Prisma das Sombras

4 Capítulo3 -De bricandeiras ao treino ou vice-versa


Notas iniciais
Como sempre, os treinamentos de um hunter é muito árduo, e se tornar mais complicado quando um pai tenta treinar uma filha que faz do treino uma brincadeira. Confira Isao em um desses dia de treinamento da pequena Sayumi.

Até os quatros anos de idade, Sayumi vivia como uma garotinha normal, aproveitando cada momento de sua infância feliz que poucos da idade dela tinham o direito de desfrutar. Porém ao completar cinco anos, os pais dela decidiram que era hora de começar o seu treino e estudos para continuar a tradição de caçadores de vampiros da família Hasegawa.

- Vamos lá, Sayumi, hoje você vai aprender a encontrar alguém utilizando somente a sua percepção de sentir presenças.

Disse o pai da menina que tinha levado a garota para um bosque que ficava aos arredores da mansão Hasegawa.

- Então hoje vamos brincar de pique — esconde, papai? Perguntou a garotinha já postando as mãos nos olhinhos negros e começando a contar. Isao, vendo a cena de Sayumi aproximou-se dela, retirando as mãos e falando seriamente com a menina e um tom brando.

-Sayumi é mais ou menos isso, mas não precisa contar e nem ficar com os olhos fechados, o seu inimigo nunca lhe avisará quando vai aparecer, entendeu?

-Sim, papai é como se fosse um dos nossos parentes que nunca avisam que vem para o almoço no domingo?

O sorriso nos lábios do jovem homem foi inevitável ao ouvir a comparação da filha, lógico que era falava inocentemente, pois só falou aquilo por muitas vezes ouvir o pai reclamado para a mãe sobre a aparição dos parentes.

-É Sayumi, mas no caso dos inimigos não temos que suportá-los como aqueles tios de sua mãe. Mas voltando a lição de hoje, aqui há outra pessoa além de mim e você, só que ela está escondida. Tenta achá-la e...

Mal o pai tinha acabado de dizer, Sayumi saiu correndo procurando a tal pessoa gritando infantilmente, olhando para trás de cada caule da árvore.

- Sayumiiiiiiiiiiiii, volte aqui já! — Ordenou Isao, e logo a menina se aproximou do pai já com os olhos cheios de lágrimas, com medo da bronca do pai. Porém, ele tentou amenizar a situação, pois não suportava ver a filha assim, mas tinha que ser enérgico.

- Minha filha, me desculpe, mas não pode chorar toda vez que eu grito por estar fazendo algo incorreto, você tem de se acostumar. Há coisas no mundo que sempre lhe chatearão e deixarão com medo, mas você tem de ter coragem para enfrentá-las, e ser destemida sem demonstrar as suas fraquezas.

Isao tocou no rosto meigo dela e limpou as lágrimas que escorriam.

-Mas é assim que se encontra alguém, procurando! — Soluçando explicou ao pai o único modo que conhecia de encontrar alguém.

-Não Sayumi, há outros modos... por exemplo, a concentração. Lembre-se que você já aprendeu um pouco de como se concentrar no treino anterior. — Quando relembrava a filha do último treinamento, Isao torcia o seu rosto, pois se recordava do quão foi difícil ensinar a se concentrar devido as borboletas que ela insistia perseguir pelo jardim.

- Ah, sim me lembrei. Ficar quieta e parada, fingindo que não há borboletas aqui. Mas vai ser difícil, papai, porque não tem borboletas!

Isao respirou fundo, percebendo que seria mais uma tarefa árdua a ensinar para filha. Olhou para os lados, mexeu nos cabelos e voltou-se para filha, tentando falar sem se aborrecer.

- Escute Sayumi, não é preciso ter borboletas para se concentrar. Fique quieta, tente se desligar de tudo ao seu redor e tente observar somente o que está estranho aqui. Sei que tudo é estranho, mas há algo que você nunca sentiu antes. E assim que perceber atire esse pequeno graveto na direção da presença.

Entregou o graveto para menina que fez um sinal de afirmação com a cabeça, como se entendesse as instruções.

-Tudo bem, papai!

A menina ameaçou fechar os olhos, mas logo ouviu a pequena advertência, e começou a se concentrar. Levou um bom tempo para que Sayumi alcançasse a plenitude da concentração, pois quando não eram as formiguinhas subindo no tronco das árvores, eram alguns filhotes de esquilos que resolviam aparecer, atrapalhando o treinamento da garota.

-Achei!- Disse assim que descobriu a presença.

Sayumi lançou o graveto com toda força em direção ao alto de uma copa de uma árvore. Porém antes de alcançar o destino, o graveto evaporou-se misteriosamente.

- Muito bem, mocinha... — Uma voz grossa e tenebrosa, porém amigável

ecoou pelo local. – Demorou, mas me encontrou... eu poderia ficar a minha eternidade aqui, pois é muito divertido ver as caretas do seu pai Isao ao te treinar.

Sayumi ergueu a cabeça para encontrar o dono da voz, mas sem sucesso, pois ele já estava caminhando em direção dela. Era um homem de estatura mediana como o pai de Sayumi, cabelos médios e acastanhados que pareciam dançar a cada passada dele, suas vestes eram negras, e se ele andasse pela noite, nunca ninguém o notaria quando cruzasse com ele. Porém o que mais chamou atenção da garota era que a pele dele era tão pálida, tão alva quanto os flocos de neve que costumava brincar na época de inverno, além daquele olhar frio que a mirava fixamente. E antes daquela figura chegar bem próximo da garota, Isao já estava ao lado da filha como se quisesse protegê-la.

- Calma Isao! Eu não vou mordê-la, embora parecer muito suculenta com essas bochechas rosadinhas. — O rapaz sorriu, tocando de leve o rosto de Sayumi que sentiu aquele ar frio sobre a pele.

- Nossa moço, sua mão está tão gelada. Está com frio? — Indagou a menina surpresa com o rapaz, ele por sua vez alargou o sorriso, deixando um pouco a mostra os caninos ainda em tamanhos normais a de um humano.

- Talvez, Sayumi-san. Muito esperta a sua filha, Isao...

- Gomennasai Hisako-sama, Sayumi é assim mesmo. — Isao reverenciou o amigo Hisako com o tradicional cumprimento oriental e que também retribui a reverência.

- Não há o que se desculpar Hasegawa, os pais de maneira instintiva sempre querem proteger suas crias mesmo quando o perigo não é perigo.

Sem jeito e sem graça, Isao coçou a cabeça rapidamente, voltando postar as mãos sobre os ombros da filha, inclinando a cabeça bem perto do ouvido da menina e falando.

- Sayumi olha lá aquele coelho que você queria pegá-lo antes, acho que a toca dele fica ali naquela árvore, vai lá vê-lo, porque o pai tem assuntos a tratar com Hisako-sama.

Ao ouvir sobre o animalzinho com a cabeça para fora da toca que ficava em um orifício de uma árvore, Sayumi sai correndo, porém com cuidado para não assustá-lo. A garota almejava pegá-lo e levá-lo para casa, para fazer companhia aos demais três coelhos que tinha.

- Hesagawa... sinto lhe dizer, mas demorará muito até que ela se torne a hunter que a família tanto deseja.

Hisako comentava sobre a pequena, enquanto se caminhava para sentar-se em imenso tronco da árvore que estava caído.

- Sinceramente, talvez nem se torne. Olhe para ela, como uma menina meiga, carinhosa e inocente que não vê maldade em nada pode se transformar em uma matadora de vampiros como aquele velho sonha! — Isao sentou-se junto ao amigo, porém não mirava, pois estava atento aos movimentos da filha com os coelhos.

- Ela é só uma criança, tem um longo caminho percorrer. E quem disse que uma hunter não pode ter os atributos dela? Talvez a auxilie para que não cometa injustiças como muitos cometeram contra nossa espécie.

- Ah, não queria esse destino ao pequeno lírio de olhos negros, não queria vê-la envolvida nesse mundo de matança. Só faço isso porque não tem outra saída, tem um débito com o velho Hasegawa que me adotou, depois a minha família foi disseminada pelo aquele bando de vampiros decaídos.

Ao se relembrar do triste passado, Isao fechou a mão em forma de punho. Neste movimento, seus ossos estalaram de tal forma que demonstrava seu ódio.

- Conheço a tua história Isao. Mas é claro que você não tem raiva de todos nós, você soube entender que os vampiros são como os humanos. Tem sempre aqueles que são joios que se escondem em meio do trigo.

- Sim, Hisako-sama, sempre serei grato a você por salvar a minha vida naquela temível noite. Mas infelizmente, o velho Hasegawa acha que todos os vampiros são com uma cesta de maçãs podres. Só treino a Sayumi porque não quero que ele enfie na cabecinha dela aquelas coisas absurdas, e também sei que ele seria muito severo com ela do mesmo modo foi comigo e Natsumi. Não quero vê-la sofrer.

Colocou a mão sobre o queixo apoiando cotovelo na perna, ainda a observar a pequena filha, que com uma vareta cutucava a toca dos coelhos tentando retirá-los de lá. Hisako colocou a mão no ombro do amigo, demonstrando o apoio às suas palavras. Porém não concordava, pois era eminente que todos os seres sofreriam algum dia.

- Mas um dia ela terá de conhecer o sofrimento, caro amigo.

Isao respirou fundo, olhando para os olhos misteriosos de Hisako, que ainda permaneciam com a coloração normal, com a convicção que protegeria Sayumi custe o que custasse.

- Mas enquanto eu poder evitar, ela passará longe deste sofrimento.

Finalmente, Sayumi conseguiu pegar um filhote de coelho da toca, e como o pequeno animal fosse um troféu foi mostrar o pai a sua pequena conquista. O grande sorriso infante da pequena conquistou ambos os homens.

- Papai, olha, eu consegui pegá-lo. Ele é muito lindo, posso ficar com ele?

A menina ergueu o coelho na face do pai, porém Isao não sabia se permitia que ela ficasse com animal, já que a casa deles estava a cada dia ficando mais parecida com um zoológico.

- Bem, minha princesa, é... eu não sei... bem...

Hisako ao ouvir a pergunta se intrometeu na conversa, tentando persuadi-la ao deixar o animal na floresta.

-Sayumi-san, você gostaria de ficar longe dos seus pais? — Indagou à menina.

- Não, não Hisako-senpai, ficaria muito triste se ficasse longe de meus paizinhos, sentiria muita falta deles! — Respondeu com uma voz meiga e inocente abraçando o coelhinho docemente.

-Então , Sayumi-san, do mesmo jeito que você ficaria triste, o nosso amiguinho orelhudo também vai ficar se você retira-lo da família dele. Todos os seres vivos sentem essas coisas, mesmo que não esteja estampado na face. Como sei que você é uma menina esperta, bondosa, e carinhosa, o deixará livre.

Sayumi abaixou o olhar, estava cabisbaixa com as palavras do amigo do pai, porém entendeu que ele tinha razão. Então se ajoelhou no chão, estendeu os braços e o pequeno coelho deu um grande salto rumo à liberdade indo direto para a toca.

- Sabia que você entenderia. — Hisako afagou os cabelos negros da menina, parabenizando a ação, porém retirou as mão rapidamente quando percebeu que alguém se aproximava, apesar de ainda está muito distante os passos.

- Tenho de ir, há um rapazinho que está me dando um pouco trabalho em Londres. Talvez um dia eu traga aqui para brincar com a Sayumi. — Hisako agachou e deu um beijo no rosto meigo de Sayumi que ficou com as bochechas mais rosadas do que costume.

- Nem em toda sua eternidade, não quero nenhum daqueles pequenos rebeldes que você cuida perto de minha filhinha.

Isao levantou-se, deu um abraço de despedida ao amigo que começou a caminhar a floresta adentro até não fosse mais visto pelos dois.

- Isao, Sayumi! Cadê vocês? Hora do jantar! — Uma voz suave rompeu o silêncio que ainda pairava no ar após a saída de Hisako.

-Papai, é a mamãe, olha ela ali! — Apontou a garota feliz ao saber que a mãe se aproximava. Porém, antes dela correr para abraçar a mãe, Isao puxou a menina e lhe disse.

-Sayumi, não comente a sua mãe que Hisako esteve aqui, porque ela não vai muito com a cara dele, e irá logo se aborrecer comigo.

A garota entendeu as palavras do pai e como não gostava de vê-los brigando, prometeu que nunca falaria sobre Hisako, o homem pálido de mão e beijo frios e com uma energia muito diferente de um humano, a mãe. Depois da promessa, a garota saiu correndo ao encontro da mãe que a pegou no colo e abraçou carinhosamente.

- Minha bonequinha, e como foi o treino hoje? Deve ter sido proveitoso porque seu vestidinho está todo sujo de barro.

Sayumi deu um beijo no rosto da mãe e envolveu os braços no pescoço dela, mexendo nos cabelos.

- Foi sim mamãe... eu encontrei uma toca de coelhinhos, mas não quero levar um comigo para não separar da família.

Natsumi olha para marido, e entende que mais um dia de treino teria sido em vão, já que a Sayumi estava a brincar ao invés de treinar.

- Foi mesmo meu amor. Tomara que essa caça a coelho seja útil para o seu treinamento...!

Natsumi mirava o marido com uma expressão de indignação, pois, para ela, Isao não estava dando conta de treinar a menina e já estava começando a pensar que precisaria da interdição de uma pessoa.

-Ah sim, Natsumi, será muito útil, você verá. Confie em mim!

Aproximou Isao beijando a testa da esposa e acariciando os cabelos negros de Sayumi.

- Espero, porque você já sabe o que irá acontecer. Vamos embora, já está ficando frio para Sayumi

Assim, a pequena família regressou a sua morada.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.