Prison Magic

33 Capítulo 33


Notas iniciais
Anos sem postar? Espero que gostem, e sim ainda pretendo terminar o PM~

Autora: Toynako

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Prison Magic

Capitulo 32 (ou 33, se for no Nyah!)

—–x.I.x––

Depois de terem passado uma noite no lugar, cada um buscava informações separadamente. Claro, cada um de sua forma e por motivos próprios...

Guille possivelmente estaria deitando com todo homem de boa aparência no vilarejo para pegar o que queria, no caso conseguiria duas coisas que queria. Já Nyha – ou a vampira Puro Sangue – estava apenas a vagar pelo lugar, ansioso em estar junto daquele que procurava.

Quanto a Cain e Yami, estes já haviam andado por quase todo vilarejo – que era pequeno na verdade – e em toda informação que conseguiam só apareciam relatos de medo envolvendo o castelo da região ou mitos sobre como surgiram os vampiros. Não que estivessem interessados em saber, seus focos eram inteiramente em Veck.

“— Não me sinto bem...” – Yami bufou de raiva enquanto andava, e a fala para Cain apenas delatava o que ambos sentiam no momento, apesar da raiva ser unicamente do demônio.

Todavia, havia algo que estava os intrigando em demasia. O ar ali era mais carregado, fazia o demônio ficar mais arisco e o hospedeiro mais fraco. Era como se houvesse um acúmulo de energia maligna pela região, o que estava alterando o frágil equilíbrio ‘Cain-Yami’ que existia.

O demônio — no controle do corpo no momento — parara de andar um tanto, dirigindo-se até o beco mais próximo e encostando-se na lateral de uma casa, não conseguindo evitar estremecer de leve. Não era frio que o sentia, era raiva. O mais curioso era que não conseguia se lembrar o motivo da raiva.

Apenas sentia.

Queria matanças...

“— Droga...” – crispou as mãos.

Erguera um pouco da manga da roupa pesada que usava, vendo que no braço as inscrições estavam completamente visíveis. Era como se não houvesse resquícios de seu hospedeiro em si. Isso era algo anormal, até porque mesmo nas vezes que ficava com o controle do corpo e ainda pudessem ser vistas as escritas fracas pelo corpo, não chegavam a ser tão visíveis quanto agora.

Tirara então a espada da bainha na cintura, olhando a lâmina a brilhar de uma forma macabra, demonstrando a aura negra que a rodeava. Yami quedou-se a observar a mesma então, o brilho que emanava de maneira um tanto mórbida, quão afiada parecia. Acabou por aproximar de seu rosto o fio da lâmina, esticando a língua e de forma lenta lambendo este, cortando-se por conta disso.

Era sangue, o gosto de sangue em sua boca... Isso o fazia recordar-se um tanto da outra vida que tivera. Daquela idiota humana que entregava-se ao vampiro vil e dizia que o amava — como seres humanos podiam ser tolos ao acreditar neste tal amor.

“— Cain... Tome o controle...” – pediu, quase implorando na verdade, enquanto fechava os olhos.

No entanto, nada deste tomar o controle, o que fez o demônio ajoelhar-se no chão, abraçando a si mesmo. Seu corpo doía em toda a parte, no entanto não era uma dor física, era quase um mal-estar, algo que pesava sobre seus ombros. As garras crisparam-se no braço, fincando-se de tal forma agoniada a ponto de furar o tecido e permitir que o sangue manchasse o casaco pesado que usava. Sua mente estava ficando turva e o instinto animalesco surgia em si.

Era como antes, antes de conseguir consciência no hospedeiro – sendo raras as vezes que conseguia isso, ou pelo menos achava isso.

“ Mas eu sou um íncubus...” – pensou aturdido.

Já sabia o que era, não era um demônio causador de mortes – não quando não queria –, era somente um demônio da luxúria. Que deitava com quem queria para saciar a fome de seu corpo, coisa que desde que reencarnara no corpo de Cain não conseguira...

Então, por quê?

Realmente tinha acreditado que nunca mais iria ter essa vontade tão incontrolável de destruir, matar o que passasse pela frente. No entanto, sentia seu corpo tremer, o ofegar descontrolado... Tudo a sua volta ficava mais escuro, o chão coberto de neve parecia se distanciar, e as paredes do beco faziam o mesmo ao parecer se afastar de si.

Tudo parecia fugir de seu alcance.

“— Cain...” – clamara pelo outro com um último rastro de sanidade que possuía.

Cain, o príncipe corajoso e infantil, era o único que poderia controlar a si, domar essa fera que possuía, o qual não sabia o motivo da existência. Talvez mais alguma coisa estivesse perdida em suas memórias inexistentes...

Largara a espada no chão, não escutando o barulho característico do metal de encontro ao mesmo por conta da neve fofa que ali existia. O olhar de coloração ametista tão rara fora logo em direção as mãos trêmulas, como se ainda buscasse qualquer chance de também não se perder em meio a tudo aquilo.

Queria o Veck...

Desejava tanto aquele corpo... Iria arranhar, morder, o fazer sofrer e gemer de todas as formas. Queria-o, sentia até um conhecido calor apoderar-se de sua região intima ao imaginar tudo. Possuí-lo por completo seria tão satisfatório. E ser mordido também lhe era tão tentador, a dor fugaz da mordida, esse excesso de energia sendo arrancado de si para que pudesse ficar mais consciente.

O desejo pulsando em seu baixo ventre com a proximidade dos brilhosos e sedosos cabelos prateados...

No entanto, sua vista ficava cada vez mais turva e escurecia como se um pano negro fosse jogado sobre sua cabeça. Tentara resistir, tentara manter em mente a visão do vampiro jogado nu em uma cama com os cabelos macios espalhados por esta e o prazer na face...

Entretanto, tudo fugia de seu controle rápido demais.... Tentara, realmente tentara... Só que logo então, não possuía mais sanidade.

Levantou-se com um sorriso maquiavélico no rosto, trazendo consigo a espada da qual nunca se separava. Queria e iria matar tudo que se aproximasse, e o rugido que dera denunciava que não existia mais Yami ali – muito menos Cain.

O motivo? Para que precisava de algo tão banal quanto isto?

O que estava ali era apenas uma fera. Nada mais, nada menos. Uma fera presa em cativeiro, por alguma magia.

A espada voltava a ferir a mão de quem a empunhava, furando com pequenas cerdas que surgiram nessa — adquirindo um aspecto mais macabro. Era como se a mesma precisasse do sangue real para que seu poder fosse ampliado. Assim como na primeira vez que a utilizara.

Ficou apenas a rir feito louco olhando para a lâmina obscura, sentado no beco como se fitar novamente a arma fosse um passatempo divertido. No entanto sons de passos foram captados de forma até um tanto alta demais — estava com os sentidos aguçados.

Por extremo azar, uma criança com sua mãe passavam pela rua próxima ao beco que o príncipe estava. Este apenas olhara com atenção, sorrindo de forma afiada e saindo de onde estava. A mulher tratou de afastar o filho, com medo do ser que estava ali, podendo ser muito bem mais um dos lacaios do louco que vivia no castelo da região.

No entanto, sua tentativa de resguardar a si e o filho foram em vão quando notara aquele homem se aproximar e cravar a espada em sua barriga, fazendo-a cuspir sangue e tontear – foi tudo tão rápido, que nem conseguira fazer nada para impedir. Sua única reação foi implorar para que não fizesse nada com seu filho, todavia, este pedido prontamente não fora atendido.

O demônio pegou a criança pelos cabelos, erguendo-a como se fosse pluma e, retirando a espada da barriga da mãe deste, primeiramente brincara de passar o sangue pelo rosto choroso a sua frente. Quando este abriu a boca para gritar, enfiou a espada na criança, trespassando-a.

Era uma cena magnífica...

Claro, esse pequeno alvoroço atrairia mais gente, e cada um que aparecia era morto sem piedade alguma. O sorriso cruel impregnava o rosto e se ampliava cada vez que o sangue espirrava em sua face, cada vez que a neve tão branca ficava manchada com a mistura de corpos, sangue e tripas. Tudo, era uma mistura hedionda que apenas o estava fazendo rir.

—X—

Na floresta em torno do castelo da região, havia alguém que fora abandonado... Alguém que por sinal já fora abandonado várias vezes. Era quase uma maldição, entregava-se sempre de corpo e alma e acabava sozinho em um lugar frio. No mesmo lugar frio, diga-se de passagem.

Oroi Takada, o inexperiente vampiro Classe A. O jovem apaixonado — este definitivamente deveria aprender com Vitor Áster a manter o coração gelado perante tudo -, com belos olhos cor jade.

O garoto sentia-se triste e indefeso, sem contar que extremamente dolorido. Em meio a uma floresta escura... Pior, este não fazia mais nem idéia de quanto tempo estava ali. Pareciam séculos, mas provavelmente nem um dia havia se passado. Entretanto como poderia saber? Estava debilitado, tudo doía, literalmente, tudo doía.

Suas ultimas recordações não eram nada agradáveis, afinal, lembrar que fora descartado de tal forma pelo ser que mais amava lhe consumia de dor — não a física. Em alguma parte das torturas de Shisue Abyssinian, Oroi desmaiara, as mesmas estavam extremistas demais para qualquer um suportar, ou a si não estava acostumado com o grau de sadismo que este lhe mostrara no dia. Só que por algum motivo fora deixado vivo. Mas, se estava vivo, ainda possuía motivos para sua existência?

Porque seu 'ex-Mestre' o deixara continuar se a tudo que não tinha mais importância este findava a essência em questão de instantes — ou de modo demorado só para se divertir torturando alguém -, seria só por capricho que agora continuava existindo nessa morte que vivia?

Estava inteiro, isso sabia — ou não completamente, não enxergava muito bem — ‘Eles’ diziam que tinha sofrido o que devia, o merecido por ter desafiado o Puro Sangue. Sim, ‘Eles’, as vozes que agora falavam em sua mente. A pobre criatura não raciocinava mais como antes, o que era real para si, muitas vezes não existia para os outros — não que estivesse perguntado a alguém. Ao menos, não se sentia tão solitário com vozes sussurrando em seus ouvidos como almas penadas lhe convidando e ingressar a uma loucura particular.

No entanto, não sentia fome, o que por sinal era algo ótimo. Nenhum resquício de fome existia em seu ser, provavelmente para que não acabasse morrendo de verdade pelo acumulo de torturas que recebera, uma quantidade elevada de sangue de seu ex-Mestre fora passada para si. Era a única coisa lógica que escutava agora em sua mente.

O olhar verde, não via mais como antes, e nem tinha forças para tentar saber qual seria o motivo. No entanto, não era este o lugar que mais doía. Suas costas, estas sim pareciam arder em brasa, parecia que fora cortado com alguma coisa.

Não se lembrava de como ganhara esta dor em suas costas. Mas fazia-o recordar a cada instante, a cada segundo, do algoz que fizera tudo isso. O maldito que amava mesmo depois de tudo. Mas, como fazer para arrancar do peito tal sentimento? Talvez amar não fosse para o ser que havia se tornado.

Apesar de tudo todos ‘Eles’ diziam que iria ficar tudo certo... 'Eles' diziam que devia aguardar, que Shisue voltaria por si. Por isso aguardava... Chorava e aguardava. Não sabendo nem mesmo o que tanto aguardava, mesmo assim continuava esperando...

Chorara tanto a ponto de não possuir mais lágrimas, aguardara tanto a ponto de pensar que já era uma das árvores do lugar. Sofrera tanto a ponto de arrepender-se amargamente o dia que burlara uma regra de seu amado tirano, tudo por um ser criado por magia em fase experimental que virara sua amiga.

Apesar de tudo, não se adequava ao castelo que estava, cada um parecia ter sua parcela de loucura no lugar, até mesmo o mais sensato de todos — Vitor — parecia um cão domesticado à força e que na verdade queria mais do que tudo morder a mão de seu dono, utilizando quaisquer meios para tal coisa.

Seria engraçado agora imaginar que a si no estado atual de sua psicose poderia ser encaixado melhor no grupo, afinal era apenas um jovem vampiro que se apaixonara perdidamente pelo homem que lhe torturou e obrigou-o a se alimentar de sangue. Shisue o fizera viciar em seu sangue, viciar em seu corpo, e agora era abandonado no mesmo lugar que fora largado. O pior, sabia voltar, mas não possuía o direito de pisar novamente no antro.

Por isso permanecia, com o olhar fixo no chão coberto de neve, nos dedos sujos de sangue já seco brincando de forma até infantil pelo gelo, onde mais nada se movia. Se lhe fosse permitido, queria ficar ali até sumir, assim não atrapalharia os planos de ninguém.

Depois de muito tempo – ou segundos talvez –, vira um vulto aproximar, tentara focar melhor a visão para entender o que estava acontecendo, mas tudo estava turvado demais, desta forma só sentia uma energia maligna forte queimando a tudo e gritando pelo nome de alguém. Só não conseguia entender a quem ele chamava.

E se fosse a si? Se fosse seu ex-Mestre em sua busca?

Pela primeira vez em tempos, tivera coragem de ignorar as dores e levantar-se de forma extremamente dificultosa, caindo várias vezes e erguendo-se com empenho sempre. Andando lento e apoiando-se nas arvores pelo caminho. O que avistara, era apenas destruição, um homem gritando como um animal encurralado, chorando e atacando a qualquer coisa...

Era realmente este que devia esperar?

'Eles' diziam que sim, que aquele ali iria lhe ajudar...

Atrevera-se então a chegar perto, ignorando toda a dor com a esperança de que fosse seu salvador, sendo notado e logo atingido por algum poder especial do mesmo, sendo jogado e batendo o corpo contra uma arvore e lamentando-se de dor... Ele realmente iria lhe ajudar?

Sim, ele ia...

Voltara a se erguer, aproximando-se novamente. E como da última vez, sendo atingido por algo. Cuspira sangue dessa vez — e muito, por sinal -, lambendo os lábios e tentando forçar os olhos a reconhecer quem era. Dessa vez notando melhor que só estava conseguindo enxergar com um, nem sabendo bem o que acontecera com o outro. Ao menos o que vira lhe pareceu familiar: Cabelos negros, fúria no olhar, alto e com bom porte. Era o seu ex-Mestre, era isso que acreditava.

Então, não iria desistir só por isso. Se Shisue tinha voltado por si, tinha que ignorar todas as dores e acreditar que ele tinha voltado. Se seu ex-Mestre havia voltado para lhe tirar dali, como fizera uma vez, Iria com ele.... Tinha que ir com ele. Entregar-se-ia eternamente à existência deste e nunca mais sequer pensaria em questionar qualquer ordem, o veneraria, o idolatraria e o amaria...

Apenas precisava tanto daquele homem. Ou melhor, daquele monstro...

Continuara por várias vezes, persistindo até que quando não tinha mais força alguma, pendeu. No entanto, não podia desistir, mesmo que por fim seu corpo não tivesse aguentado, continuando no chão ao ser atingido por uma energia desconhecida.

“— Te... Amo.”

A frase saiu de seus lábios em tom de choro, com as lágrimas que pensara já terem secado todas voltando a escorrer pela face. Era uma cena deprimente, o pequeno vampiro largado no chão novamente, clamando pelo amor que nunca receberia. Pior, o amor que sabia ser algo platônico. Queria voltar a tentar se erguer, mas a nova dor em sua perna denunciava que esta fora deslocada pela sessão de golpes.

O trançado então vira o ser raivoso se acalmar, aproximando de si a passos lentos e ajoelhando-se ao seu lado. Havia sido desculpado então? Era isto o que o vampirinho mais desejava no momento. Entretanto, agora já não estava mais tão lúcido – se é que aquilo não era uma miragem -, mal conseguia manter o olho aberto.

Seu nome fora chamado e Oroi forçou-se a e abraçar o seu Mestre – se ele voltava por si, não seria mais ‘ex-Mestre’ –, beijando-o de forma sôfrega e agoniada, chorando compulsivamente. Mas o gosto era outro, a forma como fora tratada não era igual – simplesmente fora empurrado –, onde o olhar arroxeado lhe encarava com preocupação. Ou, sempre fora assim e o que recordava era parte da sua loucura?

Sentira o abraço do mesmo... E este dizendo que o ajudaria... Seu Mestre era tão gentil.

É... 'Eles' tinham razão.

—X—

“— Ya- ” – parara um instante ao analisar melhor “— Cainzinho, o que aconteceu!?” – exclamara Guille, completamente aflito diante da cena que via.

Estavam em uma pequena cabana mais afastada do vilarejo, e Cain simplesmente chegara no lugar estando coberto de sangue e com Oroi inconsciente nos braços, carregando-o. Este sorriu meio triste para o loiro, entrando mais no lugar e depositando-o no chão próximo a uma lareira.

“— Cainzinho..?” – voltara a pedir atenção, seguindo-o e tentando entender a situação “— Você está bem?” – Erguera a mão lentamente, tocando nos ombros do maior.

“— Não me toque!” – exclamara desesperado, recuando um passo e olhando preocupado para o outro “— Eu não... Aguento mais isso.”

Caíra ajoelhado no chão, abraçando a si mesmo e deixando que as lágrimas tomassem conta de seu rosto ao escorrer com tanta abundância. Seu interior doía tanto. Era como se compreendesse um pouco da dor do vampiro desmaiado ao seu lado. Ou era culpa das mortes que causara na região.

O loiro olhava a cena com preocupação. Tentava compreender o que estava acontecendo, mas não vinha nada em mente. A única forma que achara no momento fora permanecer em pé ao lado de Cain. Se nada mais pudesse fazer, ao menos permaneceria ao lado. E realmente ficara por tanto tempo que já estava cansando-se de ficar na mesma pose.

“— Guille...” – a voz do príncipe estava bem mais calma “—Desculpe-me, fui rude com você... ”

“— Não se preocupe Cainzinho, venha, levante-se eu irei esquentar a água para você tomar um banho e.. Tirar essas roupas sujas.”

Abaixara-se ao lado do humano, abraçando-o firmemente de lado e puxando-o pelas mãos para que se erguesse. Um rápido olhar fora direcionado para o morcego maltrapilho no chão, sorrindo discretamente ao pensar em uma utilidade ao mesmo.

O resto da tarde seguiu-se com Cain recompondo-se e Guille preparando tudo para quando Oroi acordasse — mesmo a contra gosto, dera um banho neste e o vestira com uma de suas roupas, o que não ficara tão bonito quanto ficaria em si. Mais tarde, já estavam jantando em uma pequena mesa retangular — exceto o vampiro que estava desmaiado no quarto ainda.

“— Cainzinho, não está sendo ruim ficar controlando o corpo por tanto tempo? ” – perguntou com um pequeno grau de curiosidade.

“— Verdade príncipe, normalmente os jantares são mais agitados por conta do demônio reclamando da comida do Gui.” – Nyha riu baixinho.

“— Ny! Eu não cozinho mal, está tudo saboroso, mas não tenho culpa se não tem nada gostoso para ser feito.” – dera de ombros ao ruivo, voltando sua atenção ao que tinha feito a pergunta no inicio.

“— Está sendo difícil sim... Mas Yami se recusa a pegar o controle.” – um suspiro longo escapou de seus lábios “— Pelo que aconteceu de tarde...”

“— Ahh... Mas então é bom dormir cedo, pode deixar que eu cuido do morceguinho.”

“— Não Guille, ele pode ser perigoso, não parecia muito bem quando o achei... Se bem que nem eu parecia bem na ocasião.”

“— Do que está falando príncipe? Esqueceu que o Gui é um caçador? Se o garoto for fazer algo esse simplesmente arranca o co-Ai!” – exclamara de dor no final, ao sentir uma chutada na perna por debaixo da mesa.

“— Verdade, me esqueci...” – parara de falar, ao ver de quem falavam aparecer no lugar.

A passos lentos Oroi andava para perto. Os cabelos estavam soltos e caindo pelos ombros, havia uma faixa branca cobrindo o olho esquerdo — onde o mesmo fora arrancado da cavidade -, e por sorte as roupas do loiro não eram chamativas. Um sorriso fraco estava presente nos lábios deste, bem como um olhar amoroso em direção a Cain. Descalço, andou como pluma em direção ao lado deste e o abraçou.

“— Meu Mestre é tão gentil...” – sorrira mais, fechando os olhos.

“— Mestre?” – fora Guille quem perguntara, com uma voz um tanto raivosa em direção a Cain “— O que fez a ele Cainzinho?”

“— Não fiz nada, quando dei por mim ele estava todo ensanguentado eu só me ajoelhei ao lado e ele me...” – corara um pouco, tentando afastar o menor de si “— Me ...”

“— Fiz errado Mestre? Preferia que eu lhe desse outro tipo de serviço?”

A mão pequena deslizou pelo tecido do casaco que Cain usava, cada vez mais para baixo, quem parara o trajeto fora Guille que se erguera rapidamente e puxara o morcego ousado, não pensando e levando a mão a garganta deste.

“— Comporte-se lixo ou findarei sua existência.” – falara de modo sério Guille.

“— Espere!” – erguera-se rápido, impedindo que acontecesse mais mortes ali “— Ele só não sabe o que está fazendo Guille.” – o príncipe intervira.

“— Estranho... 'Eles' dizem que nenhum dos dois é o meu Mestre...” – Murmurara Oroi, mesmo com o pescoço segurado “— Mas... Ele salvou-me na floresta novamente.. E você tem o cheiro dele..”

Guille ofendera-se ao escutar que tinha o mesmo cheiro que o louco do vampiro Puro Sangue, largando então o vampirinho no chão. Era só o que faltava, o garoto ficara louco de vez e achava que qualquer um era seu Mestre. Acalmara-se então, dando alguns passos e fitando o elfo sorridente a comer como se nada importasse.

“Ny sempre foi assim...? ” – pensou, logo vendo o olhar azul lhe fitar de modo desejoso “... Devo estar imaginando coisas. ” – concluiu em pensamentos, sentando-se novamente.

“— Oroi, eu não sou seu Mestre...” – Cain, ajoelhado no chão, tentava explicar “— Sou Cain Radiance, lembra? Te conheci na festa da vila élfica... No mesmo dia onde meu amigo, Veck foi sequestrado...”

“— Veck... Vectorius?” – indagou Oroi, sentando-se e olhando de forma curiosa para o outro.

“— Esse! Como ele está?” – sorrira, vendo que poderia ter informações de seu amigo finalmente.

“— Tão louco quanto qualquer um daquele castelo... Ele pegava toda a atenção, toda... E ele me odiava...” – abaixara o rosto, fazendo o cabelo tampar um pouco a face.

“— Como assim? O que aconteceu? Conte-me.” – Segurara nos ombros do outro, sacudindo-o um pouco.

“— Mestre.. Isso dói...” – erguera a face novamente, portando um pequeno sorriso “— Continua?”

“— Cainzinho... Se for questionar ele, deixe Yaminho fazer... ”

“— Mas Guille o Yami quase matou o Oroi...”

“— Por isso mesmo, ele não ficará com pena se o morceguinho fizer algo.” – deu de ombros, vendo que mais ninguém iria comer ali e levantando-se para tirar a louça da mesa.

Cain respirara fundo, levantando-se e pedindo para o outro fazer o mesmo, guiando-o em seguida para o quarto que o tinha deixado antes.

“— Sente-se.” – pediu ao apontar para a cama “— Oroi, já disse que não sou teu Mestre.”

“— ... Mas 'Eles' disseram que iria aparecer alguém para me salvar... E o meu Mestre é que me tiraria novamente de lá.” – sorrira de forma doce, levando as mãos aos cabelos e alisando-os.

“— Eu não te coloquei na floresta. Por favor, conte-me mais de Veck, ele está bem, não?”

“— Porque ele sempre toma toda atenção?” – soltara um muxoxo, começando a trançar o próprio cabelo.

“— Oroi, por favor... Olhe bem, não sou Shisue Abyssinian.”

“— Shisue Abyssinian...” – um calafrio passou pelo corpo do menor.

Sentira as costas doerem, mais precisamente no final de sua coluna, acabando que fechara o olho com força, soltando a trança que iniciara para levar uma mão ao lado esquerdo da face, sobre a bandagem.

“— Você não é meu Mestre.” – um ponto de lucidez voltara a mente do pequeno “— Tens razão, agora posso entender melhor... Desculpe-me o engano, príncipe.”

“— Parece que se recuperou...” – um sorriso mais tranquilo se formara nos lábios, onde sentara-se na cama em que o outro estava, mas um tanto afastado do mesmo “— Quer me contar o que aconteceu?”

“— Eu ignorei uma ordem de Shisue... Minha função era monitorar Lucy, a namorada de Vectorius. Mas acabou que nos tornamos amigos no meio tempo e... Aconteceu algo com ela que eu não pude evitar em atender o desejo dela... No fim, a matei.” – a voz estava baixa, um tanto triste pelas decisões que havia tomado.

“— Você matou sua amiga? Não existia jeito?”

“— Não, provavelmente ela seria descartada e outra tentativa tomaria seu lugar... De acordo com Vitor ela não foi a primeira Lucy que existiu...” – respirara fundo, voltando a fazer sua trança “— Como desobedeci a ordem de Shisue, este me castigou e me abandonou no... No mesmo lugar que me achou.”

“— Mas você não está livre? Isso devia ser bom, agora você pode fazer o que quiser.” – sorrira de forma inocente, vendo que mesmo com a perda Oroi estava livre de Shisue como Veck fora uma vez.

“— Eu amo Shisue.”

“— Como...?”

“— Eu o amo, mesmo que ele nunca venha a nutrir nenhum sentimento parecido com amor, o que eu sinto por ele é de verdade.” – explicara-se.

“— Um homem..” – arqueara uma sobrancelha.

“— Príncipe... Está estranhando o fato de eu dizer que amo um homem ou que amo Shisue?” – surpreendera-se também.

“— É que...” – não sabia o que falar, era estranho mesmo ele gostar de alguém do mesmo sexo.

Sabia que Yami se alimentava tanto de homens quanto de mulheres, mas o caso dele era diferente, o demônio era um íncubus, ele tinha que dormir com outros para se alimentar. No entanto, o caso do vampiro ali que podia ter novamente sua liberdade de volta era confuso.

E, como alguém amaria Shisue? Era quase insanidade da parte desta pessoa — ou ser -, nutrir algo por ele. Veck mesmo dizia que o Puro Sangue louco só se interessava por aquilo que tinha utilidade, mesmo que ele nunca compreendesse qual era a sua utilidade para os planos do Mestre dele...

Só que, Oroi foi descartado, não possuía essa tal utilidade, e muito menos Shisue teria interesse por esse.. Como ele poderia insistir em um amor onde só teria sofrimento? Sem contar que ele ainda era imortal por ser vampiro também, isso iria o corroer sempre, até que de alguma forma se livrasse dessa 'doença'.

“— Não ama ninguém, príncipe?”

Cain arregalara os olhos perante a pergunta um tanto íntima. Desviou o olhar para o chão um tanto incomodado com o que fora perguntado... A si era um príncipe, futuro rei de Radiance, não era como se pudesse amar alguém...

Quando fosse tomar o trono, uma princesa de um reino seria oferecida para si, assim os laços com esse iriam ampliar... Amor, surgia com a convivência, com os anos dessa. Não duvidava que seu pai amasse sua mãe, mas isso fora sendo conquistado ao longo do tempo, com o convívio com essa.

“— Não.” – respondera a pergunta do outro, um tanto incerto ainda “— Existe uma princesa para mim... Após o casamento, o laço de amor se formará.”

“— Príncipe... ” – uma pausa longa, onde terminara de trançar e amarrara a ponta com um pedaço de pano qualquer “— Sabe o que é amor?”

“— Está me insultando em dizer que sou infantil.” – falara firme, não gostando do tom de voz usado.

“— Desculpe, não quis ofender... ”

“— Acho que já se sente bem... ” – levantara-se, não mais disposto a continuar a conversa “— Você é livre para sair quando quiser.”

“— Realmente, não quis ofender... Só queria que compreendesse o meu lado... O amor que sinto, mesmo que ele me veja apenas como servo ou nada... O meu querer estar perto dele, ver o raro sorriso dele, saber que ele está bem e seguro, e o desejo de o ajudar... É maior que eu mesmo.” – sorrira fraco, olhando para as mãos.

“— Admiração, não é amor.” – disse-lhe.

“— Convívio, não e amor.” – rebatera.

“— Nossas visões são diferentes... Possível por você ser um vampiro.” – cruzara os braços, olhando-o de cima.

“— Eu era um humano há menos de quatro anos... E, mesmo sendo humano, já sabia o que era amor...”

“— Você é mais novo que eu então...” – notara, vendo que era o sujo falando do mal lavado.

“— Sim... Eu amei meu amigo...” – sorrira mais ao lembrar desse, não podendo evitar em corar um pouco.

“— Um amigo...” – engolira em seco, descruzando os braços e dando mais atenção a história.

“— Sim, amava-o, mas era algo mais puro... Éramos inocentes demais... Com Shisue era algo mais forte e carnal.” – dera um suspiro lento, sentindo-se um pouco tonto.

“— Deve estar cansado.” – sorrira a ele, já o perdoando por ter chamado a si de criança “— Depois, conversamos mais.”

“— Sim... Está buscando informações sobre Vectorius... Lhe direi depois.”

“— Agradeço.” – disse-lhe, andando até a porta e abrindo-a, virando-se para ele “— Esse seu amor por Shisue, parece mais amizade. Como a que tenho com Veck.” – dito isso, saíra.

Oroi ficou olhando para a porta atentamente, acabando por dar um pequeno risinho... Quem diria, o príncipe era realmente inocente. Por isso tinha ficado tão ofendido com o assunto... Provavelmente não compreendia o que se passava consigo mesmo.

Normal se fosse ver, já escutara de Vitor sobre a castidade que os príncipes e princesas de Radiance deveriam ter até o casamento... Por isso que ele era tão gentil, não entendendo o porquê de ir atrás tão desesperadamente do amigo.

“— Cain Radiance...” – sussurrara o nome dele, deitando-se na cama “— Vectorius devia ter escolhido ele na festa, ao invés de Lucy..” – comentara consigo mesmo, preferindo fechar o olho e dormir.

—X—

Em umas das torres do castelo de Shisue, estava Veck, sentado no parapeito de uma janela grande, observando atentamente a floresta coberta de neve que rodeava o covil — por assim se dizer. Em sua mente, não se passava mais nada, apenas olhava atentamente para o vazio, como um ser vazio.

Não haviam mais lágrimas para serem choradas. Fora tudo tão horrível que se por acaso seu Mestre aparecesse por ali, imploraria para que este lhe torturasse da forma mais sádica que possuía. E, sabia bem que este iria adorar ouvir de sua boca para que fosse o algoz.

Estava em um estado tão deprimente, estava triste, mas não compreendia mais o motivo... Não que fosse ficar louco. Apenas era dor demais ver a pessoa que mais amava ser morta duas vezes. Ao menos, o culpado fora morto também. Essa era a única coisa que o fazia se acalmar um pouco. Apesar de, se pensar, o culpado da primeira vez da morte de sua amada — querendo ou não — fora a si...

“— Lucy...” – sibilara o nome desta, tentado a jogar-se da altura que estava só para sentir a dor ao bater no chão “— Porque não posso ficar com quem amo..?”

“— Talvez, porque meu adorável sobrinho adore ver dor alheia.” – comentara divertidamente Richard, que passava pelo lugar.

“— Eu era apenas um órfão... Nós éramos órfãos... Entre tantos que tem por Even, porque justo nós dois fomos amaldiçoados dessa forma?”

“— Ora meu bebê... Não fique triste...” – sua voz era mansa ao falar.

Richard aproximara-se do mais novo, puxando-o para dentro e lhe abraçando amigavelmente, fazendo com que seu rosto ficasse apoiado em seus ombros... Coitadinho do vampiro tão inexperiente. Dava-lhe tanta vontade de apertar em seus braços até esse espocar — de tamanha fofura que achava deste... Não que pretendesse fazer, no fim, eram só pensamentos distorcidos que passavam na mente deste.

“— Como posso não ficar triste? Eu quero morrer... Mas fiz a promessa a Lucy que não faria isso... Me... Me ajude a fugir.” – pedira, agarrando-se desesperadamente às roupas brancas do outro.

“— Fugir? Mas e todo o trabalho que estão tendo por você?” – beijara-lhe no topo da cabeça, jogando a mecha de cabelo prateado para trás.

“— Trabalho? Pouco me importo se Vitor está me monitorando, muito menos com Shisue... ”

“— Não falei destes... Ops, acho que falei demais.” – dera um risinho sem jeito, afastando-se do menor.

“— Senhor Richard...?”

O ser com belos olhos verdes, olhara sem compreender o homem tão velho — de aparência tão nova — rindo e dançando pelo corredor da torre, acabando por dar um pequeno risinho por conta da performance deste. O Primordial era realmente uma coisa intrigante, nunca conseguia saber o que estava passando pela cabeça deste. Apesar de o conhecer a muito tempo, e confiar nesse, Richard mostrava-se sério em momentos tão distintos que as vezes suspeitava que tudo que ele mostrava em ser divertido e engraçado não fosse só uma farsa.

“— Eu sei de coisas.” – comentou, ainda dançando.

“— Que tipo de coisas...?” – perguntou novamente, com toda a paciência do mundo ao conversar com ele.

“— Um certo príncipe, está enfrentando tudo só para resgatar um certo amigo.” – melodiou, fazendo a voz ficar mais fina.

“— Cain!?” – exclamara exaltado, olhando literalmente desesperado para o outro “ Como assim Cain está vindo!? ” – pensara em seguida, esperando a resposta vir.

“— Era Cain o nome dele? Nome bonito.” – gracejara, levando uma das mãos aos lábios e ocultando um sorriso um tanto malicioso.

“— Senhor Richard...” – aproximara-se desse, olhando-o de forma pedinte, a si poderia ter mais de trezentos anos, mas sabia que o vampiro ali lhe via como uma criança.

“— Não resisto... Não resisto aos seus olhinhos tão fofinhos, meu bebê.” – aproximara-se, erguendo a franja prateada e dando um beijo na testa dele “— Queria que meu filhinho fosse tão fofinho quanto você... Mas... Ele só sabe seguir ordens, me pergunto de onde ele puxou essa característica. De mim, não foi.” – Comentou pensativo, logo vendo que seu discurso não era o que o de olhos verdes queria.

Veck olhara bem para o mais velho, sentindo seu peito doer pelo que tinha escutado. Richard não lhe contara nada útil, e parecia só mudar de assunto ou divagar sobre o próprio filho — cujo nunca conhecera. Já estava mais que aflito, sem compreender toda a extensão do problema.

Era realmente Cain que estava indo ao seu encontro? E quanto a Radiance? Ele ainda era o príncipe, sabia que os chanceleres estavam cuidando do reino até a sua volta... Mas, logo seria um rei — isso é, se tirasse a maldição. Não deveria estar indo atrás de um amigo.

Ele tinha deveres... Radiance já foi atacada uma vez, não existia garantia nenhuma que Shisue não fosse querer atacar novamente o lugar!

“— Por favor... Me conte, é mesmo Cain que está vindo?” – indagou ao mais velho, já desesperado “ Se for Cain mesmo... Porque ele faria tudo isso por um amigo..? ” – questionou-se em pensamentos.

“— Cain.. Cain...” – fechara os olhos, ponderando a cabeça de um lado ao outro, como se tentasse se lembrar “— Ah, sim. Radiance... Bonito reino não? É ele mesmo.”

“— Cain idiota!” – resmungou alto, levando as mãos a cabeça “— Como pode fazer isso, e o reino dele como fica!?”

“— Reino, que reino?” – um sorriso cruel criou-se nos lábios do primordial, um tanto macabro demais.

“— Radiance...”

Estranhara de imediato o sorriso tão assustador... Esse possuía até uma aura negra ao redor, dando um contraste enorme com a pele branca como alabastro, bem como o cabelo e roupas da mesma cor — realmente, era quase um fantasma.

“— Desde quando Radiance é do príncipe..?” – o sorriso, continuara.

“— Por... Por ele ser o príncipe?” – arqueara uma sobrancelha, imaginando que talvez o outro estivesse só brincando.

“— Ele pode ser o príncipe. Mas Radiance pertence a Shisue...” – melodiara.

“— Co-como!?” – desesperara-se de vez, entendendo nada do que aquele Primordial estava dizendo.

—X—

Alguns poucos dias se passaram desde que chegaram ao vilarejo e instalaram-se na cabana mais afastada. Um rumor passou pelo lugar dizendo que o dono vil do castelo estava passeando pelo lugar.

Oroi animara-se todo com isso, já imaginando que seu Mestre estava em busca de si, mas logo Yami resmungara sobre provavelmente associarem qualquer confusão que existisse por ali, com Shisue. Já que no caso sabia que as mortes que teve acontecera por conta do descuido próprio.

A manhã havia acabado de iniciar e Oroi ajeitava-se trançando seu enorme cabelo, dando uma atenção um pouco especial a esse por lembrar-se que seu Mestre adorava o puxar pelo mesmo. Suas costas mantinham-se doendo constantemente, bem próximo ao fim da coluna.

No entanto essa dor o deixava mais contente, porque Eles diziam para ficar feliz pelo que tinha. Estava marcado, como um gado, mas mentiria se dissesse que não se excitava as vezes em passar a mão por aquele lugar.

“— Shisue..” – sibilou lento, passando as mãos pelas costas, estando vestido.

Havia esse nome escrito ali, o nome do seu Mestre — ou melhor, ex-Mestre — em seu corpo. Marcado aparentemente com as próprias unhas dele, de uma forma que havia ficado em seu corpo. Provavelmente havia magia nisso envolvido, mas era o de menos.

Da tortura que recebera desse, saíra sem o olho esquerdo e marcado como um animal... Para esconder a falta do olho em si, amarrava uma bandagem em seu rosto, cobrindo um pouco com a franja para que não incomodasse ninguém. Lembrava-se de poucas coisas daquele fatídico dia.

A única coisa que lhe vinha em mente com relação a falta do olho, era de Shisue dizendo que queria sua pedra preciosa para ele...

“— Sinto sua falta...”

“— Oroi?” – Cain entrara no quarto, mostrando-se um tanto abatido e cansado, mesmo sendo tão cedo.

“— Príncipe... Parece cansado...”

“— E estou, sinto minha própria sanidade se perdendo aos poucos... ” – decidira entrar, fechando o quarto.

Haviam três quartos naquela cabana, Cain e Oroi ficaram com um para cada um e Nyha com Guille ficaram com o maior só para eles... Para a infelicidade da Puro Sangue que já havia dado desculpas esfarrapadas a tudo quanto era direito para livrar-se dos toques mais íntimos do loiro.

“— Sei bem como é isso. Infelizmente, sei.” – terminou de trançar-se, sentando na beirada da cama e batendo nessa mais afastado de si, esperando que ele sentasse também para poder conversar.

“— Eu queria te fazer algumas perguntas... Eu perguntei para todo mundo como se aproximar daquele castelo, até mesmo tentei sozinho uma vez... Mas acabo sempre me perdendo e parando na entrada.”

“— O caminho está encantado, se você pisar em um único lugar não sendo o correto, irá pegar o caminho da entrada novamente.” – explicou-lhe.

Se fosse ver, era provavelmente impossível a si ter vagado pela floresta na primeira vez e ter ido parar no castelo dele... Nunca iria acertar o caminho. Como então havia parado nos jardins dele?

Estava sendo guiado por alguém? Não se recordava naquela hora, estava em um estado tão lastimável quanto a poucos dias também estava...

“— Você poderia nos mostrar o caminho? Por favor, preciso muito ajudar Veck.”

“— Príncipe... É bem dizer um suicídio tentar entrar naquele lugar. Mesmo que vocês tenham um Caçador, ainda assim Shisue é muito mais forte. Fora que o senhor Richard também está por lá.”

“— Richard?” – indagou-lhe curioso, tentando reunir informações para o que queria.

“— Parece ser o tio de meu Mestre, não sei informar bem. Quem está há mais tempo lá é Vitor.”

“— Shisue ainda tem tio..? Quantos anos será que tem..?”

Oroi riu de leve, vendo a curiosidade nos olhos ametistas ali. Da última vez que o vira, fora a quase dois anos atrás. Agora havia mudado um tanto, o porte estava mais desenvolvido e até um pouco bronzeado — o que era justificado pelo tempo em alto mar. Mas aqueles olhos inocentes e curiosos não mudavam...

“— Não era uma pergunta importante...” – riu Cain também, vendo que estava perdendo-se de leve na conversa “— Quanto ao caminho... Eu realmente não me importo com quem esteja lá. Apenas quero recuperar meu amigo.”

“— Eu... Não sei, não queria trair mais meu Mestre... Fora que, vocês o tentarão matar, não?”

“— Não.” – mostrara-se firme nisso, surpreendendo Oroi bastante “— Só quero realmente recuperar Veck...”

“— E depois? Se ele o pegar de volta..?”

“— Irei resgatá-lo novamente.” – sorriu amplamente ao outro, fazendo-o rir novamente de leve.

“— Eu irei pensar, certo..?” – não poderia dar-lhe a resposta agora, tinha realmente que pensar sobre tudo isso.

Era trair seu Mestre levando eles lá. Não poderia cometer mais erros do que já havia feito com Lucy. Respirou fundo, fechando um pouco o olho e ficando na dúvida de suas ações. Shisue o deixou vivo. Isso, com toda certeza, era algo que precisaria ser levado em conta. Agora, a questão maior seria o motivo de ter sido deixado vivo.

“ Ele sente algo por mim..?” – Pensou Oroi com calma, logo sorrindo amargo ao ter a certeza de que não seria isso.

“— Você está bem?” – perguntou Cain, ficando levemente preocupado.

“— Oh, sim... Claro, só acabei pensando demais.”

“— Prefere ficar um pouco em paz? ”

“— Desculpe-me... Devo estar incomodando mesmo. Mas eu realmente irei pensar sobre.”

“— Se precisar, estarei por perto.” – avisou lento, seguindo para fora novamente.

Cain logo que saíra do lugar, respirou fundo, levando a mão ao peito um tanto trêmula. Estava pesado, seu peito pesava horrores para falar a verdade, e esse entendia bem o motivo. Era Yami, mesmo esse sem querer acabava pesando sobre seus ombros. Esse lugar inteiro acabava pesando sobre si.

Seguiu andando a passos lentos, tentando se recuperar do que sentiu, o pior era saber que não conseguia completamente. Sentia seus passos arrastados, como se fosse difícil equilibrar-se pelo curto momento onde havia o breve equilíbrio do corpo em um dos pés.

“— Yami..” – chamou baixo por esse, acabando por andar até a parede e apoiar-se nessa com uma das mãos.

“Diga, hospedeiro... Mas já aviso desde já, não posso ter o controle do corpo... Até por eu mesmo, não me sentir no controle de nada. ” – ouviu em sua cabeça,

“— Lhe peço Yami..”

“ Aceitarei, mas em troca conversarei com o vampiro.”

“— Só... Não faça nada de errado.”

O príncipe falou ao final, onde poucos instantes depois o mesmo fechou os olhos, e um leve balançar se fez em seu corpo. Junto desse fato, as inscrições – que sempre eram visíveis, apesar de bem claras – tornaram-se mais escuras pelo corpo.

Yami estava no controle.

“— Agora, meu mundo, minhas regras.” – a voz saiu levemente mais grossa, anunciando a quem estava no controle.

Um suspiro longo escapou da boca do demônio, abrindo os olhos e virando-se para trás, fitando a porta do quarto onde Oroi estava. Uma breve risada foi emitida, seguindo logo para o quarto e abrindo-o.

“— Pois não, príncipe?” – questionou o dono do quarto, arqueando uma sobrancelha em dúvida.

“— Me chame de Yami, agora nós teremos uma conversa.” – soou frio, entrando e fechando a porta.

Oroi estremeceu de leve, devido ao olhar em sua direção, logo um sorriso um tanto travesso surgiu em seus lábios, onde levantou-se da cama e ajoelhou-se diante dele abaixando o rosto.

“— Meu Mestre.” – sibilou baixo, fechando os olhos.

“— Ponha-se no seu lugar, vampiro. ” – Yami empurrou-o com o pé, fazendo-o cair sentado.

Um breve olhar de deleite fora visto no olho esverdeado do Oroi, que logo ergueu o rosto e o fitou. Era seu Mestre ali, não..? Parecia cheio de energia maligna como ele, parecia tão vil quanto... Aqueles cabelos negros e olhos de igual cor.

“— Ametista..?” – Oroi falou baixo, olhando na dúvida para o rosto daquele a sua frente “— Não são os olhos dele... Você...” – uma breve pausa, onde levantou-se lento indo para a cama, acompanhado de um suspiro ao sentar-se “— ...Não é meu Mestre. ” –

“— Um ponto de sanidade.” – respondeu o outro ironicamente, revirando os olhos em descaso.

“— Então, Yami, o que quer de mim?”

“— Veck.”

“— Como? Não compreendi... Meu Mestre que tem a posse do Vectorius.” – o olhar da duvida era clara em direção ao mais alto.

“— Por isso mesmo, quero o nosso Veck de volta.” – avisou completamente possessivo, indo para a frente do vampiro.

“— Nosso?” – um curto risinho foi ouvido “— Em qual sentido esse ‘nosso’ está sendo dito?” –

“— Veck nos pertence, completamente.” – aproximou-se mais do vampiro, levando uma mão ao ombro dele e a outra ao queixo desse, erguendo-o para olhar bem a si “— Queremos os gemidos dele, o corpo dele, possuí-lo... Será nosso, completamente nosso... Assim que tirarmos ele daquele vampiro.”

“— Mas, o príncipe não parecia sentir mais que amizade.”

“— Você acreditou nisso? Nem ele mais está acreditando totalmente nisso.” – deu de ombros, lambendo de leve os lábios “— Ele não entende do mundo, apenas isso... A pureza dele, me limita. Mas meu pensamento é livre... ”

Yami aproximou o rosto do vampiro, desviando e aproximando-se mais do ouvido, podendo sussurrar.

“— Meu desejo é possuir aquele vampiro enquanto ele se alimenta de mim.” – sussurrou-lhe com um sorriso pecaminoso.

“— É um prazer enorme, devo admitir. Adorava quando meu Mestre me permitia mordê-lo enquanto era possuído. ”

“— Queremos esse prazer... A diferença é entre ser possuído e possuir.”

“— E você, qual seria? ” – questionou Oroi, rindo um pouco mais desse assunto inusitado.

“— Possuir, claro. Fazê-lo chorar de prazer enquanto o arranho, sentir o arquear desesperado dele ao arranhar suas costas.”

“— Então o príncipe seria possuído?”

“— Quem sabe..” – riu mais, afastando-se e dando de ombros.

Yami olhou bem para o vampiro ali... Achava que chegaria já lutando com ele, ofendendo-o e coisas do tipo. Mas no fim, o assunto tornou-se um tanto íntimo. Porque não dizer, erótico? Em todo caso, pouco se importava com o nível do assunto, Cain estava dormindo por assim se dizer.

O corpo era seu.

Ao menos, podia-se dizer que estava bem controlado. Talvez o foco que possuía em Veck acabava mantendo-o mais são.

“— Então... Como quer o Vectorius, se não estou com ele?”

“— Você vai nos levar até ele. Nos guiar naquele labirinto.”

“— Eu... Iria pensar seriamente nisso.”

“— Pense.” – disse firme, olhando-o irritado “— Não aguentamos mais estar longe dele.”

O demônio não aguentou esperar nenhuma resposta, apenas saiu dali fechando a porta com força. Seguiu então para o próprio quarto, jogando-se na cama e levando a mão para o pescoço. Arranhou-se com força, imaginando que seriam as presas do vampiro perfurando-o.

Um ofego longo escapou de seus lábios, sentindo falta desse tipo de contato... Se estivesse ainda separado com Cain, como anos atrás na vila élfica, com toda certeza acabaria instigando-o para perder aquela inocência toda..

O que, parando para pensar, daria um caos maior ainda. Acabaria que não conseguiria manter o nível de sanidade e descontrolar-se-ia de vez... Cain, da forma que estava, era fundamental para que ambos existissem... Mesmo assim, imaginar, enquanto Cain estava dormindo dentro de si, não era tão ruim.

A ideia do vampiro diante de si, aproximando-se lento, da mordida forte em seu pescoço, daquele prazer que sentia quando ele o sugava o acumulo de energia... Perguntava-se o que mais aquela boca podia sugar e lhe levar ao delírio...

Pensamento, apenas pensamentos...

A vontade de tocar-se era alta, absurda... Mas mesmo assim, não era algo que era permitido. Se não, já teria feito em si mesmo várias vezes, para deixar um pouco todo o estresse sair de lado...

—X—

Passos apressados de alguém com um capuz negro passavam pelos corredores do castelo em Even. Vitor olhava ao redor irritado e levemente desconfiado. Ele sentia que havia alguma coisa errada, que algum plano do seu Mestre estava em andamento nesse momento. O mesmo estava tem dois dias preso no quarto de tortura com Vectorius.

E, agradecia imensamente que não estivesse consigo lá.

Por isso, andava em direção a sala onde os objetos mágicos eram guardados, aproveitando que todos estavam ocupados para visitar alguém... A questão maior era como faria isso... Teria que ser furtivo, nada difícil para si. O difícil seria aquele caçador escandaloso...

Seus passos finalmente o levaram para a sala, caçando por lá uma esfera de vidro transparente, demorando um bom tempo para isso, mas assim que a pegou, tratou de segurá-lo com duas mãos, murmurando alguns versos mágicos para essa. Fechou seus olhos e logo que os abrira estava atrás da taverna da vila.

Um sorriso fino estava em seus lábios, onde a esfera logo foi escondida em uma bolsa de moedas presa em sua cintura. A sorte era que o único que estava ali, era um bêbado e ninguém iria acreditar no homem. Por isso, ignorou-o, seguindo a passos lentos agora, olhando a neve fofa sobre seus pés suja por conta do andar das pessoas daquela vila.

Odiava Even.

Odiava realmente essa vila, se um dia seu Mestre lhe desse permissão, aniquilaria tudo, literalmente tudo. Só não faziam provavelmente por ser um bom estoque de alimento.

Engoliu o ódio por sua vila natal, seguindo e pedindo informações por ali, conseguindo por algumas moedas onde que o Caçador estava enfiado com o resto dos lixos que estavam com ele.

A noite estava se iniciando já, mas ali sempre escurecia mais cedo, era algo normal que todos eram acostumados. Uma cidade fria, irritantemente fria, a sorte sua era que não recordava mais de como era a sensação extrema do frio. Uma das sortes de ser um vampiro, por assim dizer.

Quando seus passos o levaram até a cabana mais afastada da vila, cujo o Caçador e o resto dos inúteis estavam se escondendo, um riso baixo saiu de si. Rodeou, apenas espalhando o seu cheiro por ali, apenas instigando a quem queria ver, sair. E para a sua não surpresa, finalmente Guille aparecia, portando um olhar frio e irritadiço.

Abaixou então seu capuz, olhando de cima baixo aquele ser tão nefasto quanto o seu Mestre. Não envelhecera nada, estava tão bonito quanto antes – e o olhar era tão frio quanto o lugar. Lambera os lábios, virando-se e seguindo em direção a floresta ali perto, sendo acompanhado de longe pelo outro. Demorou um pouco, andando entre as arvores para parar e encostar-se em uma, aguardando-o.

“— Você é idiota ou ao ser transformado virou um por completo?”

“— Uma boa recepção como sempre, Caçador.”

“— Sério, morcego... O que se passa pela sua cabeça, vindo aqui?” – questionou-o irritado, parando diante dele e olhando-o bem “— Oh... Não me diga que era saudades..?”

“— Vim a negócios. Como sempre.” – deu um suspiro, revirando os olhos em descaso.

“— E como sempre... Vai me obedecer?”

O Caçador levou a mão ao rosto do vampiro, olhando a cara apática que esse tinha em direção para si. Admitia que era engraçado ver esse morcego olhando com esse olhar de puro tédio para si. Conhecia-o bem, talvez o conhecia melhor que seu próprio Mestre.

Vitor sempre foi assim, desde que o conhecera, aquele morcego era um fraco. Ele precisava de algo mandando nele, algo que justificasse suas ações, algo que o fizesse ainda ficar vivo. Um objetivo tolo, em resumo.

Guille lambeu os lábios, instigando um pouco o outro a sua frente, deliberadamente levando a mão para a região do membro. O sorriso brotou mais travesso ao ver o olhar surpreso do vampiro a sua frente.

“— Vitor... Pare de reclamar... Vamos brincar um pouco... Você ficou dois anos sem me tocar.”

“— E você deve ter dado até para o caralho do navio.” – gracejou.

“— Ciúmes.” – rebateu, aproximando os lábios do pescoço dele, esticando-se para conseguir fazer isso com maior sucesso.

“— Nunca.”

Não tardou em Vitor pegá-lo pelas pernas, fazendo-as enlaçar em si. O ato seguinte fora virá-lo e encostar o menor na árvore, atacando-lhe os lábios em um beijo intenso.

CONTINUA...

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10/01/18

Nota da Autora:

Sim! Vai continuar! Só tenho que.. Parar de preguiça, juro! Não sei se mais alguém lê PM, mas se ler, para incentivar, comentem algo.. Pode ser só um emote feliz, eu já saberia que alguém ainda acompanha~

Nota da beta:
~ QUE RUFEM OS TAMBORES!!!!!!! DEPOIS DE BEM DIZER SETE ANOS~ ESTÁ DE VOLTA O PM!!!! WEEEEEEEEEE~ E podem acompanhar, pois eu pretendo cobrar a Mestra um pouco mais e espero que vocês também! Comentem e digam que sentiram tanta falta quanto eu!! E que se empolgaram tanto quanto eu também! * 0 * Sério... Senti saudades. Perdoem qualquer errinho~ E sejam bem-vindos(as) de volta!

Notas finais
Mandem sinal de fumaça!!