Prisão Estadual de Nova York, 13 de novembro de 2012.

Lá estava eu sentado no chão frio encostado nas paredes de mármore geladas. Meu olhar não se focalizava em nada, apenas dançava ao vento sem ao menos saber o que eu estou olhando. A água que saia dos canos formava uma poça. O gotejar que tinha me irritava. Os gritos exasperados me desiludiam e me faziam perder a esperança.

Quinze anos! Há quinze anos eu estou nesse inferno. A cada minuto eu ouço o grito de alguém desesperado, ouço o tilintar de coisas se quebrarem, ouço... O ecoar da morte...

Podem me chamar do que quiser; de louco, idiota, de que sou apenas um pedaço de merda, qualquer coisa! Eu estou há tanto tempo aqui que não me importaria nem se uma criança me roubasse às calças e me ateasse fogo! Quando olho para o teto tento me esquecer de onde eu estou e tento imaginar onde eu deveria estar. Mas é impossível, se tudo o que pensássemos se tornasse real, nesse instante eu estaria em minha casa desfrutando de minha vida ao invés de estar desse tormento!

Ouvi novamente os gritos desesperados, algum infeliz deveria ter irritado outro prisioneiro. Mas não faria diferença. Os policiais não se importam conosco, ficam ouvindo música, assistindo aos esportes, dormindo, ou simplesmente apontam uma arma em nossas cabeças e nos matam. Aquela prisão já tinha mais de 500 prisioneiros, sendo de que tinha apenas 150 guardas trabalhando. Dia após dia... Semana após semana... Brigas e mais brigas, sangue jorrando, prisioneiros se ferindo, a maioria deles não chega nem na metade do tempo que lhe foi dado na prisão!

Se um guarda é visto trabalhando ou é milagre, ou é novato ou simplesmente está fingindo. O proprietário desse hospício se chama Leonard Sweedmy. Ele tem quase 60 anos e vive rindo da nossa cara como se fosse divertido ver pessoas se matarem!

Eu me lembro de quando eu parei nesse lugar. Há quinze anos eu era apenas um homem comum, trabalhava como garçom, sobrevivia com aquele salário medíocre mais as gorjetas. Um dia eu andava calmamente para a minha casa até que de repente alguém me jogou uma mochila e me mandou correr, eu ignorei o aviso e fui jogar a mochila no chão. Porém os guardas me viram e me abateram, pensaram que eu era o ladrão. Pensaram que eu era a pessoa que tinha roubado mais de quinhentos mil no banco que tinha por lá. Expliquei diversas vezes o que houve, ninguém acreditou em mim. Até que quando se passaram 3 dias naquele inferno de interrogatório, onde eu passe aquele tempo sem comer, admiti que fui eu; por mais que fosse mentira.

Eles me algemaram e me mandaram para esse inferno com o tempo de prisão indefinido. Nos primeiros dias eu apanhei, levei uma surra dos policiais que deveriam ser a “lei”. As noites eu ficava caído no chão enquanto eu sentia as linhas de minha vida se desfazer. Quando notei eu já tinha me acostumado com esse lugar e dez anos tinham se passado. Não me importava mais com o que eles faziam comigo, não me importava mais com o que acontecia com eles mesmos. Desde que aquele desgraçado me jogou aquela bolsa, a minha vida mudou drasticamente.

Aquele dia... Se eu pudesse mudar aquele dia eu não estaria naquele lugar horrendo. Ratos passavam pelo esgoto, prisioneiros passaram até fome naquele lugar. Tinha uma história de um prisioneiro no qual ele cozinhou uma ratazana para poder sobreviver, acabou morrendo algum tempo depois. Já não há esperança para ninguém desse lugar. Todos perderam as suas vidas, as suas crenças em Deus e no mundo justo, ninguém mais quer saber de viver. Para eles viver é uma maldição.

E infelizmente eu era um deles. Eu era parte dessa escória, eu era o lixo dos lixos. A cada dia eu morria por dentro e aquela imundície que continha em mim durante quinze anos aumentava constantemente! Ninguém estava a salvo naquela prisão, as camas eram duras, sendo assim muitos dormem no chão. A maioria dos prisioneiros são estupradores ou vendedores de drogas. Dizem que na prisão os novatos são estuprados pelos prisioneiros experientes. Mas não é assim, essa prisão é tão sem vida e corrupta que até os estupradores resolveram desistir disso. Ao lado dos policiais todo mundo é santo aqui.

Raramente eu via um policial fazendo o seu serviço, assim como raramente via os presos se comportarem de outro modo que não fosse selvagem. Dias sem comer... Sem beber... Lutando apenas por um pedaço de pão... É essa a vida de um prisioneiro que eu levo...

Mas isso não é tudo. A pior prisão não é aquela que tem barras, policiais ou até mesmo brigas. A pior prisão é a psicológica. Muitos piraram devido a desidratação e a fome, se matando ou levando alguém junto. Tem aquelas que chegam a um caso tão extremo que acabam matando uns aos outros e comem as suas partes, e enquanto isso os policiais estão nem aí. E isso é um problema para a lei.

Eu passei nesse jogo psicológico. Há doze anos eu ficava cada vez mais paranóico, achando que eu era o próximo a morrer, quando eu tinha oportunidade eu pegava alguma coisa comestível dos outros. A minha barba crescia lentamente, por causa disso eu não tinha muita barba na época. Comecei a ter alucinações, achando que vermes corriam por minha pele, de que varias aranhas entraram para me matar. Até que um dia enquanto eu ria sozinho com essa ilusão, ouvi os gritos desesperados dos prisioneiros. Cheguei perto da barra e vi dois deles serem carregados em uma maca e um lençol em cima. Foi então que eu percebi.

Percebi onde eu estava, de que mundo eu pertencia agora. Tudo aquilo era apenas a minha imaginação. Caí de joelhos no chão e comecei a rezar aos choros silenciosos. Por ser de noite e ter pouca iluminação ninguém me viu naquele estado lamentável. Segurei a cruz que eu tinha no pescoço e rezei com todas as forças de que tudo aquilo acabasse. Mas era impossível. Eu sabia que nada disso acabaria, como também sabia de que eu morria mais cedo ou mais tarde.

Mas cá estou eu. Quinze anos se passaram e eu ainda estava naquele lugar horrendo. Acostumei-me com aquele lugar, me tornei mais esperto que os próprios ladrões, e conseguia arranjar comida através dos cozinheiros. Com isso eu pude sobreviver desde então. Minha vida já esta no fim, pelo menos um terço dela passei na prisão. E tudo o que eu posso dizer é...

De repente ouve-se o tilintar de algo bater contra as grades. O homem olhou para o guarda em sua frente. Largou o caderno e se levantou. O guarda abriu a cela e o empurrou.

- Chegou à hora William. – disse o guarda em um murmúrio. – Não está nervoso?

- Por que eu estaria? – perguntou começando a andar. – Eu passei cerca de um terço de minha vida aqui, — fez-se uma pausa — e ficar nervoso com a minha própria morte?

O guarda nada disse apenas continuou a andar. Quando se aproximaram de uma larga porta de duas portas, os guardas de lá a abriram e William passou por ela com um sorriso no rosto. Os guardas o esperavam. Um deles segurava uma arma carregada e verificava se estava calibrada.

O chefe daquela prisão adorava as mortes sendo feitas do modo antigo, sendo assim a execução dele será. William parou e então os guardas amarraram as suas mãos e o colocaram de joelhos.

- Últimas palavras, velho “amigo”? – perguntou Leonard curioso. – Se não poderemos continuar e...

- Espere! – pronunciou. – Tenho algo a dizer! – Leonard nada disse, apenas fez um gesto para que continuasse. – Esse lugar não tem esperança!

- O que disse? – perguntou Leonard. Todos os prisioneiros que ali estavam presentes começaram aos poucos a se levantarem. – Repita! – gritou.

- Esse lugar não tem esperança! – gritou em fúria desencadeada. Engoliu em seco e continuou a falar tudo o que queria durante os últimos quinze anos. – Esse lugar é um porre! Fui tachado como um ladrão, preso nesse lugar por quinze anos, perdi as esperanças de que poderia sair daqui com vida! E você é apenas um cara idiota que acha que está podendo e de que pode fazer o que bem entende! Seus guardas nem trabalham, todos são uns merdas!

Gritando isso, todos os prisioneiros se levantaram e ficaram na grade. William começou a botar tudo para fora sobre aquele lugar, tudo o que queria dizer e nunca teve chance. Leonard gritava de volta, mas William rebatia. Os prisioneiros começaram a empurrar as grades na esperança de derrubá-las. Sendo irônico por causa de eles não terem esperança há anos.

- Já chega! – gritou Leonard. – Diga as suas últimas palavras e morra seu cretino! – berrou com uma veia de raiva pulsando em suas têmporas. William apenas riu.

- Tudo o que eu posso dizer é... – fez-se uma pausa. – Um dia a esperança voltará nesse lugar! Tanto os prisioneiros quanto os guardas! O caos não reinará mais e você irá cair. Eu não me importo de morrer, mas meu sangue contaminado de prisioneiro sujara esse local como todos os outros que você matou! E por mais que nenhum deles tenha sido um amigo, estou nem aí! Desejo que... – engoliu em seco, o guarda engatilhou a arma prestes a atirar. – De que tenham uma manhã gloriosa!

Ouve-se o som de tiro. William arregalou os olhos e caiu no chão com o sangue escorrendo. Todos os prisioneiros começaram a fazer um estardalhaço, por mais que já tivessem visto inúmeras mortes, aquela era a primeira vez que viam alguém os defender e desejar algo por eles. Um raio de esperança talvez? Mas era impossível, nada mais resta para eles a não ser o grito apavorado ou de clemência.

Essa prisão jamais terá futuro...

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!