Princesses to Illéa!
4 Princess Lillith A. Schreave

Princesses to Illéa!
Princesa Lillith A. Schreave
O quarto era grande para qualquer pessoa normal, mas que para a dona do mesmo já era comum. Com as paredes pintadas em bege com o papel em formato de flores rosa, ocupando três paredes. As portas brancas e de maçaneta dourada, uma porta de vidro da sacada estava aberta, com o vento da manhã balançando as cortinas brancas e preguilhadas. O cômodo era preenchido pela calmaria, junto com a sinfonia da melodia que saia da delicada e ainda bonita caixa de música.
Os olhos castanhos da garota acompanhavam com interesse mórbido a bailarina rodar, o espelho da tampa refletia o rosto pálido da princesa. Suas mãos finas, com suas unhas ruídas, foram até a caixinha, e fechando-a abruptamente. O silêncio reinou no quarto. A expressão da jovem princesa transformou-se de tranquila para preocupada, enquanto seus olhos vagavam para o céu claro lá fora. A brisa balançava os cabelos ruivos desarrumados, a camisola rosa clara e franzina, acompanhava-os com leveza.
Se levantado da cama grande e confortável, ainda com os lençóis e travesseiros bagunçados; andou até a sacada de seu quarto. Suas mãos tocaram o mármore da sacada, o dia apenas amanhecera a algumas horas, mas ainda permanecera em sua cama. Cansada demais para enfrentar o dia que aparecia; um que deveria ser tão especial, principalmente para os seus irmãos mais velhos. Finalmente, seriam anunciadas as garotas que iriam participar da Seleção.
Lillith sentia-se extremamente nervosa para tal evento. E a pergunta: Por quê? Por que estaria nervosa, se nem era uma Seleção para si? E a resposta era simples: O medo que alguém pudesse descobrir seu segredo mais obscuro; o segredo que a própria família real escondera do povo; que consideravam uma vergonha em seu meio. Lillith era a vergonha da Família Real de Illéa.
Oh, como Lillith desejava que nada disso fosse real, mas mesmo em seu mais íntimo ser; sabia que tudo era a verdade. Mesmo que a maioria dissesse que não, e que apenas a tornava mais especial, a ruiva já não mais acreditava em tais palavras. Estas, apenas a machucavam mais a cada vez que proferidas. Ainda se pegava a divagar: Será mesmo que ainda existia dentro de si, a doce princesa Lilly, na qual todos falavam? A ruiva achava que não. Agora só sobraram os cacos para ajuntar, pensava ao fechar os olhos e uma única lágrima escorrer.
Porém, antes que mergulhasse nas amarguras do passado que mal se lembrava; seus ouvidos captaram o som de alguém bater à sua porta. Limitara-se em apenas dar uma rápida olhada por cima do ombro desnudo, até voltar sua atenção à floresta ao longe. Soltara um suspiro, sentindo-se incomodada. Quando a porta de seu quarto se abrira, não precisava olhar para trás para saber quem era. Os passos suaves e pequenos denunciavam a identidade da pessoa, cuja presença era constante para a ruiva desde o nascimento.
— Minha menina, acho que bem sabe o motivo de eu estar aqui, não? — a voz mansa que lhe indagava retoricamente, era pintada em um tom divertido.
— Sabes que sim, Antonnella. — Lillith falou, enfim, virando-se para a mulher à frente; — E sabe tão bem o quanto o desgosto. — apesar de suas palavras, ainda mantinha um pequeno sorriso nos lábios rosados.
A mulher roliça e baixinha, com seus olhos claros que apenas transmitiam aquele calor caloroso que desde pequena a garota necessitava. Aquela senhora, vestida com roupa de empregada, era para ela que a mais nova dos Schreave ia para chorar suas lamúrias. Sempre sendo recebida por um abraço acolhedor. Antonnella Charles estava em sua vida desde que se conhecia por gente e não queria sair de perto dela tão cedo.
Era a sua preciosa referência maternal que tanto faltara-ia em sua infância, bem como em dias atuais.
— Venha cá, menina. — Antonnella voltara a dizer, aproximando-se e pegando as mãos finas da menor entre as suas próprias. — Temos muito que fazer hoje.
Suspirando resignada, a jovem permitiu que a mais velha a conduzi-se por entre o quarto; que tão bagunçado, que mal dava para ver o carpete turquesa no chão. Mas aquilo já não importava mais, pois era rotineiro que, às vezes, Lillith se perguntava por que ainda se davam ao trabalho de arrumar seu quarto todo santo dia? No final, apenas voltaria ao seu estado anterior. Essa bagunça apenas era mais um sinal de seu defeito, talvez seja por isso que tanto se empenhavam em esconder. A porcelana de algum vaso estava estilhaçado perto do pé da cama, penas de travesseiros se misturavam com as roupas belas no chão, estando até algumas rasgadas. Simplesmente, provas de seus surtos, nada agradáveis, diga-se de passagem.
Antonnella a levara até o banheiro grande de mármore e mosaico nas paredes, com belos adornos de flores. Enquanto a senhora preparava a banheira do jeito que sua menininha gostava, a mesma andava em volta do cômodo. Até que parou em frente ao espelho longo, vendo seu corpo por completo. Uma de suas mãos tocou a superfície fria, deslizando as pontas dos dedos por seu reflexo. Admitia para si mesma, estava em sua pior fase, não de sua adolescência, mas sim, de sua doença.
— Você é tão linda, princesa. — Antonnella aparecia atrás de si, assustando-a. — E temos que lhe deixar mais linda, sim?
Lillith apenas se limitara a assentir, olhando uma última vez para o espelho embutido na parede. Ela está errada, não sou linda, pensara a ruiva com certa amargura. Logo, a jovem Schreave se via sendo despida de sua fina camisola e entrando na água morna, permitindo-se ser banhada; relaxar um pouco também estava em meta naquele momento de tranquilidade.
O banho não durara muito, para desgosto da princesa, e então, sentia-se com o sentimento de renovação aflorar sob si. Um banho como aquele sempre trazia a ruiva esquecer momentaneamente suas dores e preocupações. Antonnella sorrira um pouco ao ver o estado do rosto da garota suavizar consideravelmente. Para a senhora, a princesa se tornara seu bem mais precioso, confiada pessoalmente por aquele homem de jeito rude.
Novamente, Lillith voltara ao quarto, agora enrolada em uma toalha felpuda a volta do corpo e em seus cabelos úmidos. Deixando que Antonnella assumisse a partir dali, a dona de olhos castanhos apenas sentara na beirada da cama, na espera. Em poucos minutos, Antonnella voltava do closet, com suas roupas escolhidas para aquele dia. Sem mais delongas, o adolescente colocava a vestimenta, em seu rosto um pequeno sorriso.
O vestido azul claro, com mangas de renda e franzidas até os cotovelos, deixava os ombros nus; de comprimento até a canela e com pedras na parte do busto; formando flores e raminhos. Era simples, mas bonito e com um toque de realeza, na qual Lillith adorava. Esse era um vestido que poderia dizer com firmeza que era seu; e não da outra.
Vendo por onde seus pensamentos trilhavam, balançara levemente a cabeça, tentando esquecer. E Antonnella, sempre prestativa, ao perceber o surgimento de algum tormento em sua criança, logo se manifestara, tentando distrair a outra de qualquer mau. Guiando a pálida ruiva até a penteadeira, fazendo-a sentar em frente ao espelho irregular.
Com maestria, mostrando como já estava acostumada, a senhora Charles penteava os cabelos longos e ruivos da menor. Em pouco instantes, as mechas ganhavam formas e volumes, em grandes cachos e espaçosos; Alguns presos por delicadas presilhas na lateral da cabeça, dando um toque a mais. Ao termino, era a vez da maquiagem, algo por qual Lillith não gostava muito — mesmo sendo pouco -, mas sabia ser preciso. Principalmente para esconder as olheiras escuras, ou dar alguma cor em suas bochechas e lábios pálidos.
No final, para finalizar, brincos pequenos e delicados, combinando com a pulseira em seu pulso esquerdo. Ao olhar sua imagem naquele espelho, permitiu-se por um breve minuto, deixar-se pensar em como era bonita. Como em todas as manhãs.
— Está tão bela, minha criança! — elogiou a ama com sinceridade, dando o mais maternal sorriso, os olhos brilhando de orgulho. Particularmente, a adolescente não achava que merecia tais sentimentos voltados para si.
— Obrigada. — agradeceu simplesmente, sem olhar a outra, sentindo corar como sempre fazia ao receber algum elogio. Inconscientemente, tentava agarrar-se às palavras da mais velha.
— De nada. Agora, apresse-se, irei pedir que sirvam seu café-da-manhã aqui mesmo. — anunciou, já andando em direção a saída. — Depois voltarei com sua medicação, querida.
Assim dizendo, saíra para cumprir sua tarefa, e Lillith ficara ainda sentada naquele banquinho acolchoado. A princesa não pudera conter o arrepio passar por sua espinha na menção de seus medicamentos diários. Mesmo que já deveria ser algo habitual, pois os tomava desde garotinha; parecia que cada ano que passava mais incômodo aquilo ficava. Todavia, Lillith, não permitiria que os pensamentos desse tipo a dominassem. Respirou fundo, acalmando o coração errático.
Era para seu próprio bem, sempre dizia para si mesma — mesmo desgostando -, eram aqueles comprimidos que lhe permitiam uma vida o mais normal possível; considerando seu status perante a sociedade, é claro. Afinal, eram eles que não deixavam a outra surgir, contudo, Lillith teve que admitir com pesar, nem sempre funcionavam.
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As pétalas daquelas rosas, tão vermelhas quanto o sangue, eram macias em sua pele; e o vento da manhã trazia o seu belo perfume que exalavam. As mãos da princesa vagavam por entre as roseiras de seu jardim, tomando o cuidado para não cruzar com algum espinho no caminho. Seu andar era tranquilo e seu rosto bonito mostrava a serenidade que pouco lhe era exclusiva. Contudo, dentro de si uma confusão de emoções se misturavam, em uma batalha que sabia ser perigosa em seu estado.
Lillith realmente desejava que seu noivo Lucca pudesse estar consigo durante aqueles próximos meses, mas não poderia ser tão egoísta. Afinal, Lucca era o herdeiro do trono inglês, e por tal, suas responsabilidades eram grandes e levadas a sério. Mas não poderia impedir de desejar a companhia daquele que era o único que a entendia de todas as maneiras; o único que conseguia acalmar suas emoções antes de seus surtos. Lucca, que um dia o vira apenas como um primo querido, agora era aquele em que Lillith via como sua luz naquele túnel escuro.
— Lillith... — a voz rouca e baixa, soando cautelosa, tirara a ruiva de suas divagações. Seus olhos castanhos pousaram na figura tensa que era de seu irmão Demmyan. E este, ao ter a atenção da mais nova sobre si, sorrira de forma reconfortante. Lillith suspiou, era de tal coisa que precisava no momento. — Faz tempo em que não aparece por aqui. — o príncipe voltara a dizer, aproximando-se mais.
— Sim, fiquei com saudades. — disse ela, os olhos momentaneamente visualizando a borboleta azul que pousara em uma das rosas ao seu lado. — Aqui sempre me ajuda a pensar com mais clareza.
— Garden of Roses é lindo. — Demmyan elogiara, ainda que observando atentamente a irmã, procurando sinais de algum problema que poderia infligir a outra. Mas sabia, mesmo que o rosto da princesa não demonstrasse, Demmyan sabia o que a outra estava sentindo: medo, saudades, nervosismo, ansiedade...
— Eu estou bem, Demmy. — a voz suave da ruiva o quebrara de suas observações. Lillith lhe sorria como se dissesse que tudo iria ficar bem no final e o moreno sinceramente esperava que sim. — Está animado para hoje? — perguntou, depois de um momento, voltando a passear pelo pequeno jardim. O mais velho entendeu, ela estava tentando desviar o assunto; desviar a atenção de si.
— Sim, um pouco. — respondeu, entrando na jogada da outra. — Um pouco nervoso e preocupado, admito. — a risada baixa e lúdica da outra, fizera Demmyan suspirar aliviado. — Não é engraçado, Lilly. — franziu as sobrancelhas, apesar dos os olhos claros mostrarem-se divertidos.
— Acho sua preocupação tola, irmão. — falara com sinceridade, indo se sentar em um dos bancos de pedra lisa, os olhos presos na fonte à frente. — As meninas irão amá-lo e você saberá decidir com sabedoria. — a certeza na voz da Schreave o deixara surpreso, Lillith o olhava com firmeza, e principalmente, com confiança. Demmyan engoliu em seco, olhando para o chão verde, não conseguindo encarar muito tempo a irmã querida. Não achava merecedor de tal coisa. Não quando estava a culminar um plano com o irmão envolvendo o noivado da outra.
— Obrigado. — falou por fim, sua voz saindo em um sussurro. O silêncio que caiu entre eles não parecia incomodar Lillith, já que a mesma distraia-se com uma borboleta amarelada que pousara em seu dedo. Demmyan permitiu que um sorriso assumisse seus lábios, vendo a figura bela e graciosa da irmã.
— Eu estou bem agora, Demmy. — Lillith voltara a dizer, encarando o irmão no olho, o mesmo sabia que isso só era possível graças aos efeitos que seu primo Lucca, em sua curta estadia no palácio, tinha sobre a irmã.
Demmyan caminhou até a mais jovem dos Schreave, ajoelhando-se a sua frente, uma das mãos segurando as mãos pequenas da outra com delicadeza. Os olhos claros observaram com intensidade a menor, vendo, que mesmo com o medo a afligindo fortemente, Lillith seguiria em frente.
— Peço que não se preocupe minha irmã. Eu e Nick não deixaremos nada a ferir. – prometeu com os olhos azuis nunca deixando a princesa e esta demonstrou surpresa em seu rosto, antes de um sorriso verdadeiro aparecer; os olhos castanhos brilhando com intensidade.
Lillith sabia — sempre soube — que seus irmãos eram os seus melhores aliados, desde que seus surtos de raiva e ansiedade começaram ainda quando pequena. Eram eles os primeiros a acalmarem, a aconchegarem em seus abraços fraternos. E depois viera Lucca, com suas palavras calmantes e doces, que com o tempo, se tornaram palavras de amor. Ainda tinha Antonnella, a senhora enfermeira, que cuidara dela desde o seu complicado nascimento e que também a amamentara; tornando-se uma figura materna. Então, Chado, alguém que sempre fora como um irmão para si, a ensinando coisas sobre o mundo e o que havia atrás dos muros de seu castelo; mundo que nunca teve oportunidade de ver. Sua tia Amélia, junto ao tio e prima, terminava o círculo de pessoas na qual sempre a protegiam.
E era para eles que Lillith sempre se permitia seguir em frente a cada dia, tentando superar suas limitações e restrições impostas sob si. Para eles, só lhes restara dizer:
— Obrigada.
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— Então, qual a cor que prefere Majestade?
A pergunta da mais velha nem fora direcionada para si, mas mesmo assim não impedira Lillith de suspirar em tédio. A indagadora loira lhe mandara um sorriso compreendido, antes de rapidamente colocar sua máscara de indiferença quando enfrentara novamente a Rainha de Illéa. A mesma, sentada em um dos sofás daquela sala, tinha uma taça de vinho em mãos, os olhos escuros com desdém observavam as amostras de cores à sua frente.
— Escolha a que mais se adéqua. — resmungou a Rainha, abanando as mãos em um gesto facilmente interpretado como irrelevante o assunto tratado. — Você é que deveria cuidar dessas coisas! — dissera com acidez, enquanto indicava para sua empregada pessoal, Josephina Whiths, que lhe servisse mais vinho.
— Claro, minha Rainha. — a loira disse com suavidade, suspirando em frustração. Os olhos claros da mulher pousaram na figura solitária da sua princesa, a mesma lhe ofereceu um sorriso hesitante. — Mas o Rei é que mandara Vossa Majestade a essa tarefa. É uma tradição a Rainha ajudar nas acomodações das selecionadas e do Salão das Mulheres. — informou uniformemente, enquanto dedilhava por entre as amostras de cores e tecidos.
— Tradições foram feitas para serem modificadas ou quebradas. — Katherine dissera seca e seus olhos estreitaram de uma forma que Lillith sabia ser perigosa. — E os empregados foram feitos para servir, sem questionar seus superiores. Entende, não é? Érika?
— É claro, Majestade. Perdoe-me minha ousadia. — mesmo que a voz saíra neutra, Lillith ainda pode perceber os ombros tensos de Érika O'Connor enquanto fazia uma rápida reverência; assim como os lábios se crisparem para conter alguma réplica.
A princesa franzira levemente o cenho ao presenciar a cena a sua frente. E por mais que gostaria de intervir, não poderia. Não quando era a sua mãe a dizer tais palavras. A jovem moça direcionou o olhar para a barra de seu vestido, balançando as pernas hora ou outra. Sinceramente, se sentia inútil nesses momentos. Queria, queria muito mesmo poder ter a coragem e enfrentar a mãe. Mas não tinha. Seu pai, seus irmãos, sua tia, outros que nem tinham algum laço de sangue com aquela mulher; tinham mais coragem. Mas não Lillith.
'Então, crie esse coragem, Lily.'
A voz sussurrada, macia e doentiamente amável, fizera Lillith paralisar. Parecia que ela voltara a se comunicar consigo, dentro de sua cabeça, mais uma vez. E como sempre, quando tal evento se manifestava, a princesa sentia seu corpo formigar, suas mãos mostrarem os primeiros índices de tremores e a falta de ar surgir. Hoje não!, pensara com firmeza, mordendo com força os lábios rosados. Unindo e apertando as mãos com força em seu colo, seus olhos castanhos passaram a vagar na sala que estava em uma maneira de se distrair e ignorá-la.
O cômodo em que se encontrava como os demais que havia no castelo era grande e tão bem decorado, que Lillith se perguntava quem tivera tão bom gosto para tal. E sentada naquele sofá estufado, com bordados e almofadas fofas, Lillith olhava o jardim através da janela ao seu lado. Por que estou aqui?, pensou, cruzados as pernas, enquanto tentava se sentir confortável naquele ambiente um pouco estranhou, ou melhor dizer, nesse clima tenso.
Mas logo lhe veio à mente, que depois de voltar de sua conversa com o irmão, sua mãe tão amavelmente e com aquele jeito doce de falar; havia lhe convocado para aquela sala, onde alguns empregados circulavam com tecidos, pastas e documentos. Quando perguntara o porquê de estar ali, quem de bom grado respondera — já que a Rainha a ignorara — fora Érika. Ao que parecia, o Rei deixara a responsabilidade das acomodações nas mãos daquelas três mulheres. Contudo, até agora, apenas Érika estava se mexendo com as organizações. Katherine nem se dera ao trabalho de se importar e mesmo que Érika tentasse, Lillith pouco dera a sua opinião, pois qualquer coisa que falava, a mãe retrucava. A ruiva preferia ficar quieta e apenas observar, apesar de querer opinar se guardava.
'Ignorar nunca ajuda, sabia?', Lillith se assustou novamente, ao ter ela falando consigo de novo. Suspirou, massageando as têmporas, sentindo uma dor de cabeça começar. Como desejava que apenas hoje a outra não a incomodasse, ou muito melhor, nem aparecesse. Só desta vez, pare!
— Lillith Schreave!— a voz irritadiça da mãe a tirara de suas lamúrias, fazendo-a saltar — assim como alguns empregados -, assustada.
— S-sim, mãe? — indagou, os olhos arregalados e suas mãos apertando com força o tecido de seu belo vestido, o amassando. Katherine olhava a única filha com raiva e uma pitada desprezo no fundo de suas íris escuras. Lillith engoliu em seco, temerosa.
— Será que não dá para prestar atenção ao seu redor uma vez na sua vida medíocre? — perguntou com desprezo, se aproximando da princesa com calma, perigosa. A mais nova não se deu ao trabalho de responder, pois sabia ser uma pergunta retórica, apenas olhava fixamente para o chão. Os empregados em um silêncio sepulcral. — Olhe para mim!
— S-sim senhora! — exclamou, encontrando o olhar da mãe.
'Lillith...', ignorava-a, mesmo que a tontura e o desfoque visual começava.
— Mon Dieu, és mesmo inútil, não? Tenha uma melhor postura, garota. É uma princesa e deveria estar sempre atenta as coisas, sim? — a Rainha se aproximou aos poucos, até estar bem à frente da filha; onde colocara uma das mãos no queixo da mais nova, fazendo-a olhá-la. — Sempre fazendo o que eu lhe mandar, não? Então, vá procurar algo de útil para fazer, se isso for possível.
Assim que a morena se afastara, já se ocupando com sua taça de vinho recém adquirida, Lillith se levantara em um rompente. Seus passos eram meio cambaleantes enquanto andava até a porta, preferindo ignorar todos a sua volta. Não dando atenção a Érika, que muito tentava lhe ajudar, como sempre fora desde que era pequena. Mas dispensara, querendo ficar urgentemente sozinha, pois sentia, com sua respiração começando a descompensar e o corpo ter alguns tremores; não demoraria até desmoronar. E preferia nenhum espectador quando isso acontecesse.
Andava meio apoiada na parede, sentindo a vista um pouco embaçada. Mesmo já acostumada com o tratamento que recebia da mãe, não significava que doía menos. Na verdade, Lillith achava que sempre doía mais ainda. Mas sabia que a culpa era sua, pois nascera com o grave defeito, sua vergonha eterna. Limpando os olhos úmidos, concentrou-se em buscar alguma sala disponível naquele momento. Estava preocupada, não conseguia mais ouvir ela em sua cabeça, e a princesa sabia, era um sinal que logo ela apareceria.
— Princesa Lillith? — a voz grossa e com preocupação, fez com que Lillith suspirasse, virando-se para seu indagador, deparando-se com os brilhantes olhos azuis de Lorenzo Charles. — Está tudo bem? Precisa de ajuda?
— Não, não. Estou bem, apenas cansada. — a ruiva dissera, tentando dar um sorriso apaziguador, mas sabia estar fracassando. — É sério Lorenzo, só preciso ir para meu quarto. Não é nada, apenas cansaço que logo passa. — assegurou, querendo mais que tudo, sair dali.
— Lillith, quer que eu a acompanhe? — sugeriu, vendo a mais nova oscilar em seus próprios pés. Sim, ela parecia realmente cansada e talvez fosse apenas um exagero seu, mas a jovem parecia perturbada.
— Não precisa... — começara a dizer, mas ao ver que o outro insistiria, sugeriu: — Você poderia chamar Antonnella para mim, por favor?
— Sim, tudo bem. — concordou depois de um momento de pensar, considerando que sua esposa seria a melhor em lidar nessa situação. — Mas espere aqui, sim? — vendo a outra assentir, saiu em busca de Antonnella.
Assim que Lorenzo desaparecera por entre uma curva do corredor, a princesa respirou fundo, recomeçando a andar novamente. Não gostava de enganar o homem, que sempre lhe fora generoso e prestativo consigo, mas também não queria preocupar ninguém. Não preciso ser um incômodo mais do que já sou, pensou ao virar no corredor. E talvez ainda lhe restasse um pouco de sorte, pois ao tentar abrir a primeira sala que encontrara, a mesma tinha a porta destrancada.
Sem mais perder tempo, apenas verificando se alguém a vira e ao constatar que não fora o caso, entrou na sala, logo fechando a porta. Um suspiro aliviado escapara dos lábios, deslizado na porta até estar sentada no chão, os joelhos puxados de encontro ao seu tronco. Encostou a testa nos joelhos, sentindo o corpo tremer e a respiração acelerar, seguido de sua falta de ar. Abraçando os joelhos com força, fechando os olhos ao sentir a cabeça rodar e a visão turvar.
Logo, sua consciência se ia, junto com Lillith.
America voltava.
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Seus passos eram suaves, com leveza, ao mesmo tempo em que conseguia passar a mensagem de confiança e poder; e não poderia faltar em sua figura, o toque harmônico de sedução. Aquela pessoa, que era tão bem conhecida por entre os muros e funcionários do Palácio de Illéa, mas que fingiam que não a existia quando aparecia. Essa era uma das regras mais importantes. Ela, a ruiva, que sempre com sua postura altiva, realizava seus desejos mais sórdidos, conseguindo tudo o que desejava com sua lábia de prata. Seu poder persuasivo — e tão perigoso — era algo que todos tentavam evitar; saindo com prazer do caminho que a adolescente trilhava. Era tão fria e irônica, que muitos se perguntavam se ainda era humana.
Mas não negavam as qualidades que a pseudo-Schreave detinha. Sua coragem e seu poder de decisão faziam muitos a admirarem; principalmente, por conseguir bater de frente com o próprio Rei e a Rainha, assim como seu irmão mais velho fazia. Contudo, como uma serpente sorrateira, era mais discreta e menos impulsiva que Nicklaus, ou pelo menos, era o que todos naquele castelo sussurram às escondidas. Mesmo assim, ela sabia, era apenas uma máscara que o outro usava ou uma parte dela, pelo menos. Sim, a ruiva era muito boa em ler as pessoas, mas Nicklaus sempre fora um desafio para si, sempre contrariando suas expectativas.
É uma pena, pois adoro desafios, pensara ao virar em uma curva do corredor e se deparar com a postura altiva, ao mesmo tempo matreira de Nicklaus. E este sentado no sofá bege daquela saleta, casualmente com uma mão no bolso e a outra segurando o livro grosso, as pernas cruzadas. Ela sorriu os lábios vermelhos repuxados em um sorriso de canto aproximando-se do outro com graça felina.
Afinal, essa era America.
— Hello, sweet brother. — cumprimentou a ruiva, sentando-se ao lado do moreno e tendo o cuidado de deixar a abertura lateral de seu vestido vermelho à amostra. — Tendo uma boa leitura? — perguntou casualmente, os olhos lendo o título do livro, 'Masters of the Chessboard', de Richard Reti, um livro já muito antigo. Mas perfeito para Nick, pensou America divertida.
— Olá, America. — Nicklaus disse suavemente depois de suspirar resignado, mas sem tirar os olhos do livro. — O que quer? — perguntara depois que se seguiu um silêncio entre eles, o moreno fechando o livro e o depositando na mesinha de vidro a sua frente; olhando criticamente para a ruiva que lhe sorrira com indulgência.
— Oras, não posso passar algum tempo de qualidade com meu irmão preferido, não? — a ironia na voz de America irritava o mais velho, e a pseudo-princesa sabia, por isso o fazia. Não sabia ao certo o porquê de gostar tanto de deixar o outro irritado, mas o fazia sempre que possível. Talvez, por termos algumas semelhanças...
— Seja direta, America. O que queres? — Nicklaus estreitou os olhos, levantando-se e indo andar por entre os poucos móveis que ali havia indo até um canto e enchendo um copo de uísque. — E por que apareceu? Aconteceu alguma coisa com Lillith? — indagou, franzindo levemente o cenho, sua voz não escondendo muito bem sua preocupação.
— Sobre Lily, está bem agora. Katherine não vai mais a incomodar, por hora. — respondeu e pela primeira vez que entrara na saleta, sentia-se desconfortável, acomodando-se melhor no sofá. — E bem, quero saber já que estou aqui, por que não? O que está planejando, Nicklaus?
— Eu? Por que acha isso? — o mais velho dos Schreave levantou uma sobrancelha escura, um sorriso de canto nos lábios, se encostando casualmente na parede bebericando o uísque de vez em quando. America revirou os olhos, não deixaria o príncipe desviar do assunto tão facilmente.
— É sério, Nick! O que planeja? Sabe muito bem que eu o vi naquela noite, três anos atrás! — exclamou America, um pouco seca e irritada. Fechou os olhos castanhos por um momento, respirando fundo.
— Eu sei disso, não preciso que me lembre. — replicou Nick, depositando o copo vazio na bancada do mini-bar ao lado. Caminhou até a janela, olhando o céu azul vivo e o sol forte do meio-dia. Estava começando a se irritar ao ver o rumo que sua conversa seguia. Pelo menos, só America sabia, pensava olhando pelo canto do olho a ruiva que praticamente o fuzilava com o olhar; exigindo respostas, que no momento, não poderia as dar.
— Então, irá me responder? Será que tem algo a ver com a flor venenosa? — America levantou-se um pouco exasperada, se aproximando lentamente de Nicklaus. O mesmo suspirou, talvez fosse sorte, mas America é aquela que mais tinha memórias. Lembranças da infância ou de momentos que Lillith nem poderia sonhar em existir.
— Agora não, America. — respondeu Nick, mas ao ver a outra indo querer replicar, adiantou-se: — Mas logo saberá, não se preocupe. — concluiu, afastando-se e indo para a saída daquela saleta. Tinha negócios a resolver. E antes que saísse, virou-se uma última vez para a ruiva olhando-a intensamente nos olhos castanhos: — E, por favor, não faça nenhuma imprudência, America.
— Eu nunca faço, só cuido de Lillith. Sabes disso, afinal, sou apenas uma anomalia psíquica. — retrucou de sobrancelhas franzidas, olhando o jardim de fora. Nicklaus apenas a olhou por uns segundos, ponderando, antes de sair apressado.
America comprimiu os lábios, sentindo-se desgostosa. Odiava quando escondiam algo de si, mas não era para menos, pois sendo a menos confiável aos olhos dos demais; era sempre obrigada a ir buscar respostas por conta própria. Todavia, tinha um critério essencial para si: nunca prejudicaria o corpo de sua hospedeira, ou melhor, que fizesse algum mal a Lillith. E ainda sabia que os próximos meses que seguiriam, poderiam ser resumidos em apenas uma frase que não saia de seus pensamentos a algum tempo, ditas por um amigo querido:
“Il n'y aura qu'une sang et de larmes; sourit pour quelques-uns!”
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Lillith não sabia bem como a outra convencera Antonnella, mas no fundo agradecia. Depois de acordar em sua cama, completamente desnorteada — como sempre ficava -, pedira que chamassem Antonnella; e a senhora de bom grado lhe contara o pouco que sabia. Aparentemente, depois de perder a consciência, America assumira seu corpo e por sorte, não fizera nada escabroso. Apenas pedira algumas coisas para a senhora Charles, que avisasse Érika de algumas preferências de Lillith em relação às acomodações das selecionadas e logo depois do almoço viera para o quarto.
A princesa só acordara quase uma hora antes do início do Jornal Oficial, tendo que se arrumar com um pouco de pressa. E agora, a ruiva, já bem vestida com um vestido azul-turquesa clarinho, quase verde em sua opinião, ia de encontro ao salão que se daria o programa. E também o tão aguardado anúncio das selecionadas. Novamente, sentia-se nervosa, com medo, o estômago dando voltas.
Parou no meio do corredor, fechando os olhos, concentrando-se em acalmar-se. Ao abrir novamente seus olhos castanhos se depararam com a figura charmosa e imponente do Chefe da Guarda Real; além de ser seu tio de consideração e detentor das piadas mais engraçadas que já ouvira.
— Boa noite, soldado Leger. — cumprimentou a princesa, um sorriso pequeno brincando nos lábios, além de fazer uma continência.
— Boa noite, Vossa Alteza, Lillith. — o moreno, entrando na brincadeira da mais nova, fizera uma reverência um pouco exagerada, sorrindo. — Como vai? — perguntou ao endireitar a postura, assim como a outra.
— Bem, obrigada. Um pouco nervosa para o anúncio, apenas. – respondeu quando ambos começavam a andar em direção a porta dupla do salão no final daquele corredor de onde já saia algumas vozes.
— Imagino que sim. Mas verá, com certeza conseguirá fazer alguma amizade com as garotas, tenho certeza. — afirmou, olhando de canto a princesa. Ficara um pouco preocupado com a parição de America, mas ver Lillith um pouco melhor acalmava suas preocupações com sua sobrinha de consideração.
— Acho que sim... — falou um pouco mais baixo, as sobrancelhas arqueadas. Nunca tinha pensado nessa ideia de fazer amizades. — Talvez tenha razão. — concordou, por fim, olhando o mais velho sorrindo com a possibilidade. — Mas acho que o tio é que terá mais trabalho, não?
— Oh, claro. — Simmon Leger suspirou pondo no rosto uma expressão sofrida. — Terei que ter cuidado, principalmente com Nick. Não o quero colocando as selecionadas no mau caminho, pois não? — brincou, piscando o olho. Lillith soltara uma pequena risada com as brincadeiras do querido tio.
— Sim, com certeza. — a ruiva dissera sua mente imaginando o que o irmão iria aprontar durante a seleção. — Bem, acho que aqui me despeço. Tenha um bom trabalho tio. — falou ao ver Simmon lhe abrir as portas do salão cheio e movimentado de pessoas.
— Sim e mais uma vez, não se preocupe. Ficará tudo bem. — assegurara com um sorriso apaziguador que Lillith mentalmente agradecia.
Entrando no salão, Lillith logo fora reconhecida fazendo com que os funcionários lhe dessem uma reverência. A ruiva apenas retribuía com um comprimento com a cabeça, indo em direção onde estavam postos os tronos da família real. Seus irmãos já estavam sentados em seus respectivos lugares; Demmyan com uma expressão nervosa, mexendo constantemente na manga do paletó azulado. Ao seu lado, Nicklaus, estando com uma postura mais relaxada que até mesmo dispensara a gravata de seu terno escuro. Lillith se perguntava o que o pai deles dissera sobre isso.
O próprio Rei se encontrava falando com alguns conselheiros presentes e no canto a Schreave notara Chado conversando com Francesca sobre algo – e pelas suas expressões não parecia ser algo bom. Ao chegar ao seu próprio trono, sua mãe já estava sentada sendo cuidada por uma maquiadora qualquer; O que era estranho, visto que a Rainha sempre escolhia Josphina para isso. Lillith ficara momentaneamente tensa, antes de relaxar ao ver que Katherine nada iria fazer, na verdade, nem se dera ao trabalho de olhar para filha.
Sentando-se e logo sendo atendida por uma empregada lhe perguntando se havia algo que pudesse fazer pela sua princesa. Lily dispensara com gentileza, estava tudo bem no momento. Acomodando-se melhor no trono seu, sentindo-se um pouco fora do lugar; às vezes sentia aquele trono tão estranho para si, duro e frio demais. Em outras, tinha a sensação de não pertencer àquele ambiente emaranhado de intrigas e segredos, algum mistério em cada lugar daquele palácio, sufocava-a.
Endireitando a coluna ao ver que o Jornal logo se daria início. Mas tinha o pressentimento que não era apenas o início do programa, mas também o começo de algo maior e devastador.
O clima tenso demais para ser de festiva.
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