Princesa das águas
1 Princesa das Águas
Princesa das Águas
Seu maior sonho havia se realizado recentemente: Ele havia se graduado como biólogo. Estava para completar 23 anos e se considerava um homem feliz. Em breve se mudaria para a capital para começar a trabalhar na área que ele tanto amava. Porém, com a expectativa da mudança, estava tendo problemas de insônia nos últimos dias. Primeiramente, ele passava as madrugadas tentando dormir, mas naquela noite foi diferente.
Era noite de lua cheia e ele sabia que não conseguiria dormir por mais que tentasse. Afinal, ele já havia tentado tudo o que era possível. Desde contar carneirinhos até tomar remédios de tarja preta. E nada, nada mesmo, havia resolvido seu caso.
Então, naquela noite, ele desistiu de dormir. Saiu de casa silenciosamente, tendo apenas a luz do luar a lhe guiar os passos. Em pouco tempo ele estava na praia mais próxima de sua casa. Sentou-se na areia, descalçou os tênis e esticou as pernas para sentir a água salgada lhe fazendo cócegas na planta dos pés. Estava perdido em seus pensamentos sobre a futura vida profissional quando ouviu uma melodia suave.
Era o som mais belo que ele já havia escutado em toda a sua vida. Era tão belo que ele não poderia encontrar palavras para expressar a magnitude de sua beleza. O som penetrava em seus ouvidos, lhe dando calafrios de prazer e chegando às entranhas de sua alma. Ele sentiu-se totalmente hipnotizado. Levantou-se e começou a procurar a origem do som. Mas havia um problema: O som parecia vir de todas as direções ao mesmo tempo. Porém isso não o desanimou. Ele procurou incansavelmente até que avistou ao longe uma mulher sentada nas pedras.
Ela estava de costas de forma que ele só podia ver seus longos, ondulados e negros cabelos. Mais negros do que a noite. Ele começou a caminhar lentamente em direção a ela. Sentiu seu corpo amolecer à medida que se aproximava, mas isso também não o desanimou. Ele caminhou vagarosamente em direção a ela, porém quando ele se aproximou o suficiente para que ela pudesse perceber a presença dele através do som de sua respiração, a melodia cessou.
Ela havia parado de cantar. Então ela se virou para encará-lo. Eles estavam a aproximadamente dez metros de distância um do outro. Ela fitou-o com seus grandes olhos cor de sangue. E pode ver nos olhos dele que ele estava totalmente fascinado. Hipnotizado. Ele tinha cabelos ruivos, de um tom alaranjado, e olhos verdes e expressivos. Usava apenas calças jeans e por isso, ela percorreu cada centímetro de seu abdômen definido. Mas ele não pode notar que ela o mapeava com os olhos.
Não pode notar, pois estava fascinado pela beleza excêntrica da criatura à sua frente. Ela tinha grandes olhos vermelhos e sua pele era tão branca quanto a luz da lua, porém enrugada, murcha. Os cabelos balançavam suavemente com a brisa noturna e refletiam o brilho da lua. Mas o mais incrível é que ela não tinha pernas. Ao invés disso tinha uma longa e brilhante calda roxo-púrpura. Ela fez menção de se mover e ele pareceu despertar de seu abismo. Esticou o braço direito, como se pudesse tocá-la, mesmo àquela distância. E por um instante ele viu o pavor nos olhos dela.
Apenas por um instante, pois no segundo seguinte, ela já havia mergulhado no mar e sumido dentro das águas, que pareciam negras na escuridão da noite.
Ele ficou ali, parado, sem saber o que fazer, até que adormeceu. Quando se acordou o sol já estava alto no céu e ele ficou sem saber se tudo havia sido apenas um sonho. Passou o dia todo pensando em sua Princesa das Águas, que era como ele havia resolvido chamá-la.
Quando a noite chegou, ele mal se continha de felicidade e esperança. Foi logo para a praia e ficou esperando que ela aparecesse novamente. Mas ela não apareceu. Nem naquela noite, nem na próxima, ou na outra... Já fazia quase um mês que ele ia à praia todas as noites à espera de sua Princesa sem nunca encontrá-la, entretanto...
Ele já estava se perdendo em sua desilusão, e deixou suas lágrimas se fundirem à imensidão do mar azul. Neste momento ele sentiu a presença dela ao seu lado. Olhou e percebeu que não havia se enganado. Sua Princesa havia voltado. Tão linda quanto antes, porém agora sem o temor em seus olhos. Ele tocou sua face numa carícia suave, sentindo a frieza da pele dela. Pode então ver o brilho de satisfação nos olhos rubros da Princesa. Então ele aproximou sua boca da dela e a beijou. Tinha um sabor salgado, como água de mar. Eles passaram a noite toda entre carícias, beijos e olhares ternos.
Às vezes ele interrompia seus beijos apenas para pedir:
- Cante para mim...
Mas nesses momentos ela desviava o olhar para baixo, como quem tenta desviar os pensamentos de uma mágoa sincera. Então ele a beijava novamente e o brilho reaparecia nos olhos dela. Em seus beijos eles podiam sentir a beleza de um amor puro. Podiam sentir o quanto um estava entregue ao outro.
Depois desta noite, eles se viam sempre. Entre o pôr-do-sol e o amanhecer, eles ficavam sempre juntos, a cada noite mais apaixonados... E ele sempre pedia:
- Cante para mim, por favor, cante para mim...
Mas ela nunca aceitava o pedido humilde do homem. Até que um dia ela disse:
- Eu irei cantar, mas esta será a primeira e última vez que cantarei para você.
O homem ficou encantado. Mesmo que apenas falando, a voz de sua Princesa era linda. Suave e melodiosa, tal qual harpa celeste...
Então ela cantou. Apenas uma canção. A mais linda que ele já ouvira. Era suave, porém melancólica, e ele não pode deixar de entristecer com a canção.
Quando ela terminou de cantar, já estava amanhecendo. Ela lhe deu um último beijo, mais demorado e profundo, e se foi.
Nas noites seguintes ela não pareceu mais. Mas ele ia todas as noites esperá-la nas pedras. Algumas semanas se passaram. Ele passava todas as noites derramando suas lágrimas no mar, até que em outra noite de lua cheia, como na noite em que se conheceram, cansado de tanto chorar, ele subiu até o cume do penhasco e de lá se atirou, mergulhando logo na água fria.
Sentiu mil lâminas cruéis penetrarem seu corpo com a temperatura da água. O inverno já havia chegado. Sentiu também uma pancada forte na cabeça e perdeu a consciência por alguns instantes. Havia batido em uma pedra que ficava sob a superfície da água.
Quando abriu os olhos, ainda sob a água, ele a viu. Estava diferente. Era ainda mais linda submersa. Sua pele tornava-se lisa e os olhos, antes rubros, agora estavam dourados. Seus cabelos ondulavam para trás conforme ela se aproximava, e ele viu seus seios enrijecidos e belos, antes cobertos pelos negros cabelos. Como ela era linda.
Ela o tomou nos braços levando-o para a superfície e o deitou nas pedras. Em seus olhos, já vermelhos, havia uma tristeza profunda. Chorando ele lhe perguntou:
- Por quê? Por que me deixastes?
- Porque eu sabia que tu implorarias novamente para ouvir minha voz, mas eu não podia... Nós somos seres malditos. Nossa voz tira aos poucos a vitalidade dos humanos e eu não queria te matar...
- O pior veneno, é aquele que mata aos poucos, de prazer... Ele disse pesarosamente.
- Mas porque sois amaldiçoados?
- Dizem que há muitas eras havia uma de nós que amava muito um semelhante, porém, não era correspondida. Ela cuidava dele, fazendo de tudo pela felicidade dele, o colocando acima de suas próprias necessidades. Porém um dia ela descobriu que ele amava uma humana e então ela amaldiçoou toda a nossa espécie, dizendo que o humano que ouvisse nossa voz, seria imediatamente hipnotizado e morreria aos poucos, tendo toda sua vitalidade esvaída ao ouvir nossa melodia...
Quando terminou de contar a história, lágrimas negras escorriam dos olhos-de-sangue da Princesa. Ela tocou a cabeça dele, onde ele havia batido na pedra. O sangue escorria sem que ela pudesse estancar. Em breve ele morreria...
- Eu te amo. Por favor, não me deixe. Ela disse. – Eu prometo que virei todas as noites. Apenas não cantarei nem falarei contigo, mas você poderá me ter em seus braços sempre que desejar.
- Eu também te amo, e apenas quero que saiba que não me importaria de morrer para poder ouvir tua voz. A morte seria um até mesmo um preço injusto diante da dádiva de poder te ouvir. Agora eu irei morrer, estou sangrando. Tudo o que quero é morrer ouvindo sua voz.
E ela cantou. A melodia mais triste que conhecia. Os olhos dele estavam vidrados, mas em sua boca se formou um sorriso sincero. Ela cantava, derramando suas lágrimas negras que se misturavam ao sangue dele, até que ele parou de respirar, mas ela continuou cantando até que o sol chegasse e queimasse seu corpo dolorosa e lentamente...
Dizem que até hoje, em noite de lua cheia, pode-se ouvir a melancólica melodia da Princesa das Águas...
Notas finais
Há nos seus ademanes curvilíneos,
A doce languidez da vaga esquiva.
Seus olhos são dois fúlgidos escrínios
De gemas com que o afeto nos cativa.
Flor das espumas, dos corais sangüíneos,
Nenhum tem de seus lábios a cor viva.
Quanto aos cabelos, meu amor define-os:
"Fios de ébano em onda fugitiva".
Não sou homem do mar, contudo afago
Na alma um doido capricho, um sonho vago,
Um vago sonho singular talvez:
É de um dia, na praia, surpreendê-la,
E unir minha sorte à sorte dela,
Sobre o dorso espumante das marés.
Antônio Augusto de Lima (1860-1934)
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