Notas iniciais
tive esse sonho há dois anos atrás, o escrevi no papel e algum tempo atrás tenho escrito no word para lhes apresentar esse 'troço' 12/05/2010 OBS: MSN era uma rede social antiga a qual só podia adicionar alguém utilizando seu e-mail.

O banheiro da casa nova

Era uma tarde linda de outono em Joinville e Angel, uma garota de longos cabelos castanhos e olhos verdes, ligava naquele momento seu computador, ansiosa para conversar com seu melhor amigo na internet.

No auge dos seus 16 anos, ela não sabia muito sobre os perigos que a internet poderia trazer, pois sua alma era a de uma criança, curiosa e ingênua. Acabara de se mudar para a nova cidade com sua família que durante tempos comentava em mudar-se para o sul e por insistência fervorosa de Angel, finalmente aceitaram sair de Manaus para irem à Joinville, cujo clima agradável acalmaria os nervos de seus pais e assim, fizeram as malas.

*Angel está online*

Teru diz:
— Boa noite Angel, já chegou de mudança? Você não entra no MSN faz dias.

Angel diz:
— Boa noite Matheus. Sim, já chegou o caminhão de mudanças. Minha família chega amanhã e eu quis vir na frente. Como pretexto disse que viria antes pra ir arrumando os móveis, mas o que eu queria era explorar a casa.

Teru diz:
— Já foi no banheiro do térreo?

Angel diz:
— Não sabia que tinha banheiro no térreo. Tem certeza disso?

Teru diz:
— Sei que chegou hoje e está cansada, mas eu tinha um motivo forte pra pedir pra você comprar essa casa, preste muita atenção. Há um cômodo no térreo onde costuma ser a área de transição entre uma sala de jantar e a copa, onde as visitas ficam conversando. Nela, há um relógio enorme e na mesma parede, uma estante de livros fixa ao solo e parece encostada no canto, sendo que na verdade, não está. Por só ter livros em russo na estante, ninguém nunca os lê, e nunca chegam tão perto da estante. Quando chegar lá, olhe para o canto da parede e verá que há uma porta de mais ou menos dois palmos de largura e 2 metros de altura. A estante é mais larga e mais alta que isso, causando a ilusão de ótica de que não há porta. A porta dará em um banheiro e no banheiro, você verá uma abertura de 80 cm de largura por 2 m.

Angel diz:
— Você morou mesmo aqui, não é?

Teru diz:
— Morei sim. Não pensei que você realmente sairia de Manaus até Joinville. Vai mesmo morar aí?

Angel diz:
— Sim, estou morando. Os carregadores já deixaram nossas coisas aqui e só falta arrumar tudo no lugar. Espere aí que eu vou procurar por esse tal banheiro misterioso rsrs.

Teru diz:
— Isso, vá. Do outro lado da rede, um sorriso bem desenhado dizia para si: “Isso venha. Este é o portal que levará você para mim.”

*Angel alterou seu Status para Ausente*

Ela caminhava pelo térreo da ampla residência mobiliada em busca do tal banheiro. Havia chegado de mudança pela manhã e não tinha arrumado todas as coisas que ainda se encontravam quase todas dentro de caixas.

Após procurar por todos os cômodos do térreo, coçou a cabeça pensando se talvez tivesse comprado a casa errada, mas ao chegar na sala de visitas, acabou encontrando uma pequena abertura na parede.

Era uma porta, mas uma porta muito fina e estreita que só dava para passar uma pessoa por vez e de lado no cômodo, haviam mesmo um relógio antigo e uma alta estante de livros russos. Curiosa, a garota adentra a abertura devagar, vendo que era um banheiro amplo. O único banheiro do térreo, então, porque havia um portal estreito sem porta para o fechar? A garota olhou ao redor e para seu espanto, havia outro portal no lugar onde deveria ser o box, mas a largura do portal era comum, embora como o outro, não tivesse uma porta. A parede era em um tom de amarelo bebê com uma carreirinha de azulejos brancos enfeitando a parede.

Um vaso sanitário branco, um tapete, uma pia com espelho acima. Mas não tirava os olhos da abertura em formato de porta, que parecia dar para outra casa. Não, era como se fosse a continuação da mesma casa e aquele lugar não existia com o propósito de agir com as funções de um banheiro, mas como o de um corredor, ligando dois cômodos.

Estando sozinha, por um momento imaginou estar sendo vigiada, mas não adentrou aquele portal para o próximo cômodo. O medo se apoderou do seu corpo como nunca antes o havia feito.

Após voltar por aquela minúscula portinha, sentou-se na cadeira, ficando em frente ao computador e respirou fundo, voltando a falar com o amigo.

*Angel alterou seu Status para Online *

Angel diz:
— Matt, há algo errado. Muito errado. O que era aquilo? Sabia que estava só, mas me senti vigiada. Foi muito estranho. Por um momento pensei ter visto um vulto do outro lado. O que era aquilo?

Teru diz:
— ... Tenho um favor a te pedir.

Angel diz:
— O que você quer que eu faça?

Teru diz:
— ... Desculpe. Não lhe disse antes, mas eu tive meus motivos pra pedir que comprasse esta casa ao invés de qualquer outra. Quando te conheci, você me contou que seus pais estavam procurando um lugar para morar e isso foi perfeito pra mim, me deu esperanças. Angel, não tenha medo, mas você não está sozinha. Por favor, apenas me escute, ok?

Angel diz:
— Esperanças de que? E como assim não estou sozinha? ¬¬’ Para de brincadeira. Eu não gosto disso.— A verdade era que Angel tremia as mãos sem perceber enquanto digitava e por pouco não errava as teclas que devia pressionar. O medo apenas aumentava à medida que conversavam, pois em seu íntimo, sabia que Matheus nunca brincava.

Teru diz:
— Desculpe, mas não é brincadeira. Eu bem que gostaria que fosse, mas não é. Desculpe, não tive coragem de dizer até ter você realmente perto de mim.

Angel diz:
— Como assim? Você esta me assustando Matt.

Teru diz:
— Angel, como eu tinha dito antes, quero te pedir um favor. Eu moro lá naquele lugar que você acabou de entrar. Você viu que depois do banheiro tem uma sala, não é? Viu o que parece ser outra casa e ao mesmo tempo como se fizesse parte da mesma coisa, não é mesmo?

— Mas não é. Sei que é difícil de acreditar, mas aquele banheiro da para outra casa, em outra cidade e em outra dimensão. Você estava sendo observada sim e era por mim. Você não atravessou o portal, Angel. Eu vi.

Um longo silêncio se estabeleceu desde que Matheus acabara de falar. Angel não ousava digitar mais nada. Havia lido tudo e sequer pensava em algo para responder. Ela nunca havia dito que não havia entrado na outra casa.

“Como assim?”

“Como assim?”

“Como assim?”

“Como assim?” – Esta pergunta se repetia inúmeras vezes na mente da adolescente, que fitava o monitor com seus olhos arregalados e fixos nas letrinhas, quase sem respirar.

Angel diz:
— Se é assim, então porque não atravessou logo aquela porta pra vir falar comigo?— Quando deu por si, já havia clicado em enter. Estava curiosa, com medo, receosa, sedenta pelo saber. Precisava saber.

Um minuto se passou antes do garoto lhe responder, mas para Angel aquilo pareceram horas, fazendo outras perguntas se instalarem na mente da garota que estava confusa.

“Ele está demorando pra responder. Estava mentindo? Quando falou que não entrei no cômodo, estava apenas jogando verde? Aquele vulto era ele?”

Teru diz:
— Eu não posso atravessar para o outro lado.

Angel diz:
— Que conveniente. É mentira não é? Se você morasse mesmo nesse lugar você atravessaria. É um portal que da de uma casa para outra, não é? Então atravessa! – A teimosia era fácil de entender naquele momento, pois embora tudo o que a pessoa do outro lado da tela falasse era irreal, fantasioso e tenebroso. Sim, era assustador imaginar estar sendo vigiada e acompanhada de alguém desconhecido, mesmo que simpatizasse com ele e a escuridão da noite apenas piorava a situação.

Teru diz:
— Não é mentira, eu não posso atravessar sem ajuda, por isso te pedi para vir aqui. Não acreditei que realmente pudesse estar tão perto de mim. Estou preso há muito tempo, Angel. Você não tem noção de quantos anos estou preso nesta casa. Não tem ideia, por favor, me ajude.

Angel diz:
— Porque não sai você mesmo daí? Porque precisa da minha ajuda?

Teru diz:
— Que bom ter perguntado. É necessário duas energias para que uma saia. Você seria uma energia e eu seria a outra, pois a minha não é mais suficiente. Eu estou muito fraco e se continuar aqui, acho que não vou sobreviver.

Angel diz:
— E o que você quer que eu faça a respeito?— O apelo do garoto parecia sincero e podia perceber um pouco de desespero nas palavras digitadas, o que acabou deixando que a defesa da garota caísse. — “Talvez seja verdade”.

Teru diz:
— Primeiro, acima de tudo, não conte pra ninguém sobre isso. Ninguém pode saber mesmo. Nem sua mãe, irmã, melhor amiga, diário, NINGUÉM, ok?

Angel diz:
— Isso parece perigoso. Eu nem te conheço direito. Eu sequer vi uma foto sua antes. E se você for um daqueles psicopatas? >_>

Teru diz:
— Se você for pensar assim eu nunca vou sair desse buraco. Eu não te culpo, pois você está certa. Você nunca me viu na vida, mas se quer tanto saber como eu sou, lhe dou uma descrição física. Tenho olhos azuis, cabelos cor de mel, lisos, minha altura é 1,85 e como você sabe, tenho 17 anos.
— Se sou psicopata ou não, o meu físico não vai dizer em nada. Só lhe resta confiar ou não em mim. O que vai ser?

Relendo desde o início a conversa que haviam tido naquele dia, percebia que desde o começo, Matheus mantinha a mesma confiança sem dar brecha de insegurança. Ele parecia saber que ela o libertaria.

Angel diz:
— Está certo. Não contarei pra ninguém, mas não confio em você.

Teru diz:
— Ótimo, porque eu também não confio em você. Vai que você é uma psicopata e está me enganando todo esse tempo? ^^

Angel diz:
— Idiota. ¬¬

Teru diz:
— Ok, agora chega de brincadeiras. Não precisa falar para as pessoas da casa sobre o banheiro. Só irão acha-lo se procurarem por ele. Não que tenha algo mágico nele, mas... O modo como foi feita a porta, parece ter sido milimetricamente planejada para causar ilusão de ótica, fazendo com que a pessoa pense que alí não há uma porta, mas uma parede. Você lembra que a porta era estreita, apesar de não ter nada a fechando, não é mesmo?

Angel diz:
— Verdade, eu havia olhado toda a casa quando cheguei, mas quando disse haver um banheiro no térreo eu nem me toquei de não ter encontrado um, mas foi fácil encontra-lo depois de me falar sobre ele.

Teru diz:
— Isso, porque você procurou por ele, Angel. Ele só aparece para aqueles que o procuram.

Angel diz:
— Está ficando tarde e eu só arrumei umas coisinhas aqui em casa. Dei uma pausa na arrumação da casa pra falar com você. Tenho de terminar isso antes que a manhã chegue.

Teru diz:
— Ok, então, estamos acertados. Boa noite meu anjo. Durma bem.

Angel diz:
— Vou arrumar as coisas hoje e dormir. Estou muito cansada e minha família só chegará pela manhã aqui em casa.

*Angel está off-line*

— Ele só aparece para aqueles que o procuram. Mesmo que sua estrutura seja feita assim... Será que é um banheiro mágico, por acaso?- Nem havia terminado de falar e já batia a mão na própria testa, reclamando consigo mesma.

“Ai, sua burra! É claro que é mágico. Que tipo de banheiro da pra outra dimensão?”

A garota estava perdida em seus pensamentos, ainda sentada de frente para a tela apagada com as mãos sobre o teclado. Seu coração, mais calmo que antes, ainda pulsava pelo temor. Queria entender de como ele havia parado naquele lugar. Em outra dimensão, em outra casa, em outra cidade, sem ter como voltar para sua casa, sem família ou amigos para o apoiar nas horas difíceis.

“Espera... ele falou que ficou anos preso neste lugar. Por quanto tempo ele ficou preso? Ele disse ter 17 anos mas... E se não tiver essa idade?”

Levantando-se da cadeira em um rompante, caminhou em passos largos até ficar de frente para o banheiro e tentou arrastar a estante de livros para cobrir totalmente o local, sem sucesso, a estante era colada ao chão com cimento e os livros, não saiam do lugar.

Temendo o que pudesse vir à acontecer à ela, que não tinha como se proteger de nada nem ninguém, estando “sozinha” daquele lado do banheiro. Depois de muito olhar para a sala que de acordo com seu amigo, estava em outra dimensão, sentiu calafrios observando o sofá, mesa e os quadros na parede do outro lado. Sentia-se novamente observada.

Afastando-se do lugar, sentiu-se mais segura, acendendo as luzes da casa. Já era noite e o badalar do enorme relógio antigo indicava meia noite. A casa empoeirava começava a ser limpa pela garota, que não conseguia desviar seus pensamentos de como ele vivera naquele lugar. Como se alimentara, como tivera acesso à internet, como podia ser tudo aquilo e outras coisas, até que cansada, acabou deitando no sofá e adormeceu.

Durando o sono, a menina viajou em lembranças de quando ainda estava em sua cidade natal e via sua mãe e pai conversando:

Flashback on

— Marina, lembra daquele corretor de imóveis nos falando sobre aquela casa que a Angel queria que comprássemos para morar?

— Claro que lembro, Pedro. Ele pareceu aliviado em vender aquele lugar e nos vendeu por um preço muito baixo, se formos levar em conta o padrão alto que ela tem.

— Andei conversando com alguns moradores daquela cidade e parece que em Joinville existe uma lenda sobre aquela casa. Dizem que todos que tentavam morar naquele lugar desapareciam e nunca mais foram vistos novamente. Talvez por causa desse rumor idiota o corretor tenha tido problemas pra vender a casa.

Flashback off

Continua...

Notas finais
atualizada 2020