesse mundo... Por culpa dele sou um vampiro. Alem di-”– Calou-se ao ver a porta se abrir.

A conversa dos dois fora interrompida pelo médico, que saiu do quarto extremamente confuso. Ele nunca tinha visto um caso assim. Bem, até teria visto, se não tivesse aparecido algo estranho pelo corpo de seu paciente.

“— Pensei que era apenas um caso de envenenamento, mas ele está estranho... Umas escrituras aparecerem e não sei mais o que ele tem.” – Disse o médico, para os que estavam sentados.

“— Marcas?” – Estranhou Luna, levantando-se.

“— É mesmo me esqueci das algemas!” – Veck levantou-se no mesmo instante, entrando no quarto o mais rápido que pode.

Cain se encontrava na cama deitado, se remexendo de um lado ao outro com suas marcas começando a aparecer por todo o corpo. Logo notou que a situação poderia se tornar mais crítica ainda, já que não poderia morder o moreno estando doente para drenar as forças do demônio que habitava aquele corpo.

A única opção era algemá-lo, mas antes teria que vasculhar todo o quarto atrás das algemas.

“— O que procuras Vectorius?”– Quis saber, entrando no quarto e estranhando de cara aquelas marcas no garoto. “— Vectorius... Isso é élfico antigo, uma língua já extinta.” – Mencionou, chocada por ver aquilo.

“— É...?” – Apenas olhou de relance, mostrando o desinteresse no assunto no momento. “— Depois falamos sobre isso, agora me ajude a achar umas algemas espirituais douradas.”

Ficaram procurando por algum tempo, escutando vez ou outra um rosnado da parte do moreno, mas por sorte, a ruiva encontrou as algemas. O meio vampiro não perdeu tempo, tomou estas das mãos da garota, colocando em seguida no outro.

Ambos respiraram aliviados ao notar que este parava de se mexer, além daquelas marcas desaparecerem por completo. Veck sentou-se na beirada da cama, cansado pelo corre-corre de instantes atrás.

“— Descanse agora, mais a tarde uma tempestade vai aparecer... E você terá que ajudar.” – Avisou-lhe a garota, sorrindo gentil e saindo do quarto.

Suspirou ao ver a ruiva sair do quarto, estava exausto por ter revirado quase todo o quarto, e pior, teria que arrumar tudo do modo que estava. Respirou fundo, como teria que fazer, melhor começar logo.

Arrumou tudo com o maior cuidado, queria deixar tudo o mais próximo o possível do jeito que estava antes de ele e a Luna procurarem que nem loucos as algemas para conter o demônio.

Lembrando-se de Cain, virou-se para ver como este estava, notando que parecia um anjo dormindo em cima de sua confortável nuvem. Se aproximou a passos lentos, sentando-se na cama, bem na borda, ao lado deste.

Levou sua mão a testa do moreno para medir sua febre, notando que começara a diminuir um pouco. Menos mal. Sorriu, acariciando levemente o rosto daquele ser adormecido, descendo e parando na curva do pescoço. No lugar aonde mordia.

“ Não poderei me alimentar de você nesse estado, terei que me controlar.” – Ajuizou em pensamentos.

Ficou lá, por um longo tempo apenas vendo-o dormir, zelando pelo seu bem. Mas logo lembrou-se que tinha que terminar de arrumaro quarto. Tocou uma última vez naquele rosto sereno, levantando-se e voltando ao trabalho.

Entretanto parou quando escutou um barulho alto de trovão. Sabia muito bem que navegar nessa época do ano era arriscado, por isso os navios estavam quase todos no porto.

Olhou para o outro mais uma vez, antes de sair do quarto para procurar a capitã daquele navio. Não fora surpresa ao ve-la no convés, dando ordens para sua tripulação. Olhou prontamente para o céu, percebendo-o todo negro, com grandes raios passando de uma nuvem a outra.

Parecia que iria ocorrer um dilúvio.

Olhou então para ao mar, neste estavam se formando ondas inrregulares, um pouco diferentes do normal. Já havia passado uma boa parte de sua vida como um dos tripulantes de Luna.

“— Luna, esta tempestade não está estranha?” – Gritou, para que a garota pudesse escutar naquela mistura de sons que estava tudo.

“— Deve haver algum distúrbio aqui por perto, mas esqueça isso, me ajude aqui!” – Gritou de volta.

“— Se aparecer alguma onda grande ou qualquer outra coisa, detenha-na com sua magia!”

Por algum motivo, o tempo ia passando e a tempestade só piorando. O vendo e o mar agitados faziam o barco quase virar, fazendo os tripulantes se segurarem afoitos em qualquer coisa, para garantir suas vidas.

Quem caísse no mar, morria.

Veck ajudava em tudo que podia, não parava um instante de conjurar suas magias. Tinha pouco tempo pararespirar entre uma magia e outra. Ficar lançando magias deste modo, acabaria com suas reservas de energia.

Não era bom ficar com fome já que sua fonte de alimento encontrava-se ‘debilitada’ no momento. Respirou fundo, engolindo seco em seguida ao ver uma onda maior do que as antigas.

“— Restricted! Anulação!” – Murmurou, apontando para a onda com a palma, por onde um brilho azulado saiu de suas mãos, fazendo a onda se quebrar antes de chegar a eles.

Aquela noite não iria acabar tão cedo, já estavam a muito tempo fazendo tudo o que podiam. Mas pelo menos as ondas deram sossego um pouco. Melhor para Veck, que já estava quase se esgotando.

A ruiva olhou bem para o amado, vendo o estado dele, acabou por correr em sua direção, segurando-o pelo ombro para que tivesse um pouco mais de amparo. Sabia estar abusando dele. Mas, era sempre assim.

“— Vectorius, descanse um pouco!” – Pediu-lhe, meio preocupada. “—Por hora, tudo parece controlado, nada pior pode aconte-...” – Calou-se, não acreditando no que via vindo em direção ao seu navio.

Veck fixou sua visão onde a ruiva olhava tão espantada, curioso pelo que poderia ser. Surpreendeu-se ao ver entre a tempestade, no meio do oceano, um enorme monstro marinho.

Seu olhar amarelo, fixava-se no nada, como se não notasse a tripulação ali, mas seus rugidos faziam o navio reverberar na água. O mostro se ergueu mais, mostrando a forma de uma enorme serpente marinha negra.

“— Leviathan!” – Exclamou mais pálido do que já era de costume. “— Sorte que parece um filhote... Ele é a causa dessa tempestade sem fim.” – Murmurou, vendo encrenca a frente.

“— Todos, vamos mudar a rota agora!” – A capitã deu sua ordem a tripulação. “—Vectorius, vá ver o estado de Cain, e volte rápido.” – Mandou-lhe, afastando-se deste.

A tempestade só piorava e a situação se agravou mais, pois Leviathan, que tinha a fama de ser o rei dos mares, estava a ‘passear’ um pouco mais adiante. Veck tratou de esquecer isso por um momento para ir até quarto de Cain, mas parou ao ver este tentando sair de seu quarto agarrado às paredes.

“— Cain!?” – Correu para ajudá-lo. “— O que pensa que estás a fazer?”

“— Eu... Quero ajudar...” – Avisou-lhe, fazendo todo o esforço possível para parecer que estava bem. “— Não se preocupe, estou bem...”

“— Não temos tempo para ficar dialogando! ” – Falou-lhe severo. “— Volte para sua cama, o monstro serpente Leviathan está por perto...Tenho que ficar pronto para atacar, nem que seja só para ajudar o navio a fugir.” – Avisou.

“— Leviathan... Seria o rei dos mares?”

“— Este mesmo, agora volte a-...” – Não conseguiu terminar sua frase, pois foi surpreendido por um grunhido.

O barulho fora tão grande que fez todos tamparem seus ouvidos. Veck sabia muito bem o que isso significava, por esse motivo empurrou o moreno até de volta ao quarto que estava, jogando-o em cima da cama.

“— Se ousar sair, eu desisto de te ajudar!” – Avisou-o, saindo dali e fechando a porta.

Não perdeu tempo em correr para ver o que estava se acontecendo no convés, e de fato fora o que havia pensado. A serpente marinha havia encontrado o navio e lentamente se aproximava. Agora com aquele intenso olhar amarelo focando-os de forma assustadora, com os dentes a mostra.

“— Vectorius... Fique em posição, eu serei seu escudo enquanto você conjura uma magia decente.” – Falou a garota, segurando um arco élfico, já estando pronta para tudo. “— Vai ser como nos velhos tempos.” – Comentou, aproximando-se, ficando mais a frente deste.

“— Certo!” – Posicionou-se em um lugar melhor, podendo ver com clareza seu alvo. “—O rei dos mares... Não poderei ficar usando magias básicas, então vai demorar um pouco até eu conjurar uma realmente boa.”

“— Farei o máximo possível.”

A serpente marinha se aproximava mais e mais, a tripulação estava fazendo tudo que podia, já que cada vez mais a tempestade estava piorando.

Luna faz seu primeiro movimento, se concentrou e jogou uma rajada de flechas que acertaram o Leviathan em cheio. Não causaram dano, mas pareceram deixar com ainda mais raiva aquele ser, pois ele deu uma rabada na água perto do navio o fazendo quase virar.

O balançar do navio fez todos da tripulação caírem, alguns bateram a cabeça e ficaram inconscientes, mas Veck se manteve firme em pé conjurando sua magia.

A garota e alguns da tripulação se recompuseram e voltaram à ativa. Já o monstro, se aproximava de boca aberta para tentar morder o navio. Entretanto uma rajada de flechas precisas dentro da boca deste o fez recuar um pouco.

Outro rugido fora ouvido, fazendo-os tampar os ouvidos. O monstro abriu mais a boca, se livrando das flechas presas nessa, logo sem seguida criando um brilho dourado ali. Quando lançou este, fora tão rápido que Luna não conseguiu desviar-se, e acabou sendo acertada em cheio.

Por sorte, aquele rei dor mares era um filhote, se não, já estaria morta.

“— Vecto-... Vectorius ainda não?” – Indagou-lhe, ofegante.

Este apenas ficou mudo, estava de olhos fechados e parecia ter se isolado de tudo a sua volta, apenas concentrado na conjuração.

Na boca de Leviathan começou a se formar outro brilho dourado, porpem este era de um tamanho mais elevado, que certamente estava direcionado para Veck, pois o monstro não era tão ingênuo, sabia que se ele terminasse a conjuração estaria com sérios problemas.

“— Vectorius, interrompa a conjuração!” – Exclamou, ainda não estava totalmente recuperada do primeiro golpe e não teria forças o suficiente para impedir o segundo.

Veck ignorou, apenas continuou a conjurar.

Quando o raio luminoso de Leviathan fora disparado tudo já estaria perdido. Entretanto um vulto aparece e detêm o ataque. Era Cain com a sua espada negra, já cheio de marcas.

“— Que?” – A elfa olhou confusa para o que havia chegado. “— Não estava doente?”

“— Calada! Mulher inútil!” – Vociferou com a voz ameaçadora. “— O vampiro vai demorar muito?”

“— Eu... A...” – Estava sem palavras, já que o Cain que conhecia fora tão gentil com ela. “— Pelo jeito ainda falta um pouco.”

“— Vampiro desgraçado... Se diz um bruxo bom, mas demora um ano para conjurar uma magia decente.” – Reclamou, revirando os olhos em descaso.

O Leviathan que já estava extremamente enfurecido, piorou quando Cain começou a insultá-lo.

“— Cain pare, assim só vai piorar.” – Pediu a garota, já pensando no pior.

“— Cala-te! Elfa inútil!” – Encarou com um olhar de nojo e desprezo esta. “—Você está envergonhando sua raça!”

Esta ficou pálida diante das palavras agressivas daquele que devia ser um educado e culto príncipe. O choque de ter escutado aquilo foi tão grande que ele abaixou sua cabeça e começou o chorar.

“— Leviathan, por enquanto terás que brincar comigo!”

Cain corta o ar com sua espada formando uma lâmina negra de energia que vai em direção ao Leviathan, acertando-o. Como daquela vez que havia feito isto com Veck.

O monstro apenas sacode a cabeça após receber o dano. Não sofrera quase nada. Aquilo apenas serviu para ficar mais furioso, se é que era realmente possível tal fato. Outro que ficara furioso fora o moreno, ao descobrir que seu golpe quase não causara nenhum efeito.

“— Inferno! Ele só leva dano de magias de alto nível... Hei vampiro! Termine logo isso!!!”

“— Calma Cain, essa magia que ele esta conjurando é muito poderosa eu a conheço ele vai-...” – Iria explicar para o outro, mas para ao escutar a voz de do vampiro um tanto mais alta.

“— Pentagrama do Fogo. Pentagrama da Água. Pentagrama da Terra. Pentagrama do Vento...” – Quatro pentagramas aparecem ao lado de Veck. “— Poderoso rei Deus, ateio fogo nos quatro pentagramas dos quatro pontos cardeais...” – Os pentagramas em volta pegaram fogo. “— Do heptagrama dos céus, venha até mim e conceda-me vossa força! Pegue as sete chaves e abra os sete portões do inferno, transforme tudo em cinzas...” – Abriu finalmente os olhos, portando um sorriso malicioso em sua face. “— Hellow-een! Chamas infernais!”

Uma colossal labareda parte em direção ao Leviathan evaporando a água do oceano pelo caminho. O monstro estava muito ocupado com Cain e não notou que o bruxo tinha terminado de conjurar.

Só descobriu quando já era tarde demais e não teria como se esquivar, pois diferente dos ataques do Cain, os de Veck eram extremamente rápidos. A serpente marinha levou em cheio as chamas que o queimaram até não sobrar nada, só uma bola de fogo flutuando no ar.

“—Volte para mim minha amada...” – Falou pesaroso Veck, estendendo os braços em direção a aquela bola de fogo.

A bola de fogo começa a brilhar e aos poucos se transforma em um lindo anjo de fogo, voando sobre o mar. Os cabelos longos re remexiam. A única coisa visível realmente naquela magia, era um sorriso amoroso, e a forma de uma garota.

“— Venha... Lucy não me abandone.” – Murmurou Veck, dando uns passos adiante, tinha treinados por anos, para sua magia ter aquele resultado no fim. Pois poderia vê-la nem que fosse uma miragem. “— Minha amada...”

A anjo de fogo voa em direção a Veck o abraçando dando um sorriso radiante, para logo desaparecer em seguida.

“— Realmente ele é forte... Talvez eu possa confiar nele... Acho que não sou mais útil aqui...” – Desmaiou Cain, após terminar de falar.

Luna sentia seu coração doer pela cena que vira com seu amado, mas sua atenção fora voltada ao ver novamente o príncipe desmaiado no chão. Correu em direção a este, tentando ajudá-lo.

“— Vectorius!” – Olhou assustada para este. “— Ele está ardendo em febre!” – Avisou-lhe preocupada.

Veck deu um suspiro cansado, estava completamente sem energias quase, mas não era hora de pensar nisto, tratou de respirar fundo, indo até o moreno e pegando-o no colo, carregando-o até o quarto novamente.

“Esse irresponsável... Eu disse para não sair do quarto, só não vou reclamar com ele por estar doente.” – Pensou, olhando o rosto deste enquanto o carregava.

Carregou-o lentamente, não havia mais perigo, a tempestade começava a passar em uma velocidade espantosa. Realmente a causa desta era apenas a proximidade de um rei dos mares.

Colocou-o gentilmente em seu leito, ajeitando-o em seguida neste, levando logo sua mão a face, arrumando seus cabelos negros e medindo sua temperatura.

“ Está muito quente...” – Preocupou-se em pensamentos. “— Acho melhor pegar uma toalha com água...” – Falou baixinho, se afastando.

Começou a procurar por alguma toalha pelo quarto, mas parou ao nota-lo tentar sentar-se na cama, com um enorme e visível esforço. Parou o que fazia, chegando mais perto novamente, sentando-se na beirada da cama.

“— Ve-...Veck” – Tentava falar. “— Eu...”

“— Pare de falar Cain, descanse.” – Pediu-lhe calmamente.

“— Mas... Eu saí do quarto... Não é?” – Não se lembrava ao certo.

“— Esquece isso, agora você tem que descansar.” – Acalmou-o um pouco.

“— Certo... Boa noite...” – Voltou a deitar-se. “— As... Algemas... Eu...”

“— Deixa que eu mesmo as coloco em você, apenas relaxe.”

Veck colocou as algemas em Cain e sentou-se na cadeira ao lado da cama para poder cuidar dele à noite. O moreno dormira rápido, parecia estar exausto.

Os olhos do vampiro estavam cansados, estava a um bom tempo acordado cuidando do humano, já havia trocado a toalha úmida em sua cabeça por diversas vezes. Mas, já não estava aguentando o sono e o cansaço, pois usara uma magia de alto nível para acabar com o inimigo e em consequência gastou muita energia.

Acabou se entregando ao sono, dormindo ali mesmo na cadeira fria.

--X--

De manhã Veck é acordado por umas batidas na porta. Respirou fundo, levantando-se de sua cadeira lentamente. Entretanto, antes de fazer algo, tirou a toalha da testa do outro, levando sua mão ali e medindo a temperatura.

Sorriu, ao constatar que já estava na temperatura normal, só então fora até a porta, abrindo-a e dando de cara com a elfa.

“— Bom dia Luna.”

“— Só se for para você...” – Rebateu mau humorada. “— O navio sofreu muitos danos, mas... Trouxe o médico para ficar com o Cain hoje, pode ir descansar. ”

“— Estou bem só com um pouco de ‘fome’...”

“— Fome...? Sabes que não quero meus homens desmaiados por quatro dias por que você resolveu fazer um ‘lanchinho’ neles.”

“— ...” – Revirou os olhos, ficando mudo por um tempo indeterminado, encarando com desprezo e frieza aquela garota ruiva. “— Pode deixar, não vou atacar sua tripulação, eles são só um bando de humanos inúteis que nem para ser meu alimento serviriam.” – Alfinetou-a.

A elfa encarou de volta o outro, com o ódio brilhando em seus olhos azuis. Mas decidiu que não era hora de ficar conversando, principalmente com Veck naquele estado. Sabia muito bem que, um vampiro com fome é um vampiro mal humorado e sem paciência.

Apenas deu as costas para o outro, ordenando para que o médico entrasse no quarto e saiu dali, sem falar mais nada.

Veck observou o médico entrar e decidiu que era melhor ele realmente ir descansar um pouco. Avisando antes de sair que era para o médico não remover as algemas se este não quisesse matar a todos.

Saiu então dali, rumando para o quarto ao lado, cujo estava ficando agora, normalmente o seu quarto seria o mesmo que a ruiva. Entrou e fora direto para o banheiro. Quem sabe relaxar ajudaria um pouco. Logo retirou suas roupas, deixando-as ali perto.

A água passava pelo seu corpo do mesmo jeito que algumas lembranças dolorosas passavam por sua mente, sentia um misto de tristeza e ódio ao lembrar-se de seu Mestre, o vampiro desgraçado que o fez perder a sua única razão de viver.

Pequenas lágrimas começavam a brotar em seus olhos, então decidiu que era melhor afastar esses pensamentos tristes. Resolveu ir dormir, já que não podia se alimentar, pois Cain estava doente, era melhor então economizar energias.

Desligou o chuveiro e pegou uma toalha, saindo do banheiro e secando seus longos cabelos prateados, procurou entre seus pertences uma roupa que lhe agradava. Sorriu ao achar um robe quase todo verde com apenas uma lua minguante enorme prateada nas costas.

Vestiu-o rapidamente e logo se jogou na cama, deitando nela abandonando seus cabelos ainda úmidos que refletiam com o brilho do sol que entrava por uma janela em que as cortinas estavam abertas.

“— Está muito claro... Não gosto de dormir assim...” – Murmurou contrariado, sentando-se na cama para conjurar algo. “— Hold! Escuridão total!” – O quarto lentamente começa a ficar escuro, até que só há trevas nele. Contrariando o sol forte lá fora.

Não se incomodava com luz, só os de nível realmente baixo tinham esse problema, mas o fato era que não gostava de dormir com o sol batendo em seu rosto, achava agonizante. Após isso deitou-se na cama novamente para ter seu merecido descanso.

--X--

O dia estava lindo e reluzente com Luna ajudando-a consertar o navio, que sofreu alguns danos na tempestade da noite anterior. Estava ocupada dando várias ordens quando avistou de longe uma ave chegando, era Falon o seu falcão, que voou e pousou suavemente em seu ombro.

“— Crrácraaaáá~ ” – Grunhiu a ave, dando leves bicadas na cabeça de sua dona.

“— Eu sei Falon, ele é um azarado... ” – A garota faz um afago na cabeça do animal. “— O jeito e esperar pelo pior... Mais tarde contarei para o Vectorius. ”

“— Crácracráá!” – Chiou, voando do ombro de sua dona, pousando somente nas velas do navio.

“ Parece que essa pequena viagem só tem problemas...” – Pensou a capitã, voltando aos seus afazeres.

O dia seguiu assim, Veck e Cain dormindo em seus respectivos quartos, Luna e sua tripulação arrumando o navio. Mais à noite Luna decidiu que já era hora acordar Veck, arrumou-se antes rapidamente, rumando em seguida para o quarto deste, batendo delicadamente na porta.

O vampiro acabou sendo acordado com as batidas da elfa em sua porta, espreguiçou-se lentamente, anulando logo em seguida a magia que deixava o quarto completamente escuro. Levantou-se andando manhosamente até a porta.

“— Vectorius, precisamos conversar... Poderia ir comigo a minha cabine?” – Indagou-lhe amavelmente, com um sorriso travesso nos lábios.

“— Claro minha dama, podemos ir agora mesmo se quiser.” – Sorriu também, vendo esta concordar com a cabeça. “— Espere só um instante, quero ver como Cain está...” – Avisou-lhe, rumando para a porta ao lado.

Andou até a porta do quarto do moreno, batendo algumas vezes, escutando que podia entrar do médico que estava lá dentro. Respirou fundo, entrando e vendo-o dormindo com um ar angelical.

Não conseguiu evitar suas pernas, que o fizeram se aproximar daquele garoto, colocando uma mão em sua testa assim que ficou ao seu lado, sorrindo meio aliviado ao medir sua temperatura e notar que não estava mais febril como da primeira vez.

“— Ele está bem... Só teve um dia um pouco complicado.” – Pronunciou o médico, para tranqüilizar ainda mais os dois que haviam aparecido. “— Vou lhe falar melhor o que ele tem.” – Deu uma pausa, estralando os dedos. “— O garoto deve ter levado uma pequena dose de um veneno forte, e o organismo dele esta reagindo a isso, mas fora esse problema, ele já está bem melhor.”

“— E ele vai demorar a se curar?” – A pergunta veio de Veck.

“— Não, ele estará bem melhor amanhã, mas é bom o deixar descansando a viagem toda.” – Explicou o médico.

“ Terei que ficar cinco dias sem me alimentar... Será que aguento?” – Pensou, olhando para o ser a dormir. “Maldição... Gastei muita energia com o Leviathan.” – Engoliu em seco, vendo-o virar a cabeça para o lado, lhe mostrando bem o pescoço.

Uma fome começou a brotar em si, e quanto mais olhava o pescoço de Cain mais se sentia tentado a saciar sua fome. Respirou fundo, controlando seus instintos. Era melhor sair do local antes que não conseguisse mais fazer isso.

Luna havia saído do quarto a alguns instantes, assim que o médico falou que o paciente logo se recuperaria, e agora só aguardava o namorado, ou seja lá o que fosse, sair do quarto.

Arqueou uma sobrancelha ao ver este sair do cômodo as pressas, com uma mão a tampar a boca, como se quisesse esconder algo. O azul dos olhos da garota ficaram meio tristes, mas logo zangaram-se. Veck estava sentindo fome por outra pessoa sem ser ela.

Era completamente lógico pela ação do outro, que a ‘fome’ do vampiro estaria começando a aparecer, ainda mais por ter gastado tanta energia anteriormente, e se continuasse assim, sabia que um estrago realmente grande em seu navio poderia se dar, pois Veck ficava insuportável com fome.

“— Está tudo bem?” – Luna se aproximou do outro e esperou uma resposta, mas esta não veio, então decidiu mudar de pergunta. “— Podemos ir conversar agora?” – Fez um sinal com a mão para eles irem.

Veck estava perdido em seus pensamentos, não escutou nem uma das perguntas que a garota fizera, estava apenas olhando fixo um ponto qualquer no chão, como se tivesse algo interessante para se observar.

Estava espantado consigo por já estar assim com apenas dois dias sem comer, sabia que sua fome só ia se satisfazer com toda a tripulação daquele navio. Pois humanos tinham poucas reservas de energias espirituais, e se os mordesse ficariam dias inconscientes, Cain era o único humano que não era daquele jeito.

“Humanos inúteis, não servem nem para serem comida.” – Pensou de forma alterada até, a fome lhe subindo a cabeça.

Fechou os punhos com força. A força foi tanta que as suas unhas cravaram em sua pele alva fazendo sangrar levemente no local. A dor o fez acordar de seus pensamentos, e pode notar que Luna estava com as mãos na cintura, com uma cara de poucos amigos.

“— Acordou agora Vectorius?” – Reclamou da falta de atenção.

Finalmente pela primeira vez Veck escuta a voz de Luna e então levanta a cabeça, encarando esta de um jeito tão... Faminto, que deixou a ruiva ruborizada.

“— Ve-...Vecto-...” – Não conseguia falar, aquele ser que a encarava tinha um brilho em seus olhos esmeraldas que a estava deixando fora de si, amava-o demais. “—Vectorius, vamos... Até minha cabine... Tenho algo para lhe contar.”

“— Ah, sim...” – Envergonhou-se pelo modo que a observava, logo disfarçando. “—Desculpe-me se não te escutei antes, era que estava perdido em meus pensamentos...”

Ambos sorriram sem jeito, saindo daquele corredor, indo direto para a cabine de capitão que a garota ocupava. Ao chegarem, esta fez um suave gesto com a mão para que o outro ficasse acomodado, enquanto fechava a porta.

“— Vectorius, temos um grande problema...” – Começou em tom de seriedade, sentando-se formosamente na cadeira à mesa. “— Ele... Seu Mestre te achou.” – Olhou com carinho para Veck, notando que a face que outrora estava calma agora se transformara em um misto de raiva e medo.

Sentiu uma dor profunda ao ver.

“— O que está dizendo Luna...” – Parecia transtornado. “— Não tem como meu Mestre... Não tem como...” – Tentou se acalmar, respirando fundo, mas não conseguiu. Só a idéia daquele ser tirano lhe assustava em demasia. “— NÃO pode ter como!”– Levou suas mãos a cabeça, em profundo desespero.

“— Calma Vectorius...” – Entristeceu-se mais, pelo modo que sua notícia lhe deixou. “—Seu Mestre lhe achou mas, ele não pode sair de lá.” – Lembrou-o, só não sabia por quanto tempo isso que disse poderia ser verdade.“— Calma meu amado...” – Levantou-se, indo em direção a este. “— Eu lhe ajudarei...” – Sorriu-lhe amena, com os lábios perfeitamente vermelhos.

“— Você sabe que eu não posso lhe amar...” – Comentou frio, abaixando a cabeça. “—Meu coração foi perdido há muito tempo... Junto com ‘ela’.”

“— Eu sei muito bem...” – Sempre soube, mas não desistiria dele. “— Eu vi a magia de ontem...” – Mordeu fracamente os lábios carnudos. “— Mas, mesmo assim eu ainda posso...” – Deixou a frase sem continuar.

Esta se ajoelhou ao lado do vampiro, levando gentilmente suas mãos finas à aquele rosto, obrigando-o a encará-la. Sorriu satisfeita, vendo este fechar aqueles bonitos olhos, aceitando seu carinho.

De olhos fechados, Veck não notou a aproximação da garota, mas sabia que ela faria aquilo. Soltou um suspiro sentindo um suave beijo, mas logo percebeu que ela mesmo intensificou este.

Podia sentir toda a necessidade dela naquela ato, naquela língua a vasculhar sua boca com gana, com uma incontrolada saudade. Quantos anos ficaram sem se sentirem? Não se lembrava, e não sabia se tinha saudades disso, diferente dela.

Mas, não podia negar que aquele corpo ansiando tanto pelo seu o instigava também. Acabou por levar uma mão a cintura dela, apertando suavemente, acariciando de forma pervertida quase o local, enquanto a outra fora para a nuca trazendo-a mais para si, aprofundando mais aquele ato.

As línguas já brigavam a um bom tempo, em uma a deleitosa batalha dentro da boca de ambos a procura de espaço. A mão da garota fora mais pervertida ainda, levando-a para a coxa do vampiro, ameaçando subir a qualquer momento.

Este se afastou levemente, cortando aquilo.

“— Desculpe... Eu não pude resistir, você estava tão...” – Desculpou-se ela, meio encabulada por seu desejo.

“— Acho que vou para meu quarto, amanhã conversaremos... Já que se continuarmos aqui...” – Avisou-a, levantando-se.

Em pé ao lado da garota que estava ajoelhada, ele então pegou sua mão inclinando-se um pouco, beijando as costas daquela macia mão. A cena foi tão romântica aos olhos de Luna, que ela ficou mais vermelha que seu próprio cabelo cor de fogo.

“— Até mais minha dama.” – Despediu-se em seguida, saindo da cabine.

A elfa fica a ver Veck saindo de sua cabine e solta um suspiro.

“ Essa foi uma boa maneira de o fazer apagar temporariamente as lembranças dolorosas...” – Pensou levantando-se, para logo em seguida levar sua mão a boca passando levemente seus dedos nos lábios. “— Que saudades tinha de provocá-lo... ” – Falou para si mesma, dando um sorriso deveras travesso. “ Mas e agora o que faremos a respeito de seu Mestre...?” – Voltou a refletir, saindo da cabine, rumando logo para seu quarto.

Ao chegar, a garota trata de tirar rapidamente suas roupas, as jogando no chão em um canto qualquer. Dirigiu-se então para o banheiro, precisava tomar um banho gelado para tirar alguns pensamentos de sua cabeça.

Teve que ser um banho longo e demorado, e após terminar, se enxugou um pouco e se jogou na enorme cama. Aproveitou que estava um pouco sem sono e bolou ‘um plano’ para provocar ainda mais Veck.

O sol já tinha desaparecido há algum tempo e as primeiras estrelas estavam começando a aparecer. A garota após terminar seu plano, decidiu dormir e então se arrumou mais confortavelmente na cama, adormecendo... Sonhou estar nos braços de seu amado novamente.

--X--

Com o despertar do dia Veck fora o primeiro a acordar, se arrumou tranquilamente penteando seus cabelos, que caíam como uma cascata prateada em seus ombros. Demorou um bom tempo fazendo isso e ao terminar saiu de seu quarto indo direto ao quarto ao lado, batendo na porta algumas vezes.

“— Entre!” – Uma voz familiar falou de dentro do quarto.

O vampiro entrou sem pensar duas vezes. E para sua surpresa notou Cain sentado na cama com um prato de sopa que estava comendo. Este parecia bem melhor.

“— O senhor poderia acompanhar ele hoje?” – Pediu o médico, saindo do banheiro. “—É que estou cansado pois ele teve uma noite difícil... Nem sei como está tão bem agora, à noite eu voltarei.” – Parou de frente para Veck esperando uma resposta, este apenas concordou com a cabeça. “— Agradeço.” – Deu uma ultima olhada em seu paciente e saiu do aposento.

Veck sentou-se na cadeira ao lado da cama e não hesitou em colocar sua mão gentilmente na testa do moreno, ignorando o fato deste estar olhando-o de forma bem curiosa até. Parece que verificar sua temperatura se tornara uma breve mania.

“— Não se preocupe, eu estou bem agora.” – A voz de Cain saiu tão doce e delicada que fez Veck tirar a mão de sua testa.

“— Que bom, você me deixou muito preocupado.” – Queixou-se, cruzando os braços. “— Se acontecesse algo com você eu não sei o que eu faria.”

“— Você é um bom amigo mesmo!” – Sorriu-lhe radiante, completamente alegre pelo que tinha ouvido do outro.

Veck ficou mudo, pois na verdade ele só tinha pensado em si mesmo esse tempo todo, ficou pensando em sua fome, seu desejo. Nem cogitou a idéia de realmente se preocupar com aquele humano.

“— É claro que me preocupo com você.” – Sorriu sem jeito, logo abaixando a cabeça, completamente envergonhado por seus pensamentos egoístas.

“—Você preocupado com algo mais, conte-me.”

O moreno colocou em uma mesinha do outro lado de sua cama o prato de comida, agora vazio, e em seguida virou-se para o amigo, segurando uma mecha daquele cabelo. Sorriu, notando o quão macios e bem cuidados eram, para em seguida puxar algumas vezes, como uma criança pedindo atenção.

“— Eu...” – Os belos olhos verdes se encheram de lágrimas, por conta de algumas lembranças que passaram em sua mente. “— Eu... Não quero voltar... Eu não quero sangue...”

“— Sangue?” – Indagou confuso. “— Mas você não precisa disso, não é?”

Só depois de ouvir isso, fora que notou o que estava dizendo. Estava desabafando para um garoto extremamente mais novo que si, apesar de aparentemente, parecerem ter a mesma idade.

Levantou-se meio assustado, virando o rosto para o lado na tentativa de não encarar mais aquele olhar ametista preocupado consigo.

Cain emburrou-se por aquela atitude, parecia que o amigo não confiava em si o suficiente para desabafar o que o estava incomodando. Segurou seu pulso de leve, puxando-o com a intenção de fazê-lo ao menos lhe encarar.

Entretanto, o puxão fora forte demais e fez Veck cair com tudo em cima dele. Este olhou espantado Cain em baixo de si, e por isso talvez, não conseguiu conter suas lágrimas.

O príncipe ficou sem ações ao sentir pequenas e singelas gotas de lágrimas caírem em sua face, o amigo parecia tão indefeso, ele nunca o tinha visto assim. Precisava fazer algo para reconfortá-lo nem que fosse por um instante.

Então quando sentiu que este estava tentando se levantar, rapidamente o abraçou, de forma carinhosa o trazendo mais para si. Afagava com lentidão suas costas, ajeitando-o melhor em seus braços.

Veck não estava entendendo nada que estava acontecendo. Seu sangue parecia ferver, talvez obra de sua fome... Só podia ser isso.

“— Chore... Desabafe se quiser, e descanse... Pode ficar assim o tempo que desejar...” – Falou suave, acariciando a cabeça deste, arrumando alguns fios prateados de cabelo que o atrapalhavam de ver aquela face tristonha.

“— Eu... Posso?” – Precisava confirmar se era verdade o que o outro lhe dizia.

“— Claro que pode!” – Avisou-lhe amigável, dando uma pausa. “— Se quiser dormir, eu ficarei zelando por seu sono. Se quiser chorar, eu o ampararei. Se quiser desabafar, eu o escutarei.” – Deu outra pausa, abraçando-o mais forte, sentindo-o mais. “— E se quiser ajuda, eu certamente o ajudarei com todas as minhas forças.”

As palavras de Cain foram como um estalo na mente de Veck, que acabou por pensar em tudo que vivera até agora. Muitos anos. Pensou também nas únicas pessoas com quem ele realmente pode se abrir e o ajudaram, Luna e Lucy.

Foi inevitável recordar mais profundamente de Lucy, memória de muitos, realmente muitos anos atrás. Aquela sua paixão por ela ainda existia. Sempre iria existir. Em meios as lágrimas deu um pequeno sorriso, quando ponderou que Cain lembrava um pouco ela, em seu jeito determinado e doce ao mesmo tempo.

“— Estou com... Medo...” – Desabafou Veck em meio a lagrimas. “— Me deixa ficar assim... Só por hoje...” – Abraçou-o mais forte, aninhando-se naquela cama, junto deste. “— Por... Favor...”

“— Notei que você é uma pessoa frágil, que finge ser forte apenas para não se machucar.” – Sussurrou baixo, afagando a cabeça deste. “—O problema é quando não aguentamos mais viver assim e passamos a pensar que somos uma farsa.”

“— Cain... Deixe-me recompor... Só preciso de um amparo...”

“— Veck, descanse... Se for só isso que deseja, descanse.” –Falou sereno.

Veck então adormeceu nos braços de Cain, estava muito cansado. Tanto físico quanto mentalmente, não tinha como negar que só lembrar-se de seu Mestre ou de Lucy o deixavam assim.

O moreno ficou acordado zelando pelo sono de seu amigo, estava tão diferente em seus braços, parecia uma criança assustada nos braços de sua mãe. Ficou observando-o notando depois de um tempo pequenas lágrimas surgindo em seus olhos.

Pensou que talvez ele estivesse tendo um pesadelo. Sorriu triste, preocupado, não aguentaria ver tristeza no semblante deste. Levou seus dedos ali, retirando delicadamente as lágrimas de seus olhos, com o maior cuidado para não acordá-lo.

Após algumas horas, já não estava mais aguentando o sono, sabia ser por causa do remédio que o médico havia lhe dado. Decidiu então parar de resistir. Moveu-se um pouco, pegando ao lado de onde deixara o prato de comida, suas algemas, logo as colocando, fazendo tudo lentamente, para não acordar o ser que dormia em seus braços.

Sorriu, puxando-o mais para si, se aninhando neste também para poder ter seu descanso junto a este.

--X--

Horas depois Veck acordou e levantou lentamente sua cabeça. Notou o moreno dormindo angelicalmente. Ficou um bom tempo apenas observando-o, fazer isso parecia que trazia calma para seu congelado coração. Mas logo caiu em si.

“Que idiota que eu sou... Ele esta doente e deve ter ficado acordado o máximo que pode.” – Pensou, levantando-se cuidadosamente, para não acordá-lo. “ Eu nem aparentei ter trezentos e quarenta e dois anos... Que vergonha ser consolado por um garoto de dezoito...” – Sentou-se na beirada da cama, ficando a observar a parede.

Respirou fundo, lembrando-se do sorriso gentil que este dera para si. Aquilo realmente o havia confortado mais do que qualquer outra coisa. Estranho. Um garoto que conhecia a poucos dias o acalmar tanto assim. Ainda mais por estar sendo tão egoísta pensando só em si mesmo.

“—Você não sabe, mas...” – Começou a falar bem baixinho, como se quisesse desabafar, mesmo sabendo que este não o escutaria. “— Eu só te considerava o meu almoço, um bom meio para poder sair daquele lugar... Mesmo eu não notando na hora, você lembrou um pouco a Lucy, em seu jeito persistente e doce, talvez esse tenha sido o maior motivo de eu o estar ajudando...” – Virou-se um pouco, observando as feições deste. “— Cain...”

Engoliu em seco, sentindo sua ‘fome’ voltar novamente. Inclinou-se um pouco em direção ao moreno, passando levemente seu indicador pelo pescoço deste, parando no lugar onde tinha mordido da última vez. Lambeu os lábios, pressionado um pouco seu dedo ali, sentindo a pulsação daquela veia.

Era tentador demais. A energia daquele garoto o atraia em demasia.

“— Durma... Descanse eu sei me controlar.” – Murmurou decidido, em tom bem baixo para não acordá-lo ainda. “— Não posso me alimentar agora, pois está doente, não posso atacar a tripulação, pois ficariam dias inconscientes...” – Questionou-se, dando um suspiro pesaroso. “ Humanos inúteis...” – Pensou, logo se arrependendo disso.“— Quem sabe se eu comer uma comida humana, minha ‘fome’ possa baixar um pouco…”

Levantou-se. Não era bom ficar perto daquele príncipe no estado em que ambos estavam. Levou rapidamente uma mão aos seus cabelos, jogando-os para trás, arrumando os fios prateados que possuía, para só assim sair daquele quarto. Não se esquecendo de antes de fazer isso medir a temperatura mais uma vez do outro.

Começou a vagar lendo, rumando para a cozinha, sentindo o barco levemente mexer no embalo da maré. Quando chegou ao lugar onde pretendia ir, parou assim que abriu a porta, notando apenas a presença da ruiva ali.

Observou-a bem. Esta estava de costas, a fazer alguma coisa na pia. Sorriu, lambendo com perversão os lábios ao analisar as curvas perfeitas que essa possuía, aquele cabelo belamente trançado jogado para frente.

Mas o que o deixou em um pequeno estado de deslumbre fora a roupa que aquela capitã estava a usar. Pobre dos marujos que a viram assim.

Usava uma mini-saia jeans que não tampava muita coisa, só fazia era realçar mais ainda esta, pois as longas e bronzeadas pernas ficavam a mostra. Combinavam com uma bota de couro que vinha quase até seus joelhos. Alem, é claro, de uma blusa justíssima, que nas costas eram apenas ligadas por correntes finas.

A garota estava a guardar um copo no armário mais alto.

“É provação demais...” – Raciocinou, vendo-a se esticar toda para colocar na prateleira mais alta que tinha.

Seus olhos esmeraldas não conseguiram se desviar das curvas dessa, descendo vagamente pelo corpo, notando a saia parecer mais curta que já era, pelo jeito que ela estava. Respirou fundo, dando passos inaudíveis quase como um predador antes de atacar sua presa. Aproximou-se perigosamente.

“— Quando se mexe com fogo, cuidado para não se queimar...” – Sussurrou marotamente, próximo ao ouvido dela, segurando a mão desta e tomando o copo que segurava.

“— Vectorius? O-... O que quer dizer com isso?” – Indagou, sentindo o coração acelerar. Sorriu sentindo uma mão em sua cintura enquanto a outra colocava o copo na prateleira.

“— Hum... Você sabe...” – Disse, afastando-se apenas um pouco para olhá-la melhor.

“— Não. Eu... Realmente não sei.” – Ficou de frente para o outro, olhando-o naqueles olhos esverdeados.

Iria se fazer de inocente, este era seu plano, e parecia estar dando realmente certo, pelas ações do outro estava conseguindo. Sorriu docemente, com a mistura certa de sedução nos lábios pintados.

“Ela é uma tentação! ” – Pensou o vampiro, mordendo os lábios e fitando os safira.

Luna vendo que seu plano estava dando certo, parte para ofensiva.

“— Quem sabe talvez eu queira me queimar?” – Melodiou a frase de forma sensual.

“— Então... Você fez isso de propósito, não é?” – Murmurou languidamente, aproximando-se mais, enlaçando-a pela cintura fina.

Não conteve-se, rapidamente a beijou, sentindo o gosto daquela que a tempos não sentia. Escutou um quase mudo gemido e a puxou mais para si, porem se machucá-la. Continuavam aos beijos, cada um mais profundo do que o outro, cada um mais demorado que o outro.

Instigado pelos gemidos convidativos desta, suas mãos subiram pelas costas, acariciando-a, terminando por pousar em sua bunda apertando-a com perversão.

“— Ahm...” – A garota puxou o ar com força, assim que a sessão dos beijos havia dado uma pausa.

“— Viu o que me fez fazer?” – Sussurrou rouco próximo ao ouvido dela, dando uma suave mordida na ponta daquela orelha. “— No estado que eu estou...” – Puxou de leve a trança desta, obrigando a garota a erguer a cabeça. “— Com a fome que estou...” – Seu olhar verde se fixou na garganta exposta, não se contendo e dando uma lambida no pescoço, procurando um lugar para morder.

“— Vectorius... Não ouse...” – Estremeceu com um beijo faminto em seu pescoço, sabia que deixaria marca. “— Não era isso que eu...” – Fechou os olhos, empurrando fracamente o outro “Se ele pensa que vai me morder, está enganado!” – Pensou em seguida.

“— Mas não foi você quem provocou...? Agora vai ter que arcar com as conseqüências.” – Murmurou, deixando que seu hálito quente tocasse a pele levemente bronzeada, bem onde queria morder.

Desceu sua mão, acariciando mais esta, alisando sua coxa, apertando-a para então impulsioná-la para que ficasse sentada sobre a bancada de mármore da pia. Sorriu pervertido, ao ver esta se remexer pelo contato da pedra fria em sua pele quente.

“— Eu quero descer...” – Pediu manhosamente, não gostando de sentir o frio da pedra escura, e muito mais pelo andar que as coisas estavam indo.

Talvez, tivesse se metido em uma encrenca.

“—Não.” – Respondeu de forma autoritária até mesmo frio, sorrindo maliciosamente. “— Irá ficar onde eu deixei.” – Deliciou-se ao ver a face senpre tão confiante de si, agora tingida em uma mistura de raiva e medo.

“— Vectorius... Eu não quero isso.” – Rebateu em tom de ameaça, olhando para o outro com raiva. “— Se me morder, te mato... E dessa vez não estou brincando.”

“—Eu...” – Aproximou-se, ignorando o aviso, ficando entre as pernas desta.

“— Hum...” – Gemeu baixinho, sentindo suaves vários beijos sendo distribuídos em seu pescoço, a fazendo perder o controle.

“— Luna...” – Sua mente só se focava naquela energia élfica. Não era a sua favorita, mas ajudaria bastante.

Respirou fundo, tentando se controlar, acabou por voltar a beijá-la profundamente, com suas mãos vagando lentamente pelas costas desta, acariciando-a de modo maroto.

A garota, por mais que quisesse se controlar por saber o possível rumo que aquilo levaria, estremecia com cada toque que levava, correspondia cada ação vinda do outro. Mas ficou tensa ao sentir este largar sua boca, rumando novamente para seu pescoço

“— Vectorius... Esse é o ultimo aviso...” – Sussurrou dificuldade, sentindo os beijos recomeçarem naquela area.

“— Luna... Eu estou com fome, e você está tão irresistível... Que eu não estou me controlando e...” – Nem pode terminar sua frase, pois fora interrompida por ela.

“— Não! Não ouse, você não me morderá!” – Esbravejou com raiva.“— Se ousar me morder... Você e aquele seu amiguinho morrem!” – Ameaçou, com os olhos brilhando em fúria.

Desta vez, Veck parou, engolindo em seco.

“— Mas você começou!"” – Deu uma pausa, se afastando um pouco daquele pescoço, encarando aqueles safiras.

“— Matarei aquele príncipe se me morder.” – Ameaçou novamente, mesmo que não fizesse na verdade.

“— Olhe o que você fez comigo, arque com as conseqüências... Você sabia que eu não estava com paciência para ficar aturando seus planinhos, estando faminto... Você só tem duas escolhas... Ou me da sua energia espiritual ou passe a noite comigo!” – Falou frio, olhando a garota como se a fosse devorar com o olhar.

Esta não acreditou no que ouvia, ficando extremamente feliz internamente, tendo de se esforçar para não demonstrar isso. Mas, a opção que ela desejava estava ali, era só deixar bem claro qual das escolhas desejava.

“—Não ouse se alimentar de mim novamente depois do que você me fez!” – avisou-o, com sua voz saindo em tom de ameaça, tinha que ter certeza que ele não a morderia.

“— Aquela vez... Você sabe que meu Mestre havia me feito uma surpresa... Por isso perdi a cabeça e lhe tirei muita energia...” – O coração acelerou-se lembrando dos acontecimentos passados.

“— Você quase me matou!” – Resmungou, empurrando-o com força. “— Iria cometer o mesmo erro outra vez!” – Alfinetou-o, enquanto descia da pia. “—E quando eu recuperei a consciência, meses depois, você havia sumido... Levando algumas coisas minhas.”

“—Eu não estava em meu juízo normal aquele dia... Você sabe...”

“— Você sabe que não foi só energia que você sugou aquele dia, não é...?” – Comentou sarcástica, olhando com quase nojo para ele. “— Eu fiquei com uma grave crise de anemia!”

“— Eu... Eu... Foi culpa do meu Mestre... Eu…” – Não encontrava as palavras, acabou por virar o rosto para não encarar a ruiva.

“— ...” – Respirou fundo, percebendo que estava falando demais. “— Então chega, vamos mudar de assunto, queria alguma coisa na cozinha?” – Afastou-se de vez dele.

Veck desejou ir embora, mas seus pés não se moveram. Permaneceu na mesma posição, tentando se acalmar, mirando um ponto qualquer próximo ao pé da mesa. Era horrível lembrar de seu Mestre, e completamente triste lembrar-se de Lucy.

“— Vim procurar algo comestível, para quem sabe fazer minha fome diminuir...” – Murmurou tão baixinho que mal dava pra Luna ouvi-lo.

Mas a garota entendeu e se dirigiu para o fogão, onde em cima dele havia algumas panelas e ao lado alguns pratos e talheres, serviu alguma coisa das panelas para Veck e colocou em cima da mesa.

Olhou inquisitória para este apontando para a cadeira, sorriu vendo o outro a obedecer e sentar ma cadeira Já iria mandá-lo comer, mas este fez por si próprio. Não tinha mais nada o que fazer ali.

Sorriu, virando-se para sair dali, parando quando abriu a porta.

“— Parece que você escolheu a segunda alternativa, deve estar comemorando.” – A voz do vampiro veio carregada de luxúria.

A ruiva sentiu um frio na espinha e abriu um enorme sorriso, sorte sua estar de costas para que Veck não o visse. Tratou de sair de lá rapidamente antes que ela estragasse seu plano.

Este apenas observou a garota sair da cozinha às pressas, para em seguida voltar a comer sua comida. Não tinha nada contra comida humana, gostava até, só que entre energias e comida, era lógico que escolheria a primeira opção.

Ficou a comer aquilo que lhe fora oferecido, com os pensamentos longes. Talvez houvesse feito o que a elfa quisesse afinal e tenha caído certinho na armadilha feita por esta, mas, é claro, ela ainda ia pagar caro.

Continuou a comer, até não restar nada naquele prato, soltando um suspiro de alivio ao final. Realmente sua ‘fome’ havia diminuído um pouco. Isso já era um grande alivio. Sorriu, imaginando às vezes em que comia algo somente para acompanhar o humano, para não deixá-lo comer sozinho.

Voltou rápido, para o quarto, não batendo a porta quando chegou neste.

“— Fiquei preocupado que não quisesse me ver por algum tempo, já que acordei e não lhe vi.” – Falou meio magoado Cain, assim que viu o amigo entrar no quarto.

Este ficou mudo, recordando tudo que acontecera mais cedo, estava tão frágil naquele momento, e felizmente o moreno lhe amparou, sem pedir nada em troca como muitos fariam. Nunca havia pensado que ter um amigo, alguém para confiar e principalmente ajudar nos momentos difíceis fosse tão bom.

Sorriu, fixando seu olhar esverdeado no outro, percebendo que estava um pouco pálido.

“— Cain sente-se bem?” – Indagou-lhe, andando para perto da cama, colocando sua mão na testa deste para medir a temperatura. “— Não está com febre... Então...?” – Logo tirou sua mão dali. Tinha que parar de ter aquela mania.

“— O que foi Veck? Eu estou bem, parece que já me curei.” – Sorriu-lhe radiante.

“— Não, não está, tem algo errado, vou chamar o médico... Descanse um pouco.” – Mandou. Saiu e fora logo a procura do médico.

O príncipe ficou no quarto olhando o teto, sentindo uma brisa marítima que entrava por uma janela, não entendia o porquê de Veck estar tão preocupado já que se sentia bem. Talvez, fosse o jeito dele. Sorriu, ao ver esse retornar com aquele que fora buscar.

“— Estranho não era para ter esse sintoma.” – Murmura o médico, observando o moreno mais de perto. “— Mas não é nada grave, não se preocupem. Deve ter algum fator desconhecido fazendo isso.”

“— Mas eu não sinto nada... Só como se estivesse carregando muita coisa... Mas isso deve passar logo.” – Comentou, sentando-se na cama.

“— Aconselho que descanse, qualquer outra mudança no quadro, por favor me procure Vectorius.” – Avisou, saindo já do quarto.

“— Então o que seria...?” – Indagou-se Veck, sentado na cama, ao lado do moreno.

Um rápido pensamento lhe veio em mente, rapidamente se inclinou para o garoto, fitando-o por completo, examinando-o.

“— Cain, fique quieto um instante, não vou lhe fazer nada.” – Pediu, movendo a cabeça do moreninho para o lado, indo mais para perto daquele pescoço.

“—Ve-...Veck? O que vai fazer?” – Ficou tenso, pela ação do amigo.

Veck começou a olhar seu pescoço, passando a mão na veia que existia lá. Após alguns segundos ele comprova seu pensamento. Cain devia estar com um pequeno excesso de energia espiritual, nada muito grave. Era até melhor para si, pois poderia se alimentar mais... Isso, é claro, quando o humano estivesse completamente bem.

“— Veck... Poderia parar, por favor?” – Pediu, afastando o outro de si.

“— Desculpe-me era que tinha que tirar uma duvida... Mas já descobri o que tens.” – Afastou-se.

“— O que tenho então?” – Olhou-o curioso.

“— Nada de grave, é só que você esta gerando energia espiritual demais.” – Sorriu-lhe, para que este não pensasse que era algo tão ruim. “— É algo estranho, mas não é nada grave.”

“— Que bom, não queria lhe causar mais problemas...”

“— Pare de pensar assim... ” – Sentou-se melhor na beirada da cama.

“— Queria saber se a Yume também teve que passar por isso.”

“— Yume? Ela é sua namorada?” – Perguntou Veck, apenas por perguntar.

“— Não, não...” – Avermelhou-se.“— Ela era a antiga dona da espada.”

“— Ah ta... Aquela que foi morta...” – Comentou lentamente, lembrando-se da primeira vez que Cain falara estando possuído, mencionou fatos importantes para que pudesse o ajudar melhor.

“— Foi morta!?” – Perguntou assustado.

“Opa! Esqueci-me de que ele não se lembra de nada do que faz ou diz estando possuído.” – Pensou Veck.

“— Vamos responda-me.” –Pediu, segurando-o pelos ombros e sacudindo-o de leve.

“— Bem... Essa é uma historia antiga... E... Eu sei por viver muito.” – Mentiu, sorrindo sem jeito. “— Mas voltando ao assunto de sua doença...”

“— Veck, eu estou mal, mas sei que posso lhe dar um bom chute no traseiro.” – Falou o moreno, com um sorriso deveras travesso no rosto. “— Acha que me engana?”

O vampiro não pode evitar, acabou por cair na gargalhada pelo que o outro tinha dito. Nunca em sua longa vida, alguém o tinha tratado daquele jeito, tão próximo.

Cain por sua vez, vendo o amigo rir tanto, acabou acompanhando-o nas gargalhadas. Nunca havia falado tão informal com alguém antes. Mas com Veck se sentia a vontade para isso.

“—Nunca ri tanto... Só você mesmo Cain.” – Avisou, parando de rir aos poucos. “—Você deveria estar deitado na cama fazendo o papel de doente.” – Apontou para ele. “—Deitado e gemendo de dor.”

“— Desculpe-me se eu me recupero rápido, mas estava tão chato ficar deitado só dormindo... E terei que ficar assim cinco dias...”

“—Fique contente, só faltam mais dois dias, aí você e eu poderemos descansar e melhorar.” – Avisou-o, soltando um suspiro no final.

“— Você também não esta se sentindo bem?” – Olhou-o preocupado.

“— Eu...?” – Sorriu, dando uma pequena pausa para respirar fundo. “—É só um pouco de fome...”

“— Fome? Ainda não comeu?” – Indagou o moreno, não entendendo o tipo de ‘fome’ que o amigo sentia.

“— Já... Ou melhor, não... O tipo que eu preciso não...” – Respondeu-lhe em um tom baixo.

“— O que aconteceu?” – Tocou de leve a face do outro. “— Você sabe que pode confiar em mim... Sou seu amigo” – Terminou dando-lhe um sorriso confiante.

Veck olhou bem para este, sentindo aquela carícia em seu rosto. Uma mão tão gentil, cuidadosa, acolhedora. Realmente queria desabafar, afinal, nunca fora bom em ficar escondendo coisas.

Mas como chegar para um humano, um futuro rei, e dizer que não podia se alimentar pois sua ‘reserva favorita’ de energias estava impossibilitada de ‘doar’ naquela hora. Sabia que se falasse isso, o moreno iria o repudiar na hora.

Mas tinha que falar algo, de preferência uma resposta convincente para o Cain.

“— Bem... como vou explicar...” – Tinha que maneirar suas palavras, para não revelar muita coisa. “— Eu preciso me alimentar todo dia de energia espiritual... Mas... Mas...” – Deu um suspiro, aproveitando e pensando mais. “—Desde o dia que eu entrei no navio não tenho me alimentado... E já não estou aguentando mais...”

“— Veck isso não pode ser perigoso?” – Indagou-lhe aflito.

“— Sim... Mas só tenho que aguentar até sairmos do navio.”

“— Mas por que não pode se alimentar?” – Estava começando a se preocupar, já que o outro não lhe contara nada. “— É alguma doença? É melhor cuidar se não pode mo-.” – Antes de concluir fora interrompido pelo outro.

“—Morrer?” – Sorriu triste, soltando um longo suspiro. “— Não posso morrer, não por uma doença... Só morrerei se ficar muito, muito tempo sem me alimentar ou a Associação dos Caçadores decidir que eu sou uma ameaça que deve ser eliminada.” – Explicou.

“— Associação dos Caçadores?” – Olhou-o mais confuso ainda. “— Eu nunca ouvi falar...”

“— Normal, mas vou lhe explicar...” – Sorriu, vendo o interesse daquele humano. “—Existem os vampiros e os humanos... A cruza entre essas raças cria os caçadores.” –

“— Mas por que os caçadores, estão atrás dos vampiros?”

“— Eles não caçam todos os vampiros, caçam apenas os obcessivos por sangue... Os que estão na classe mais baixa.”

“— Hum... Mas eu não sei sobre as classes...” – Murmurou, querendo saber mais sobre tudo.

“— Realmente não são coisas que um humano comum deva saber... ” –Empurrou o outro, para que sentasse ao seu lado com as costas na cabeceira.“— Pense em uma pirâmide, no topo dela estão em menor quantidade os vampiros primordiais que são os Puro Sangue. Logo abaixo tem os vampiros Nobres que são os que foram vampirizados pelos Primordiais. ” – Começou a explicar.

“— Que classe você é Veck?” – Animou-se com o assunto.

“— Já lhe digo...” – Avisou, virando-se um pouco e bagunçando os cabelos deste com a mão. “— Continuando...” – Tirou sua mão de lá. “— Abaixo tem os Classe ‘A’ que são os que foram vampirizados pelos Nobres.”

“— Legal!”

“— Ah! Quase esqueci, para se tornar um vampiro completo, se tem que tomar o sangue de seu mestre, ou seja, o que lhe vampirizou.” – Quase esqueceu de explicar este fato.

“—Mas e a sua classe?” – Insistiu na pergunta.

“— Calma, ainda tem mais explicação.” – Riu baixinho, Cain era um aluno bem curioso. “— Abaixo da Classe ‘A’ tem a Classe ‘B’ que são os vampiros que ainda não tomaram o sangue de seu mestre, não importando se ele é um Puro Sangue ou um Nobre.” – Explicou, notando no olhar roxo a curiosidade para saber sua classe. “— Eu sou um Classe ‘B’, mas se eu tomasse o sangue de meu Mestre seria um Nobre.”

“— Você é um Classe ‘B’? Por que não toma o sangue de seu Mestre?” – Indagou, com uma curiosidade típica sua.

“— Primeiro, eu não me alimento de sangue esqueceu?” – Lembra-o, sorrindo para este, mas logo seu sorriso desaparece. “— Segundo, se eu ficasse mais tempo próximo àquele cara diabólico, era capaz de estar louco que nem ele estraçalhando corpos por aí.” – Ficou mudo por uns instantes. “— Sorte que fugi...”

Cain calou-se, como se sentisse que havia tocado em um assunto que não devia. E pode confirmar isso ao notar o amigo se levantar, e começar a rodear o quarto. Olhava-o fixamente, vendo aquele cabelo prateado se remexer levemente.

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“— Mas ainda tem a pior parte da pirâmide.” – Veck voltou a falar depois de um bom tempo, em dúvida se explicava ou não aquela parte. “— As classes que vêm embaixo são em ordem Classe ‘C’, Classe ‘D’ e no final Classe ‘E’...” – Parou de andar, ficando a olhar um ponto qualquer do chão. “— Com o tempo, isso varia muito, um Classe ‘B’ vai decaindo até chegar à Classe ‘E’...” – Deu um longo suspiro, odiava lembrar-se disso. “— Se chegar a essa classe... Você fira um monstro sedento por sangue e os Caçadores te matarão.”

“— Veck!” – Levantou-se em um embalo da cama, correndo até onde este estava. “—Você não disse que era um Classe ‘B’!?” – Indagou-o, encarando preocupado.

Este acabou por virar seu rosto, não querendo mais encarar aquele olhar ametista observando-o de forma tão preocupada.

Acabou que ambos ficaram assim por um bom tempo, parados, naquele mesmo lugar, um olhando fixo e o outro desviando o olhar. Timidamente os raios lunares entravam pela janela, dando ao quarto um ar mais sombrio e solitário.

Cain sentia seu peito doer fracamente, era algo estranho que não sabia descrever. Talvez a espera da resposta do outro estava o deixando aflito demais.

“—Sim...” – A resposta de Veck veio triste e quase em tom choroso que deixou o moreno ainda mais preocupado.

Cain queria o ajudar. Mas não sabia como, sentia como se precisasse fazer algo pelo amigo. Sorriu triste, e logo em um rápido movimento abraçou o outro com força. Este por sua vez, mesmo sem entender o motivo daquilo abraçou-o de volta.

Estranhou sentir-se tão confortável naqueles braços, já era a segunda vez que achava isso, apenas deixou-se ficar assim, por um longo tempo, apenas abraçado ao humano, sentindo aquele calor tenro dele.

Mas, teve que se afastar, não tinha como ficar assim para sempre.

“— Obrigado Cain, agora vá dormir... Já está tarde” – Pediu, com um tom doce na voz.

“—Dormir?” – Faz bico. “— Mas eu dormi o dia todo...”

“— Se tomar o remédio agora vai sentir sono.”

“— Mas eu queria saber mais sobre os caçadores, e mais sobre... Você...” – Abriu um sorriso alegre, apesar de meio tímido.

“— Vamos, deite-se, não era nem para ter se levantado.”

“— Certo, certo...” – Resmungou manhosamente. “— Estou indo.” – E assim o fez, deitando-se novamente. “— Feliz?” – Cruzou os braços.

“—Vou pegar seu remédio...” – Avisou, andando lento até uma mesinha no canto da sala.

Olhou bem para esta, vendo uma garrafa, um copo e um papel com o remédio em cima. Rapidamente colocou a água no copo e pegou o remédio ali, levando ambos para o moreno deitado.

“— Tome e descanse, não é por que se sente melhor que já está curado...” – Avisou, entregando ambos.

“— Certo.” – Concordou, tomando o remédio. “— Vou tentar dormir.”

“— Boa noite Cain...” – Murmurou, sentando-se em uma cadeira que estava ao lado da cama.

“— Boa noite Veck!” – Sorriu-lhe, pegando as algemas e colocando-as, deitando-se em seguida.

Não demorou muito para ambos dormirem. O dia fora realmente difícil.

--X--

A noite fora tranquila, exceto pela manha seguinte, onde foram acordados por batidas desesperadas na porta. Olharam um para o outro, e nem tiveram tempo de dar confirmação para quem quer que fosse entrar, pois logo um vulto ruivo abriu a porta e atravessou o quarto.

“— Luna?” – Veck arregalou os olhos, quando sentiu a garota puxar-lhe pela roupa, para que ficasse em pé. “— Q-Que?”

“— Senhorita Luna, o que aconteceu?” – Indagou Cain, levantando-se também.

“— Pirralho azarado... Falon me trousse uma notícia hoje bem cedo.” – Olhou com raiva para o outro, mas logo suavizou o olhar, sabia não ser culpa dele. “— Parece que seu ‘querido’ Mestre quer você de volta a todo custo...” – Soltou-o, se afastando umpouco. “— Ele irá enviar uma tropa para capturá-lo.”

“— Do que estás falando senhorita Luna?” – Cain olhou de um a outro, não entendendo nada.

Já Veck, estava estático, tentando processar a frase que acabara de escutar. Aquilo tudo estava muito recente, Leviathan e agora seu Mestre, talvez existisse até uma conectividade entre ambos.

A ruiva aquietou-se, içando a olhar para o chão, não conseguindo evitar que pequenas lágrimas rolassem de seu delicado rosto. Era o medo de perder seu amado para o Mestre tirano deste.

“— O que está acontecendo?” – Voltou a perguntar, aquela situação estava tensa demais.

Aproximou-se de Veck, tocando em seu ombro de leve, mas estranhou ao ver este se afastar bruscamente, olhando para si com um olhar que nunca vira em toda sua vida. Puro ódio mesclado a medo.

Recolheu sua mão, não sabendo mais o que fazer para ajudar seu amigo, ficou apenas a observá-lo, incomodando-se com um silêncio perturbador que se instalou no lugar.

“— Isso é culpa sua Vectorius, não devia ter saído do lugar de onde estava.” – Murmurou Luna, em um tom triste.

“— Mas... Eu...” – Este não conseguia terminara frase.

Não estava mais conseguindo se manter calmo e frio como sempre.

“— Isso é culpa minha?” – Cain deu uns passos, ficando mais perto dos dois, sentindo-se culpado.

“— ... ” – O vampiro apenas fica mudo.

“— Vectorius, vamos conversar em outro lugar...” – Aconselhou, segurando a mão deste. “— Desculpe-me tê-lo acordado assim Cain, volte a dormir. "” – Desculpou-se ao outro.

“— Desculpe-me, parece que estou atrapalhando a conversa.” – O moreno apenas abaixou a cabeça, sussurrando bem baixinho.

Veck apenas olhou para o outro, fitando-o por um breve momento, antes de apertar mais a mão da garota e sair do quarto acompanhado desta.

Cain apenas respirou fundo, içando a olhar para a porta do quarto, mesmo depois destes já terem saído a algum tempo.

“A culpa é minha?” – Pensou, andando para a cama, deitando-se nesta.

Tentou voltar a dormir mas essa dúvida ficava atrapalhando seu sono. Afinal, foi ele que tirara Veck de seu lugar calmo para que se aventurasse atrás de qualquer coisa que o livrasse dessa maldição, mesmo não sabendo se isso realmente existe.

A culpa não o estava deixando em paz, talvez fosse melhor acabar com esse sofrimento. Dar um fim a essa tortura de não saber se haveria um futuro. Após algum tempo com duvidas na cabeça finalmente decide o que fazer.

Se matar.

Procurou pelo quarto qualquer coisa que o ajudasse, mas a única coisa útil era aquela espada negra, o motivo de sua tortura.

“— Deve ser irônico me matar com o motivo da minha aflição, mas só tem esse jeito... Assim pararei de causar problemas à senhorita Luna e principalmente... O Veck.” – Murmurou baixo, pegando sua espada.

--X--

Enquanto isso, no quarto ao lado, Veck e Luna estavam sentados na cama discutindo.

“— Vectorius, você não está em boa forma, como vamos resolver dessa vez?” – Indagou-lhe furiosa, fechando seus punhos para quem sabe assim suavizar sua raiva.

“— Luna...” – Sorriu sedutor, lambendo os lábios. “— Há um jeito e você sabe qual é.” –Sussurrou, se inclinando sobre a garota.

A garota acabou por ficar sem ações, pois se parasse para pensar aquela realmente poderia ser a única alternativa. Respirou fundo, concordando com um leve balançar de cabeça.

Veck apenas abriu um sorriso malicioso, deitando a garota na cama e ficando por cima dela.

“— Serei gentil, e se você se comportar... Darei-lhe o que deseja...” – Comenta baixinho, passando suavemente os dedos pelo pescoço dela, vendo-a se arrepiar com o toque.

“— Sim, mas, por favor... Pegue só energia dessa vez...” – Pediu, virando o rosto por vergonha e mostrando mais seu pescoço.

Ovampiro apoiou-se com suas mãos ao lado da cabeça da ruiva, dando primeiramente um beijo suave em seus lábios para confortá-la. Logo depois seus beijos continuaram pelo pescoço, chegando enfim na parte que iria morder.

Mordeu bem de leve ali, só para sentir esta estremecer em seus braços e logo afastou-se só para ver como estava o rosto dela. Sorriu vendo-a toda vermelha de vergonha. Afinal, faziam tempos que não ficavam assim, tão juntos.

“— Calma, sabe que eu nunca te machuco...” – Murmurou em um tom levemente sensual.

Veck volta ao pescoço dela, já abrindo sua boca, mirando no belo pescoço a foi frente. Entretanto para no meio do caminho, recuando e olhando atentamente para a porta. Esperou um tempo, ficando a olhar para esta, até que se levantou da cama.

“— Vectorius... Continue... Eu quero mais... Eu te a-...” – Não conseguiu terminar sua frase, pois fora interrompida pelo outro.

“— Energia...” – Falou Veck, olhando curioso para a porta. “— Essa energia é do... Cain!” – Quase gritou o nome do amigo.

Acabou por largando a garota do modo que estava, saindo as pressas do quarto que estava , correndo logo em direção a porta ao lado, parando em frente a esta. Luna apesar de obviamente contrariada e chateada por aquele momento ter sido interrompido, não teve opções além de seguir o outro, vendo-o bater na porta desenfreadamente.

“— Entre, está aberta!” – Uma voz grave e levemente erótica fora ouvida de dentro do quarto.

Veck então abriu a porta e entrou cautelosamente no local, enxergando Cain no canto do quarto. Estranhou de imediato a escuridão estranha naquele quarto, quase como se uma aura maligna rodeasse este.

Olhou bem para este notando que estava sentado em cima de um criado-mudo que havia no canto, não pode não notar uma perna flexionada com o pé apoiado na cômoda e a outra estirada encostada no chão.

Comuma rápida murmuração junta com um movimento de mãos, conseguiu iluminar aquele ambiente por meio de magia.

Fora então que pode notar mais. Estranhou o garoto estar cheio daquelas escritas pelo corpo, lhe dando obviamente um ar mais misterioso, e deixando-o realmente belo. Ficou realmente sem ações vendo o belo ser no canto.

“—O que aconteceu com o Cain?” – Perguntou Veck, sem tirar os olhos daqueles ametistas tão fascinantes.

“—Ele...?” – Fez uma pausa dramática, lambendo os lábios em um ato pervertido. “—Desistiu de viver, que nem muitos outros hospedeiros antigos... Pensei que dessa vez seria diferente...”–Comentou, levantando-se.

“— Desistiu de viver!?” – Exasperou o de olhos verdes. “— Mas a pouco ele estava bem...”

“—Ser meu hospedeiro requer muito equilíbrio, no momento em que ele se sentiu culpado...” – Sorriu matreiro. “— Ele assinou sua própria sentença.” – Respondeu Cain, andando lentamente em direção a aqueles dois boquiabertos perto da porta do quarto.

“— Mas eu pensei que se você saísse...” – Piscou os olhos algumas vezes, tentando entender. “— Iria destruir tudo pela frente. Como as outras vezes...”

“— Isso é culpa de Cain...” – Revirou os olhos, em um ato de descaso. “— Não sei como alguém pode ser tão bondoso a ponto de mesmo dormindo dentro de mim, ainda poder me influenciar...” – Desviou seu olhar para as próprias mãos, analisando-as. “— Mas isso, com o tempo eu arrumo.”

“—Mas Cain nos-...” – Fora interrompido.

“— Cain é o nome de meu hospedeiro...” – Olhou com descaso para a elfa ali, logo focando sua atenção no vampiro. “— Não pude lhe contar antes mas, meu nome é Yami.”

“— Yami...” – Sibilou o nome deste bem baixinho, olhando-o de cima a baixo. “— Como podemos trazer o Cain de volta?”

“— Cain...?” – Estreitou o olhar. “— Mal cheguei e já o quer de volta...” – Era claro em sua voz o tom de zombaria. “— Pensei que ficaria feliz em me ver, não estava com saudades de mim... ‘Mestre’?” – Mais irônico do que estava sendo, era praticamente impossível.

Um calafrio subiu a espinha de Veck ao escutar-se sendo chamado assim, ainda mais naquele tom irônico e erótico ao mesmo tempo. Talvez finalmente Cain, ou melhor, Yami estivesse sendo ‘domesticado’ por si, podendo assim ter uma refeição mais calma.

“— Mestre?” – A elfa arregalou os olhos. “— Vectorius, o que você andou fazendo com esse garoto?” – Perguntou, não entendendo nada do que estava acontecendo.

“— Sou sua reserva de energia favorita, esqueceu ou...” – Deu uma pausa, levando uma mão aos cabelos, jogando-os para trás. “— Não me quer mais?” – riu safadamente.

“— Vectorius...” – A voz da ruiva parecia visivelmente irritada. “— O que você fez?”

“— Nada eu só...” – Deu uma pausa, rindo baixinho. “— O 'domestiquei' já que ele era sempre tão agressivo...” – Respondeu em um tom baixo, parando de rir.

“— Você não...” – Engoliu em seco, olhando de um para o outro. “— Fez ‘aquilo’ com ele não é?” – Olhou ciumenta agora para Veck.

“— Aquilo...?” – Sibilou baixo, tentando assimilar o que a ruiva tinha falado. “— Não!” – Arregalou os olhos, pelo que esta tinha imaginado. “— Não seria capaz de fazer isso ao Cain.”

“— ...” – Ela não parecia confiante ainda.

“— Eu apenas injetava um pouco de minha própria energia enquanto o mordia, para fazer assim ‘viciar’ em ser mordido... Apenas por mim.” – Sorriu pervertido. “— É normal alguns vampiros fazerem isso.” – Comentou, olhando para Yami.

“— Por isso eu não gosto de vampiros...” – Bufou este, se aproximando do outro. “— Só falta querer que eu implore para que você me morda...” – Falou irônico, andando ao redor deste.

“— Hum... Sim, é uma boa ideia, comece.” – Rebateu a ironia, com um tom sombrio na voz.

“— Maldita alma bondosa de Cain...” – Fez uma cara de poucos amigos, indo em direção da garota agora. “— Se eu estivesse em outro corpo...” – Reclamava contrariado, olhando a ruiva e não simpatizando com essa. “— Mas saiba que eu estava só brincando com você, até parece que eu vou me submeter a chamá-lo de Mestre” – Avisou por final, virando-se e encarando o outro.

“— Cain...” – Respirou fundo, lembrando-se que quem estava ali, não era este. “— Ou melhor, Yami, acho que precisas de mais ‘treino’.” – Mal terminou sua frase e puxou-o pelo braço com força. “— Aprenda a não brincar com um vampiro com fome!”

Sem mais demora, Veck parte com tudo para o pescoço de Yami, que estava desprevenido por causa do puxão que dera neste. A força e a fome com que o mordeu fora tanta que chegou a espirrar sangue em sua cara.

Yami tentava se livrar, só sentindo uma dor insuportável que começava em seu pescoço e ia se espalhando pelo corpo, parecia que lhe tiravam a alma. Sentia que o outro estava louco, o mordendo com toda sua força.

Odiou aquilo.

“— Pa-... Pare seu desgraçado... Seu viado...” – Reclamou se debatendo, tentando a todo custo se livrar daquele abraço, entretanto sentia-se cada vez mais fraco. “—Vá morder pescoço de outro macho... Argt!”

“— Pare Vectorius, você está descontrolado!” – Gritou Luna, indo até eles.

Já o vampiro não se importava com mais nada ao redor. Estava mergulhado em outro mundo, um só dele e daquela tão tentadora energia. Já estava cansado de ser gentil com o que nada mais era que uma mera comida.

Agora, teria certamente tudo o que quisesse de Cain, ou de Yami, tanto fazia naquela hora. Aquele gosto diferente de energia o estava deixando louco, queria mais, muito mais daquilo, e sabia que a fonte disto estava em seus braços.

E elfa já estava desesperada, tentava a todo custo separar aqueles dois, pois sabia que se continuassem assim o príncipe estaria em perigo. Tinha medo de acontecer novamente o que ocorrera há tempos atrás.

Luna tentava em vão separar os dois, sabia que se as coisas continuassem assim Cain estaria em perigo, mas ela estava espantada demais com a cena.

Via mais espantada ainda os olhos de Veck ficarem estranhos, mudando aos poucos do sempre verde calmo e frio para tornarem-se uma cor avermelhada, tal qual rubi. Recuou um passo, notando que as pontas do prateado cabelo começarem a ganhar a mesma coloração.

Mesmo sabendo que tinha que fazer algo com urgência, não conseguia, olhava incrédula e até meio fascinada para a nova aparência daquele vampiro a morder o humano ali.

“— Seu vampiro viado...” – Sentia-se tonto, sua voz estava falha já. “— Me largue!” – Fechou os olhos, não tendo mais força para mantê-los abertos.

“— Vectorius!” – Gritou o nome deste, vendo o estado que o moreno estava. “—Cain pode MORRER!” – Esbravejou em alto e bom tom, para que quem sabe assim o outro parasse com o ato.

Neste momento Veck percebe o que estava fazendo e empurra Yami com força de si, não ligando pelo fato deste cair no chão. Estava mais ocupado olhando para suas mãos, sentindo um calafrio misturado a nojo.

Nelas haviam sangue, sangue quente, fresco, sangue do humano. Arrepiou-se, correndo para perto de um espelho grande que situava-se ao lado da porta do banheiro. Parou bem diferente a este, espantando-se ao ver-se tão diferente.

Observou-se bem, pegando uma mecha de seu cabelo, e notando as pontas carmesim, que misteriosamente brilhavam opacas em um tom sombrio. Deparou-se depois com seu olhar, tendo que se aproximar um pouco mais, agoniando-se com aqueles rubis e assustando-se com o sangue em seu rosto.

“—Este não sou eu... ” – Engoliu em seco. “— Este...”

Recuou alguns passos, virando seu rosto para não se ver mais assim, mas acabou vendo o moreno no chão com uma mancha de sangue forte escorrendo por seu pescoço. Enquanto era amparado pela Luna.

“— Ele...” – Ela deu uma pausa, respirando tranquilo, depois de conseguir estancar o sangramento. “— Está bem Vectorius, não foi grave...” – Olhou para o outro em pé, com uma raiva no olhar. “— Só perdeu um pouco de energia demais e um pouco de... De... Sangue” – Avisou-o, com o moreno em seu colo.

“— Sangue!?” – Arregalou os olhos, correndo até onde eles estavam, ajoelhando-se no chão e tirando o inconsciente do colo da garota, abraçando-o delicadamente. “— Me desculpe eu... Me descontrolei... Eu... Eu...” – Murmurou arrependido, não conseguindo controlar seu choro “—Cain...”

“— Vectorius, solte-o.” – Mandou em tom sério.

“— Não! Ele me pertence!” – Vociferou, abraçando mais ainda o moreno em seus braços.

A elfa bateu de em sua própria testa, não aguentando mais ver aquela cena patética. Respirou fundo, sabendo só haver um jeito de fazer aquele vampiro voltar a realidade. Se aproximou dos dois, dando um tapa realmente forte no rosto deste.

“— ...!?” – Ficou mudo por um bom tempo. O tapa fora tão forte que com o impacto até havia virado o rosto para o lado. “— L-Luna...?” – Fora a única coisa que conseguiu pronunciar, sentindo uma ardência no local agora.

“— Se eu não te conhecesse tão bem, diria que você parece uma garotinha apaixonada!”

“— Garotinha apaixonada!?” – Só depois percebeu o que estava fazendo. Estava abraçado a um cara chorando, e pior ainda, não o querendo largar dizendo que ele era seu. “— Argt! O que eu to fazendo!?” – Alarmou-se, levantando-se com o moreno nos braços.

“— Acordou agora Vectorius?”

“— O que eu fiz... Não era eu...” – Murmurava, olhando para o rosto do outro, enquanto o colocava na cama.

“— A mesma coisa que fez comigo aquela vez...” – Comentou, andando para perto do outro. “— Mas sorte que dessa vez tinha alguém para ajudar.” – Parou bem de frente. “—Pelo menos agora já está cheio de energia, mas por hora...” – Seu olhar estava meio magoado, não gostava de se lembrar da dor que sentiu quando o outro fizera algo parecido. “— Descanse...” – Aconselhou.

Sem mais escolhas o, agora de olhos vermelhos, saiu do quarto às pressas, sem pronunciar nada, deixando para trás a garota que ainda olhava atentamente as mordidas no pescoço daquele humano.

--X--

No quarto ao lado, Veck estava a andar preocupado de um canto para o outro do cômodo. Estava pensativo, relembrando tudo que fizera, sentindo um gosto doce na boca. Era algo que conhecia, mas não sabia direito o que era.

Foi ao banheiro, precisava esfriar a cabeça. Urgentemente de preferência. Estava com pensamentos estranhos na cabeça e precisava livrar-se deles o mais rápido o possível, tinha que voltar a si e quando mais cedo, melhor.

Respirou fundo, teria mais encrencas, já que possivelmente lacaios de seu Mestre atacariam o navio, e se de algum jeito algum deles notarem seu estado e relatarem isso ao seu Mestre, estaria em grandes apuros.

Livrou-se rapidamente de suas roupas, entrando logo debaixo do chuveiro em um frio cortante. Fora então que relaxou um pouco, levando seus dedos aos cabelos longos, lavando-os com cuidado e carinho.

Realmente os gostava deles assim, apesar das vezes incomodar bastante, infelizmente mesmo cortando-os, eles voltariam ao mesmo tamanho, havia ‘morrido’ assim, com estes deste tamanho. Tudo idéia de seu Mestre.

Lavava e lavava mas o tom vermelho nas pontas não saiam, isso realmente o incomodou. Respirou fundo novamente, dando por encerrado o banho ali, saindo lentamente do banheiro que estava.

Mas parou ao se ver diante de um espelho, colocado no mesmo lugar onde ficava um no quarto que Cain estava ocupando. Engoliu em seco, aquela visão o assustava de uma maneira aterrorizante, mas estranhamente estava fascinante assim.

Seu olhar estava diferente, seu belo olhar verde esmeralda havia se tornado em algo estranhamente mais sedutor. Era curioso se ver assim, se admirar um pouco com aquele aspecto. Com aquela maldita cor carmesins tão intensa, tanto no olhar quanto nas pontas dos cabelos.

Ficou um bom tempo olhando-se, botando as idéias no lugar, tentado descobrir o porquê estava com aquela aparência, fora então que lembrou-se de Yami que o tinha provocado até que perdesse a cabeça e o mordesse de forma tão brutal.

Lembrou-se ainda mais, lembrou-se do gosto daquela energia. Estava tão diferente, estava tão saborosa. Tinha com certeza absoluta algo diferente, um gosto único que já sentirá outra vez há muitos anos atrás.

Um estalo apareceu em sua mente. Algo que talvez não quisesse se recordar nunca mais.

Sangue.

Era o sangue que estava de diferente, não tirara apenas a energia de seu amigo, mas também o plasma sanguíneo deste. Algo completamente sem sentido, em vista que se alimentava só de energias.

Em um ataque de raiva acabou socando o espelho, vendo seu reflexo se quebrar em vários pedaços, caindo em cacos no chão de madeira.

“— Tenho que me acalmar...” – Murmurou pesaroso, notando o estrago que fez.

Respirou fundo, uma, duas, três vezes, para recuperar o sentidos. Rumou para um armário de madeira ali, pegando suas roupas de costume para vestir, não tardou em se vestir.

Sorriu satisfeito, olhando-se no que restara do espelho dependurado na parede, para depois sentar a cama e começar a pentear seus cabelos, aquele era um ato trabalhoso. Ficou um longo tempo fazendo isso, e quando terminou escutou batidas na porta.

“— Vectorius, posso entrar?” – Uma voz, agora doce e calma fora saiu do outro lado da porta.

“— Entre.” – Respondeu, levantando-se e jogando para trás seus cabelos úmidos.

A pessoa entrou no quarto, era Luna, e estava com um pequeno sorriso no rosto. Acabou dando passos lentos em direção ao Veck, o abraçando ternamente, como se esse ato fosse confortá-lo de alguma forma.

“— Não precisa se preocupar, aquele garoto me surpreendeu...” – Sussurrou em seus ouvidos. “— Vá lá ao quarto dele.” – Deu em seguida um estalado beijo na bochecha. “—Mas ele não se lembra de nada, então eu disse que o que foi culpa da doença.” – Avisou.

Veck acabou não entendendo nada, mas se afastou um pouco, só o suficiente para beijá-la carinhosamente nos lábios em algo calmo e aconchegante que aos poucos foi se intensificando.

Entretanto, quando sentiu que ela iria querer mais, afastou-se bruscamente.

“— Vou lá.” – Avisou frio para esta, afastando-se da garota mais ainda, já rumando para a porta. “— Não precisa se preocupar, nós fomos interrompidos, mas amanhã à noite...” – Deixou sua frase incompleta, em um claro tom de provocação.

Saiu da sala com um sorriso maroto no rosto e com pensamentos não muito puros. Parou em frente ao quarto de Cain, estava com medo de ele ter percebido algo o que fez e nunca mais o perdoasse, mas criou coragem. Bateu algumas vezes na porta, nada, bateu novamente e pela segunda vez; Nada.

Ficou preocupado, e se o moreno tivesse desmaiado, e se ele estivesse passando mal por culpa do que tinha feito?

Entrou no quarto logo, controlando sua mão que tremeu um pouco ao tocar na maçaneta. Avistou a cama, mas nada de Cain, procurou dentro do armário; Nada. Fora então que ficou realmente preocupado, aonde Cain poderia ter ido no estado que este estava?

Acabou por se ajoelhando no chão, engatinhando para perto da cama, ficando de quatro a ver se o moreno estaria lá em baixo. Então Cain lentamente sai do banheiro. Sim, Veck pela confusão em que se encontrava havia se esquecido completamente daquela porta.

O moreno sai todo molhado do cômodo ao lado enrolado em uma toalha branca. Ficou a observar o amigo de quatro com a cabeça de baixo da cama chamando seu nome baixinho. Sorriu, este ainda não o havia notado.

Cain observou mais atentamente, percebendo que havia algo de estranho no cabelo dele, estava ainda um pouco úmido, devia ter tomado banho como ele, mas o mais estranho eram as pontas de seu cabelo. Acabou deixando de lado, afinal, a cena ali era bem engraçada.

“— O que esta fazendo Veck?” – Indagou, não resistindo e dado leves risadas. “— Acha que eu sou o que? Um gato para me procurar assim?” – Andou até o lado dele, dando um leve chute no traseiro.

Com o susto Veck acaba batendo a cabeça na cama ao tentar se levantar tão bruscamente. Sentou-se no chão, levando suas mãos a cabeça, massageando a area atingida de olhos fechados.

“— Desculpe, machucou-se?” – Riu sem jeito, estendendo a mão para o amigo.

Lentamente tirou suas mãos da cabeça, abrindo os olhos e fitando o moreno com aquele olhar rubi, respirou fundo, levantando-se com ajuda daquela mão estendida. Piscou algumas vezes, estranhando a nudez do outro, avermelhando-se um pouco por imaginar este o admirando.

“— O que aconteceu Veck... Seus olhos, seu cabelo...” – Indagou-o, olhando com extrema curiosidade, segurando a toalha que quase caia.

“— Eu...” – Seus olhos focaram-se no corpo deste. “— Pri-Primeiro vista-se, antes que pegue um resfriado...” – Aconselhou, virando o rosto.

O moreno deu de ombros, se dirigindo para o armário procurando assim alguma roupa. Achou logo uma que lhe agradou, já que estava com muito frio escolheu uma camisa preta justa com gola alta, com um sol dourado gravado no ombro direito. A calça da mesma cor preta, era bem larga para não dificultar seus movimentos.

Após escolher rumou ao banheiro para vestir-se.

Veck ficou esperando sentado na cama, que o outro saísse do banheiro para enfim conversarem sério, tinham alguns assuntos que precisavam ser explicadas com certa urgência.

Apos algum tempo nota o outro sair do banheiro. Seu olhar logo se focou no jeito que ele estava, estremeceu levemente, levando uma mão a boca para assim esconder seus caninos.

Estava com uma vontade absurda de rasgar toda aquela gola alta da camisa e sugar todo aquele sangue delicioso, drená-lo até que não tivesse mais força, ouvir seus murmúrios agoniados entre o prazer e a dor do ato.

Arregalou os olhos, notando tudo o que estava desejando, sentiu asco de si, levantando-se as pressas da cama.

“ Sangue! Eu pensei realmente nisso... Eu...” – Pensou alarmado, olhando abismado para um canto qualquer, enquanto ainda tampava a boca com a mão.

Já Cain estava sem entender nada do que estava acontecendo com o amigo, ainda assim esperou um pouco notando logo que ele não melhoraria. Respirou fundo então, se aproximando sorrateiramente e sem mais nem menos dando um tapa no rosto dele, tão forte que deixou vermelho o local.

“— Que inferno, já é a segunda vez que isso acontece hoje!” – Olhou aborrecido para o outro, fazendo bico. “— Por que fez isso?” – Quis saber, levando a mão agora ao lugar atingido.

“— A senhorita Luna me disse que se você ficasse daquele jeito, o modo mais fácil de fazer você voltar à só era dando-lhe um tapa...” – Riu meio sem jeito. “— Eu simplesmente segui o conselho dela.”

“—Aquela-...” – Conteve o xingamento soltando um suspiro. “—Mas realmente funcionou...”

“— Agora que já se acalmou, poderia me explicar o que aconteceu com você?” – Aproximou-se tocando levemente nas pontas da mecha do cabelo do outro.

“— Isso...” – Desviou o olhar, para ocultar a mentira. “— Eu também não sei, é algo novo para mim...” – Sorriu sem graça. “—Deve ser efeito da fome...”

“— Se você tomasse sangue poderia pegar o da senhorita Luna...” – Comentou pensativo o moreno, arrependendo-se logo em seguida pelo seu comentário ao ver o estado que só aquela frase fez ao outro.

Veck se lembrou novamente do que fizera há algum tempo, sentindo completo asco de si mesmo. Pior lembra agora de uma promessa que tinha feito, a tanto tempo que qualquer um poderia esquecer, mas não a si. Ainda mais por ter sido feita a alguém cujo amava.

“— Não... Isso não, eu não quero... Eu não preciso” – Balbuciava de forma repetitiva. “— Eu tenho que ser... O mais humano possível... Por ela...” – Não se importou com mais nada, mal terminou sua frase e correu para fora do quarto.

“— …”

Cain fica olhando arrependido pelo que fez, mas uma coisa o estava intrigando, quem era 'ela' que Veck mencionará antes de sair do quarto. Acabou decidindo ir procurar pela senhorita Luna, pois assim quem saiba a ruiva poderia lhe explicar alguma coisa.

Terminou de se arrumar, colocando por fim a espada negra na cintura, para logo sair do quarto. Parou de frente ao quarto do amigo, olhando atentamente para a porta. Pensou em entrar, mas desistiu de quase imediato.

Continuou seu rumo pelos corredores do enorme navio de Luna, procurando por esta, entretanto já estava a um bom tempo a fazer isso e não via rastros de onde à garota poderia estar.

Acabou indo para a proa, vendo alguns piratas do bando dela trabalhando por ali, sorriu, indo em direção a um destes.

“— Desculpe incomodá-lo, mas aonde se encontra a senhorita Luna, poderia me informar?” – Perguntou Cain, de modo educado.

“— Ela esta no quarto dela, é o quarto no fim do corredor...” – Parou o que fazia, virando-se e vendo o moreno. “— Ele que tem uma estrela na porta.” – Olhou-o de cima a baixo, lambendo os lábios em ato de perversão. “— Era só isso?”

“— Era sim.” – Nem notou nada. “— Obrigado pela informação...” –Sorriu-lhe, já retirando do local.

“— …”

Não demorou em ir para o lugar que lhe fora indicado, após andar um pouco é claro. Olhou para os lados, achando a porta com a descrição que o homem tinha dado. Respirou fundo, batendo nesta e aguardando, um pouco.

Não encontrando respostas.

“— Senhorita Luna, é o Cain, poderia falar com a senhorita por uns instantes a sós?” – Indagou-lhe em voz alta, depois de ter batido algumas vezes e não obtendo respostas.

“— Pode entrar, aguarde no quarto uns instantes.” – Ouviu-se a permissão de dentro do quarto.

O moreno sentiu um pouco de insegurança ao entrar assim no quarto de uma mulher, já que fora tão cuidadosamente educado. Mas acabou entrando mesmo assim, ficando admirado com a beleza do requintado ambiente.

As paredes eram todas brancas, com varias flores pintadas cuidadosamente aqui e ali. O quarto em si, era extremamente enorme, com direito a um conjunto de sofás mais ao centro e uma espaçosa e luxuosa cama de casal.

Sorriu, lembrando-se um pouco de seu reino, era claro que aquilo ali não chegava aos pés dos luxos que tinha em seu castelo, mas para um bando de piratas era algo realmente incrível.

Mas logo resolveu jogar seus pensamentos sobre sua casa embora, antes que ficasse deprimido pelos mesmos. Olhou em volta, notando que a garota devia estar no banheiro, acabou por sentar-se no sofá ali, aguardando-a.

Após esperar alguns minutos Luna sai do banheiro com seus cabelos todos molhados secando-os com uma toalha preta. Esta sorriu ao ver o garoto ali, indo até o sofá e sentando-se ao seu lado.

“— Desculpe interrompe-la senhorita Luna.” – Comentou, um pouco ressentido por ter a atrapalhado.

“— Você não interrompeu nada, agora...” – Riu baixinho do modo extremamente educado. “— O que queria falar comigo?”

“— Senhorita Luna, eu acho que fiz algo de muito errado para o Veck...” –Abaixou a cabeça, olhando para uma bota que usava.

“— Você?” – Ela arqueou uma sobrancelha, estranhando. “— O que teria feito de tão grave assim?”

“— Comentei se não seria mais fácil se ele tomasse sangue...”

“— Deixa ver se eu adivinho...” – Revirou os olhos. “— Ele deve ter surtado e dito algo como: Não posso por ‘ela’...” – Gesticulou de forma dramática.

“— Isso mesmo, fiz algo grave?” – Olhou-a tristonho. “— O que é ‘ela’?”

“— Calma... Não posso lhe falar sobre esse assunto, pois é algo que nem Vectorius quer se lembrar...” – Respirou fundo. “— Mas posso lhe dizer que ‘ela’ foi e sempre será o verdadeiro amor de Vectorius.” – Explicou-lhe meio triste, não gostava de se lembrar disso.

“— Nossa...” – Ficou curioso mais ainda pelo assunto. “— Como era ela?”

“—Bem... Como posso explicar...” – Parou para se recordar. “— Eu não a conheci, mas Vectorius falava muito dela nos primeiros anos... ” – Olhou bem para o moreno, notando algo. “— Sua personalidade é um pouco parecida com a dela.”

“— E o que aconteceu com eles?”

“— Isso eu já não posso explicar, pergunte ao Vectorius mais para frente... Quem sabe ele lhe conte sobre sua vida.” – Respondeu-lhe, na verdade sabia de tudo, mas não queria expor demais o outro.

“— Obrigado, pela sua atenção, agora já vou.” – Curva a cabeça, em um gesto educado, levantando-se logo e rumando a porta.

“—Espere!” – Pediu, correndo até este. “— Você esta totalmente bem?”

“— Sim, não sinto nada...” – Sorriu-lhe, todo mundo ali estaca cuidadoso demais consigo. “— Nunca estive melhor.”

“—Nossa... você é bem resistente...”

“— Por quê?” – Perguntou sem entender muito.

“— Nada relevante, mas é bom que esteja preparado...” – Seu tom ficou sério. “— Hoje à noite teremos umas visitas indesejadas.” –

“—Teremos que lutar?” – Estranhou, lembrando-se a contragosto da luta em seu reino.

“— Sim, os visitantes são os servos de um conhecido do Vectorius...” – Se afastou do outro, indo lentamente para o sofá. “— Mais precisamente, seu Mestre.”

“— E por qual motivo ele atacaria o Veck?”

“— Isso nem eu sei ao certo...” – Murmurou, sentando-se no sofá. “— Se era só isso que queria, estou um pouco ocupada no momento com as preparações... Se quer mais informação sobre o Vectorius, pergunte a ele mesmo.” – Pegou a toalha de volta e recomeçou a secar os cabelos ruivos. “— Ele está bem... Só se lembrou de alguns fatos de sua vida que preferia nunca ter lembrado.”

“—Certo... Desculpe-me incomodá-la, mas tenho só mais uma pergunta...”– Sorriu-lhe marotamente, olhando para esta. “— Por que a senhorita chama o Veck de Vectorius?”

“— É o nome dele... E o Vectorius nunca gostou de apelidos...”

Dando um sorriso, Cain sai do quarto. Estava com a cabeça cheia, ficou um bom tempo parado em frente à porta de Luna pensando no que deveria fazer. Entretanto tinha certeza de uma coisa.

Era obrigação sua pedir desculpas ao Veck, mesmo que a garota tenha dito para não se preocupar tanto assim. Pois quem sabe, ele lhe explicasse algumas coisas que não compreendia.

Fora até o quarto de do amigo, chegando lá para em frente a porta com um pouco de medo pelo o que fez, mas criou coragem e bateu na nesta. Ouviu sua permissão e entrou.

Veck estava de costas observando o mar por uma janela.

O moreno entrou, fechou a porta, e andando lentamente para aonde amigo estava, parado um pouco atrás dele. Respirou fundo, vendo aqueles cabelos bicolores agora, já estava se preparando pra pedir desculpas quando Veck se vira.

“—Desculpe-me Cain.” – Pediu, com a voz meio triste.

Este ficou completamente sem ações, afinal ele era o culpado, não se lembrava de nada que o amigo tivesse feito que não o agradasse. Muito pelo contrário este cuidou de si no tempo em que esteve doente.

Seu coração doeu ao ver o outro se desculpando em vez de si.

“— Veck pare, a culpa é minha.” – Murmurou, aproximando-se deste.

“— Não... eu... Eu sempre te... Te...” – Tentava falar, mas a palavra ‘morder’ ficava entalada em sua garganta.

“— Não Veck, não fale nada... Vamos esquecer tudo e nos concentrar no presente.” – Comentou, sorrindo radiante.

“— Cain... Tem razão!” – Sorriu também. “— Mas... Você não deveria estar deitado descansando?” – Lembrou-se.

“— Pelo incrível que pareça, nunca me senti melhor, estou realmente bem. É como se tudo de mal tivesse sido tirado de mim, é uma sensação maravilhosa.” – Falou mais alere ainda, quase estupefato

Veck ficou espantado, pois o que tinha feito hoje não fora umas das melhores coisas do mundo, ainda mais a um doente. Todavia, incrivelmente Cain se sentia bem pelo ato que fez com ele.

Então talvez não fosse só ele que se beneficiasse tomando a energia maligna de Yami.

“— Cain...” – Começou a andar em direção a cama. “— Preciso lhe avisar que hoje a noite vai acontecer uma luta...” – Avisou-o por fim, sentando-se no leito.

“—A senhorita Luna já me informou, já estou bem, posso lutar ao seu lado.”

“— Obrigado.”

“—Mas Veck...” – Olhou-o bem.“— Você vai ficar para sempre com seus olhos e cabelos desse jeito?” – Indagou por fim.

“—Não sei, você gostou?” – Sorriu-lhe sedutor, mesmo não notando.

“— Sim, mas preferia antes... Você esta com um ar sombrio.”

“— Medo?” – Indagou-lhe em um tom mais sombrio.

“— Por que teria?” – Sorriu mais, notando que era brincadeira dele. “— Sei que não me faria nada de mal.”

“— Que bom” – Sorriu também, ultimamente estava fazendo bastante isso. “—Que bom que confia em mim.”

“— Claro que sim, somos amigos.” – Respondeu de imediato. “— O que me deixa um pouco confuso e a sua atual aparência.”

“— A aparência não importa, o que realmente importa é o interior.” – Murmurou bem baixinho, fitando a janela.

“—Não queria voltar a dormir, podemos ficar conversando?” – Pediu-lhe.

“—Certo, mas fique deitado.” – Mandou, apontando para sua cama.

O moreno deu um enorme sorriso, indo logo para a cama e deitando-se nesta como o amigo havia mandado, espreguiçou, achando um jeito mais confortável de ficar.

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CONTINUA...

Notas finais
Nota da autora: Esperem, eu com certeza continuarei a historia. Já tem um grande pedaço dela em meu caderno, só falta colocar para o PC. By: Toynako