Princesa da Solidão
1 Meus Pêsames
O clima estava irritantemente ameno, e ninguém poderia dizer que os céus choravam por ela, ou que o sol representava seu brilho. Mais parecia que a imensidão azul não havia reparado sua morte.
É errado que histórias comecem com tragédias? Ou mesmo pelo final?
Está ocorrendo um enterro, ou se diz velório? Não sei a diferença, e o caixão estava fechado. Ninguém se inclinava sobre ele, e não se fazia nenhum barulho — nem mesmo ruídos de choro.
Minha garganta doía e não aguentava mais ficar ali, saí sem que ninguém perguntasse quem eu era ou por que estava no local. Sou só um observador me despedindo.
Me pergunto se alguém lembra de como era o seu rosto pra me dizer, mas desconfio que essas poucas pessoas nunca olharam de verdade pra ela. Me pergunto também se haveria essa quantidade de pessoas se a morte não tivesse saído no jornal.
Sou só um observador, mas o único capaz de sentir sua perda de verdade. Não é mentira! Seus pais? Eles choram por que perderam uma filha jovem de forma horrível.
Posso encher essa folha com mil outras explicações e você não entenderia, não antes de saber da história.
Primeira coisa que devo esclarecer é que a conheci pela internet, através de um fórum de videogames, anos atrás.
Tivemos conversas meramente intelectuais e nerds, ao passo que só descobri que ela era uma garota através de dicas muito sutis, como quando me agradeceu usando “obrigada”. Eu estudava matemática na faculdade e ela era do nono ano na época, ajudava ela na matéria, ela se saia bem nas provas.
Era estranho como uma garotinha poderia ter ideias tão maduras. Bom, como eu não sabia seu nome, vez ou outra perguntava. Ela era muito cautelosa, e eu,um livro aberto. A última vez que perguntei seu nome ela simplesmente respondeu:
“quando eu confiar em você, te conto”
“Então, do que eu posso te chamar?”
“você pode me dar um apelido. Nunca tive nenhum.”
Pensei por um bom tempo em um apelido que significasse algo, mas não encontrei nenhum, por isso peguei o nome de uma personagem antiga minha emprestado.
“Celri” eu escrevi no chat, do nada.
“O que?” Ela respondeu
“Seu apelido será Celri. Eu sou das exatas, nada filosófico ou coisa assim. Foi apenas um nome que tirei da minha cabeça e criei um significado próprio”
“Eu gostei! Qual é o significado que você deu?”
“Princesa da solidão”
Por algum tempo ela ficou escrevendo algo, mas por fim apagou tudo o que iria dizer e mudou de assunto. Eu sabia que não adiantava insistir nessas situações. Naquele dia, ela pediu que eu ficasse online por mais tempo. Era sexta-feira então conversamos até que caí no sono, sem perceber. Depois disso ela me mandou cinco mensagens, as ultimas em muito tempo.
“Oi, está aí?”
“Dormiu?”
“Boa noite”
“Se cuide”
“Adeus…”
Por um bom tempo tentei encontrá-la, mas era impossível. Tinha excluído todas as contas de sites que eu tinha dela. O tempo passou até aquilo não me incomodar mais, porém nunca deixei de pensar o que eu teria feito para afastá-la. Me formei em matemática e virei professor da escola em que estudava, passara-se um ano e meio desde então, até que recebi uma surpresa em forma de pedido de amizade no facebook.
Uma pessoa completamente fake com fotos de animes e nenhum amigo. Mas seu nome é que era surpreendente: Celri (Princess of Solitude)
Sim, era ela. Tinha mudado muito, se tornado rebelde e descuidada. Ainda sim não me disse seu nome nem nada sobre si própria. Apenas não parecia ligar pra nada.
Como estava mais aberta, falava sobre tudo o que sentia, de como eram os pais e os poucos parentes, de como não precisava de amigos e não tinha nenhum, de como era a escola e a única pessoa que ela gostava: um professor de matemática. Quando ela me confessou ter uma queda por ele, eu tentei tirar essa ideia de sua cabeça, mas nada adiantou. Eu sabia o que professores achavam de alunas apaixonadas. Eu era professor!
“Você não me entende mesmo. Estou te dizendo, ele não me vê como aluna. Para ele sou como uma amiga”
Mesmo com o perigo dele ser um pedófilo aproveitador, ajudei ela a estudar matemática. Embora soubesse que era só para agradar o tal professorzinho, melhor do que ele ter motivo para marcá-la ou ficar sozinho com a menina pra conversar sobre as notas. Muito mais seguro assim.
O tempo foi passando e passando, o aniversário de 15 anos da garota passou em branco e conversamos o dia inteiro depois da aula, sobre como devia ser o baile de uma princesa que não tinha amigos.
“Mas você não pode esquecer que eu sou seu amigo. Estarei aqui sempre que precisar”
“Eu sei. Seria bom se você fizesse parte da minha vida, mas não iria gostar de como sou de verdade”
“Não diga bobagens outra vez. Não importa como você é ou qual é seu nome. Importa o que vivemos juntos todo esse tempo. Gosto de você pelo que conheço da sua personalidade”
Demorou muito pra eu perceber que gostava realmente dela e queria protegê-la . Tirar ela da solidão. Mas a cada dia que passava eu tinha menos coragem de me declarar. Até que chegou o dia. Ainda não tinha começado a aula quando ela enviou uma mensagem.
“Hoje vou convidar meu professor pra ir ao cinema”
“Serio? Acho besteira da sua parte, ele deve ter uma namorada ou ser casado, não vai querer ir no cinema no meio da semana”
“Não, apenas como amigos. Você vai ver, ele vai ficar feliz com o convite.”
Só voltamos a conversar ao sair da aula.
“Ele aceitou?”
“Não sei, aceitou?”
“Ora mocinha, como vou saber? O professor, ou amigo como insiste em dizer, é seu!”
“Realmente, você tem razão. Claro que ele aceitou, vamos hoje mesmo assistir um filme. Tenho que me arrumar, até mais”
“Espere, Celri!”
Mas ela já tinha saído. Pensei em tudo o que eu poderia fazer, mas tudo se resumia a nada. Era impossível fazê-la mudar de ideia.
Depois de algumas horas ela voltou a me chamar “O filme vai começar, mas enquanto ele não chega vamos conversar um pouco. O que está fazendo?”
“Preparando minha janta e a do meu gato”
“Ops, tenho que ir, o professor chegou. Tchauzinho”
Impotente e desanimado, apenas teclei um “se cuide” que ela só visualizou depois.
“O filme foi maravilhoso. Vou ir agora pra casa do professor, ele me chamou pra comer algo, depois vai me levar em casa”
“Não podem comer no Shopping???” Perguntei, aflito “não vá Celri”
“Poxa, não seja dramático. Não é nada demais. Por favor, fique acordado, tá?”
“Ok, me envie uma mensagem quando chegar em casa”
E eu esperei. Esperei e esperei, mas ela não voltou. Eu imaginei tanta coisa, mas com certeza o celular só tinha acabado a bateria.
Só consegui dormir por que estava realmente esgotado. Mas no dia seguinte, não importava quantas mensagens eu mandava, não recebi uma resposta.
Enfim, pelo celular de Celri, a polícia me informou que “Amanda” havia falecido e o celular foi encontrado junto com ela. Pediram meu número e conversamos por telefone, eu e um delegado bem próximo de onde moro. É claro que não foi fácil acreditar. Depois da aula acabei indo para a delegacia e recebi o que eles chamavam de explicação.
“Ela foi encontrada já sem vida em um beco perto do shopping. Levou dois tiros a queima roupa, foi uma tentativa de assalto e ela pode ter resistido… O celular estava dentro da bota.”
Amaldiçoei com todas as forças aquele maldito professor, que deixou isso acontecer. Na saída do cemitério vi algumas pessoas carregando flores, era um lindo dia pra deixar flores em um túmulo.
Bom, ainda sou um observador me despedindo. Obrigo-me a voltar pra casa e fico lendo nossas conversas o resto do dia. Tento me convencer de que se eu disser algo, ela não vai me responder. Era mil vezes pior que o dia quando ela se afastou de mim. Agora eu sei que ela não vai voltar.
Não percebi nem quando caí no sono, mas o despertador me acorda e tenho que arrumar correndo pra ir pra escola. Não respondo nenhum “bom dia, professor.”
Abro meu armário com um suspiro e um papel cai aos meus pés. Ele é rosa e não podia ser meu, então desdobro impacientemente e o leio.
Que tal ir no cinema hoje ás 8hrs?
Da sua,
Celri
Meus olhos quase pulam das órbitas, minha mente fica leve. Isso só pode ser uma piada.
Olho para os lados, mas não tinha ninguém mais na sala dos professores — a aula havia começado.
Então me lembro que ela é a única que poderia ter feito isso. Mas não consigo digerir o que isso significa.
Ela estuda nessa escola. E gosta do professor de matemática, que por acaso sou eu.
Não, ela estudava. Agora está morta. Quem é minha aluna do primeiro ano chamada Amanda? Era. Agora está morta.
Como não percebi, durante todo esse ano? Corro para o primeiro ano, onde eu deveria estar se não houvesse me atrasado. Quando abro a porta, sinto que algo quente escorre pelas minhas bochechas vagarosamente.
Olho os alunos dispersos se acomodando em seus lugares, e foco o ultimo lugar à extrema esquerda. Era ela.
O pior é que não me lembro direito da garota que se sentava ali. Alguém bate na porta e entra, o diretor carrega um olhar pesado, eu sabia o que ele ia dizer. Saio da sala e me encosto na parede do corredor. Escorrego até chegar no chão, e passo a mão no meu cabelo para jogá-lo pra trás, mas a deixo ali tapando meus olhos.
Amanda. Não foi nem de longe como imaginava a minha Celri. Pensei que a aparência dela fosse motivo de Bullying, mas era normal. Cabelo escuro e ondulado, pele branca, bem pequenina e conseguia quase esconder sua presença. Não dizia nada mas sempre quando a olhava, um leve sorriso estava em seu rosto.
No início do ano eu vim para essa escola e ela voltou a falar comigo. Fazia sentido.
Meus pensamentos se embaralham e volto para casa de metrô.
Eu pensava que eu era só um observador.
Notas finais
Espero que os personagens me perdoem por esse destino.
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